terça-feira, 29 de setembro de 2026

Eleições: Sonhos frustrados e realizados dividem o Brasil

Em uma análise da vitória recente da extrema direita nas eleições da Alemanha, Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, apontou que a balança comercial favorável e os empregos industriais não foram suficientes para prevenir o ressentimento daqueles que se consideram, em comparação com a média nacional, em desvantagem econômica.

A explicação desse fenômeno foi desenvolvida em um artigo de Laura Carvalho e Guilherme Klein, publicado nesta Ilustríssima, que analisa como bons indicadores da economia brasileira não se convertem em uma avaliação positiva do governo Lula (PT). Os economistas argumentam que a transformação das aspirações dos brasileiros e as novas comparações geradas por esse processo estão no centro da popularidade do presidente.

Analiso, aqui, como a capacidade de aspirar se expandiu dramaticamente entre os brasileiros nas últimas décadas. Essa mudança transformou o país e produziu efeitos não óbvios e contraditórios, cujas consequências políticas ainda não foram plenamente compreendidas, mas certamente vão estar em jogo nestas eleições.


Há quase três décadas, venho documentando os sonhos atrelados ao consumo e ao trabalho dos brasileiros. Desenvolvi o conceito de classes aspiracionais para me referir aos segmentos populares que aprenderam a desejar outros futuros, ampliaram as suas expectativas e, agora, querem —e sentem que merecem— mais.

A ampliação do repertório de aspirações de uma população é um indicador importante do desenvolvimento, porque os sonhos avançam à medida que os horizontes se expandem. Mas isso, sozinho, traz grandes riscos: ao gerar expectativas, pode retroalimentar frustrações e ressentimentos. Consumidores e trabalhadores mais exigentes querem mais e buscam respostas políticas ou para avançar ou para não perder o pouco que conquistaram. Logo, se as aspirações forem atingidas, as políticas de mobilidade social vão bem; senão, a conta chega na forma de radicalização política.

Nestas eleições, o que está em jogo é um Brasil dividido entre os que estão concretizando as suas ambições e os que se ressentem. Isso, no entanto, não significa que a realização das aspirações leve automaticamente à rejeição da extrema direita. A percepção da presença ou da ausência do Estado e do esforço individual nessa trajetória é mais importante que a concretização em si das aspirações.

No Brasil, a expansão da teologia da prosperidade nas igrejas neopentecostais nos anos 1990 e as políticas lulistas dos anos 2000 —ampliação do crédito, inclusão pelo consumo, transferência de renda e ações afirmativas— multiplicaram as aspirações. Na ponte entre os discursos governamental e religioso, o empreendedorismo surgiu como uma promessa de autonomia, prosperidade e ascensão individual.

O padrão se repetiu em outros países do Sul Global, como a Índia e as Filipinas, onde também desenvolvo pesquisas: a economia cresceu nos anos 2000 e milhões de pessoas foram retiradas da pobreza sem um rompimento com o modelo neoliberal.

Pessoas alcançaram alguma mobilidade social e ampliaram a sua capacidade de sonhar, seja conquistando bens, seja vendo pessoas próximas conquistá-los, mas permaneceram presas a novas formas de precarização, como o trabalho plataformizado em aplicativos e redes sociais. Soma-se a isso o incentivo em massa ao empreendedorismo como saída individual para uma crise marcada pela redução das proteções sociais e trabalhistas.

Como resultado, uma contradição insolúvel foi criada: aspirações crescentes, de um lado, e alto endividamento e precariedade econômica e laboral, de outro.

Entre 2009 e 2014, eu e Lucia Scalco pesquisamos o consumo das classes populares de Porto Alegre —a primeira geração que podia comprar objetos cobiçados e rejeitar restos e doações de patroas, por exemplo. O Bolsa Família e as novas possibilidades de crédito facilitavam as compras em lojas.

Sem grandes perspectivas de futuro, essas pessoas apostavam na cidadania por meio do consumo. Acompanhamos muitos casos: um jovem que juntou tudo o que tinha para comprar um tênis Nike à vista no shopping para não ser confundido com bandido; o aprendiz de padeiro que comprou um celular em 12 prestações e foi roubado na parada de ônibus antes mesmo de pagar a primeira; a cuidadora que usou todo o FGTS para realizar o sonho de levar a família ao Outback.

Longe de ser futilidade ou irracionalidade, esses gestos funcionavam como um passaporte para cruzar uma fronteira existencial. As pessoas sonhavam em comprar um produto caro e visível como uma forma de se sentir gente.

Chamamos esse momento de reivindicação do direito a brilhar: o prazer pela aquisição de "coisas boas", o empoderamento individual, a consciência de que a sociedade racista e classista não legitimava aquele consumo e, como resposta, a afronta de andar com a cabeça erguida.

Os rolezinhos de 2014, tão paradigmáticos do direito a brilhar nos anos 2010, marcaram o ponto de virada da primeira geração dos filhos do Bolsa Família, que buscava visibilidade, reivindicava circular em shopping centers e queria comprar por meios formais.

