quinta-feira, 30 de julho de 2026

O mundo sem freios

Ou a deselegância como norma. O desrespeito como regra. A mentira como estatuto. A IA pode juntar tudo isso num post descarado.

Onde começou? Como começou? Quem começou? Veio primeiro o ovo ou a galinha?

Se foi o ovo, é de serpente, como a que desgraçou o paraíso. Se foi a galinha, veio disfarçada como galo da KFC, estilizado no modo laranja, batizado de Mister Trump, que de mister não tem nem os pelos da púbis.


Pois não é que o galo deu pra desafiar o mundo? Até aqui, sem resistências. Ou com poucas e fracas como aconteceu quando Hitler anexou a Áustria e parte da Tchecoslováquia, em 11 e 13 de março de 1938.

O mundo, dito civilizado, abriu só o modo observação, acreditando (?) assim evitar a guerra. Aquele vacilo deu gás à Alemanha que ligou o modo posso-tudo e invadiu a Polônia, em 1º de setembro de 1939. Sou invencível, acreditou Hitler. Quase foi.

Qualquer dos nascidos no século 20 e com leitura maior do que a de livros pra colorir conhece a história e o que resultou na História contemporânea.

A História não se repete como farsa. Embora Marx – o que é mais conhecido só como comunista raiz – defendesse que sim. As histórias, que fazem a História, costumam repetir tragédias, nada burlescas.

Mas, enquanto civilizados seguem “observando” Trump e seus filhotes, muitas serpentes, nada amigáveis, desabrocham de ovos bem podres. E com plena permissão para cruzar fronteiras e afrontar adversários, sejam ou não chefes de Estado e representantes de cortes superiores.

Assim faz Javier Milei, presidente da Argentina, que governa no modelo Trump, como se tudo pudesse por licença de seu falecido cachorro, Conan – conselheiro que, acima de Deus, concebe caminhos para suas performances, nada educadas, internas e externas.

Cadê o freio?

Milei não é palhaço. Trump não é louco. Não faltam pinos na cabeça de nenhum deles. Sobra a ambos (e a outros dos deles) propósito, objetivo e método. Embora caricatos, não são caricaturas. São de carne, ossos e ousadia para afrontar limites. Assim, ultrapassá-los – com ou sem bombas, drones e mísseis.

O mundo que planejam não tem nada do que agora – e ainda – experimentamos como: considerar, prezar e honrar.

O mundo que projetam não tem os freios dos organismos internacionais, criados no pós guerra, para impedir barbaridades. Eles têm pretensão de rearranjar acordos de convivência social ao seu bel prazer, à sua força, ao seu mando.

Enquanto civilizados seguem “observando”, Trump e os seus avançam sobre nós. Sem freios.

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Vinicius de Moraes,“Rosa de Hiroshima”

Referência às duas bombas atômicas, jogadas sobre o Japão, em agosto de 1945. Arrasaram as cidades de Hiroshima e Nagasaki. Em segundos, mataram, feriram e mutilaram mais de 200 mil pessoas. O (des)propósito era pôr fim à 2ª Guerra. O poema foi escrito em 1946, como um manifesto pacifista do pós guerra. Foi publicado em 1954 e musicado nos anos 70, do século passado.

Bom relembrar. Agosto tá logo ali.
Tânia Fusco

Um banana no Planalto

O sujeito não para em pé, suspira a Faria Lima. Na pífia cerimônia do lançamento de sua candidatura à Presidência na semana passada, em São Paulo, Flávio Bolsonaro deu mais um motivo para os agros, financistas e empresários suspeitarem que (por falar em cavalo) estão apostando no cavalo errado. Flávio B. reduziu-se a coadjuvante de seu convidado, o bufão Javier Milei, e de um telão estrelado por uma piedosa IA de seu pai e por sua madrasta, a gélida Michele. É o papel historicamente reservado ao 01 –sempre próximo de zero.


A essa tíbia performance, os mais atentos acrescentarão o áudio em que Flávio B. implorou a seu chapa Daniel Vorcaro que mandasse mais dinheiro para "Dark Horse", seu megafilme B.: "A gente tá passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida, meu irmão. Não sei como vai ser daqui pra frente. Tá nas mãos de Deus aí. Apesar de você ter dado liberdade pra gente te cobrar, fico sem graça de ficar te cobrando, mas tem muita conta pra pagar. Tá todo mundo tenso, imagina a gente dando calote nesses caras renomadíssimos do cinema mundial. Se você puder dar um toque... Desculpa o áudio longo, tá? Fica com Deus, cara".

Outras choramingas se deram quando Flávio Bolsonaro descobriu que o mortífero tarifaço que pedira e conseguira de Donald Trump reverteria em votos para Lula. Aflito, mandou uma mensagem a Trump suplicando que suspendesse as taxas até a eleição —depois elas poderiam voltar— e sugerindo que, se eleito, conduziria a economia brasileira de acordo com os interesses dos EUA. Trump ignorou-o e mandou as taxas do mesmo jeito.

O que dizer da incompetência de B. Junior para firmar alianças, garantir palanques, aliciar partidos que lhe dêem mais tempo de mídia e desencavar uma mulher para vice? E se lhe der um treco e ele desmaiar de novo num debate, como em 2016?

Se Flávio Bolsonaro é tão banana enquanto candidato, como seria se presidente? É o que os farialimers se perguntam. Ou talvez seja exatamente o que a Faria Lima quer —um bom banana no Planalto.

Flávio repetirá Trump e Milei sobre a OMS?

A desfiliação da Organização Mundial da Saúde tornou-se uma bandeira da direita nas Américas, implementada pelo presidente Donald Trump e o seu colega argentino Javier Milei.

A saída do Brasil também chegou a ser cogitada por Jair Bolsonaro em 2020. No auge da pandemia da Covid-19, Bolsonaro disse que poderia deixar de integrar a organização se ela não abandonasse o que chamou de viés ideológico.


Dada a proclamada proximidade dos Bolsonaros com Trump e Milei, é mais do que natural que na campanha eleitoral se queira saber se o candidato Flávio Bolsonaro irá se comprometer publicamente a manter o Brasil na OMS ou se a saída do órgão faz parte dos seus planos de governo.

No caso da OMS, é bom rever o passado recente. Trump determinou a saída da organização em janeiro de 2025, no dia de sua posse para o segundo mandato. A retirada tornou-se efetiva em janeiro de 2026.

A Argentina seguiu o mesmo caminho. Javier Milei divulgou a saída 16 dias depois do anúncio do americano, repetindo as críticas feitas pelo republicano.

É legítimo criticar a OMS e defender reformas. O que não faz sentido é tratar uma eventual saída do Brasil como um tema secundário. A organização coordena a rede internacional de vigilância de epidemias, que permite identificar surtos, compartilhar informações e coordenar respostas a emergências sanitárias.

O Brasil tem uma responsabilidade especial nesse debate. Foi um dos países que ajudaram a idealizar a organização, que teve o brasileiro Marcolino Candau como o diretor-geral mais longevo de sua história. O país também construiu uma tradição de liderança em saúde pública reconhecida internacionalmente.

É um tema de extrema relevância para a população —e, assim como o financiamento do SUS e tantos outros, está fora do debate. A dois meses das eleições, discussões rasas, planos de governo genéricos e um modelo de campanha de estímulo à polarização dificultam o debate.

Sem compromissos assumidos, não tem como cobrar depois. É voto no escuro.