segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Estado de mal-estar social

Entender por que, no Ocidente, tanta gente se volta contra as instituições exige mais do que as variáveis de curto prazo mobilizadas pelas análises de conjuntura. A decadência política vivida pelas democracias ocidentais revela um problema estrutural, somatizado no avanço da onda reacionária saudosista do que houve de pior no século passado. Em outras palavras, o fascismo não é a doença, mas o sintoma.
Sintoma

Pelas livrarias e análises políticas dominantes, é fácil constatar que o grande tema vigente é a “crise da democracia”. Diversos livros sobre o assunto saíram nos últimos anos, a partir das vitórias da extrema direita mundo afora. Cenário em que avançam déspotas nada esclarecidos amparados pela erosão severa da confiança nas instituições.

Nos EUA, a confiança no governo desabou de 73%, em 1958, auge do capitalismo regulado, para 17%, em 2025, menor patamar em quase 70 anos. A insatisfação com o funcionamento da democracia atinge 62% dos estadunidenses. O Latinobarómetro (2024), por sua vez, registra que apenas 28% se dizem satisfeitos com a democracia, e só 25% a consideram segura.

Dados do BTI (2026), na mesma linha, indicam algo ainda mais alarmante: 45% dos brasileiros apoiariam um golpe militar para deter a alta criminalidade, e 49% o fariam em caso de corrupção generalizada. Na Europa, uma em cada quatro pessoas vota, hoje, em partidos de extrema direita. O Reagrupamento Nacional (RN) francês saltou de 19% (2022) para 37% (2024), tornando-se a maior bancada da Assembleia Nacional. A Alternativa para a Alemanha (AfD) passou de 10% (2021) para 21% (2025), se tornando a segunda força política do país. O Partido Liberdade austríaco (FPÖ) foi de 16% (2019) para 29% (2024). O Chega português saltou de 7% (2022) para 18% (2024). O Fratelli d’Italia foi de 4% (2018) para 26% (2022). Os números seguem padrão semelhante em diversos outros países e a extrema-direita já integra coalizões de governo na Itália, Croácia, República Tcheca, Finlândia, Suécia, e lideram pesquisas na Áustria, Bélgica, França, Alemanha e Reino Unido.

O perfil etário dessa radicalização é claro: jovens, principalmente do sexo masculino. Outrora mais alinhados a partidos progressistas, agora eles se alinham às fileiras da extrema direita. Na França, 33% dos eleitores de 18 a 24 anos votaram no RN, em 2024. Na Alemanha, a AfD foi o segundo partido mais popular entre a mesma faixa, em 2025. A extrema direita não se mostra, portanto, um refúgio de conservadores saudosistas de um passado superado, mas expressão crítica de uma geração que jamais conheceu a segurança social e que enfrenta um horizonte de precariedade permanente.


O que está por trás disso? E em que medida a democracia liberal, sob o neoliberalismo, é capaz de garantir uma arquitetura política resiliente aos expedientes autoritários que ora avançam? E, não menos importante: como essa arquitetura atende às disposições necessárias ao regime democrático – que presume acesso popular ao poder?

O problema chama a atenção para a definição de democracia, categoria que aparece no debate ocidental sob viés normativo. Tomada de modo a-histórico, ela se torna categoria vazia, recurso retórico que reduz o debate a dimensões institucionais apenas funcionais à sustentação de um sistema de acumulação de riqueza e exclusão sistemática das massas em relação à política.

Se nosso problema aqui aponta para a democracia enquanto categoria, também demanda uma análise sobre a ideia de “crise”, um desvio em um sistema outrora funcional. Por isso, outra pergunta se impõe, sintetizando as anteriores: a democracia liberal funciona? A pergunta se desdobra em outra, caso a resposta seja afirmativa: funciona para quem?