Depois de Junho de 2013 e diante da profunda crise econômica e política que começou em 2014, havia ali o retrato de uma mudança complexa e perturbadora que transformou o Brasil. Não à toa, no estudo "Da Esperança ao Ódio", documentamos, entre 2016 e 2018, como parte desses jovens e dos seus pais, frustrados com a crise econômica, aderiu ao bolsonarismo. O voto expressava uma revolta contra as aspirações frustradas dirigida justamente ao partido que havia aberto essa janela.

Em um livro publicado em 2025, investigamos os sonhos de consumo de brasileiros, chineses, mexicanos e filipinos que saíram da pobreza, mas ainda não chegaram à classe média. Eles viviam em um limbo: tinham alcançado uma vida melhor, mas não conseguiam usufruí-la plenamente por causa de dívidas, da violência urbana e de outras formas de precariedade.

Nossa amostra era composta de pessoas que acessaram políticas de inclusão social e redistribuição de renda —muitos eram profissionais liberais e autônomos. Quando perguntamos a jovens adultos qual era o seu sonho mais ousado, ouvimos respostas como ter uma poupança, alcançar segurança financeira e se alimentar melhor.

No México, muitos queriam reduzir os pedidos de iFood e o consumo de ultraprocessados e incluir orgânicos na dieta. Nesse desejo de comer melhor, também emergiam conflitos familiares, como o caso do personal trainer que saiu da Rocinha para morar em Copacabana, passou a apreciar experiências gastronômicas e já não conseguia lidar com o pai, que "só come frango a passarinho". Esses microconflitos cotidianos evidenciam as grandes rupturas decorrentes da expansão dos horizontes.

Encontramos também o sonho de viajar: para Gramado, Salvador, Paris ou a Disney; para países africanos em busca da própria ancestralidade. Muitos interlocutores, os primeiros da família a andar de avião, já viviam essa jornada. Embora tirassem selfies na janelinha, o prazer não estava na exibição, mas no sentimento arrebatador de ampliar os horizontes.

Outro achado foi encontrar pessoas que ascenderam um pouco ou estavam rompendo com a pobreza e cujo pertencimento já não passava por exibir a sua capacidade de consumo: não ligavam para roupas nem para celulares de marca, e a realização dispensava símbolos de prestígio, riqueza ou branquitude.

Encontramos uma geração de jovens adultos com um estilo de vida mais pé no chão. As políticas públicas, combinadas com o tremendo esforço pessoal, permitiram mudanças sustentáveis entre as gerações. Os sonhos se transformaram em um planejamento de conquistas graduais e realistas. São pessoas que sabem que nada está garantido. Esses grupos não tiveram as suas aspirações castradas, e as suas escolhas políticas rejeitam os extremismos.

Já nos últimos cinco anos, a capacidade de sonhar de certos segmentos populares tem se transformado radicalmente com uma explosão de aspirações mediadas pelas redes sociais, em contraste brutal com a realidade.

Pessoas dizem que vão acumular dezenas de milhões de reais enquanto escondem a parede sem reboco das suas casas, sonham com uma Ferrari, mas não têm dinheiro para pagar uma corrida de moto por aplicativo, passam horas em ônibus e trens e são frequentemente assaltadas ao voltar do emprego e almejam encontrar no trabalho digital uma saída rumo ao conforto e à liberdade.

Esse sonho oferece um alívio: permite imaginar a admiração e o respeito que seriam conquistados com a riqueza. O problema é a dissonância entre esse anseio e as possibilidades concretas de ser realizado.

O sonho digital virou um mercado gigantesco no Brasil. O empreendedorismo online, como Brooke Erin Duffy define, é um trabalho aspiracional: uma promessa de renda e emancipação para quem ainda está longe da mobilidade social. Nos aplicativos e, sobretudo, nas redes sociais, milhões de brasileiros tentam ganhar a vida, obter renda extra ou se tornar influenciadores. Muitos jovens têm deixado a escola nessa ilusão.

Trata-se de um universo mediado por influenciadores e coaches do marketing digital e da prosperidade, cujas credenciais se baseiam em premissas falaciosas, como "se eu consegui, você também consegue" ou "todo o mundo tem as mesmas 24 horas".

Nos últimos três anos, seguimos diariamente 700 influenciadores. Em uma das mentorias, um deles dizia que tinha o código da riqueza de Elon Musk e que os seus mentorados, as 90 mil pessoas do mundo todo que assistiam às suas aulas, seriam parte do novo 1% VIP da humanidade.

Abaixo dos grandes influenciadores, se esconde uma pirâmide de exploração da esperança, alimentada por operários da viralização, como os estudados por Rafael Grohmann, e por aqueles que consomem os seus conteúdos. "O que mais vende são reels que trazem a reza da riqueza", me disse um jovem que sonha em ficar rico na internet.

Nossos levantamentos mostram que 90% dos influenciadores desse ecossistema se alinham à extrema direita. Esse universo é marcado pela fé inabalável na meritocracia e no individualismo, combinada a estilos de vida conservadores.

