quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Veículos de jornalismo se unem pela democracia
O governo de Jair Bolsonaro apresentou sinais documentados de ataques à democracia: investidas contra a credibilidade das eleições, hostilidade à imprensa, uso político das Forças Armadas e tolerância a manifestações antidemocráticas, contestação da alternância de poder e confronto aberto com o Judiciário. O fato de as instituições terem resistido não significa que esses sinais não existiram e nem indica ausência de gravidade. Significa que os mecanismos de contenção funcionaram.
Não há nenhuma razão no horizonte para crer que seu filho teria uma relação melhor com o jornalismo e a democracia. O fato de não ser tão verborrágico e agressivo quanto o pai não faz com que seus atos se tornem menos graves. A promessa primordial de Flávio Bolsonaro é a libertação de Jair e a anulação do julgamento por tentativa de abolir o Estado democrático. Soma-se a isso a ameaça declarada de mudanças na Constituição.
Durante os quatro anos de bolsonarismo, o jornalismo conviveu com o horror da repressão. Agressões verbais promovidas quase diariamente pelo presidente da República contra os repórteres que cobrem o Planalto. Intimidações em todo o território nacional, decorrentes do clima de hostilidade que Bolsonaro promovia contra o exercício da profissão.
Os números ajudam a dimensionar essa escalada de violência. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), foram registrados 1.442 casos de violência contra jornalistas e ataques à imprensa entre 2019 e 2022, uma média anual mais de três vezes superior à observada entre 2010 e 2018. Somente em 2022, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) documentou 557 alertas de violações à liberdade de imprensa, dos quais 41,6% envolveram ao menos um integrante da família Bolsonaro.
Casos anuais de violência contra jornalistas e ataques à imprensa no Brasil registrados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) entre 2009 e 2024
Gráfico de linha que apresenta a evolução anual dos casos de violência contra jornalistas e ataques à imprensa no Brasil, entre 2009 e 2024, segundo a Fenaj. Os registros passaram de 135 em 2018 para 208 em 2019, 428 em 2020 e 430 em 2021, o maior valor da série apresentada. Em 2022, foram 376 casos. Após esse período, os números caíram para 181 em 2023 e 144 em 2024. O intervalo de 2019 a 2022, correspondente ao governo Jair Bolsonaro.
A mudança de cenário a partir de 2023 é igualmente reveladora: os registros da Abraji caíram para 330 naquele ano e 204 em 2025, enquanto o Brasil passou da 110ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, da Repórteres Sem Fronteiras, em 2022, para a 52ª em 2026.
A defesa do jornalismo, porém, vai além do interesse de uma categoria profissional: diz respeito ao direito de toda a população à informação e à própria qualidade da democracia. Esse direito depende de um ambiente de informação íntegro, onde informações confiáveis, verificáveis e plurais possam circular livremente. O jornalismo tem papel essencial na construção desse ambiente, ao investigar casos de corrupção, abusos de poder e violações de direitos, produzindo evidências que ajudam a sociedade a compreender a realidade, cobrar responsabilidades e dar visibilidade a populações frequentemente negligenciadas.
Por isso, ataques sistemáticos à imprensa não atingem apenas jornalistas e veículos de comunicação. Ao intimidar profissionais e desacreditar suas investigações, comprometem o acesso da população a informações de interesse público e enfraquecem a capacidade da sociedade de fiscalizar quem governa e exigir a responsabilização de quem viola a lei.
O que aconteceu durante o governo Jair Bolsonaro tem um longo histórico. Em 1999, ele declarou que, se fosse presidente, fecharia o Congresso Nacional e daria um golpe de Estado. Em 2016, homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador da ditadura militar.
Já na Presidência, participou, em 2020, de uma manifestação que defendia a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2022, reuniu embaixadores estrangeiros para lançar acusações sem provas contra o sistema eleitoral brasileiro, episódio que levou à sua inelegibilidade.
A escalada culminou em um plano de assassinato de autoridades – nomeadamente, Luiz Inácio Lula da Silva, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes –, na tentativa de impedir a alternância de poder após a derrota nas urnas, pela qual Bolsonaro foi condenado pelo STF em 2025.
