sábado, 29 de agosto de 2026
'Dark Horse', estrangeiro onde?
Flávio Bolsonaro está se jactando de que as especulações sobre "Dark Horse" , filme sobre seu pai, são "página virada". A Ancine (Agência Nacional do Cinema) deu ao filme o registro de "obra estrangeira", o que o põe a salvo de investigações sobre a origem, a trajetória e o destino do dinheiro usado na produção. Com isso, por ser uma produção "americana", ninguém tem nada a ver com o fato de que esse dinheiro, gerado no Brasil, foi dar um passeio pelos EUA e voltou para pagar as contas aqui. Mas será ele, tecnicamente, uma "obra estrangeira"?
Como definir se uma produção cinematográfica é nacional ou estrangeira? Ao contrário do que se pensa, não é pelo nome do produtor que, nos pôsteres, vem logo abaixo dos atores e do diretor. Ele é apenas o produtor executivo, o que contrata os astros e a equipe, supervisiona as filmagens, controla o organograma e acompanha o processo até o último corte e a exibição. É um funcionário, assim como todos que passam às pressas nos créditos ao fim do filme, só um pouco mais graduado. O verdadeiro produtor, cujo nome nem sempre aparece, é o que pôs o dinheiro.
Este é o dono do filme, o proprietário legal do produto final, ou seja, do arquivo ou do negativo original, da distribuição e exibição em outras mídias e, importante, do copyright. Enfim, o produtor é o financiador, aquele que pagou para que o filme fosse possível –e que, certamente, exigirá muita coisa em troca, seja em dinheiro ou, talvez, favores institucionais. Quem botou o dinheiro para filmar "Dark Horse"?
Não me parece plausível que produtores americanos invistam num filme cuja bilheteria é duvidosa até no Brasil. Além disso, o país inteiro escutou Flávio Bolsonaro suplicar milhões a Daniel Vorcaro a fim de pagar os atrasados aos bacanas americanos. Será então Vorcaro o produtor? Nesse caso, "Dark Horse" é uma produção nacional e nos deve satisfações, sim.
Ficam assim informados a Ancine, a Polícia Civil de São Paulo , a PF, a PGR, o STF e o, no caso, descansado ministro André Mendonça.
Como definir se uma produção cinematográfica é nacional ou estrangeira? Ao contrário do que se pensa, não é pelo nome do produtor que, nos pôsteres, vem logo abaixo dos atores e do diretor. Ele é apenas o produtor executivo, o que contrata os astros e a equipe, supervisiona as filmagens, controla o organograma e acompanha o processo até o último corte e a exibição. É um funcionário, assim como todos que passam às pressas nos créditos ao fim do filme, só um pouco mais graduado. O verdadeiro produtor, cujo nome nem sempre aparece, é o que pôs o dinheiro.
Este é o dono do filme, o proprietário legal do produto final, ou seja, do arquivo ou do negativo original, da distribuição e exibição em outras mídias e, importante, do copyright. Enfim, o produtor é o financiador, aquele que pagou para que o filme fosse possível –e que, certamente, exigirá muita coisa em troca, seja em dinheiro ou, talvez, favores institucionais. Quem botou o dinheiro para filmar "Dark Horse"?
Não me parece plausível que produtores americanos invistam num filme cuja bilheteria é duvidosa até no Brasil. Além disso, o país inteiro escutou Flávio Bolsonaro suplicar milhões a Daniel Vorcaro a fim de pagar os atrasados aos bacanas americanos. Será então Vorcaro o produtor? Nesse caso, "Dark Horse" é uma produção nacional e nos deve satisfações, sim.
Ficam assim informados a Ancine, a Polícia Civil de São Paulo , a PF, a PGR, o STF e o, no caso, descansado ministro André Mendonça.