Há diversas crises acometendo a civilização, mas todas, em maior ou menor medida, parecem se reportar a uma crise sistêmica: a da sociedade neoliberal. E a democracia liberal é o modelo político que legitima o modo de produção e distribuição de riqueza dominante, marcado por tantas contradições. Nesse sentido, é preciso entender seus limites não apenas históricos, mas ontológicos, o que enseja a hipótese de que a democracia liberal é o enquadramento político de um sistema social não apenas em crise, mas fadado à crise: o neoliberalismo.
Diagnóstico

O neoliberalismo tem raízes no questionamento do liberalismo clássico, então baseado na ideia de uma disposição natural à autorregulação da atividade econômica. Com a empiria fornecida pelas primeiras crises do capitalismo, principalmente após 1929 e as soluções keynesianas, alguns autores liberais entenderam que a economia não podia prescindir do papel do Estado. A questão passava a ser que papel o Estado desempenharia. Hayek, cânone neoliberal, afirma que o papel do Estado deveria restringir-se a assegurar o quadro institucional/jurídico fiador da ordem de mercado – o rule of law –, a fim de proteger a propriedade, fazer cumprir os contratos e prover bens públicos estritamente necessários que a iniciativa privada não pode fornecer – notadamente a segurança, naquilo que se apelidou de Estado “guarda noturno”, ou “Estado mínimo”. Quanto à democracia, Hayek foi claro em tomá-la como instrumento, mas não finalidade. Seria o método para limitar o poder, mas não um meio de realização para o consenso popular, entendimento revelador da tensão incontornável entre a defesa intransigente da propriedade e qualquer horizonte de justiça social – tratada como ameaça à ordem espontânea do mercado, o bem maior na cosmovisão neoliberal.

Ao alicerçar a liberdade individual sobre a propriedade, Hayek esvazia a democracia de substância, reduzindo-a a mero procedimento instrumental para deter a maior ameaça – o planejamento estatal, que via como tendência totalitária. Não surpreende, portanto, que, em plena ditadura Pinochet, tenha declarado com desconcertante franqueza preferir “um ditador liberal a um governo democrático sem liberalismo”. Franqueza sintomática da hierarquia neoliberal de valores e compromissos que enquadra a soberania popular como obstáculo à realização das forças do mercado.

A consequência desse conjunto de ideias, implementado a partir do final da década de 1970, é o declínio sensível do bem-estar social entre as sociedades capitalistas. Após o ciclo virtuoso do pós-Guerra, engendrado pela aceleração da economia americana e pela necessidade de competir com a URSS, as políticas neoliberais passaram a ser adotadas no lastro da decadência do planejamento soviético e sob medida para recompor as margens de lucro, que haviam esbarrado na tendência de queda identificada por Marx como uma das “leis” do capital.

O avanço da extrema direita, conquistando segmentos em todos os estratos sociais, é sintoma, portanto, do quadro neoliberal, bem como de contradições históricas profundas legadas pela doença crônica da modernidade, o colonialismo, gêmeo siamês do liberalismo.

Da colonização à civilização a distância é infinita; […] de todas as expedições coloniais acumuladas, de todos os estatutos coloniais elaborados, de todas as circulares ministeriais despachadas, não sobraria um único valor humano
 Aimé Césaire

O estabelecimento da democracia liberal como modelo consiste no marco contraditório central da dialética colonial. Ato contínuo, o próprio conceito de “civilização”, longe de ser natural, precisa ser historicizado. Em O processo civilizador, Norbert Elias afirma que “se examinarmos o que realmente constitui a função geral do conceito de civilização, e que qualidade comum leva todas essas várias atitudes e atividades humanas a serem descritas como civilizadas, partimos de uma descoberta muito simples: este conceito expressa a consciência que o Ocidente tem de si mesmo. […] Ele resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior a sociedades mais antigas ou a sociedades contemporâneas ‘mais primitivas’. Com essa palavra, a sociedade ocidental procura descrever o que lhe constitui o caráter especial e aquilo de que se orgulha: o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras, o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão do mundo, e muito mais”.

Seguindo esse pavio, em Cultura e Imperialismo, Edward Said chama a atenção para as representações negativas de povos não europeus como verdadeiros “espantalhos” na literatura ocidental, que representa os sujeitos periféricos à Europa como “corruptos”, “violentos” etc., dimensão colonial que hoje se expressa em amplitude ainda maior nos filmes, séries, jogos e outras formas de difusão cultural.