Esse histórico é indispensável para avaliar as propostas de Flávio Bolsonaro. O senador também tem manifestações próprias que merecem atenção. Em livro publicado em 2017, negou a existência do golpe militar de 1964 e elogiou Ustra. Em julho de 2026, repetiu diante de diplomatas estrangeiros informações falsas sobre a origem das urnas eletrônicas brasileiras.
Não é possível ignorar a trajetória de um grupo político que questionou a legitimidade das eleições, confrontou instituições responsáveis por fiscalizar o poder e agora pretende modificar algumas dessas mesmas instituições.
O risco não se resume a um novo golpe de Estado: está também na possibilidade de enfraquecimento progressivo dos mecanismos que impedem a concentração de poder e garantem a responsabilização de governantes.
A população depende de uma imprensa livre para fiscalizar o poder. E uma imprensa livre depende de instituições capazes de assegurar direitos, garantir acesso a informações públicas, proteger profissionais contra intimidações e responsabilizar quem tenta impedir seu trabalho.
A experiência do governo Bolsonaro mostrou como a hostilidade promovida pelo presidente pode repercutir sobre a liberdade de imprensa. Se os mecanismos de controle do poder também forem enfraquecidos, tornam-se mais frágeis as condições para que jornalistas investiguem e publiquem informações de interesse público com independência. É assim que ataques ao jornalismo, enfraquecimento institucional e erosão democrática podem se alimentar mutuamente, abrindo caminho para o avanço do autoritarismo.
Nesse sentido, este editorial é também um apelo a veículos de comunicação e jornalistas para que reflitam sobre sua responsabilidade neste momento histórico. Não se trata de defender governos, partidos ou tribunais, mas de reconhecer que a liberdade de imprensa, a independência das instituições e o direito da sociedade à informação são inseparáveis. Em nome de um futuro viável, o Brasil precisa preservar sua democracia, com todas as suas imperfeições, contradições e conquistas. Afinal, a história mostra que o autoritarismo pode chegar ao poder pelas urnas, mas seus efeitos sobre os direitos e as liberdades podem levar décadas para ser revertidos.
Milícias, Faria Lima e governos: a Zona Cinza
Para situar a milicianização brasileira às vésperas de 2027, o paralelo com a Itália do fim do século XX é útil, desde que preciso. A lição italiana não é a de um político que entregou o Estado à máfia, mas a de um sistema político em colapso que normalizou uma contiguidade já existente entre capital legal e capital violento.
O fio condutor desta leitura é a obra de Roberto Saviano. Em Gomorra, os camorristas não chamam sua organização de máfia, mas de Sistema: o crime não é exceção à ordem econômica, é um de seus modos de funcionamento. A lógica do empresário criminoso e o pensamento dos chefões, escreve Saviano, coincidem com o neoliberalismo mais radical.
Em Gomorra (2006), Saviano mostrou que a força da Camorra está menos na violência que na capacidade de convertê-la em capital imobiliário, industrial e de serviços: construção civil, confecção para grifes, descarte de resíduos tóxicos. Em ZeroZeroZero (2013), seguiu a mesma lógica na escala global da cocaína, e fez da ‘Ndrangheta calabresa protagonista.
A penetração das máfias meridionais no Norte não começou com Silvio Berlusconi. Remonta ao soggiorno obbligato, que a partir dos anos 1960 mandou mafiosos para o exílio forçado no Norte, aos sequestros dos anos 1970 e à lavagem de dinheiro na Milão dos anos 1980. A Operação Infinito (2010) encontraria dezenas de células da ‘Ndrangheta na Lombardia.
Berlusconi chegou ao poder em 1994 sobre os escombros do sistema partidário demolido pela Mani Pulite. Seu braço direito e cofundador da Forza Italia, Marcello Dell’Utri, foi condenado em definitivo pela Corte de Cassação, em 2014, a sete anos por concorso esterno em associação mafiosa — a participação de quem, sem ser membro, presta serviços à organização. A sentença o reconheceu como mediador entre Berlusconi e a Cosa Nostra de 1974 a 1992, período que inclui a contratação do mafioso Vittorio Mangano na mansão de Arcore, a residência do então primeiro-ministro nos arredores de Milão.
