sábado, 6 de junho de 2026

Patrulha no quintal

A América Latina, “quintal” dos Estados Unidos, nunca esteve tão vigiada. Em apenas 17 meses no poder, Donald Trump impôs acordos bilaterais a 17 países do subcontinente para garantir aliança militar, uso do espaço aéreo, instalação de bases, imunidade para soldados e espiões e troca de informações dos serviços de inteligência. A decisão de declarar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas não foi gesto isolado. Desde o ano passado, o objetivo de Washington é retomar, de qualquer maneira, a influência política, militar e econômica na região, palco da nova disputa com a China.


O argumento do combate ao narcotráfico abre, portanto, a porta para justificar certas ações e militarizar a América Latina integra a Estratégia de Defesa Nacional, publicada no fim de 2025. O que impressiona diplomatas é a velocidade de implementação da ofensiva que vem sendo efetivada. Em março, Trump desviou a atenção do conflito no Irã e anunciou a criação do Escudo das Américas, aliança militar com aliados submissos. O pacto, apelidado de “Otan das Américas” em certos círculos diplomáticos, envolve alguns dos governos mais leais à extrema-direita latino-americana.

Durante uma audiência discreta e sem alarde em um subcomitê do Congresso norte-americano, ainda em 17 de março, o vice-secretário do Departamento de Guerra, Joseph Humire, dimensionou o avanço. “Desde novembro de 2025”, elencou, “o Departamento de Guerra obteve compromissos bilaterais da Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, ­Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru e ­Trinidad e ­Tobago, expressando nossa intenção compartilhada de cooperar em relação à segurança de fronteiras, ao combate ao narcoterrorismo e à proteção de infraestruturas e ativos críticos contra o controle maligno.” Mais: “O Departamento de Guerra está empenhado em engajar-se ativamente com esses e outros parceiros regionais para identificar oportunidades de expandir nosso acesso, bases e sobrevoos”.

Os acordos ampliam e traduzem essa estratégia em ações concretas. O governo de Honduras seria o próximo. Depois de ter vencido a eleição com apoio de Trump, o presidente Tito Asfura anunciou a permissão para a atuação de forças militares dos EUA no país. Em uma reunião com Humire, em maio, Asfura iniciou as discussões de um plano bilateral de combate ao crime transnacional cometido em território hondurenho. Ele não nega a intenção de submeter os interesses nacionais à estratégia de segurança de Trump. Para tanto, acelerou a aprovação no Congresso de uma lei que declara integrantes de cartéis de drogas como “terroristas”. O projeto, não por acaso, foi elogiado por Washington.

O governo Trump ainda conseguiu convencer a Guatemala a permitir ações “conjuntas” das forças armadas dos dois países em território centro-americano. Mais uma vez, o argumento é de combate ao narcotráfico. Segundo o jornal The New York Times, o presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, concordou com ataques aéreos e outras ações militares em uma ligação telefônica com o secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, em 19 de maio. As operações podem começar no próximo mês. “A Guatemala solicitou formalmente “cooperação em operações lideradas pelas forças de segurança guatemaltecas contra organizações de narcotráfico” em uma carta a Hegseth, destacou o gabinete do presidente em um comunicado. Confirmados os ataques, o país­ se tornaria o segundo da região a permitir ações militares conjuntas contra grupos criminosos em suas fronteiras. No começo do ano, o Equador fechou um acordo similar e os primeiros atos supostamente “conjuntos” foram realizados.

O foco na Guatemala e em Honduras não se dá por acaso. Segundo o Times, o objetivo é pressionar o México a concordar com operações conjuntas de combate ao narcotráfico. Por enquanto, a proposta é rejeitada pela presidente mexicana, Claudia Sheinbaum.