As redes sociais estão repletas de mantras, técnicas de neurociência e leis da física quântica que prometem atrair riqueza. Terapias prometem curar as feridas familiares que manteriam as pessoas na pobreza. A disciplina e o "mindset" definem tudo.

Os seguidores são ensinados a elevar a sua frequência para que ela corresponda à do reino de Deus ou possa atrair a fortuna magneticamente. Outros são incentivados a preencher quadros com imagens dos seus desejos: casas de dois andares, teto quadrado e Jaguar na garagem, jatinhos e muitos milhões. É preciso, ainda, exibir o "print" do saldo bancário e agradecer a Deus pelas bênçãos.

Os influenciadores se aproximam das pessoas comuns e forjam uma identificação com os seus modos de falar e viver. Se a capacidade de aspirar depende de modelos, esses profissionais se apresentam como referências próximas: dizem ter pegado ônibus e começado do zero, produzindo conteúdo em casa com um celular velho. Dessa forma, parecem exemplos alcançáveis e ampliam a imaginação do seu público, embora os seus seguidores nem sempre tenham à mão os recursos materiais e simbólicos necessários para concretizar as ambições.

Com uma base de dados de quase 2 milhões de aspirantes a empreendedores digitais e diversos projetos etnográficos, acompanhamos muitos desses trabalhadores. São pessoas que vivem de bicos, empregos formais mal remunerados ou trabalhos precários e plataformizados. A maioria delas se define, no Instagram, como empresário, empreendedor ou até CEO.

A prosperidade econômica desse segmento que aposta na internet tem sido praticamente nula. É claro que o digital pode oferecer oportunidades a muitos, mas apenas uma minoria alcança o sucesso. A exceção, porém, é vendida como regra e retroalimenta o ciclo da aspiração.

O antropólogo Wagner Guilherme Alves da Silva, que pesquisa empregadas domésticas que usam o Instagram como plataforma de trabalho, mostra como elas se reposicionam como "personal cleaners" e aspiram a deixar de ser "Isauras" e se tornar diamantes. Muitas delas compram mentorias para abandonar velhos hábitos, transformar o corpo, atrair riqueza e até se imaginar na capa da Forbes, mas não deixam de vivenciar a precariedade e a violência.

Ouvimos muitas pessoas que, mesmo passando horas por dia tentando crescer no universo digital sem obter resultados, se culpam pelo fracasso: "O meu mindset está errado". Os reveses são vividos como algo puramente individual, resultado de energia fraca ou esforço insuficiente.

Muitas dessas pessoas são mulheres negras, mães e trabalhadoras com dupla jornada, para as quais a renda extra digital e o home office aparecem como uma saída. Ao não progredir, porém, costumam se endividar para comprar mais uma mentoria com um coach.

Muitos ridicularizam pessoas de baixa renda que desejam empreender, as chamando de "CEO de MEI", referência a microempreendedor individual. A minha proposta é olhar para esse fenômeno sob outro ângulo. Estamos falando de sonhos de realização pessoal, dignidade, tempo livre e conforto: se anseia vender hambúrgueres para comandar a própria vida, controlar o tempo de descanso e se realizar por meio da expressão de quem se é.

Estimamos que cerca de um terço da população economicamente ativa usa redes sociais para empreender. As políticas governamentais e o debate público erram ao reduzir a plataformização ao trabalho por aplicativos, ignorando o fenômeno mais amplo e profundo do trabalho nas redes sociais.

Uma das maiores aspirações dos brasileiros sempre foi ter carteira assinada. Embora pesquisas apontem a predominância desse desejo hoje, cresce a ambição pelo trabalho autônomo. O discurso que associa a CLT à falta de ambição, ao fracasso e à humilhação não domina apenas as redes, mas ganha força na linguagem popular porque toca em uma ferida profunda: o legado de uma cultura de subalternidade associado a uma rotina de "corres" e "perrengues". Isso não significa que os brasileiros não queiram empregos formais. As pessoas não querem mais se sujeitar a empregos ruins.

Trabalhar no digital ou por aplicativo e sonhar com liberdade e autonomia faz sentido em um país que marginalizou os trabalhadores informais e maltratou os formais em empregos mal remunerados e com longas jornadas, que sugaram a sua criatividade e força física e mental. Por trás do desejo de ser CEO no Instagram ou se tornar patrão de si mesmo, está a vontade de controlar o próprio tempo e não ter que obedecer ordens.

Esse Brasil que quer andar de cabeça erguida e ser tratado como diamante tem menos a ver com um ímpeto neoliberal e mais com algo fundamentalmente humano: a busca por visibilidade e respeito em um país que invisibilizou e humilhou os grupos populares e a procura por autonomia e conforto em uma cultura de trabalho que historicamente os explorou.

Essa não é uma explicação romântica para um mal social. O desejo mesquinho, o egoísmo, a ostentação e a exploração existem por todos os lados. A extrema direita surfa nesse desejo de liberdade e o transforma em força ideológica, mas as ausências estruturais são a base desse processo.

