Na entrevista que concederam às jornalistas Andréia Sadi e Natuza Nery, da Globonews, Renan Santos e Romeu Zema defenderam a adoção do caminho de El Salvador. No entanto, quando foram apresentados à lista de horrores praticados por Bukele — prisão sem mandado, ampliação do tempo de prisão sem ordem judicial, redução drástica de habeas corpus, dificuldade de acesso a advogados, julgamento coletivo de centenas de réus, prisões baseadas em denúncia anônima — eles disseram não concordar. Ou seja, defendem o que sequer conhecem. Constrangedor.
O autoritarismo está presente não apenas nas ideias políticas ou nas propostas de segurança. O candidato Renan Santos, o mais jovem deles, foi confrontado com um vídeo do ano passado, em que ele, dentro de um carro em movimento, dizia que é preciso restabelecer a autoridade masculina. “O que a gente tem que fazer, é o que eu acho, é restabelecimento, enquanto poder, de características profundamente masculinas na nossa sociedade”. O interlocutor o interrompe e lembra que dirão que ele é machista. E ele responde “sou, sou, sou, porque certas coisas tem que dar nomes aos bois”. Tudo o que ele pôde dizer, na entrevista, a seu favor, foi que discordava de algumas teses da pessoa com quem falava, “um influenciador masculinista”. E tentou brincar. “O carro é alfa, não de macho alfa, mas Alfa Romeo”. Outro vídeo, não mostrado, de 2017, traz Renan dizendo que estupraria uma mulher se não entrasse em um bar. Ele tentou dar o contexto, disse que era uma brincadeira, como se houvesse contexto que justifique falar em estupro e como se fosse possível fazer piada sobre tal violência.
Ronaldo Caiado disse que retomará todo o território ocupado por facções criminosas usando as Forças Armadas como polícia. Afirmou que criará uma nova polícia com dez países que fazem divisa com o Brasil, financiada por todos esses governos. Os policiais dessa força transnacional poderiam transitar livremente pelas fronteiras. Mais do que ideias controversas na área que ele diz entender bem, a da segurança, o que espanta é a insistência em fugir da pergunta sobre se houve tentativa de golpe em 8 de janeiro.
Flávio Bolsonaro segue os mesmos passos do pai, parece que o golpismo é hereditário. Fez reunião com embaixadores levantando dúvidas sobre a urna eletrônica e o processo eleitoral. Falou na sexta-feira, em São Caetano do Sul, que há “roubalheira na alta cúpula do Judiciário” e que por isso estariam sendo feitas coisas “além da maldade” para impedir sua eleição. Justifica eventual derrota, já inventando uma conspiração contra ele. Os mesmos métodos do pai.
O autoritarismo permanece presente nesta campanha como esteve em 2022. Um atentado aos Três Poderes por milhares de seguidores de Jair Bolsonaro, uma investigação detalhada que mostrou provas da trama golpista que envolveu integrantes das Forças Armadas, o julgamento e a prisão dos golpistas nada ensinaram a certos políticos. Lideranças da direita que se apresentam como não bolsonarista entregam candidatos ao país que repetem o mesmo discurso diversionista, a mesma atitude tóxica que nos levou a quase perder a democracia. Alguns ainda exibem outro lado do autoritarismo, o que quer se impor sobre as mulheres.
Era para o país estar discutindo o futuro, a superação de impasses e obstáculos, os dilemas do ajuste fiscal, a proteção contra a mudança climática, a aceleração da aprendizagem, as receitas para melhorar o SUS, a redução das desigualdades, fórmulas para enfrentar os desafios tecnológicos, mas os homens que se oferecem como alternativa ao presidente Lula alimentam a sombra autoritária que sempre ameaçou a República brasileira. O futuro fica adiado.

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