Mais ao Sul, outra prioridade é uma aproximação militar com o Chile, governado pela extrema-direita herdeira de Augusto Pinochet. Há poucas semanas, Santiago e Washington assinaram dois acordos estratégicos. Um deles permitia que os EUA “cooperassem” na exploração de minerais críticos. O segundo ia além e abria as portas para um pacto de segurança. “Assinamos dois instrumentos que, embora diferentes em seus temas, expressam a mesma convicção, a de que a cooperação bilateral profunda, fundada em valores compartilhados e benefícios mútuos, é o caminho para enfrentar os desafios do século XXI”, anunciou o ministro das Relações Exteriores, Francisco Pérez Mackenna. Segundo ele, trata-se de “um passo substancial no relacionamento entre o Chile e os EUA”. O evento contou com a presença do subsecretário de Estado norte-americano para Controle de Armas e Segurança Internacional, Thomas DiNanno, numa demonstração da importância do acordo.

Na prática, o novo pacto de segurança altera o Acordo sobre Controle de Narcóticos e Aplicação da Lei entre os dois países. Oficialmente, fortalece a capacidade do Estado chileno de combater o crime organizado transnacional. Mas permite, de fato, que dinheiro do Departamento de Estado chegue ao país, com a contrapartida de que a decisão sobre o uso dos recursos fique sob controle de ­Washington. Ou seja, estabelece-se a total ingerência norte-americana.

O mapa inclui um acordo assinado e ratificado com o Paraguai que transforma o vizinho brasileiro em uma extensão dos EUA. Uma base pode ser estabelecida nas proximidades de Assunção e os militares norte-americanos estão livres de responder às leis paraguaias. Com a Argentina, um acordo foi anunciado no mês passado, abrindo caminho para um “patrulhamento” do Atlântico Sul e a declaração do oceano que também banha o Brasil como um “bem comum global”. O acerto com o governo de Javier Milei foi duramente denunciado pela oposição, que alertou que o mar territorial da Argentina não é um “bem comum global”. Para a ala progressista, o Estado argentino tem a obrigação de exercer a jurisdição sobre o local e a “custódia dos recursos naturais”.

Enquanto diplomatas da região e mesmo de fora tentam decifrar os próximos passos, o depoimento quase reservado de Humire, em março, serve de guia. Fica claro que os cartéis são apenas uma desculpa para conter a presença de potências estrangeiras adversárias. “O presidente Trump promoveu uma mudança monumental na política externa e na segurança nacional dos EUA. Além da atividade dos cartéis, a iniciativa reflete a crescente preocupação com a influência da China, da Rússia e do Irã na região”, afirmou Humire. “A expansão dos investimentos chineses em infraestrutura com potencial de uso duplo, as redes ligadas ao Irã, associadas a financiamento ilícito e atividades por procuração, e as campanhas de desinformação russas são ameaças importantes à estabilidade regional.”

Uma operação, portanto, foi criada por Trump para desmontar essa suposta influência. “Para combater esses esforços, o Pentágono aumentou a cooperação em inteligência com governos aliados, expandiu as iniciativas conjuntas de segurança cibernética e apoiou os esforços para proteger a infraestrutura crítica do controle ou da exploração estrangeira”, adiantou. “Os compromissos militares também foram ampliados para reforçar o alinhamento com as prioridades estratégicas dos EUA.” Um dos exemplos dados por Humire foi o Panamá, que logo nas primeiras semanas do governo Trump tornou-se alvo de um processo intenso de chantagem e pressão. “Desde que o secretário Hegseth e o secretário Rubio foram ao Panamá no ano passado, a influência da China no país diminuiu significativamente. Eles perderam o acesso aos portos e não estão mais avançando com seus investimentos.”

A operação que sequestrou Nicolás Maduro na Venezuela, em 3 de janeiro, foi além de uma manobra para levar um suspeito aos tribunais por conta de seu suposto papel no tráfico de drogas. “O sucesso da operação teve múltiplos efeitos recíprocos na região, incluindo conversas de alto nível dos EUA com Cuba, a obtenção de conformidade da Nicarágua e a mudança do Caribe em uma direção favorável aos interesses dos EUA”, explicou o vice-secretário. Humire conclui: controlar a América Latina é parte central da estratégia de defesa dos EUA. “Do Ártico ao extremo-sul das Américas, a defesa da pátria dos EUA e a segurança do Hemisfério Ocidental são uma só. Em todos os domínios, o Departamento de Guerra está pronto para garantir a defesa de nossa nação, operando com base no princípio da paz por meio da força. Nossas ações demonstram uma clara determinação em proteger os interesses americanos e fazer cumprir a aplicação moderna do ‘Corolário Trump’ da Estratégia de Segurança Nacional à Doutrina Monroe.”