Os fatos posteriores a 1992 não foram considerados provados, e Berlusconi nunca foi condenado por crimes de máfia. O ponto é estrutural, não judicial: a desregulamentação, o ataque sistemático à magistratura e a retórica do empreendedor contra o Estado deram à contiguidade um ambiente em que ela pôde se normalizar.
A sociologia italiana chamou esse espaço de zona grigia, tomando a expressão de Primo Levi. Rocco Sciarrone a define como a área em que empresários, profissionais liberais, políticos e mafiosos trocam favores sem fronteiras nítidas. A máfia não invadiu o Norte; foi incorporada à economia formal pela construção, pelo setor imobiliário, pelos resíduos e pelas obras públicas.
A forma brasileira: a milícia como mercadoria política
Michel Misse chamou de “mercadorias políticas” os bens cuja troca combina recursos econômicos e poder de coerção. A milícia vende a própria capacidade coercitiva do Estado, privatizada por seus agentes e convertida em renda.
Ao contrário do tráfico de varejo, que opera à margem e em confronto com a polícia, a milícia nasce dentro do aparato repressivo: policiais, ex-militares, bombeiros, agentes penitenciários. José Cláudio Souza Alves, em Dos barões ao extermínio, e Bruno Paes Manso, em A República das Milícias, reconstituem a passagem do esquadrão da morte ao domínio territorial de negócios — a milícia como franquia de extrativismo urbano.
Roberto Saviano chega ao Rio em ZeroZeroZero. Ali as milícias surgem como autodefesa contra o tráfico e acabam como suas concorrentes na venda de proteção, sob a complacência de uma política que, enquanto pôde, as tratou como mal menor. A origem na autodefesa é a versão que as milícias contam de si mesmas; a pesquisa brasileira as situa dentro da polícia. O diagnóstico político, porém, coincide: o “mal menor” foi a forma pela qual o Estado as incorporou.
Sua base de acumulação é o confisco direto da renda da classe trabalhadora periférica: taxas de “proteção”, monopólio do gás de cozinha, controle da água, da TV a cabo e da internet, transporte alternativo e, sobretudo, grilagem e incorporação imobiliária. Na Muzema, zona oeste do Rio, onde dois prédios erguidos sob domínio miliciano desabaram em 2019 e mataram 24 pessoas, repete-se o que Saviano descreveu na Campânia: o cimento liga a violência ao capital fixo.
A atualização de 2025 do Mapa Histórico dos Grupos Armados (GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado) mostra que, em 2024, 34,9% dos moradores da Grande Rio — perto de 4 milhões de pessoas — viviam sob domínio ou influência armada. O domínio tem cor e classe: na capital, a renda per capita nessas áreas é de R$ 1.267, pouco mais de um terço dos R$ 3.521 das áreas livres; na metrópole, pretos, pardos e indígenas são 69,1% dos moradores sob controle miliciano, ante 55,2% no restante.
Nenhum grupo cobre mais chão que as milícias: 49,4% da área sob domínio armado, cerca de 201 km², mais de quatro vezes o que controlavam em 2007. O método é chegar antes — ao loteamento sem título, ao bairro sem asfalto, à franja onde a cidade cresce — e cobrar pedágio sobre tudo o que a urbanização traz. É a expansão urbana convertida em renda armada.
A fronteira entre milícia e tráfico, nítida no discurso, é porosa na prática. Desde o fim dos anos 2010, investigações documentam “narcomilícias” que vendem drogas e se aliam a facções como o Terceiro Comando Puro. A lógica é a do negócio, não a da identidade.
Se o crime territorial é estrutura, sua expansão não pertence a um único governo. As milícias cariocas cresceram sob governos estaduais de várias colorações, inclusive o de Sérgio Cabral, aliado do governo federal petista — o mesmo período em que a CPI das Milícias da Alerj, em 2008, indiciou mais de duzentas pessoas sem desmontar o negócio.
