No primeiro momento, a imprensa dos Estados Unidos anunciou que a defesa do adversário estava destruída. Depois, os jornais verificaram que a realidade não era aquela. Em seguida, os jornais foram obrigados a reconhecer que o dispositivo nuclear daquele país está preservado. Trump anunciou o desaparecimento de um império, em referência à Pérsia, ofereceu sucessivos prazos para que o conflito terminasse. E não aconteceu nada. O Estreito de Ormuz continua fechado. O preço do barril de petróleo, que é a única expressão da verdade, persiste muito elevado.
No livro, Phillip Knightley conta a história de magnata da imprensa norte-americana que enviou seu melhor repórter para cobrir a guerra em Cuba, no século 19. O repórter desembarcou e procurou a guerra. Não encontrou nada. Preocupado, entrou em contato com o chefe para informar que não havia nada parecido com conflito naquele país. O chefe respondeu: "Faça seu trabalho, a guerra eu providencio". Esse exemplo é muito elucidativo dos problemas atuais da relação do Brasil com os Estados Unidos. O governo de Washington não gosta de Luiz Inácio Lula da Silva. Não é segredo para ninguém. A turma que está no poder é direita radical, inclusive na sua versão religiosa. Além disso, eles se julgam donos do mundo por decisão divina e porque possuem o mais poderoso exército do planeta.
Não há contencioso entre Brasília e Washington, mas o governo dos Estados Unidos está tentando de todas as formas providenciar a guerra comercial. Usa e abusa de falsidades e meias verdades para alcançar seu objetivo. É importante ressaltar que a América do Sul é área desconhecida nos Estados Unidos. Segundo o americano médio, todos no continente falam espanhol, como os mexicanos, que constituem o retrato do latino naquele país. A noção comum é de um Brasil onde animais selvagens andam soltos nas ruas, fugidos das grandes florestas, mas existem boas praias e mulheres lindas, com biquínis mínimos. Não fazem ideia de que o país está entre as 10 maiores economias do mundo. E tem um Produto Interno Bruto maior que o da Rússia ou do Canadá.
A ignorância é proposital. O Brasil não consta das preocupações imediatas da política externa do grande irmão do Norte. Não foi sempre assim. Quando, na Segunda Guerra Mundial, os nazistas estiveram perto de conquistar o norte da África, o comando militar dos Estados Unidos se apressou em negociar com Getúlio Vargas. Fizeram concessões importantes: construíram os aeroportos das capitais brasileiras do Norte e do Nordeste, a maior base norte-americana fora da Europa em Natal, além de conceder financiamento e tecnologia para a construção da siderúrgica de Volta Redonda. Já no governo JK, os gringos foram contra o plano de metas e a transferência da capital. No governo Geisel, manifestaram seu desagrado com a política externa brasileira que apoiou a independência de Angola e Moçambique. Naquele período, o governo brasileiro rompeu o acordo militar em vigor desde o final da grande guerra.
Donald Trump e sua turma criam obstáculos com objetivo de sobretaxar produtos brasileiros no mercado interno norte-americano. Naturalmente, seus negociadores retiraram da lista produtos que são importantes para eles, como café, suco de laranja, carnes e aviões — os da Embraer fazem sucesso lá. É uma negociação estranha, porque não se fundamenta em nenhum fato. Os Estados Unidos, para espanto de qualquer negociador isento, mantêm confortável superavit na relação comercial com o Brasil.
Na verdade, o pessoal da Casa Branca quer se infiltrar na eleição brasileira para prejudicar Lula e favorecer Flávio Bolsonaro. A diplomacia brasileira, que é experiente, está diante de problema quase insolúvel. Não há controvérsias para serem resolvidas. Existe uma questão política e ideológica. Trump invadiu a Venezuela, sequestrou Nicolás Maduro. Fez a guerra contra o Irã, isolou Cuba, mas terá dificuldades em proceder da mesma maneira contra o Brasil. O país é muito grande para se tornar mais um estado norte-americano. O tempo tende a ficar ruim nas relações entre os dois países até a realização da eleição no Brasil. E, se Lula vencer o pleito, pode piorar, porque Marco Rubio, o cubano ressentido, trabalha para suceder Donald Trump.
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