À primeira vista, trata-se de crises distintas, separadas por geografias, interesses e protagonistas. Na realidade, todas apontam para a mesma transformação histórica. O mundo entrou numa nova fase das relações internacionais e essa mudança é mais profunda do que qualquer conflito isolado.
Durante mais de três décadas, o Ocidente viveu sob uma convicção que parecia confirmada pelos acontecimentos. A Guerra Fria terminara sem confronto direto entre as grandes potências, a globalização expandia-se a um ritmo sem precedentes, as economias tornavam-se cada vez mais interdependentes e a prosperidade parecia avançar lado a lado com a estabilidade. Persistiam conflitos, crises e ameaças, mas a direção da História parecia definida. A política de poder, que durante séculos moldou as relações internacionais, dava lugar a um mundo regulado por instituições, comércio e cooperação. Hoje, essa convicção está a desfazer-se.
Da Ucrânia ao Médio Oriente, das disputas no Indo-Pacífico à crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China, a atualidade internacional é frequentemente apresentada como uma sucessão de crises independentes. Essa leitura ajuda a compreender os acontecimentos, mas não explica a sua verdadeira relevância. O que estamos a testemunhar não é apenas uma acumulação de conflitos. Estamos a assistir ao fim de um período histórico excecional e ao regresso de uma realidade que muitos julgavam ultrapassada: a competição estratégica entre Estados voltou a ocupar o centro da política internacional.
Esta constatação obriga a uma inversão de perspetiva . Durante anos, o debate centrou-se na pergunta errada. A questão nunca foi saber se a globalização eliminaria a geopolítica. A questão era saber durante quanto tempo conseguiria mantê-la em segundo plano.
Os acontecimentos dos últimos anos mostram que as rivalidades estratégicas entre Estados nunca deixaram de moldar o sistema internacional. A competição por influência, recursos, mercados e posições de poder continuou a existir, ainda que disfarçada por um período excepcional de integração económica, expansão comercial e relativa estabilidade. O que hoje parece um regresso da geopolítica é, na verdade, o fim da ilusão de que ela alguma vez deixou de ocupar um lugar central na História.
A estabilidade que marcou as últimas décadas foi frequentemente encarada como um estado natural das relações internacionais. Vista à distância, porém, poderá ter sido precisamente o contrário: uma exceção rara. Poucas vezes na era moderna existiu um período tão prolongado em que as principais potências evitaram confrontações diretas, as cadeias globais de comércio conheceram uma expansão tão intensa e a integração económica avançou com tão reduzida resistência geopolítica.
O que muitos consideraram a nova normalidade pode ter sido, afinal, um breve intervalo num sistema internacional tradicionalmente moldado pela competição, pelo equilíbrio de forças e pela afirmação dos interesses nacionais.
A invasão da Ucrânia pela Rússia tornou essa mudança impossível de ignorar. O seu significado ultrapassa largamente as fronteiras do conflito. Pela primeira vez desde o final da Guerra Fria, uma potência nuclear procurou alterar pela força a arquitetura de segurança europeia e desafiar pressupostos que, durante décadas, foram considerados inquestionáveis. A guerra revelou não apenas a vulnerabilidade de um país, mas também a fragilidade de um conjunto de certezas sobre as quais a Europa construiu a sua visão do mundo.
A relevância desta transformação para os europeus é difícil de exagerar. Durante grande parte das últimas três décadas, a Europa beneficiou de condições estratégicas extraordinariamente favoráveis. Energia relativamente acessível, mercados globais em expansão, segurança garantida pela aliança transatlântica e ausência de ameaças militares diretas permitiram concentrar recursos na prosperidade económica e no desenvolvimento social.
Hoje, praticamente todos esses pressupostos estão sob pressão. A discussão sobre defesa, autonomia estratégica, competitividade industrial e segurança energética deixou de ser um exercício académico para se transformar numa prioridade política.