A guerra contra as drogas nunca foi contra as drogas. E, uma vez mais, a região constata a instrumentalização do tema para garantir uma hegemonia dos EUA na América Latina. Se necessário, à força.

Bolsonaros são soldados do trumpismo

A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.


É preciso compreender essas três dimensões da relação entre o bolsonarismo e o trumpismo. Boa parte da cobertura jornalística deu a impressão de que Flávio e Eduardo Bolsonaro mudaram a cabeça de Washington. Sem dúvida que eles pressionaram e tentaram gerar um timing adequado para a designação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas. Mas eles não comandam o pacote completo da política trumpista para a América Latina. Em vez disso, adaptam-se erraticamente ao projeto de Trump para a região, já que Flávio Bolsonaro foi escolhido como candidato oficial do governo americano à Presidência do Brasil.

A maior prova disso é que, embora soubessem que Trump ainda preparava mais maldades ao Brasil, Eduardo e Flávio não tinham total consciência do projeto de retaliação comercial, que envolveu diretamente o ataque ao extremamente popular Pix e a setores econômicos nacionais que apoiaram o bolsonarismo recentemente, mas que agora poderão perder riqueza graças à aliança entre a família Bolsonaro e o governo americano.

Por isso, após comemorar a definição de terrorismo para o crime organizado brasileiro, Flávio Bolsonaro ficou atônito e teme um efeito político similar ao do tarifaço do ano passado. Ele e seu irmão são cúmplices nessa tramoia, porém, em grande medida ocupam esse papel porque aceitaram ser liderados de forma subserviente pelo governo americano, que quer definir os rumos do Brasil. Neste sentido, são traidores da pátria que esperam ter benefícios políticos diretos tornando-se marionetes do trumpismo.

Ainda é cedo para dizer quais serão todos os efeitos dessa aliança de subordinação. Só que se houver de fato consequências econômicas do novo tarifaço, ainda mais com pressão para acabar com o Pix, Flávio perderá uma parte dos eleitores de direita, mas não numa parcela tão grande que permita a ascensão de Caiado e Zema, pois estes se contentam em ficar como linhas de apoio envergonhado ao bolsonarismo. O problema maior é outra conta: nunca mais recuperarão a maior parcela dos votos dos independentes, favorecendo claramente a candidatura de Lula.

Flávio chegaria, assim, ao segundo turno com poucas chances de vitória, a não ser que haja intervenção maior do governo americano na política brasileira. Essa última hipótese parece absurda, mas ela passa pela cabeça dos irmãos, sobretudo Eduardo, que é o grande ideólogo da família e que pretende recuperar em algum momento a cidadania brasileira, mesmo que a vida americana tenha tido um financiamento invejável para um fugitivo político.

Uma pergunta se impõe aqui: por que Flávio Bolsonaro trocou um plano que estava dando certo por outro tão incerto e que lhe imprime uma visão sórdida de traidor da pátria? Afinal, o projeto do Bolsonaro moderado, que tomava vacina e não falava palavrões, tinha fortalecido sua candidatura. Desde que fora lançado e adotou esse figurino, o Zero Um crescera nas pesquisas, tanto no primeiro como no segundo turno. Eleitores da direita não bolsonarista migraram nas pesquisas em peso para ele, que também estava abocanhando grande parte dos independentes, inclusive muitos que tinham votado em Lula em 2022. Parecia que ele conseguiria realizar a revanche do pai.

