segunda-feira, 22 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 


A paz tornou-se exceção

As imagens da guerra na Ucrânia continuam a atravessar diariamente os ecrãs europeus. No Médio Oriente, sucessivas escaladas militares recordam a fragilidade de uma das regiões mais voláteis do planeta. No Indo-Pacífico, a rivalidade entre os Estados Unidos e a China redefine alianças, estratégias e prioridades económicas.


À primeira vista, trata-se de crises distintas, separadas por geografias, interesses e protagonistas. Na realidade, todas apontam para a mesma transformação histórica. O mundo entrou numa nova fase das relações internacionais e essa mudança é mais profunda do que qualquer conflito isolado.

Durante mais de três décadas, o Ocidente viveu sob uma convicção que parecia confirmada pelos acontecimentos. A Guerra Fria terminara sem confronto direto entre as grandes potências, a globalização expandia-se a um ritmo sem precedentes, as economias tornavam-se cada vez mais interdependentes e a prosperidade parecia avançar lado a lado com a estabilidade. Persistiam conflitos, crises e ameaças, mas a direção da História parecia definida. A política de poder, que durante séculos moldou as relações internacionais, dava lugar a um mundo regulado por instituições, comércio e cooperação. Hoje, essa convicção está a desfazer-se.

Da Ucrânia ao Médio Oriente, das disputas no Indo-Pacífico à crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, a atualidade internacional é frequentemente apresentada como uma sucessão de crises independentes. Essa leitura ajuda a compreender os acontecimentos, mas não explica a sua verdadeira relevância. O que estamos a testemunhar não é apenas uma acumulação de conflitos. Estamos a assistir ao fim de um período histórico excecional e ao regresso de uma realidade que muitos julgavam ultrapassada: a competição estratégica entre Estados voltou a ocupar o centro da política internacional.

Esta constatação obriga a uma inversão de perspetiva . Durante anos, o debate centrou-se na pergunta errada. A questão nunca foi saber se a globalização eliminaria a geopolítica. A questão era saber durante quanto tempo conseguiria mantê-la em segundo plano.

Os acontecimentos dos últimos anos mostram que as rivalidades estratégicas entre Estados nunca deixaram de moldar o sistema internacional. A competição por influência, recursos, mercados e posições de poder continuou a existir, ainda que disfarçada por um período excepcional de integração económica, expansão comercial e relativa estabilidade. O que hoje parece um regresso da geopolítica é, na verdade, o fim da ilusão de que ela alguma vez deixou de ocupar um lugar central na História.

A estabilidade que marcou as últimas décadas foi frequentemente encarada como um estado natural das relações internacionais. Vista à distância, porém, poderá ter sido precisamente o contrário: uma exceção rara. Poucas vezes na era moderna existiu um período tão prolongado em que as principais potências evitaram confrontações diretas, as cadeias globais de comércio conheceram uma expansão tão intensa e a integração económica avançou com tão reduzida resistência geopolítica.

O que muitos consideraram a nova normalidade pode ter sido, afinal, um breve intervalo num sistema internacional tradicionalmente moldado pela competição, pelo equilíbrio de forças e pela afirmação dos interesses nacionais.

A invasão da Ucrânia pela Rússia tornou essa mudança impossível de ignorar. O seu significado ultrapassa largamente as fronteiras do conflito. Pela primeira vez desde o final da Guerra Fria, uma potência nuclear procurou alterar pela força a arquitetura de segurança europeia e desafiar pressupostos que, durante décadas, foram considerados inquestionáveis. A guerra revelou não apenas a vulnerabilidade de um país, mas também a fragilidade de um conjunto de certezas sobre as quais a Europa construiu a sua visão do mundo.

A relevância desta transformação para os europeus é difícil de exagerar. Durante grande parte das últimas três décadas, a Europa beneficiou de condições estratégicas extraordinariamente favoráveis. Energia relativamente acessível, mercados globais em expansão, segurança garantida pela aliança transatlântica e ausência de ameaças militares diretas permitiram concentrar recursos na prosperidade económica e no desenvolvimento social.

Hoje, praticamente todos esses pressupostos estão sob pressão. A discussão sobre defesa, autonomia estratégica, competitividade industrial e segurança energética deixou de ser um exercício académico para se transformar numa prioridade política.