O velho padrão Globo de entrevistar Lula
A proposta de sabatina/entrevista realizada pelo Jornal Nacional com o presidente Lula, na quinta feira 27, em muito se assemelhou à tomada de depoimento de um acusado. Não somente pelo teor das perguntas, mas também pelo encadeamento dos temas e pela condução dos entrevistadores. A pergunta inicial foi, obviamente, sobre as investigações envolvendo Fabio Luís Lula da Silva, filho do presidente que a imprensa chama de “Lulinha”. Pergunta dura feita por César Tralli, à qual Lula respondeu; o apresentador insistiu no mesmo tema com outro viés, desdobrando a pergunta em outra provocação; Lula respondeu; o apresentador retomou o tema; depois, Renata Vasconcelos inquiriu sobre o mesmo assunto – o tema corrupção, no início da entrevista, tomou mais de quatro minutos dos 40 disponíveis para o evento, ou seja, mais de 10% do tempo do candidato foram gastos num único tema, que continha apenas provocação e intimidação. Na verdade, o que estava ali em cena era novamente o uso do repertório corrupção – lembrando que repertórios são temas norteadores da construção da notícia, do noticiário –, que foi deflagrado desde 2014 pelo JN; à época, com os requintes simbólicos do fundo vermelho e um duto enferrujado por onde escorria dinheiro. O interrogatório ao presidente Lula, embalado no formato de entrevista, estava no mesmo molde.
É claro que uma entrevista com candidatos em momento eleitoral decisivo deve explorar todos os temas e realmente questionar aquele candidato sobre propostas, pautas inquietantes, o que ele fez na vida pública, quais são seus projetos. Mas questionamento não é inquérito, esse é o primeiro ponto importante nesta reflexão. O segundo ponto é que a estratégia do uso da corrupção tem um fim muito específico há bastante tempo no sistema midiático em relação a Lula, sobretudo no sistema Globo – ela é um elemento para provocar desestabilização. Não é somente um tema que precisa ser abordado, é um instrumento midiático de constrangimento, um modo de fazer com que aquele personagem fique acuado e não consiga se articular para responder às outras perguntas. Não é aleatório, portanto, é técnica, é algo como “padrão Globo de entrevista com Lula”.
E um terceiro ponto refere-se às ausências propositais. Se uma entrevista/sabatina tem por objetivo mostrar ao eleitor quem é o candidato, quais são suas propostas, o que ele fez na vida pública e apresentar um conjunto robusto de perguntas pelos entrevistadores para avaliar o conhecimento daquele candidato sobre os temas pertinentes, o evento protagonizado pelo Jornal Nacional em nada se assemelha a isso. Lula foi questionado em relação à investigação sobre um filho que não é candidato – investigação sobre a qual pesam denúncias de vazamento seletivo –, foi questionado sobre os problemas de segurança pública do estado da Bahia, do qual ele não é o governador, foi arguido de novo sobre investigações que ele não domina, como no caso do assessor Marcola. Nada se falou sobre o que ele fez, como tirar o país do Mapa da Fome pela segunda vez, ou sobre o que pretende fazer em relação às bets, que estão destruindo o Brasil e fazem propaganda no intervalo de jornais e novelas da Globo.
A entrevista foi muito mal conduzida – Tralli e Renata pareciam aqueles professores em bancas de avaliação que não estão nem um pouco interessados no trabalho apresentado, mas querem mesmo é mostrar que sabem um monte de coisas. Arrogância e despreparo, uma combinação bem perigosa. Mesmo assim, a entrevista teve até momentos bem divertidos e bastante esclarecedores. Por exemplo, quando Lula disse que não havia esquecido o PowerPoint: “A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço do PowerPoint mentiroso contra mim. Eu não esqueço”. O presidente se referia à nefasta apresentação de Deltan Dallagnol ligando o então ex-presidente a toda uma trama de corrupção. César Tralli, ao melhor estilo “vestir a camisa da empresa”, correu a justificar a tática da Organização e respondeu: “O senhor falou do PowerPoint. Eu só quero dizer ao senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint: nos nossos princípios editoriais, nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto. Então, eu peço que a gente siga com a entrevista”. Ele fazia menção a outro PowerPoint supertendencioso contra Lula (que foi apresentado por Andrea Sadi na GloboNews, ligando Lula ao caso Master). Foi quase uma confissão de culpa mesmo.
A mediocridade midiática, fruto da intolerância da imprensa com Lula ao longo de décadas, se mostrou, mais uma vez, na entrevista/sabatina do JN. Em alguns momentos, um inquérito; em outros, um debate entre candidatos, dada a postura arrogante dos apresentadores. Esse tipo de entrevista não é e não pode ser uma conversa entre comadres, de fato. Mas tampouco pode ser transformada num interrogatório em que os jornalistas são advogados de acusação e juízes, ao vivo, em horário nobre na emissora de maior audiência do País.