O estouro do escândalo de suas relações promíscuas com Daniel Vorcaro parece ser o fato principal. E muitas revelações ainda podem surgir dessa história envolvendo o enrolado caso de financiamento do filme “Dark Horse”, inclusive um “videozinho”, como o próprio Flávio já profetizou. O flanco da corrupção não para por aí, porque cada vez mais será conhecido o funcionamento da cleptocracia montada pelos bolsonaristas no governo do Rio, e esse lamaçal tem grandes chances de alcançar a família Bolsonaro.

Falcatruas e relações não republicanas com o mundo da política e do crime já eram conhecidas por muitos que acompanham as peripécias da família Bolsonaro desde a década de 1990. Mas o mais visado entre eles era justamente Flávio, conhecido pela rachadinha e pela contratação ou condecoração de milicianos, fatos de sua época como deputado estadual da Alerj. Mesmo assim, a aposta no bolsonarismo moderado estava ganhando tração eleitoral. Decerto que o tamanho do escândalo envolvendo sua irmandade com Vorcaro pegou muita gente de surpresa, especialmente os eleitores independentes que começavam a acreditar no novo Flávio.

Sem querer tirar o peso dos escândalos na mudança de estratégia da família Bolsonaro, talvez fosse impossível manter até o final da eleição o perfil pretensamente moderado porque isso não corresponde ao âmago do bolsonarismo. Em algum momento isso viria à tona, mesmo que de forma menos desastrosa, desde que as conversas íntimas com Vorcaro apareceram na mídia. É preciso voltar às três dimensões enunciadas no primeiro parágrafo: a nacional, a internacional e a da geopolítica trumpista para a América Latina.

No plano nacional, o bolsonarismo é marcado por ser a face da extrema direita local, defensora da ditadura militar e de seus torturadores, da tentativa de golpe de Estado, do uso de um discurso agressivo para destruir inimigos e ex-amigos pelas redes sociais, e dos motes que lhe davam maior popularidade: Deus, pátria, família e liberdade. O patriotismo das manifestações de rua, todos com camisas da seleção, era o espetáculo principal de sua ideologia. Fechando o enredo estava Jair Bolsonaro, um líder popular que odiava as instituições democráticas.

Parte desse roteiro se perdeu no meio do caminho, principalmente com o fracasso do 8 de janeiro e pelo julgamento e posterior prisão de Jair. Sobraram os filhos para sucedê-lo, mas Eduardo foi para os EUA para tentar dar um golpe de fora para dentro, ao passo que Flávio teria o papel de segurar o leme na política interna, tornando-se, ao final, o herdeiro da dinastia com a candidatura presidencial. Há a figura ascendente de Michele, mas ela não chefiará o clã enquanto o marido estiver vivo.

Toda essa história política e familiar dos Bolsonaros não se esgota nas suas relações com o Brasil. E aqui entra a segunda dimensão que sempre esteve presente: o bolsonarismo faz parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita, que atua em várias partes do mundo, principalmente nas Américas e na Europa. Um grupo político de combate à democracia e de defesa de um reacionarismo enorme frente a temas como imigração, família, religião e contra discursos progressistas de minorias, como as mulheres e os negros.

A Internacional da Extrema Direita teve como grande baluarte Steve Bannon, um dos principais inspiradores da visão política de Trump. Continua forte na Europa, com desempenhos impressionantes como recentemente nas eleições locais no Reino Unido, mas tem tido dificuldades por conta das mudanças geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e os conflitos cada vez maiores com os EUA. Daí que hoje o principal impulso a esse movimento vem da política trumpista, particularmente no âmbito da América Latina. Essa é a terceira dimensão que afeta o bolsonarismo profundo e constitui o farol da família Bolsonaro.

O segundo governo Trump é mais do que uma forma política de extrema direita. É expansionista, beligerante e intervencionista. Para a América Latina, o modelo geopolítico é a tentativa de reavivar a Doutrina Monroe - a América para os (norte-)americanos. O Brasil e o México são os maiores obstáculos a esse projeto, seja pela força política e econômica de ambos, seja em razão de suas lideranças presidenciais, que não abaixaram a cabeça e nem querem entregar o país como deseja a família Bolsonaro.