O mesmo padrão pode ser observado noutras regiões. No Médio Oriente, as tensões recorrentes entre atores regionais e internacionais demonstram que a estabilidade continua a depender de equilíbrios delicados e frequentemente precários. Sempre que a situação se deteriora, os seus efeitos fazem-se sentir muito para além da região. Os mercados energéticos reagem, as rotas comerciais tornam-se mais vulneráveis e a incerteza repercute-se nas economias de todo o mundo. Num sistema profundamente interligado, as consequências da instabilidade deixaram há muito de respeitar fronteiras.

Ao mesmo tempo, a ascensão da China introduziu um elemento novo na equação global. Pela primeira vez desde o fim da União Soviética, os Estados Unidos enfrentam um concorrente com capacidade para disputar influência económica, tecnológica, militar e diplomática à escala planetária.

Esta rivalidade não reproduz mecanicamente os padrões da Guerra Fria. As economias permanecem profundamente ligadas e os incentivos à cooperação continuam significativos. Ainda assim, a lógica estratégica é inequívoca. As duas maiores potências mundiais passaram a encarar-se cada vez mais como concorrentes na definição das regras que moldarão a próxima fase da ordem internacional.

A consequência mais importante desta transformação não é o aumento do número de conflitos. É a erosão gradual dos mecanismos que, durante décadas, ajudaram a limitar esses conflitos. As instituições multilaterais continuam a desempenhar funções essenciais, mas enfrentam dificuldades crescentes para produzir consensos entre atores cujas prioridades estratégicas se afastam progressivamente. O desafio vai além das divergências entre Estados. Reflete uma crescente incapacidade de definir princípios e objetivos comuns para a gestão da ordem internacional.

É aqui que se encontra o verdadeiro desafio do nosso tempo. O debate público concentra-se frequentemente nas crises do momento, nos líderes envolvidos ou nos acontecimentos mais recentes. No entanto, os fenómenos que definem uma época raramente se resumem às manchetes de um dia. O que está em causa é algo mais profundo: a capacidade das estruturas políticas internacionais para gerir rivalidades sem permitir que estas se transformem em confrontações permanentes.

Nada disto significa que o mundo esteja condenado a uma nova guerra global. A História não funciona como uma sequência inevitável de catástrofes. As grandes potências continuam a possuir fortes incentivos para evitar confrontos directos. A diplomacia mantém a sua relevância. A cooperação económica continua a produzir benefícios mútuos. Mas seria igualmente imprudente ignorar os sinais de uma mudança estrutural que se desenrola diante dos nossos olhos.

Durante muitos anos, a principal preocupação das democracias ocidentais consistiu em gerir a prosperidade gerada pela globalização. Hoje, o desafio é mais exigente. Consiste em preservar a estabilidade num mundo onde as rivalidades estratégicas regressaram ao centro das decisões que moldam a política internacional.

Não se trata de um regresso ao século XX nem de uma repetição automática dos seus conflitos. Trata-se da transição para um contexto internacional em que muitas das premissas que orientaram as últimas décadas perderam a solidez que lhes era atribuída.

O século XXI não está a assistir ao colapso da ordem internacional. O que revela é o esgotamento de uma convicção que marcou as últimas décadas. A crença de que a integração económica seria suficiente para neutralizar rivalidades geopolíticas revelou-se mais frágil do que muitos imaginaram. A prosperidade aproximou sociedades e criou oportunidades extraordinárias. Não eliminou, porém, os interesses estratégicos, as ambições nacionais nem a disputa pelo poder.

A transformação já está em curso. O verdadeiro desafio consiste em perceber se os principais centros de poder compreenderam a sua profundidade e as suas implicações. O risco não está em interpretar mal os primeiros sinais de mudança. Está em persistir na convicção de que o contexto continua a ser o mesmo quando já deixou de o ser.

O que os acontecimentos recentes vieram pôr em causa não é a possibilidade de cooperação entre Estados. É a ideia de que essa cooperação seria suficiente para neutralizar rivalidades estratégicas duradouras.

A paz, longe de ser um ponto de chegada definitivo, continua a ser uma construção política frágil, exigente e sempre inacabada. Durante uma geração, muitos acreditaram que ela podia ser tomada como adquirida. Os acontecimentos dos nossos dias recordam-nos o contrário. E talvez essa seja a principal lição geopolítica do nosso tempo.