O maior surto de crescimento registrado pelo Mapa, de 31,6% na área dominada, ocorre entre 2016 e 2020: o estado do Rio quebra, as UPPs são desmontadas e a intervenção federal de 2018 assiste ao avanço sem detê-lo.
A partir de 2020, a curva miliciana se inverte. A Operação Intocáveis, do Ministério Público, a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, e as brigas pela sucessão deixaram territórios desguarnecidos, que o Comando Vermelho ocupou: hoje ele domina 47,2% da população sob controle armado. Um poder que depende de redes com o Estado cresce depressa e se quebra quando elas são cortadas.
O ciclo bolsonarista no governo federal (2019–2022) acrescentou aceleração e legitimação. A flexibilização das armas multiplicou os registros de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs), até ser revertida pelo Decreto 11.615/2023. O enfraquecimento da fiscalização ambiental e fundiária abriu espaço à violência privada nas fronteiras agrícolas. E o discurso da autodefesa armada deu cobertura moral à coerção paraestatal.
O decreto conteve novas compras; o arsenal acumulado ficou.
Os casos reunidos pelo Instituto Sou da Paz aparecem em 19 unidades da federação, com São Paulo, Espírito Santo e Rio Grande do Sul na frente, e atendem a clientelas variadas: PCC e CV, milícias urbanas e rurais, grupos de extermínio, grileiros. No caso-limite, um casal esgotou a cota de CAC comprando 26 fuzis idênticos para o Comando Vermelho.
Ao igualar atiradores novatos e veteranos e ampliar as cotas, as regras de 2019 a 2022 abriram caminho ao que o crime mais procura: fuzis e pistolas 9 mm.
A proximidade entre esse campo político e o mundo miliciano tem registro público. Como deputado estadual, Flávio Bolsonaro homenageou na Alerj o policial Adriano da Nóbrega, depois apontado como chefe do Escritório do Crime, e empregou em seu gabinete a mãe e a ex-mulher dele. As investigações sobre o gabinete foram anuladas pelos tribunais superiores por razões processuais, sem julgamento de mérito.
Fora do Rio, a expansão do modelo é desigual. Belém é o caso mais documentado, com chacinas atribuídas a grupos de extermínio e uma CPI das Milícias na Assembleia do Pará em 2015. Em outras regiões avançam a hegemonia de facções e a letalidade policial, fenômenos aparentados, mas distintos.
Do território à Faria Lima
Se a milícia é o equivalente brasileiro do controle territorial mafioso, o equivalente da ‘Ndrangheta em Milão é o Primeiro Comando da Capital. A Operação Carbono Oculto, lançada em agosto de 2025 pela Receita, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público paulista, mostrou o dinheiro da facção circulando por importadoras, distribuidoras e postos de combustível até desaguar em gestoras e fintechs no centro financeiro de São Paulo.
O balanço da Transparência Internacional – Brasil dá a escala: mais de 350 investigados, mais de quatro dezenas de fundos sob suspeita, um patrimônio que ia de usinas de etanol e um terminal portuário a imóveis e caminhões. No dia em que os alvos vieram a público, a Reag Investimentos perdeu mais de 15% em bolsa.
O Estado respondeu na linguagem da regulação, não da polícia: a Instrução Normativa nº 2.278/2025 da Receita estendeu às fintechs os deveres de informação dos bancos, e o Congresso aprovou o projeto do devedor contumaz, contra empresas que fazem da sonegação um método.
É a zona cinzenta em sua forma acabada. O dinheiro do varejo de drogas e do contrabando entra em postos, distribuidoras e veículos financeiros legais, operados por profissionais que não portam armas. A fronteira deixa de ser geográfica, entre a favela e o asfalto, e passa a ser contábil.