Por fim, Lula soube se safar das inúmeras tentativas de acuá-lo e de constrangê-lo. Não podemos abusar da euforia e dizer que ele arrasou, tirou de letra etc. Mas é possível dizer que o presidente, atirado à cova dos leões, soube se livrar e achar a saída.
É claro que uma entrevista com candidatos em momento eleitoral decisivo deve explorar todos os temas e realmente questionar aquele candidato sobre propostas, pautas inquietantes, o que ele fez na vida pública, quais são seus projetos. Mas questionamento não é inquérito, esse é o primeiro ponto importante nesta reflexão. O segundo ponto é que a estratégia do uso da corrupção tem um fim muito específico há bastante tempo no sistema midiático em relação a Lula, sobretudo no sistema Globo – ela é um elemento para provocar desestabilização. Não é somente um tema que precisa ser abordado, é um instrumento midiático de constrangimento, um modo de fazer com que aquele personagem fique acuado e não consiga se articular para responder às outras perguntas. Não é aleatório, portanto, é técnica, é algo como “padrão Globo de entrevista com Lula”.
E um terceiro ponto refere-se às ausências propositais. Se uma entrevista/sabatina tem por objetivo mostrar ao eleitor quem é o candidato, quais são suas propostas, o que ele fez na vida pública e apresentar um conjunto robusto de perguntas pelos entrevistadores para avaliar o conhecimento daquele candidato sobre os temas pertinentes, o evento protagonizado pelo Jornal Nacional em nada se assemelha a isso. Lula foi questionado em relação à investigação sobre um filho que não é candidato – investigação sobre a qual pesam denúncias de vazamento seletivo –, foi questionado sobre os problemas de segurança pública do estado da Bahia, do qual ele não é o governador, foi arguido de novo sobre investigações que ele não domina, como no caso do assessor Marcola. Nada se falou sobre o que ele fez, como tirar o país do Mapa da Fome pela segunda vez, ou sobre o que pretende fazer em relação às bets, que estão destruindo o Brasil e fazem propaganda no intervalo de jornais e novelas da Globo.
A entrevista foi muito mal conduzida – Tralli e Renata pareciam aqueles professores em bancas de avaliação que não estão nem um pouco interessados no trabalho apresentado, mas querem mesmo é mostrar que sabem um monte de coisas. Arrogância e despreparo, uma combinação bem perigosa. Mesmo assim, a entrevista teve até momentos bem divertidos e bastante esclarecedores. Por exemplo, quando Lula disse que não havia esquecido o PowerPoint: “A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço do PowerPoint mentiroso contra mim. Eu não esqueço”. O presidente se referia à nefasta apresentação de Deltan Dallagnol ligando o então ex-presidente a toda uma trama de corrupção. César Tralli, ao melhor estilo “vestir a camisa da empresa”, correu a justificar a tática da Organização e respondeu: “O senhor falou do PowerPoint. Eu só quero dizer ao senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint: nos nossos princípios editoriais, nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto. Então, eu peço que a gente siga com a entrevista”. Ele fazia menção a outro PowerPoint supertendencioso contra Lula (que foi apresentado por Andrea Sadi na GloboNews, ligando Lula ao caso Master). Foi quase uma confissão de culpa mesmo.
A mediocridade midiática, fruto da intolerância da imprensa com Lula ao longo de décadas, se mostrou, mais uma vez, na entrevista/sabatina do JN. Em alguns momentos, um inquérito; em outros, um debate entre candidatos, dada a postura arrogante dos apresentadores. Esse tipo de entrevista não é e não pode ser uma conversa entre comadres, de fato. Mas tampouco pode ser transformada num interrogatório em que os jornalistas são advogados de acusação e juízes, ao vivo, em horário nobre na emissora de maior audiência do País.
Por fim, Lula soube se safar das inúmeras tentativas de acuá-lo e de constrangê-lo. Não podemos abusar da euforia e dizer que ele arrasou, tirou de letra etc. Mas é possível dizer que o presidente, atirado à cova dos leões, soube se livrar e achar a saída.
Flávio Bolsonaro quer entregar Brasil a Cristo
Num desafio à lógica, às instituições e à própria higidez das religiões, Flávio Bolsonaro ameaçou: "Eu quero debater com quem não acredita em Deus, porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo".