A humilhação diária

Minha amiga Ana Luiza recebeu e me mandou. Num cartum, um idoso de capa, cachecol e bengala está diante de um balcão de informações. A atendente lhe mostra o celular e o instrui: "O senhor baixa o aplicativo e entra em ‘gerar código de acesso’. Aqui tem o certificado digital. Faz o login e clica em ‘escolher o arquivo’. Ele vai pedir um código de liberação do acesso nas extensões JPG, PNG ou PDF... Entendeu?". O cartum é assinado por Tom Cotrim. Mostra uma realidade que está acontecendo neste momento no seu bairro, com macróbios quase centenários como eu ou talvez você.


Sob o cartum, segue-se um texto não assinado: "Uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um smartphone para acessar os seus próprios direitos não é moderna. É uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos. Em 2026, tudo virou um aplicativo, um código, um portal. Mas quem construiu este país com as próprias mãos vê-se hoje analfabeto dentro da própria casa. Para marcar uma consulta ou pagar uma conta, é preciso um filho ou neto, quando existe um".

O texto continua: "Isso é exclusão. A tecnologia deve ajudar, não selecionar quem tem direito à dignidade. Quando deixamos para trás aqueles que vieram antes de nós, não estamos evoluindo —apenas nos tornando mais cômodos e egoístas".

Há anos, no começo da ditadura do smartphone, observei as tentativas de gente da minha geração para se entender com o bicho, assim como se entendia com as novidades da antiga tecnologia. Não queriam parecer velhos ou superados. Mas eles se superestimaram. Não foram capazes de acompanhar a velocidade com que o smartphone evoluiu. Hoje, a tecnologia acha normal que a enorme parcela da população que se recusa a morrer antes da hora —a nossa— seja diariamente humilhada por aquela joça.

Levei a vida me aplicando para escrever direito, ficar atento à história, entender o que lia. Não tenho mais idade, capacidade ou vontade de me converter em engenheiro eletrônico. E acho burro o sistema binário, o do sim ou não. Prefiro o talvez.

Ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões 

Em Brasília, acha-se normal o que é totalmente anormal

A cena se passa em Brasília, em meados de 2024, pouco antes do evento promovido em Lisboa pelo ministro do Supremo Gilmar Mendes — o famoso Gilmarpalooza. Participam do diálogo o senador pelo Piauí, Ciro Nogueira, presidente do PP, e o deputado pela Paraíba, Hugo Motta, do Republicanos. Quem relata a conversa é Hugo Motta, numa entrevista ao Estadão:

— Ciro me chamou: “Vamos para o evento do Gilmar”. Eu disse: “Ciro, não comprei passagem e tal, e eu tenho que voltar”, porque era a época da festa junina lá nossa. Ele disse: “Não, pô, vamos com o Daniel de carona”. Conhecia o Daniel, fomos de carona. Chegou lá, o Daniel tinha reservado o hotel. Também não vejo problema nisso, é um evento corporativo. Se você falar com qualquer pessoa, é normal você convidar uma pessoa, botar no hotel.


O Daniel é o Vorcaro, claro. A carona é num jatinho. O hotel é o cinco estrelas Four Seasons de Lisboa. De maneira que temos um senador e um deputado federal pegando uma boca-livre de um banqueiro que tinha questões de interesse tramitando no Congresso Nacional — questões que seriam analisadas e votadas pelos parlamentares.

Tudo normal, não é mesmo? Uma situação corriqueira no ambiente de Brasília. Onde mais seria normal “você convidar uma pessoa, botar no hotel”? Sendo que a “pessoa”, no caso, é uma autoridade, e o patrocinador, interessado em negócios com dinheiro público. Todo mundo sabe disso. Reparem no comentário de Hugo Motta, quando ele justifica a boca-livre: “se você falar com qualquer pessoa...”. Quer dizer: se você falar com qualquer pessoa em Brasília, ela dirá que é normal.

Motta também esteve presente num fórum jurídico promovido por Vorcaro em Nova York. Entre os exaustivos debates, participantes tiveram direito a momentos de relaxamento: uma degustação de uísque e charutos num clube de luxo. Diz Motta: “Eu fui também ... Os ministros estavam. Não foi escondido isso. Tinha gente da imprensa lá, de todo mundo. Não era um negócio secreto, vamos nos disfarçar aqui. Não, não. Foi à luz do dia”.

Vorcaro ainda não tinha sido apanhado pela Polícia Federal. Era um banqueiro que conhecia todo mundo em Brasília, onde também promovia jantares, festas e “experiências” — como elas, autoridades, chamam um banquete comandado por chef badalado.