Nestas eleições, precisamos entender como as classes aspiracionais votam. A resposta depende menos da concretização ou da frustração das aspirações e mais da forma como o Estado é percebido nesse processo.

Não há um modelo rígido de voto, mas uma tendência se destaca: parte daqueles cujas aspirações foram ampliadas e concretizadas tende a rejeitar a extrema direita e a votar em Lula. São pessoas que guardam uma memória mais viva da presença contínua do Estado ao longo da sua trajetória de melhoria.

Contudo, existe um universo imenso e muito desafiador à compreensão do impacto da expansão das aspirações na adesão ao bolsonarismo. Refiro-me tanto àqueles cujas aspirações seguem frustradas quanto aos que as concretizam por caminhos que julgam ser puramente individuais e meritocráticos, ou seja, sem a influência estatal. Ambos os grupos consideram o Estado ausente, ineficiente e corrupto, que só aparece para taxar e extorquir.

Chamei esse universo social de autoritariado: frações das classes aspiracionais e pobres que, como grande parte da população brasileira à margem do mercado de trabalho formal e das proteções sociais, aprenderam a se virar. O autoritariado é oprimido e opressor. Cada vez mais plataformizado, está encarnado tanto no estereótipo do Uber bolsonarista quanto nos autônomos que, segundo um levantamento do jornal O Globo, representaram 43% dos presos pelo STF por participação no 8 de Janeiro.

Esses segmentos estão cada vez mais alinhados não apenas ao conservadorismo e ao autoritarismo, mas também ao libertarianismo. O autoritariado acredita apenas no seu esforço e vê o Estado como usurpador, mas espera um pulso firme para cortar as mamatas. É seduzido por bets, criptomoedas, imposto zero e figuras como Musk. Não se revolta contra as grandes fortunas e tampouco defende a sua taxação: almeja ser parte das superelites.

O bolsonarismo e os seus aliados, em diferentes graus de radicalidade, têm ganhado de braçada entre o autoritariado. Aqui, voltamos à dimensão comparativa da percepção dos indicadores econômicos. A lógica é esta: "Ao mesmo tempo que percebo o Estado como profundamente ausente para mim, sinto que ele, que nada me deu e muito me tirou, é muito presente e benevolente para os outros".

Carvalho e Klein mencionaram o papel dos feeds na ampliação do repertório de aspirações. De fato, raramente se sonhou tanto e tão alto, mas isso não significa que a raiva e o ressentimento tenham se ampliado na mesma escala. Ao contrário do que se imagina, essas emoções não são dirigidas a um inimigo abstrato, forjado pelas redes sociais.

As redes ampliam os horizontes e preparam o terreno, mas a raiva desce ao chão da vida cotidiana e permanece profundamente paroquial. Se as aspirações se constroem na comparação com os de cima —os ricos e "livres e felizes"—, a raiva nasce da comparação com os rechaçados de baixo. A indignação é com a "vizinha preguiçosa, que não faz nada e só vive do Bolsa Família enquanto eu me mato de trabalhar".

Isso é o que chamo de senso de merecimento precário: diz respeito ao sujeito que conquistou um pouquinho a mais e, por isso, se acha superior em uma narrativa que valoriza o trabalho individual duro. Mais que falta de consciência de classe, se trata de uma forma de desejo de tentar se salvar do estigma da pobreza e repassá-lo para baixo.

Em um "país de vagabundos", o desprezo à pobreza produz a vontade desesperada de não ser reconhecido como pobre —e leva a culpa aos menos privilegiados. A extrema direita, que se caracteriza justamente pela narrativa do "nós contra eles", joga lenha nessa fogueira.

Enquanto os estudos sobre a extrema direita se concentram nas emoções negativas —raiva, ressentimento, frustração, ódio e nostalgia—, tenho preferido olhar para os sentimentos positivos, os sonhos e as aspirações. É um erro achar que o bolsonarismo se assenta somente no ressentimento pelas aspirações frustradas.

O anseio do sujeito de mostrar que é melhor que a "vizinha preguiçosa" e esfregar isso na cara de quem antes o humilhava encontra hoje o seu lugar no empreendedorismo e nas novas formas de trabalho, alimentado por promessas meritocráticas de esforço individual.

O autoritariado vai às urnas

O bolsonarismo e os seus aliados têm falado com esses grupos de muitas formas: exaltando o trabalho duro, desqualificando o Estado e, durante a pandemia, afirmando que o Brasil não podia parar. A extrema direita surfa no desejo legítimo de autonomia e o transforma em liberdade individual. Na campanha, Flávio Bolsonaro (PL) se concentra no poder de compra, no endividamento, no Estado taxador e na violência.

Para além do bolsonarismo, existe um leque de opções que, ainda que não se apresentem diretamente como de extrema direita, ecoam as aspirações do autoritariado. Pablo Marçal (PRTB) e Augusto Cury (Avante), por exemplo, vieram de um mundo político digital muito semelhante. Não à toa, ambos pareceram surgir do nada e alcançaram intenções de voto significativas. Desapercebidos por muitos, estavam falando a milhões de sonhadores havia anos.