Em perspectiva econômica, o colonialismo deve ser lido como a espinha dorsal da acumulação primitiva de capital. Segundo Eric Williams, na clássica tese sobre a relação entre capitalismo e escravidão, “os escravos eram a energia deste mundo ocidental”. A relação entre a formação da modernidade, com sua matriz liberal e humanística, e o brutal sistema colonial marca, portanto, a dialética que está na raiz do sistema internacional moderno. Diversos autores da vanguarda do Iluminismo eram notórios defensores da escravidão. Como atesta Williams, “o tráfico negreiro não era uma atividade da escória da sociedade inglesa – sua principal administradora. Os comerciantes mais ativos nesse negócio eram homens respeitáveis, pais de família e excelentes cidadãos que ocupavam altos cargos na Inglaterra”. Daí, acentua-se a contradição flagrante da modernidade: a articulação entre os valores liberais e a violência colonial, razão pela qual a democracia liberal tolera tão naturalmente a miséria e outras expressões da desigualdade congênitas sob o capitalismo.

Os direitos humanos e a arquitetura filosófica moderna consideram a humanidade segundo um viés eurocêntrico, e foi essa a ideologia que legitimou a barbárie colonial, e que, ainda hoje, estrutura as relações centro-periferia no sistema internacional. Disso resulta que a experiência da democracia contemporânea está limitada por desigualdades estruturais. Segundo Losurdo: “[…] a democracia não pode ser definida independentemente dos excluídos; o despotismo exercido sobre os bárbaros, obrigados à obediência absoluta própria dos escravos e às infâmias da expansão e do domínio colonial, lança uma luz inquietante sobre os Estados liberais, e não só no que respeita à sua política internacional. Esta não é um elemento estranho da estrutura político-social interna. […] Na tradição liberal a teorização ou celebração da liberdade avança a par e passo com a enunciação de cláusulas de exclusão, pelo que a liberdade em última análise acaba por se configurar como privilégio. […] o triunfo do liberalismo coincide com a vitória da expansão colonial, na qual, para falar como Tocqueville, ‘a raça europeia’ submete ‘ao seu império ou influência todas as outras raças’ […].”

O quadro acima revela um sistema sub-reptício aos valores modernos, ou o custo dessa modernidade. Hoje, esse custo se acentua sob o neoliberalismo, que, longe de significar uma virada de chave na história do capitalismo, trata-se de um recrudescimento de suas tendências após a superação das contingências impostas pelo século XX. É nesse sentido que o “fim da História” se enuncia em princípios da década de 1990. Encerrada essa utopia, que discuti melhor no texto Além do fim da história, e com o avanço das tensões sociais que se acumulam no recorte das políticas neoliberais, o remédio sugerido pelos economistas que dominam o debate público – criteriosamente selecionados por meios de comunicação que representam a concentração do capital – é o conjunto de medidas conhecidas sob a ideia de “austeridade fiscal”. Segundo o enquadramento neoliberal a que se reportam essas análises, os problemas sociais são fruto da ineficiência do Estado, que deveria ser substituído tanto quanto possível pela iniciativa privada.

Mas a receita não para em pé à luz dos fatos. Em A Ordem do Capital, Clara Mattei demonstra como os economistas têm se esforçado para apresentar as medidas de austeridade como ciência. Segundo a autora, essas políticas podem ser analisadas sob a forma de uma “tríade”: austeridade fiscal, através de cortes de gastos sociais, taxação regressiva, impostos sobre consumo, corte de impostos para ricos (corporativos, sobre patrimônio); austeridade monetária, via independência dos bancos centrais e aumento das taxas de juros; e austeridade industrial, por meio de ataques a sindicatos, privatização, desregulamentação do trabalho e arrocho salarial. Os resultados são uma classe trabalhadora mais disciplinada, menos capaz de realizar greves e questionar seus patrões.

O indicador mais contundente do desastre promovido por esse conjunto de políticas (ao qual pertence, por exemplo, o Teto de Gastos aprovado durante o governo Temer) é a desigualdade de renda. Nos EUA, a fatia da renda nacional apropriada pelo 1% mais rico saiu de 10%, em fins da década de 1970, para 20% em 2022. Até mesmo países como a Suécia, paradigmáticos do bem-estar social, viram a concentração de renda saltar 40% no recorte de quatro décadas. A taxa de sindicalização, também, nos países da OCDE caiu de 35% para 15% no mesmo recorte, sinalizando a degradação da proteção trabalhista sob intensa desregulamentação.