Hoje presidente da Câmara, Motta diz que os parlamentares recebem empresários dos diversos setores, banqueiros, líderes políticos, autoridades de outros Poderes — sempre para discutir temas nacionais. Qual o problema nisso? Nenhum, desde que as conversas se deem formalmente, nos gabinetes, com agenda marcada e publicada. Deveriam ser audiências formais. O que é muito diferente de um papo regado a uísque de 30 anos.

Parlamentares podem, é claro, participar de eventos no exterior que considerem relevantes. Recebem até diárias para custear as viagens, pagas em dólares. Isso para que o parlamentar possa viajar com independência, ele mesmo escolhendo sua agenda e dedicando-se exclusivamente a ela. Ao trabalho. E por quê? Porque é pago com dinheiro público, o nosso dinheiro. E, se tem a diária, ninguém precisa pegar carona em jatinho nem ter um amigo para “botar no hotel”.

A sinceridade, a simplicidade de Motta impressionam por isso. Ele considera normal o que é totalmente anormal, ou deveria ser, numa República. Jatinhos, festas, hospedagens em hotéis internacionais ou resorts locais, mesadas em dinheiro, presentes, incluindo apartamentos — tudo isso parece normal. Os presenteados por Vorcaro dizem que não sabiam o que ele fazia. Ora, mesmo que fosse o banqueiro mais ortodoxo do mundo, também não podia.

Motta, um político mais novo, falou como alguém que usufrui alegremente aquilo tudo. Muitos outros também usufruem, mas se calam. Mesmo quando apanhados, não fornecem qualquer explicação ao público que paga seus salários. Até sentem-se ofendidos quando solicitados a falar. Nos bastidores, manobram para bloquear as investigações.

O futebol e seus oportunistas

Creio que foi Jorge Valdano quem disse isso (e acredito nisso com base em simples estatísticas: quando algo interessante é dito sobre futebol no meu idioma, é muito provável que seja Valdano o responsável). A reflexão foi mais ou menos assim: nunca antes a Copa do Mundo pareceu tão venal, tão comercializada, tão elitista, tão questionável em seu desejo de encobrir autocracias; e, no entanto, a próxima começará, e os torcedores de futebol do mundo todo estarão lá, diante da tela verde, sentindo as mesmas emoções primordiais e insubstituíveis que sentimos desde os tempos da inocência. E, de fato, foi exatamente o que aconteceu. Esta Copa do Mundo com os três países começou tão bem, com tanto futebol de qualidade, tantos gols e tantas satisfações, grandes e pequenas, que corremos o risco de acreditar que estamos assistindo ao mesmo futebol de sempre. Mas não é o caso.

Sob a presidência de Gianni Infantino, essa figura nefasta que se dedicou a usar o esporte mais belo para encobrir os regimes mais inescrupulosos, a Copa do Mundo foi realizada na Rússia de Putin e no Catar da era da sharia , e agora está sendo realizada nos Estados Unidos de Trump. E o país anfitrião, que recebe cerca de cinquenta nações, é um governo abertamente xenófobo que tenta diariamente minar a ordem internacional e destruir as instituições que defendem o multilateralismo. Tudo isso é grotesco por si só: ninguém pode descartar o risco de que o ICE, uma estrutura paramilitar que assassina cidadãos inocentes à luz do dia, use os estádios da Copa do Mundo como uma armadilha para caçar imigrantes; ninguém pode ignorar o cinismo de um presidente que embarca em uma guerra ilegal contra o Irã e depois escreve sobre a seleção nacional daquele país: “Eles podem jogar na Copa do Mundo, mas não acho apropriado que o façam, para sua própria segurança e suas próprias vidas.”

Há uma ironia nesta Copa do Mundo que nunca deixa de me fascinar (digo isso por educação e para evitar dizer que me causa repulsa). É a seguinte: o país anfitrião de uma Copa do Mundo que não existiria sem a imigração latino-americana é um regime que persegue imigrantes latino-americanos com particular ferocidade e crueldade. Aqueles de nós que já vivenciaram Copas do Mundo suficientes sabem como tem sido difícil interessar o americano médio por este esporte, que é profundamente alheio aos seus gostos e prioridades: este esporte onde uma partida pode terminar, para o desespero dos fãs de basquete, sem que nenhuma das equipes tenha marcado um único ponto; este esporte onde não há cantores, nem sorteios, nem bichos de pelúcia gigantes no intervalo para entreter os espectadores. A lógica dos esportes americanos, o entretenimento constante, não se encaixa bem com o futebol, que para muitas pessoas nem sequer é entretenimento. “Algumas pessoas pensam que futebol é uma questão de vida ou morte”, disse o velho Bill Shankly, técnico do Liverpool. “Essa atitude me decepciona: futebol é muito, muito mais importante.”