Cury, em particular, reina no universo dos coaches de prosperidade e, ainda que não defenda abertamente pautas de extrema direita, é parte do mesmo ecossistema digital, sustentado por uma crença inquestionável na força individual e dirigido a milhões que acreditam apenas em si mesmos e em Deus como caminhos para o crescimento. Ele representa justamente esse novo universo do trabalho que, ao considerar o Estado ausente, vê nas terapias de cura de dores individuais —das perdas e da pobreza— a solução para problemas coletivos.

Para Lula, o desafio é imenso: como gerir o monstro imprevisível que saiu da janela das aspirações —janela também aberta por ele? Para um partido calcado na luta histórica de uma parcela dos trabalhadores, especialmente os sindicalizados, como falar e se conectar com um grupo que se desprende do Estado, vê a saída no indivíduo —não na luta coletiva ou na democracia— e busca autonomia por meio do sucesso empreendedor? Como entender o direito a brilhar sem transformá-lo em políticas neoliberais ainda mais individualizantes e, principalmente, tornar o coletivo e a democracia uma nova aspiração?

É preciso lembrar que a tendência libertária do autoritariado, vinda da revolta contra o Estado, não significa que não se queira o Estado. Ao contrário, as pessoas se ressentem da sua ausência.

Portanto, em um mundo do trabalho cada vez mais pejotizado e plataformizado, a questão não se limita a recriar narrativas para falar com esses trabalhadores. Em vez disso, escancara o desafio tremendo de desenhar políticas públicas robustas que preservem o desejo legítimo de autonomia e conforto e ampliem a proteção do Estado às classes aspiracionais.
Rosana Pinheiro-Machado, professora titular de estudos globais da University College Dublin, na Irlanda

O sequestro do sagrado e a falência do debate

Enquanto a Santa Senhora Aparecida permanecia imóvel em seu lugar, cumprindo o papel secular de ouvir pedidos de graça e consolo dos aflitos, homens vis, gananciosos e oportunistas decidiram rebaixá-la à condição de mera participante de uma luta pelo poder terreno. O episódio não diz nada sobre a fé, mas diz tudo sobre o nível rasteiro daqueles que usam o sagrado como mercadoria eleitoral.

Em um país profundamente religioso como o Brasil, onde o Estado se define como laico, não é de hoje que isso acontece. É lamentável, porém, que o cenário se repita a cada dois e quatro anos com o mesmo objetivo: enganar os mais crédulos para se apoderar de seus votos. Não se trata de outra coisa. É a tentativa despudorada de sequestro da vontade e, para tanto, mandam-se às favas todos os escrúpulos.


O resultado mais imediato dessa tática rasteira é a completa falência do debate público. Quando a arena política se transforma em um tribunal inquisitório de aparências piedosas, as discussões urgentes que deveriam pautar o país são covardemente asfixiadas. Substituem-se os planos de metas pela contrição fingida; anulam-se os debates sobre saúde, segurança e economia para dar lugar a uma disputa coreografada de quem exibe a maior devoção. A política, que deveria ser o espaço da razão e da construção do futuro, retrocede ao palanque da encenação hipócrita.

Essa saturação do sagrado desidrata qualquer tentativa de propor soluções reais para os problemas estruturais do Brasil. É muito mais fácil e eleitoralmente lucrativo posar para fotos ao lado de altares e de imagens de santos do que debater, com seriedade, reformas estruturantes. Sob o manto da manipulação religiosa, os candidatos esquivam-se do escrutínio técnico e se blindam contra críticas legítimas. Afinal, questionar as propostas — ou a falta delas — de um candidato blindado por símbolos sagrados passa a ser visto, de forma canalha, como um ataque à própria fé.

Diante de um espetáculo tão repetitivo quanto ultrajante, o que mais assombra é a aparente apatia do eleitorado. Parcela significativa dos cidadãos assiste a esse sequestro da fé com uma complacência perturbadora, como se aceitasse a mercantilização do divino como uma regra inevitável do jogo democrático. Há uma normalização do absurdo: o fiel, que deveria ser o primeiro a se indignar com a profanação de seus símbolos, muitas vezes silencia ou, pior, justifica o cinismo do candidato de estimação sob o pretexto pragmático de que “na política vale tudo”.

Essa indiferença, contudo, não é simples cegueira, mas o reflexo de um cansaço crônico e de uma profunda desilusão com as instituições. Calejado por décadas de promessas vazias e traições institucionais, o eleitorado desenvolveu uma espécie de casca cínica, onde o pragmatismo substituiu o idealismo. Tolera-se a mentira porque já não se espera a verdade. Ao fechar os olhos para o estelionato espiritual, o cidadão abdica de sua própria dignidade política e aceita o papel de figurante em uma farsa teatral que se renova a cada ciclo das urnas.

