sábado, 6 de junho de 2026

As fronteiras começam na nossa cabeça e é aí que as temos de cancelar

Não é, com certeza, por acaso, que Vila Nova de Cerveira acolhe em 2026 a XXIV Bienal Internacional de Arte sob o mote “Territórios sem Fronteira”. Cai mesmo no momento certo, numa altura em que no mundo há quem tudo faça para erguer mais muros.

Ao homenagear Silvestre Pestana, um artista madeirense, poeta, performer e pioneiro da videoarte em Portugal, que faz da transgressão de fronteiras políticas, tecnológicas, disciplinares e geográficas, a matéria da sua arte, a Bienal desafia-nos a olhar para a fronteira de outra forma.


Não como um risco qualquer num mapa, mas como um lugar onde entram em disputa a memória e a identidade. Onde se cruzam o conflito, o reconhecimento, o que nos é familiar e o que nos assusta por ser desconhecido. Obriga-nos a perguntar: que formato terão os nossos mapas quando deixarmos de aceitar que a humanidade se possa dividir em parcelas, como num atlas?

Ao ler sobre a Bienal, lembrei-me que nos meus tempos de criança, eu achava que as fronteiras eram linhas grossas desenhadas nos mapas da escola, daquelas traçadas com régua que separam o mundo por cores.

Não percebia por que razão não podíamos simplesmente passar de um lado para o outro. Afinal, dos dois lados havia pessoas que riam e choravam, miúdos com os mesmos medos e a mesmíssima vontade de brincar.

Mais tarde, caí na realidade e percebi que aquelas linhas tinham muita história. Eram decisões frias, tomadas em gabinetes muito longe de quem realmente trabalhava a terra e das vozes que nela entoavam os seus cantares. Percebi que havia gente a ser arrancada de casa, não por querer ir embora, mas porque alguém, algures, decretou que ali já não era o seu lugar. Fui aprendendo que as fronteiras se desenham com tinta ou com arame farpado, mas também se constroem com o medo, com burocracia e com uma dose enorme de silêncio e neutralidade.

Com o tempo, a coisa tornou-se ainda mais clara: há fronteiras que nem sequer cabem num mapa. São aquelas que se levantam contra quem vem de fora, as que tratam os corpos dos migrantes como um problema estatístico, e não como pessoas à procura de um lugar e uma oportunidade para viver.

E há ainda outras, quase invisíveis, que nos tentam encurralar o pensamento.

Hoje em dia, dou por mim a reparar em como a própria tecnologia e a Inteligência Artificial começam, de mansinho, a decidir por nós. Escolhem o que vemos, o que lemos, o que pensamos. Às vezes, dão a ilusão de que a criatividade humana se tornou dispensável.

Se calhar, esta é que é a fronteira mais perigosa de todas: aquela que se instala sem darmos por isso.

Se calhar, crescer enquanto indivíduos e enquanto sociedade é precisamente isto: aprender a ver onde estão os muros e recusar o hábito de viver com eles.

As fronteiras nunca foram uma inevitabilidade. São escolhas. São construções. São histórias que nos contam vezes sem conta até acharmos que sempre funcionou assim.

Há quem as defina e há quem se mude para as atravessar. Há quem as aceite e há quem desconfie delas.

E depois há quem teime simplesmente em imaginar o que existirá quando as linhas deixarem de ser mais fortes do que as pessoas que tentam separar.

É um sonho antigo, que passa de geração em geração. Talvez o meu seja o de deixar aos meus netos, e aos netos de todos nós, um mundo onde o mapa não mande mais do que a vida. Exatamente como John Lennon imaginou e cantou: um lugar sem barreiras perante a dignidade humana.

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