E o impacto disso tudo sobre os salários é direto. Nos EUA, o salário médio real no setor de produção e serviços está praticamente no mesmo nível desde 1973, enquanto a produtividade mais do que dobrou. Na Europa, a estagnação salarial aponta que, entre 1995 e 2022, os salários reais cresceram em média 0,8%, enquanto o PIB per capita cresceu 1,3%.

A crise habitacional é uma das consequências mais devastadoras desse quadro. O acesso à moradia, que nos trinta anos gloriosos do welfare state era garantido por políticas de habitação social e crédito subsidiado, tornou-se motivo de sofrimento entre os europeus. Entre 2010 e 2025, os preços dos imóveis na União Europeia subiram mais de 60%, enquanto a renda cresceu menos de 15% no mesmo período. O estoque de habitação social encolheu em quase todos os países desde 1980, ao mesmo tempo em que a população de rua vem aumentando consideravelmente.

E com relação à saúde, relatórios da OCDE indicam que, hoje, a expectativa de vida dos 10% mais pobres é dez anos menor que a dos 10% mais ricos.

É nessa terra arrasada que a extrema direita avança, capitalizando ressentimentos produzidos pela precarização social e sindical que vêm destruindo a confiança na política e a percepção de classe, substituída pela ideologia do “empreendedorismo”. Se a consciência de classe está em crise entre os trabalhadores, entre a burguesia não há dúvidas sobre o que está acontecendo, como revela o sincericídio do bilionário Warren Buffett: “Existe, sim, uma luta de classes, mas é a minha classe – a classe dos ricos – que está travando essa guerra, e nós estamos vencendo.”

Do pântano neoliberal rastejam os discursos antissistema, antipolítica etc., mobilizando a insatisfação generalizada com instituições incapazes de oferecer saídas concretas para o mal-estar contemporâneo. A maioria da população, que trabalha cada vez mais sob condições cada vez piores, sente que o sistema não funciona a seu favor, mas para uma minoria que drena as energias nacionais – quiçá globais – para sustentar um padrão de vida principesco que remonta aos excessos caricatos do Antigo Regime.

Nesse contexto, o sintoma não deveria surpreender. A democracia liberal sempre teve limites explícitos enquanto ordem política do capital. A novidade é que estamos nos aproximando perigosamente deles. Hoje, quarenta anos após a queda da URSS, comemorada no Ocidente como uma “vitória da democracia”, fica patente o esgotamento do modelo baseado na privatização do acesso ao poder.

À guisa de conclusão, impõe-se a questão: dado o limite liberal à democracia, que democracia seremos capazes de produzir sob os destroços do neoliberalismo? Problema essencialmente econômico, mas que passa por enfrentamentos políticos tão difíceis quanto urgentes, no sentido de construir um horizonte de bem-estar social como única fronteira realmente capaz de deter a barbárie.

Aos 'descrentes'

Quem não acredita no voto popular não devia nem ser candidato a presidente. A descrença nas urnas é cheiro, fumaça de derrota. A urna eletrônica é tão competente que não aceita voto de argentino e americano. 
Geraldo Alckmin, vice-presidente da República, candidato à reeleição

A Inteligência Artificial não pensa por nós

Uma das muitas questões em torno da Inteligência Artificial tem sido saber quais as profissões que iria substituir. O debate tem-se centrado, na maioria das vezes, na tecnologia. Considero que podemos alargar esse questionamento e pensar no que a Inteligência Artificial nos obriga a voltar a fazer enquanto seres humanos.

Não estão a desvalorizar-se as preocupações legítimas de professores que veem alunos copiar respostas sem as questionar, profissionais que aceitam sugestões automáticas sem as verificar e leitores que trocam o esforço de compreender pela comodidade de uma síntese pronta. Negar esta tendência seria ingénuo, todavia, a forma como se escolhe usar estas ferramentas é que pode tornar-se decisiva.