O mesmo padrão pode ser observado noutras regiões. No Médio Oriente, as tensões recorrentes entre atores regionais e internacionais demonstram que a estabilidade continua a depender de equilíbrios delicados e frequentemente precários. Sempre que a situação se deteriora, os seus efeitos fazem-se sentir muito para além da região. Os mercados energéticos reagem, as rotas comerciais tornam-se mais vulneráveis e a incerteza repercute-se nas economias de todo o mundo. Num sistema profundamente interligado, as consequências da instabilidade deixaram há muito de respeitar fronteiras.
Ao mesmo tempo, a ascensão da China introduziu um elemento novo na equação global. Pela primeira vez desde o fim da União Soviética, os Estados Unidos enfrentam um concorrente com capacidade para disputar influência económica, tecnológica, militar e diplomática à escala planetária.
Esta rivalidade não reproduz mecanicamente os padrões da Guerra Fria. As economias permanecem profundamente ligadas e os incentivos à cooperação continuam significativos. Ainda assim, a lógica estratégica é inequívoca. As duas maiores potências mundiais passaram a encarar-se cada vez mais como concorrentes na definição das regras que moldarão a próxima fase da ordem internacional.
A consequência mais importante desta transformação não é o aumento do número de conflitos. É a erosão gradual dos mecanismos que, durante décadas, ajudaram a limitar esses conflitos. As instituições multilaterais continuam a desempenhar funções essenciais, mas enfrentam dificuldades crescentes para produzir consensos entre atores cujas prioridades estratégicas se afastam progressivamente. O desafio vai além das divergências entre Estados. Reflete uma crescente incapacidade de definir princípios e objetivos comuns para a gestão da ordem internacional.
É aqui que se encontra o verdadeiro desafio do nosso tempo. O debate público concentra-se frequentemente nas crises do momento, nos líderes envolvidos ou nos acontecimentos mais recentes. No entanto, os fenómenos que definem uma época raramente se resumem às manchetes de um dia. O que está em causa é algo mais profundo: a capacidade das estruturas políticas internacionais para gerir rivalidades sem permitir que estas se transformem em confrontações permanentes.
Nada disto significa que o mundo esteja condenado a uma nova guerra global. A História não funciona como uma sequência inevitável de catástrofes. As grandes potências continuam a possuir fortes incentivos para evitar confrontos directos. A diplomacia mantém a sua relevância. A cooperação económica continua a produzir benefícios mútuos. Mas seria igualmente imprudente ignorar os sinais de uma mudança estrutural que se desenrola diante dos nossos olhos.
Durante muitos anos, a principal preocupação das democracias ocidentais consistiu em gerir a prosperidade gerada pela globalização. Hoje, o desafio é mais exigente. Consiste em preservar a estabilidade num mundo onde as rivalidades estratégicas regressaram ao centro das decisões que moldam a política internacional.
Não se trata de um regresso ao século XX nem de uma repetição automática dos seus conflitos. Trata-se da transição para um contexto internacional em que muitas das premissas que orientaram as últimas décadas perderam a solidez que lhes era atribuída.
O século XXI não está a assistir ao colapso da ordem internacional. O que revela é o esgotamento de uma convicção que marcou as últimas décadas. A crença de que a integração económica seria suficiente para neutralizar rivalidades geopolíticas revelou-se mais frágil do que muitos imaginaram. A prosperidade aproximou sociedades e criou oportunidades extraordinárias. Não eliminou, porém, os interesses estratégicos, as ambições nacionais nem a disputa pelo poder.
A transformação já está em curso. O verdadeiro desafio consiste em perceber se os principais centros de poder compreenderam a sua profundidade e as suas implicações. O risco não está em interpretar mal os primeiros sinais de mudança. Está em persistir na convicção de que o contexto continua a ser o mesmo quando já deixou de o ser.
O que os acontecimentos recentes vieram pôr em causa não é a possibilidade de cooperação entre Estados. É a ideia de que essa cooperação seria suficiente para neutralizar rivalidades estratégicas duradouras.
A paz, longe de ser um ponto de chegada definitivo, continua a ser uma construção política frágil, exigente e sempre inacabada. Durante uma geração, muitos acreditaram que ela podia ser tomada como adquirida. Os acontecimentos dos nossos dias recordam-nos o contrário. E talvez essa seja a principal lição geopolítica do nosso tempo.
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