Conclui-se que esse silêncio coletivo cobra um preço altíssimo. Ao não punir nas urnas aqueles que tratam a devoção popular como moeda de troca, a sociedade valida o método e pavimenta o caminho para que o próximo pleito seja ainda mais vazio de propostas e mais denso de hipocrisia. Enquanto a indignação ceder espaço à indiferença, os templos continuarão sendo usados como trampolins e o debate público permanecerá submetido à pequenez dos que só enxergam no sagrado um atalho para o poder.

Pânico moral, fervor evangélico e guerra cultural: a fórmula Bolsonaro

Brasília, 2016. O deputado Jair Messias Bolsonaro dedicou seu voto a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, de esquerda, ao oficial militar que a torturou durante a ditadura, quando ela era guerrilheira. O gesto gerou indignação… e notoriedade. Dois anos depois, o militar, que havia sido afastado do Exército por indisciplina e era um parlamentar medíocre há três décadas, obteve uma vitória retumbante nas eleições presidenciais brasileiras. Ele capitalizou a frustração e a raiva, convencendo seus compatriotas de que lideraria a luta para enterrar as práticas políticas tradicionais e acabar com a corrupção que corrói o sistema desde os tempos coloniais. Posicionou-se como o campeão das guerras culturais contra o feminismo, as minorias e o meio ambiente. O caminho para a vitória foi pavimentado pela prisão de Luiz Inácio Lula da Silva às vésperas das eleições.


Dois mandatos depois, os papéis se inverteram. Bolsonaro, de 71 anos, está na prisão, e Lula, de 80, ocupa a presidência, agora focado em garantir um quarto mandato. Enfrentando-o está o filho de seu grande rival, Flávio Bolsonaro, de 45 anos, uma versão diluída do pai e sem o mesmo carisma. O Brasil realiza eleições no próximo domingo. Se nenhum candidato obtiver mais de 50% dos votos válidos, haverá um segundo turno em 25 de outubro.

Quem acompanhou de perto a evolução dos últimos oito anos percebe uma sociedade exausta, apática e resignada. O entusiasmo que antes eletrizava as multidões evaporou. A incipiente divisão social que dilacerava esta nação conciliadora transformou-se em uma polarização completa, em dois Brasis. O pêndulo oscila, mas a vida não melhora substancialmente. Os problemas estruturais persistem. As mesmas caras de sempre estão no poder, e a corrupção domina os noticiários . De novo. Muitos brasileiros votarão contra um candidato, não por uma visão para o país.

Como explicar que outro Bolsonaro, um candidato tão frágil, consiga angariar o apoio indicado pelas pesquisas? Há semanas, as pesquisas apresentam um quadro consistente: Lula, líder de uma esquerda unida aliada a parte da centro-direita, está empatado com Bolsonaro Jr., o candidato mais forte de uma direita dividida. É improvável, mas já não se descarta a possibilidade de o resultado ser decidido no primeiro turno. O filho mais velho de Bolsonaro ameaça seriamente a reeleição do político mais influente do Brasil e da América Latina no século XXI. Ele é, juntamente com a mexicana Claudia Sheinbaum, o único bastião contra a onda trumpista e conservadora que varre o continente.

Indicado como sucessor por seu pai, o senador Bolsonaro passou metade da vida na política, assim como seus irmãos. O ex-presidente de extrema direita ignorou o establishment, que preferia alguém sem o sobrenome Bolsonaro, menos palatável ao eleitorado moderado. Para piorar a situação, o candidato Bolsonaro está sendo investigado por corrupção e lavagem de dinheiro. E esta nem é a primeira vez que ele está na mira dos tribunais.

A partir daquela vitória em 2018, que pode ter parecido circunstancial, resultado da onda antipolítica do primeiro presidente Donald Trump, o clã Bolsonaro construiu uma identidade com a qual metade do Brasil se identifica, com diferentes graus de intensidade.

Desde o início, deu substância política a uma realidade latente. As aspirações de uma extrema-direita já existente entraram no debate, como aponta David Magalhães, pesquisador do Observatório da Extrema Direita: um populismo violento e reacionário, legado de uma sociedade patriarcal marcada pelo autoritarismo militar e por uma cultura de escravidão. São as pessoas que nunca perdem uma manifestação, sempre agitando a bandeira e vestindo a camisa da seleção nacional de futebol. Algumas delas são a minoria fanática que acompanhou o ex-presidente e os generais na tentativa de golpe para se manterem no poder após a derrota para Lula em 2022.

Mercia Alves, antropóloga política do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), destaca que “Bolsonaro não criou o conservadorismo moral. Ele não incentivou a entrada de amplos setores evangélicos na política, nem criou a extrema-direita brasileira. O que ele fez foi reunir, de forma muito eficaz, esses elementos em torno de uma única candidatura”.

Bolsonaro pai colocou questões morais — aborto, drogas e a chamada ideologia de gênero — no centro de seu discurso; as eleições não girariam mais em torno da economia ou da segurança. Ele elevou, assim, a batalha política ao status de missão divina para derrotar o mal. Autoproclamado instrumento de Deus, soube capitalizar a profunda transformação social provocada pela proliferação de igrejas evangélicas no Brasil, especialmente entre as classes trabalhadoras das periferias urbanas. De vilarejos remotos na Amazônia às cidades mais ricas do sul, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo, pastores evangélicos estão substituindo padres católicos.