Saviano descreveu esse movimento em ZeroZeroZero. Nenhum papel cotado em bolsa, escreve, gera o lucro da cocaína, “o último bem que permite a acumulação originária de capitais”. E esse dinheiro encontra os bancos quando eles mais precisam: o livro lembra que, em dezembro de 2009, Antonio Maria Costa, então responsável pelo escritório da ONU sobre drogas e crime, declarou que os ganhos das organizações criminosas tinham sido, para alguns bancos, o único capital de investimento líquido disponível para escapar da falência. A Faria Lima é a versão brasileira dessa regra.
A zona cinzenta levanta uma pergunta que a crítica moralista não formula: até onde o capital legal convive com a acumulação ilegal? A tolerância não é moral, mas condicional. Depende de quem paga os custos e de se o capital ilegal complementa ou concorre com o legal.
Quando o complementa, a tolerância é alta. O capital ilegal oferece liquidez, demanda para a construção e o mercado imobiliário, disciplina sobre a força de trabalho e “limpeza” de terras. Na Lombardia, a crise de crédito pós-2008 tornou o dinheiro da ‘Ndrangheta atraente para pequenas e médias empresas sem acesso a bancos. O custo recai sobre os trabalhadores das periferias, não sobre o capital.
Quando o tributa ou concorre com ele, a tolerância cai: a extorsão atinge empresas, o roubo de cargas encarece a logística, concessionárias de energia e telecomunicações perdem áreas inteiras para o “gatonet” e as ligações clandestinas, postos ligados a facções derrubam preços sonegando impostos. Aí as empresas legais passam a cobrar o Estado.
A Carbono Oculto marcou esse ponto de virada. Numa sondagem da Transparência Internacional – Brasil com o Datafolha, em dezembro de 2025, empresas apontaram o crime organizado como ameaça crescente, mas só 57% disseram confiar que seus parceiros comerciais têm controles específicos contra ele.
A Itália conheceu os dois lados desse limite. Por décadas, o pizzo foi custo operacional. Em 2007, a Confindustria siciliana passou a expulsar associados que pagassem extorsão, na esteira do Addiopizzo, criado por jovens de Palermo em 2004: a máfia passara a custar mais do que rendia ao empresariado.
Uma coalizão antimáfia pode nascer do próprio capital, mas é seletiva: combate o crime que ameaça a concorrência e os lucros e tolera o que se limita a extrair renda dos pobres. O confisco miliciano da renda popular é justamente a acumulação ilegal que menos incomoda o capital formal.
A integração do crime territorial ao poder não se apresenta como caos, mas como reorganização do Estado: confisco da renda popular legalizado na prática, acumulação ilegal blindada pela política. Ela já se converteu em mandatos — a CPI das Milícias de 2008 tinha entre seus alvos um deputado estadual e um vereador. Na Itália, as marcas desta integração foram a pressão contra a magistratura, as anistias fiscais e a desregulamentação das obras públicas; no Brasil, são o controle sobre as polícias, o desmonte da fiscalização financeira e territorial e a política de armas.
A eleição não decide o fenômeno; apenas o encontra. Quem tomar posse em 2027 governará sobre milícias consolidadas, facções financeirizadas e polícias com baixo controle civil. O que se disputa nas urnas não é a existência da zona cinzenta, mas o grau em que ela se traduz em governo.
O que a punição não alcança
A Mani Pulite, “Operação Mãos Limpas” italiana, prometeu purificar a política e abriu o vácuo ocupado por Berlusconi. A Lava Jato percorreu trajetória semelhante: desorganizou o sistema partidário, relativizou garantias processuais e preparou o terreno para a extrema-direita de 2018.
O punitivismo territorial tampouco toca a estrutura. Operações de alta letalidade, como a Operação Contenção, na Penha e no Alemão em outubro de 2025, com 121 mortos segundo o próprio governo estadual, matam operadores substituíveis e deixam intactos o fluxo de renda e os circuitos financeiros. Segundo o Mapa, o Comando Vermelho cresceu quase sem interrupção ao longo de duas décadas de megaoperações — e os grupos já não ocupam áreas vazias, tomam territórios uns dos outros, numa disputa feita à bala onde mais gente mora.