Vários profissionais de diferentes áreas que usam regularmente a Inteligência Artificial partilham aquela que tem sido a minha própria experiência. Uma parte significativa procura, sobretudo, ampliar conhecimentos e questionar melhor o que a tecnologia pode entregar-lhe. Na verdade, desde que utilizo Inteligência Artificial, leio e escrevo muito mais. Cada conversa abre novas referências, desperta perguntas inesperadas e obriga-me a regressar às obras originais para confirmar e aprofundar. A Inteligência Artificial não substituiu a leitura; tornou-a, assim, mais exigente.


Quanto mais facilmente encontramos informação, maior é a necessidade de distinguir fontes credíveis de opiniões, mesmo que sustentadas com argumentos e exemplos. A tecnologia aproxima-nos dos textos, continuando a ser a leitura a aproximar-nos das ideias. Este é um dos maiores paradoxos do nosso tempo. Quanto mais competente se torna a Inteligência Artificial na produção de respostas, mesmo que aparentemente muito boas, maior é o desafio de formular as perguntas. A diferença é decisiva para desenvolvermos pensamento crítico, daí as Humanidades recuperarem uma centralidade inesperada. Algumas das empresas que lideram o desenvolvimento da Inteligência Artificial procuram integrar filósofos, linguistas, antropólogos e investigadores das ciências humanas nas suas equipas, sinal de que as grandes questões deixaram de ser apenas tecnológicas e passaram a ser questões sobre linguagem, ética, justiça, decisão e condição humana.

Não é por acaso que esta reflexão ultrapassou o domínio académico e tecnológico. Recorde-se o recente debate promovido pela Igreja Católica sobre Inteligência Artificial, que colocou a dignidade da pessoa humana e a responsabilidade ética no centro da reflexão. Independentemente das convicções religiosas de cada um, a Inteligência Artificial ultrapassa as ciências exatas e as tecnologias, e é também disso que dependerá, adiante, a forma como as sociedades democráticas decidem o que vale a pena conhecer e transmitir.

Na educação, este desafio torna-se particularmente evidente. Ensinar os alunos a utilizar ferramentas de Inteligência Artificial não é suficiente; é necessário formar professores capazes de compreender o impacto destas tecnologias, de redesenhar práticas pedagógicas e de devolver ao pensamento, à criatividade, à argumentação e ao espírito crítico um lugar central na aprendizagem. Sendo certo que uma máquina responde em segundos, a escola terá de ensinar aquilo que nenhuma resposta automática substitui, isto é, formular perguntas relevantes, interpretar, relacionar saberes, dialogar, criar e construir sentido. Sendo assim, precisaremos sempre de profissionais que desenvolvam tecnologia e, tanto ou mais, de educadores capazes de formar cidadãos intelectualmente autónomos.

O mesmo desafio, ainda mais concreto, coloca-se na saúde. A Inteligência Artificial pode apoiar diagnósticos, analisar milhões de dados clínicos ou identificar padrões invisíveis ao olhar humano. É fundamental, por isso, reunir profissionais de saúde e empresas de tecnologia num diálogo direto sobre onde a Inteligência Artificial pode ajudar e onde a decisão clínica tem de permanecer humana. Foi nesse espírito que nasceu a II Tertúlia Inteligência Artificial e Saúde, realizada recentemente no Palácio dos Silveiras, em Viseu, que contou entre os convidados com uma empresa de tecnologia dedicada à saúde no âmbito da radiologia. Ficou clara a mensagem de que a leitura da imagem e a decisão diagnóstica continuam a exigir o olhar do radiologista, apoiado pela tecnologia sem nunca ser substituído por ela. A escuta, a empatia, o discernimento clínico e a responsabilidade perante o outro permanecem, ali, insubstituíveis. Reforçou-se, assim, que a discussão sobre Inteligência Artificial não é apenas tecnológica.

Curiosamente, a Inteligência Artificial obriga-nos a regressar a perguntas muito antigas (o que significa compreender, o que significa criar, o que significa decidir, o que significa pensar). Ao longo da História, cada grande transformação tecnológica obrigou a Humanidade a redefinir-se, e hoje acontece o mesmo. A Inteligência Artificial torna a filosofia cada vez mais imprescindível. Do mesmo modo, não diminui a importância da literatura para que possamos conhecer e vivenciar narrativas, interpretar metáforas, reconhecer ironias ou aceitar a ambiguidade da linguagem, que continuam a ser experiências humanas.