Grande parte daquela pobre congregação evangélica, que até 2010 preferia o Partido dos Trabalhadores à direita tradicional, mais liberal e elitista, identificava-se com o discurso de Bolsonaro.

O lema “Deus, pátria, família e liberdade” ressoou naqueles bairros onde a pobreza é abundante e as oportunidades escassas. Os brasileiros que lutam tanto para alimentar seus filhos não votam mais com a carteira, mas com base em seus valores.

Os líderes de muitas igrejas evangélicas adotaram um discurso baseado em falácias que desloca a luta entre o bem e o mal para a arena política, alimentando o pânico moral com uma narrativa sobre uma esquerda imaginária. “Lula ameaça nossa liberdade religiosa, ameaça a segurança de nossas crianças, ameaça nossas famílias e representa a degeneração de nossos valores morais”, é essencialmente esse discurso, explica o cientista político Alves. Pouco importa que os governos de Portugal defendam a liberdade de culto ou evitem o debate sobre o aborto.

A mensagem é incrivelmente poderosa quando vem do líder de uma igreja que transforma vidas com suas promessas de salvação e soluções para problemas cotidianos. E a força motriz por trás da mudança social se personifica na mulher negra pobre para quem a comunidade religiosa oferece uma rede de apoio mais eficaz do que o Estado. Ela é a brasileira cujo marido não a agride mais desde que parou de beber, que aprendeu a ler usando as Escrituras, ou que vê as aulas de violão dos filhos como uma alternativa segura às ruas, onde o crime oferece dinheiro fácil e status.

Michelle Bolsonaro, esposa do patriarca, evangélica e aspirante a política de alto escalão, é um grande trunfo para esse público graças ao empoderamento feminino conservador que prega, com parábolas bíblicas e vídeos no Instagram.

Seu filho Flávio, um cristão evangélico apesar do catolicismo do pai, cresceu cercado por famílias militares. Estudou direito e, após 16 anos como vereador no Rio de Janeiro, chegou ao Senado. Embora sua campanha presidencial gire em torno da figura do pai e abrace grande parte da agenda da extrema-direita, o candidato do Partido Liberal é o menos ideológico dos filhos. Ele não compartilha da agressividade ou da grosseria do pai. Apresenta-se como um Bolsonaro moderado, vangloria-se de ter sido vacinado durante a pandemia e de que sua esposa e filhas o reeducaram. Ele sabe muito bem que o sexismo flagrante do pai afasta o eleitorado feminino.

Diferentemente de seus irmãos, ele mantém um diálogo fluido com os partidos ideologicamente neutros que dominam o centro-direita e tradicionalmente detêm o poder de decisão. Mas, refletindo sua fragilidade inicial, nenhum partido concordou em formar uma aliança com ele. Para surpresa de quase todos, Flávio Bolsonaro rapidamente herdou o capital eleitoral de seu pai, mas trata-se de um apoio marcado pela resignação, mesmo entre aqueles que encontraram sentido em suas vidas dentro do universo Bolsonaro.

No último dia 7 de setembro, Dia da Independência, o dia amanheceu cinzento, chuvoso e frio em São Paulo. Um daqueles dias em que os brasileiros não se aventuram a sair de casa, mas foi um dia de mobilização da direita. Sonia Jezabel Monteiro, de 75 anos, bancária aposentada, estava lá, firme e agasalhada. “Flávio é a solução? Ele é a única opção que temos”, confessou, ecoando outros manifestantes que vieram apoiar o candidato. “A primeira opção, claro, é o pai dele, o líder que veio para resgatar os grandes valores ocidentais”, explicou.

Mas o que ela realmente queria discutir era o assunto do momento. E foi então que ela lançou um de seus característicos discursos inflamados contra o Supremo Tribunal Federal e o ministro Alexandre de Moraes, o nêmesis de Bolsonaro e rival de Lula como a personificação do mal. “Somos escravos de um Supremo Tribunal Federal que condena e depois absolve presidentes. Vejam o caso Master. Deveriam ter afastado todos, porque ou são criminosos ou cúmplices, e nomeado pessoas que respeitam a Constituição.” O caso ao qual ela se refere é um grande escândalo de corrupção envolvendo um banco que deixou um rombo de quase 10 bilhões de euros, pelo qual o Supremo Tribunal Federal está investigando o filho de Bolsonaro. A investigação colocou o ministro Moraes sob suspeita de proteger o banqueiro acusado de fraude e implicou metade dos ministros da Suprema Corte.

O apoio dos seguidores de Bolsonaro não é incondicional, alerta Alves. O desprezo pelo sofrimento alheio demonstrado por Bolsonaro pai em sua gestão da pandemia os magoou; muitos detestam armas — Flávio já não as promove — e rejeitam a retórica virulenta. Suspeitas de corrupção alimentam suas dúvidas. Mas, acima de tudo, eles veem os Bolsonaros como os únicos capazes de derrotar o inimigo comum, aquele Lúcifer encarnado em Lula.