A experiência italiana mostra o limite da própria resposta penal. O combate às máfias foi, em parte, duramente penal: o maxiprocesso de Palermo, o regime carcerário 41-bis, a tipificação do método mafioso. E foi enquanto a Cosa Nostra era desmontada nos tribunais que a ‘Ndrangheta se tornou a mais poderosa das máfias italianas. O direito penal alcança o mafioso; a acumulação se desloca para onde a lei não olha e sobrevive a ele.
O que a milícia é
Quando passou a confiscar o patrimônio mafioso, com a Lei Rognoni-La Torre, de 1982, o Estado italiano descobriu que o poder da máfia era, antes de tudo, propriedade: fazendas, imóveis, empresas, contratos. A violência era o meio; o patrimônio, a substância.
O mesmo vale para a milícia. Ela não é a ausência do Estado nas periferias, mas uma de suas formas de presença: coerção pública, exercida por agentes públicos, convertida em renda privada. O chamado “poder paralelo” não corre em paralelo a nada; está cravado no orçamento doméstico do trabalhador, do qual retira uma parcela fixa todo mês.
Daí que parte dos moradores de áreas milicianas descreva a milícia como ordem preferível à do tráfico. Não é engano. A milícia vende previsibilidade num mercado em que o Estado é apenas mais um ofertante armado, e nem sempre o mais confiável. A preferência reconhece que, ali, a proteção é mercadoria.
Milícia e facção financeirizada são os dois polos de um mesmo circuito. Num extremo, a renda é extraída no varejo da vida cotidiana; no outro, reaparece como cota de fundo, ação de gestora, usina de etanol. A zona cinzenta não é a fronteira entre os dois, mas o espaço em que a acumulação se realiza.
No capítulo de Gomorra dedicado ao cimento, Saviano vai a Casarsa, ao túmulo de Pier Paolo Pasolini, e retoma o célebre “eu sei” com que Pasolini, em 1974, acusou os responsáveis pelos massacres que ensanguentaram a Itália, num texto que admitia não ter provas. Saviano articula o “eu sei” de seu tempo e o completa: eu sei e tenho as provas. As dele eram as do testemunho, o que os olhos viram nos canteiros de obra. No Brasil, as provas são também públicas: estão nos mapas, painéis, inquéritos e sentenças citados neste texto.
A zona cinzenta não é o que o Brasil pode vir a ser. É o que o Brasil já é: um país em que voto, território e vida cotidiana se organizam, em parte crescente, segundo a franquia do crime com carimbo oficial.
TSE se junta ao STF no foco da desconfiança na Justiça
Ressalve-se, de início, que isso se deve em boa medida à necessidade de lidar com o mundo novo das ferramentas tecnológicas e do uso malandro que as campanhas fazem delas com o abuso de notícias falsas para desacreditar o adversário.
Os atores políticos —estes, sim, as vedetes do show— mentem que nem sentem. Mandam às favas a responsabilidade moral, inundam o Tribunal Superior Eleitoral com ações e os juízes que se virem para tentar lidar com os prejuízos; não raro mais fortes que os desmentidos.
A dinâmica da desfaçatez geral, contudo, não autoriza os magistrados a embarcarem nessa canoa. Ao contrário, caberia a eles se preservar como árbitros, a fim de proporcionar ao eleitorado a visão nítida da separação entre o certo e o errado de acordo com a lei.
Quanto mais as campanhas enveredam pelo terreno do vale-tudo, maior precisaria ser o cuidado dos magistrados em não permitir o contágio das preferências políticas. É evidente a intenção dos times oponentes de tirar proveito da divisão que se estabeleceu nos tribunais.
O combate à desinformação e o resguardo da civilidade e do equilíbrio de forças na eleição requerem unidade das instâncias judiciais superiores, que, no entanto, têm dado margem à interpretação de que se encontram irremediavelmente partidarizadas.
O Supremo Tribunal Federal deu a letra dessa toada, exibindo-se politicamente engajado numa cisão que invadiu o TSE na reta final do primeiro e no decorrer do segundo turno.