Foram necessárias décadas para que os empresários do futebol, que há muito reconheceram o potencial econômico inesgotável do esporte mais popular do mundo, o integrassem ao vasto shopping center que é a sociedade americana. As tentativas começaram no início dos anos 70, quando o New York Cosmos trouxe Pelé e Beckenbauer ao país para ver se conseguiam semear o futebol naquelas terras áridas: não tiveram sucesso. Cerca de vinte anos depois, os Estados Unidos sediaram sua primeira Copa do Mundo , e hoje a lembramos por uma das finais mais tediosas da história (e pela vergonhosa tragédia de um jogador colombiano assassinado por mafiosos após marcar um gol contra). Mas foi preciso tempo e ondas de imigração latino-americana, cujos filhos têm filhos que entendem menos espanhol do que entendem de futebol, para que tudo o que faz o futebol ser o que é no resto do mundo emergisse de fato: tradição, memória, lealdade a um time que também é lealdade a uma comunidade, ou àquela rara forma de comunidade que é a infância. Em resumo: tudo isso é tão difícil de explicar para quem nunca sentiu.

O problema é que o futebol, no esforço que seus donos financeiros fizeram para forçá-lo a entrar na cultura americana , pode estar perdendo sua essência. Ou melhor: é possível que os aproveitadores do futebol, como o Sr. Infantino, estejam dispostos, por pura ganância, a transformar o esporte em algo que ele não é. Não me refiro apenas a troféus idiotas como o Prêmio da Paz da FIFA, que Infantino inventou para dar a Trump — talvez o ato de bajulação mais vergonhoso do século. Isso não é exatamente novidade: Mussolini inventou a Coppa del Duce em 1934 para que o verdadeiro troféu não o ofuscasse, e a única diferença é que não havia um Infantino para entregá-lo a ele naquela época. Mas me refiro, acima de tudo, à transformação desse esporte de rua, nascido em terrenos baldios e genuinamente popular, em uma atividade entregue à exploração econômica de seus mínimos aspectos. O preço obsceno dos ingressos para esta Copa do Mundo é o menor dos problemas: até as regras estão mudando.

Agora vemos partidas divididas em quatro quartos — como no basquete — em vez dos tradicionais dois tempos, e chamar esses intervalos de pausas para hidratação não disfarça o fato de que são, na verdade, intervalos comerciais: para que os anúncios preencham esses minutos nas transmissões internacionais. Dizem que esta final da Copa do Mundo terá um intervalo de 30 minutos em vez de 15, e durante ele haverá um show , músicas serão cantadas e pessoas dançarão para que a partida de futebol se assemelhe ao Super Bowl: não importa que, nesse meio tempo, os jogadores se refresquem e a tensão se dissipe. Toda vez que o VAR intervém para anular um gol porque um computador detectou a ponta de uma chuteira do outro lado da linha, ou porque um braço está em posição de impedimento mesmo que as pernas comecem mais atrás, eu penso a mesma coisa: em um esporte que nasceu nas ruas e campos abertos, qualquer coisa que os quatro pares de olhos de quatro árbitros bem treinados não consigam detectar não deveria existir. O VAR nos roubou a emoção , a espontaneidade e a astúcia; Em contrapartida, isso só enriqueceu os fabricantes de uma tecnologia que teria tirado do mundo o gol de Maradona em 1986.

Sim, eu sinto — e não estou sozinho — que estamos sendo roubados. A única decisão positiva que os especuladores do futebol tomaram para 2026 foi a expansão do torneio: com 48 seleções, esta Copa do Mundo é verdadeiramente global. Em uma competição onde a tradição pesa muito — 80 seleções jogaram a Copa do Mundo desde 1930, mas apenas oito foram campeãs —, os estreantes nos deram mais de um motivo para comemorar. O empate de Cabo Verde com a Espanha , mesmo indo contra meus próprios interesses, me lembrou algo que outro treinador lendário disse. “A bola é redonda e as partidas duram 90 minutos”, disse Sepp Herberger em 1954. “Até aqui, nada de certezas. O resto é teoria.”
 Juan Gabriel Vásquez