O discurso moralista encontrou terreno fértil porque a devoção à fé e à família se destaca entre os poucos traços comuns ao povo brasileiro, um dos mais diversos e desiguais do mundo. A folia desenfreada do Carnaval, a moral sexual liberal e a naturalidade com que abraçam mil estruturas familiares informais projetam uma imagem que pode ofuscar seu conservadorismo profundamente enraizado.

Sempre que a esquerda governou o Brasil, os presidentes foram depostos por golpe militar, pelo Congresso ou presos, após promoverem reformas trabalhistas, tributárias e agrárias, criarem a Comissão da Verdade sobre a ditadura ou redistribuirem a renda.

A política no Brasil se desenrola no ritmo de uma telenovela, com tramas intrincadas que se estendem por vários episódios. Os heróis de hoje são os vilões de amanhã; há traições, reviravoltas… e altas doses de expectativa alimentadas pelo universo midiático-político-judicial até que o escândalo que mudará tudo (ou não) exploda (ou não). E então, para o próximo assunto. Há semanas circula a ideia de que alguma revelação bombástica poderá decidir a eleição presidencial na reta final.

Embora a popularidade de Lula esteja em declínio, ele representa a única esperança para os brasileiros que ainda carecem até mesmo das necessidades mais básicas, para os progressistas e para as minorias. Mas é muito comum um brasileiro que nasceu pobre, recebeu assistência social, emigrou e trabalhou duro com grandes sacrifícios para alcançar um padrão mínimo de vida, falar mal de Lula (em quem talvez tenha votado duas décadas atrás, quando ele personificava a mudança) e criticar seus primos preguiçosos, que “vivem sem trabalhar” graças a subsídios pagos por todos os outros.

E é aí que entra outro ingrediente da identidade política de Bolsonaro: o discurso do individualismo, da meritocracia, a ideia de que o Estado atrapalha… todos elementos centrais da Teologia da Prosperidade pregada por pastores neopentecostais em igrejas, nas redes sociais e por meio de poderosas emissoras de televisão. Os empreendedores se multiplicam, enquanto os mais bem-sucedidos se gabam de serem seus próprios chefes e da liberdade que desfrutam.

A cada nova acusação legal ou escândalo contra os Bolsonaro, a esquerda mais militante esperava que fosse o golpe final, aquele que enterraria o clã. Mas inúmeras previsões se provaram erradas. O cadáver político ressuscitou repetidas vezes. Quando o patriarca foi impedido de exercer cargos públicos e condenado a 27 anos de prisão por liderar uma conspiração golpista, aqueles que estudam o universo Bolsonaro alertaram que seu movimento político era uma realidade consolidada que sobreviveria ao seu criador. Pouco depois, a segunda vitória de Trump injetou nova energia no movimento.

O fato de o juiz Moraes, que liderou a batalha judicial para levar Bolsonaro e os demais golpistas à justiça, ter passado de salvador da democracia a suspeito de corrupção só aprofunda a profunda desconfiança que os brasileiros nutrem pelas instituições que sustentam a democracia. Também alimenta a narrativa de vitimização que os Bolsonaro vêm explorando desde que o pai foi esfaqueado. Magalhães, do Observatório da Extrema Direita, explica que essas suspeitas “alimentam a ideia de que ele é vítima de um sistema que remove um mártir da arena eleitoral”. Em prisão domiciliar na casa da família em Brasília, ele confiou ao filho mais velho a missão de concluir o processo. Caso vença Lula, a prioridade é conceder anistia ao patriarca e inserir o Brasil na aliança diplomático-militar que Trump está promovendo na América Latina.

Pastor protagonizou chute em N. S. Aparecida

Era 12 de outubro de 1995, Dia de Nossa Senhora Aparecida, feriado no Brasil, quando o pastor Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, aproveitou seu programa "O despertar da fé", na TV Record, para criticar a adoração à figura da padroeira do país. Durante um sermão, de microfone na mão, falando para a câmera, ele soca e chuta uma imagem da santa enquanto afirma, exaltado: "Estamos mostrando às pessoas que isso aqui não funciona" e "isso não é santo coisa nenhuma".

"Será que Deus, o Criador do universo, pode ser comparado a um boneco desse, tão feio, tão horrível, tão desgraçado!?", completou o pastor, expressando seu repúdio à chamada idolatria, algo combatido por religiões protestantes desde a época de Martinho Lutero. Foi esse monge e teólogo alemão, líder da Reforma Protestante, que, entre os séculos XV e XVI, começou a criticar a veneração de santos e relíquias em prol da salvação. Para protestantes, Cristo é o único mediador entre nós e Deus.

A atitude de Von Helder gerou comoção. Instituições como a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pronunciaram-se indignadas. A cena foi criticada até na Igreja Universal, cujo fundador, Edir Macedo, pediu perdão aos católicos. O pastor foi processado e chegou a ser condenado à prisão.