Os Bolsonaros sustentam suas ideias e projeto de poder não só no território nacional. Eles têm seus alicerces principais fora do Brasil, seja na Internacional da Extrema Direita, seja cada vez mais na sua ligação subserviente com o governo Trump. A família Bolsonaro é soldada do trumpismo, e fará tudo para agradá-lo, a fim de ter o apoio do governo americano, das mais diferentes formas, para a eleição presidencial brasileira.

Flávio Bolsonaro foi chamado inicialmente de preposto do pai. Mas hoje se percebe, depois do tour em Washington pago com dinheiro público brasileiro e das decisões do governo Trump contra o Brasil, que no momento é Eduardo Bolsonaro o verdadeiro chefe da estratégia política do clã bolsonarista. Acabou-se o bolsonarismo moderado e restou a extrema direita pura comandada pelo trumpismo.

As fronteiras começam na nossa cabeça e é aí que as temos de cancelar

Não é, com certeza, por acaso, que Vila Nova de Cerveira acolhe em 2026 a XXIV Bienal Internacional de Arte sob o mote “Territórios sem Fronteira”. Cai mesmo no momento certo, numa altura em que no mundo há quem tudo faça para erguer mais muros.

Ao homenagear Silvestre Pestana, um artista madeirense, poeta, performer e pioneiro da videoarte em Portugal, que faz da transgressão de fronteiras políticas, tecnológicas, disciplinares e geográficas, a matéria da sua arte, a Bienal desafia-nos a olhar para a fronteira de outra forma.


Não como um risco qualquer num mapa, mas como um lugar onde entram em disputa a memória e a identidade. Onde se cruzam o conflito, o reconhecimento, o que nos é familiar e o que nos assusta por ser desconhecido. Obriga-nos a perguntar: que formato terão os nossos mapas quando deixarmos de aceitar que a humanidade se possa dividir em parcelas, como num atlas?

Ao ler sobre a Bienal, lembrei-me que nos meus tempos de criança, eu achava que as fronteiras eram linhas grossas desenhadas nos mapas da escola, daquelas traçadas com régua que separam o mundo por cores.

Não percebia por que razão não podíamos simplesmente passar de um lado para o outro. Afinal, dos dois lados havia pessoas que riam e choravam, miúdos com os mesmos medos e a mesmíssima vontade de brincar.

Mais tarde, caí na realidade e percebi que aquelas linhas tinham muita história. Eram decisões frias, tomadas em gabinetes muito longe de quem realmente trabalhava a terra e das vozes que nela entoavam os seus cantares. Percebi que havia gente a ser arrancada de casa, não por querer ir embora, mas porque alguém, algures, decretou que ali já não era o seu lugar. Fui aprendendo que as fronteiras se desenham com tinta ou com arame farpado, mas também se constroem com o medo, com burocracia e com uma dose enorme de silêncio e neutralidade.

Com o tempo, a coisa tornou-se ainda mais clara: há fronteiras que nem sequer cabem num mapa. São aquelas que se levantam contra quem vem de fora, as que tratam os corpos dos migrantes como um problema estatístico, e não como pessoas à procura de um lugar e uma oportunidade para viver.

E há ainda outras, quase invisíveis, que nos tentam encurralar o pensamento.

Hoje em dia, dou por mim a reparar em como a própria tecnologia e a Inteligência Artificial começam, de mansinho, a decidir por nós. Escolhem o que vemos, o que lemos, o que pensamos. Às vezes, dão a ilusão de que a criatividade humana se tornou dispensável.

Se calhar, esta é que é a fronteira mais perigosa de todas: aquela que se instala sem darmos por isso.

Se calhar, crescer enquanto indivíduos e enquanto sociedade é precisamente isto: aprender a ver onde estão os muros e recusar o hábito de viver com eles.

As fronteiras nunca foram uma inevitabilidade. São escolhas. São construções. São histórias que nos contam vezes sem conta até acharmos que sempre funcionou assim.