Também a comunicação adquire um novo significado. Vivemos rodeados de ferramentas capazes de produzir texto em segundos. Comunicar, no entanto, nunca foi apenas produzir palavras. É construir relações, interpretar contextos, reconhecer silêncios, assumir responsabilidades e encontrar uma linguagem capaz de dar sentido ao que vivemos. Um dos maiores desafios do nosso tempo é, portanto, aprender a pensar melhor com a Inteligência Artificial, em vez de tentar competir com ela. Isso exige mais cultura, mais leitura, mais capacidade crítica, mais imaginação e mais diálogo entre ciência, tecnologia, filosofia, artes e educação.

Para além do que falta descobrir, a Inteligência Artificial pode acelerar a produção de conhecimento; o ser humano, no entanto, é quem decide o que vale a pena conhecer, preservar e transmitir, de acordo com os princípios e valores que as sociedades democráticas defendem. A verdadeira transformação do nosso tempo não é, pois, tecnológica, torna-se a oportunidade de redescobrirmos aquilo que nenhuma máquina pode viver por nós (pensar, sentir, compreender, interpretar, criar e atribuir sentido ao mundo).

Meritocracia na base e patrimonialismo no topo

Temos assistido a uma erosão sustentada da capacidade de Estado em nosso país. Em termos comparativos, nós tivemos uma trajetória relativamente bem-sucedida, embora incompleta, de insulamento de certos setores da administração pública em relação à política partidária, ao familismo e ao patrimonialismo.

Uma das peças dessa trajetória tem sido a disseminação dos concursos públicos. O Brasil foi o primeiro país na América Latina a instituir o concurso público (1936) como forma de ingresso para carreiras no governo federal. Na área da diplomacia, os concursos datam de 1919.


A China aparece como a grande precursora. No início do século 11, as provas dos concursos já eram copiadas para impedir que os examinadores reconhecessem a caligrafia dos candidatos, e cada uma era avaliada por duas pessoas! Dois séculos depois, centenas de milhares disputavam as seleções. A partir de meados do século 17, a probabilidade de aprovação em cada etapa chegava a apenas 1 em 6.000.

O sistema sobreviveu, com poucas interrupções, até 1904. Foi abandonado e reintroduzido em caráter experimental apenas em 1987, quando o regime iniciou reformas econômicas e políticas. A ironia histórica é iluminadora: o país que inventara os concursos abandonou-os para depois retomá-los.

O Reino Unido adotou princípios meritocráticos em 1855, mas a competição realmente aberta só começou depois de 1870. Nos Estados Unidos, o Pendleton Act de 1883 instituiu o acesso meritocrático e criminalizou os assessments (dízimo pago pelos funcionários que eram nomeados pelos partidos, prática introduzida recentemente entre nós). Inicialmente restrito a uma pequena parcela do funcionalismo federal, o sistema alcançava 88% dos servidores em 1951. Na Argentina, a primeira lei federal sobre concursos é de 1973, segundo o The Merit Project: A New Dataset on Civil Service Examinations, 1789–2020, de Driscoll et al, (2015).

O concurso não implica em meritocracia e tem limitações importantes. Tampouco produz um Estado competente. Leis podem coexistir com patronagem, exceções e seleções fraudulentas. Onde não existem regras impessoais de recrutamento, dificilmente existe burocracia meritocrática. O concurso limita o patronato na entrada da burocracia, mas não controla a seleção de seus dirigentes nem impede que redes familiares capturem as instituições encarregadas de fiscalizá-la.

O que ainda se observa em nosso país, sobretudo no âmbito subnacional, onde se concentram 90% dos vínculos públicos, são estruturas patrimoniais e familistas. Elas se expressam das mais diversas formas: nomeações cruzadas ou familismo despudorado nos três Poderes. E aqui há pouca distinção ideológica. As nomeações de esposas de governadores para tribunais de contas — são oito casos recentes — são as mais escabrosas.

A degradação atual não consiste no desaparecimento dos concursos, mas na expansão de redes políticas e familiares ao redor das burocracias profissionais, neutralizando o universalismo formal que elas deveriam proteger. Nas redes familiares que entrelaçam, por exemplo, advogados e magistrados, e que ganharam escala inédita, o conflito de interesses é o menor dos problemas.