Se aos políticos não ocorre maneira melhor de disputar posições que não a de se escorar nos recursos à Justiça, a esta caberia não se deixar instrumentalizar, não invadir a competência da corte vizinha nem permitir a erosão de confiança nas instâncias garantidoras da legalidade.
Para quem Flávio está mentindo?
Flávio Bolsonaro promete ao mercado financeiro um ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões nos primeiros 18 meses de governo. Aos eleitores, garante que não cortará benefícios sociais, não mexerá nas aposentadorias nem reduzirá recursos para saúde e educação. Ontem, foi além: anunciou voto favorável ao fim da escala 6x1 e prometeu que o governo compensará os empresários pelos custos da medida.
É difícil que todas essas promessas sejam cumpridas. Ou ele vende ao mercado um ajuste que não pretende fazer, ou esconde dos eleitores os sacrifícios que pretende impor. Nenhuma das hipóteses é tranquilizadora, e ambas podem ser traduzidas como estelionato eleitoral.
A equipe econômica de Flávio chegou a estudar um ajuste de 2% do PIB, equivalente a R$ 250 bilhões, com mudanças nas regras de correção da Previdência e nos pisos constitucionais de saúde e educação. A campanha negou que essas propostas integrem seu programa. Ficou a promessa de um “tesouraço” de 1,5% do PIB, sem explicação convincente sobre onde a tesoura cortará.
Flávio garante manutenção do Bolsa Família, do Minha Casa, Minha Vida, para o qual promete até prestações menores, e dos demais programas sociais. Rejeita a desvinculação das aposentadorias do salário mínimo, para o qual diz que continuará concedendo reajustes acima da inflação. Promete também reduzir impostos, diminuindo a arrecadação. Agora, quer que o governo banque parte da conta da redução da jornada de trabalho.
Tudo isso enquanto promete enxugar drasticamente as despesas públicas. Só que 92% do Orçamento federal já está comprometido com gastos obrigatórios. Não há como produzir uma economia dessa magnitude apenas cortando ministérios, cargos comissionados e penduricalhos, combatendo fraudes ou vendendo imóveis da União. São medidas defensáveis, algumas necessárias, mas cuja contribuição para a meta anunciada nem sequer foi quantificada. Privatizações geram receitas pontuais, não redução permanente das despesas. O governo de seu pai prometeu muitas, entregou poucas.
A pergunta que se impõe é se parte do mercado financeiro não tem sido deliberadamente cínica ao aceitar essa grave ambiguidade. Será que investidores e economistas acreditam que Flávio cumprirá as promessas feitas a eles e romperá as assumidas com os mais pobres e, por isso, está tudo bem? Uma mentira precificada, para ficar no jargão compreensível ao meio — desde que os enganados sejam os outros, bem entendido.
Lula tem, ao longo dos anos, explicitado o compromisso com uma agenda social clara e uma meta fiscal fluida, insuficiente. Tem responsabilidade pelo agravamento da situação das contas públicas, resiste a cortar despesas obrigatórias e não apresentou proposta clara para reduzir ou ao menos estabilizar a dívida pública, que chegou a níveis impraticáveis. Sua frouxidão fiscal é criticada com razão.
Mas ele nunca escondeu que a preservação dos programas sociais e a valorização do salário mínimo são prioridades de seu projeto político. Pode-se discordar das escolhas, podem-se questionar seus custos e pode-se exigir que ele diga como pretende financiá-las, mas não se pode alegar surpresa. Diante disso, vê-se que o setor financeiro e também o produtivo concedem a Flávio um crédito de confiança que negam ao petista, por mera afinidade ideológica.
Há uma diferença entre confiar na capacidade de um candidato para executar um programa conhecido e torcer para que ele pratique o contrário do que promete caso eleito. A segunda hipótese implica aceitar que o eleitor é enganado deliberadamente.
Se o mercado acredita que a agenda econômica verdadeira é a que circula reservadamente entre seus interlocutores privilegiados, deveria exigir que fosse explicitada. Afinal, o compromisso com a responsabilidade fiscal não deveria dispensar a obrigação com a transparência na campanha, até para que os penalizados possam fazer uma escolha informada.