Há quem as defina e há quem se mude para as atravessar. Há quem as aceite e há quem desconfie delas.

E depois há quem teime simplesmente em imaginar o que existirá quando as linhas deixarem de ser mais fortes do que as pessoas que tentam separar.

É um sonho antigo, que passa de geração em geração. Talvez o meu seja o de deixar aos meus netos, e aos netos de todos nós, um mundo onde o mapa não mande mais do que a vida. Exatamente como John Lennon imaginou e cantou: um lugar sem barreiras perante a dignidade humana.

Para onde o homem caminha

Acho que Noah Harari é hoje, se não o mais importante, um dos mais significativos pensadores da atualidade. Em seu livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, Noah diz que o homem é um “acidente biológico”, e que deve desaparecer, devido a sua irracionalidade, possivelmente em “um século ou mais”, dado os problemas e riscos que gera para si mesmo.

Nós nos auto denominamos como “Homo Sapiens”, em contraposição à todos os seres vivos do planeta.

Lutamos contra os “Neandertais”. O “Homem de Neandertal” era alto, forte, olhos verdes, e acordava cedo. O “Homo Sapiens” era mais baixo, mais fraco, olhos castanhos e negros, e acordava mais tarde. Um pouco preguiçoso. O “primeiro inglês”, há 10.000 anos atrás, como na mostra do Museu de História Natural de Londres, tinha pele negra, começando a clarear, cabelos enrolados, olhos azulados, na transformação do negro para o branco pela despigmentação da pele por mudanças alimentares da carne para o peixe e menor incidência do sol. Desbotou-se.


Miscigenamos com os “Neandertais” há 50 mil anos atrás, e os eliminamos 2 mil anos depois. Éramos mais inteligentes e mais ágeis, nossas lanças eram mais leves e perfurantes. Nossa primeira guerra territorial e geopolítica de proporções. Tomamos o planeta para nós.

Segundo o livro “What every person should know about war”, de Chris Hedges, dos últimos 3.400 anos da história tivemos somente 268 anos de paz, 8% do tempo total dos tempos da eterna guerra.

Por sinal, a ideia de racionalidade e progresso surge com Francis Bacon na Inglaterra na virada do século XVI e se acentua durante a Revolução Industrial, conforme descrito nos artigos de Paulo Paiva. O Iluminismo Francês pressupõe uma racionalidade que não temos, e coloca-nos em situação de amargo diante do infortúnio das limitações ecológicas com as quais nos deparamos, inexoravelmente, rumo à nossa autodestruição.

Somos um belo planeta, com terra, água e ar, estes dois últimos cada vez mais rarefeitos. A ecologia não é uma preocupação para o homem, posto que o lucro imediato supera a expectativa do encurtamento futuro da sobrevivência dos nossos descendentes, ou decadentes.

O “Relógio do Juízo Final”, ou o “Doomsday Clock”, originalmente criado em 1947 por Cientistas da Universidade de Chicago que participaram do Projeto Manhattan, aponta hoje que estamos a 85 segundos da “Meia Noite”, a marca mais próxima até hoje do marco hipotético para a destruição do mundo, devido às armas nucleares e crise climática, nesta ordem. O desespero puxa o gatilho.

Talvez fiquemos no futuro como os hominídeos do filme “A Máquina do Tempo”, de 1960, de George Pal baseado no livro de H.G. Wells, onde o homem fica reduzido a um estado monstruoso ou letárgico, como bem caracterizado no filme.

Chamar de “Sapiens” o devaneio atual é atribuir a ideia de “racionalidade” àquilo que não se tem. “O homem é o lobo do homem”, nas palavras de Hobbes, no rumo da auto destruição, onde o homem mata o homem, e cria as próprias condições que finalmente o eliminem

Só nos resta, para aqueles que conseguem ainda rir, somente cantar.

Como na música de Gilberto Gil,

“Poetas, seresteiros, namorados, correi,
É chegada a hora de escrever e cantar,
Talvez as derradeiras noites de luar”