O primeiro problema com o período flaviano é que ele carrega um imenso "non sequitur". Se você convida alguém para um debate, o pressuposto é o de que pretende persuadi-lo pela força dos seus argumentos, o que entra em contradição com o recurso à canetada, que impõe o dogma sem se importar em obter o consentimento dos que estariam sujeitos à medida.
O segundo problema é que o tal decreto, que já tem algo de etéreo, pois não deixa claro o que significaria para o país "ser" de Cristo, carregaria vício constitucional insanável. André Mendonça até poderia concordar com Flávio, mas quero crer que o hipotético diploma seria rapidamente anulado pelo STF. O artigo 19 da Carta veda ao poder público "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Flávio é advogado. Imagina-se que foi aprovado em direito constitucional.
O terceiro problema é que a tentativa de Flávio de aproximar-se dos evangélicos revela abissal ignorância sobre a história das religiões. O princípio da laicidade estatal que ele se propõe a subverter surgiu para proteger as religiões, não enfraquecê-las. Determinar que o Estado permanecesse neutro em matéria religiosa e assegurasse a liberdade de culto a todos foi a solução que a Europa encontrou para conter as guerras entre católicos e protestantes, dos quais os evangélicos são herdeiros. Ateus, que por definição não cultuamos nenhum deus, não temos maior interesse na liberdade de culto. Basta-nos não ser obrigados a seguir uma religião.
Louve-se em Flávio sua capacidade de, com uma única declaração, escancarar tantas camadas de seu despreparo para o cargo de presidente da República.
O primeiro problema com o período flaviano é que ele carrega um imenso "non sequitur". Se você convida alguém para um debate, o pressuposto é o de que pretende persuadi-lo pela força dos seus argumentos, o que entra em contradição com o recurso à canetada, que impõe o dogma sem se importar em obter o consentimento dos que estariam sujeitos à medida.
O segundo problema é que o tal decreto, que já tem algo de etéreo, pois não deixa claro o que significaria para o país "ser" de Cristo, carregaria vício constitucional insanável. André Mendonça até poderia concordar com Flávio, mas quero crer que o hipotético diploma seria rapidamente anulado pelo STF. O artigo 19 da Carta veda ao poder público "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Flávio é advogado. Imagina-se que foi aprovado em direito constitucional.
O terceiro problema é que a tentativa de Flávio de aproximar-se dos evangélicos revela abissal ignorância sobre a história das religiões. O princípio da laicidade estatal que ele se propõe a subverter surgiu para proteger as religiões, não enfraquecê-las. Determinar que o Estado permanecesse neutro em matéria religiosa e assegurasse a liberdade de culto a todos foi a solução que a Europa encontrou para conter as guerras entre católicos e protestantes, dos quais os evangélicos são herdeiros. Ateus, que por definição não cultuamos nenhum deus, não temos maior interesse na liberdade de culto. Basta-nos não ser obrigados a seguir uma religião.
Louve-se em Flávio sua capacidade de, com uma única declaração, escancarar tantas camadas de seu despreparo para o cargo de presidente da República.
Sobre o desastre
Viveu uma semana a cidade sob a impressão do desastre da Rua da Carioca. A impressão foi tão grande, alagou-se por todas as camadas, que temo não ter sido de tal modo profunda, pois imagino que, quando saírem à luz estas linhas, ela já se tenha apagado de todos os espíritos.
Todos procuraram explicar os motivos do desastre. Os técnicos e os profanos, os médicos e os boticários, os burocratas e os merceeiros, os motorneiros e os quitandeiros, todos tiveram uma opinião sobre a causa da tremenda catástrofe.
Uma coisa, porém, ninguém se lembrou de ver no desastre: foi a sua significação moral, ou antes, social.
Nesse atropelo em que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas, poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equilibrado, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.
O nosso gosto que sempre teve um estalão equivalente à nossa própria pessoa, está querendo passar, sem um módulo conveniente, para o do gigante Golias ou outro qualquer de sua raça.
A brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons.
O Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e, de tal modo o é, que se ir do Meier à Copacabana, é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto, não se saia da zona urbana.
De resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de sky-scrapers.
Porque os fazem então?
E por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a acoraçoada pela filosofia oficial corrente que nos ensina a imitar aquele poderoso país.
Longe de mim censurar a imitação, pois sei bem de que maneira ela é fator da civilização e do aperfeiçoamento individual, mas aprová-la quand même, é que não posso fazer.
O Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes “cabeças-de-porco”, dessas torres babilônicas que irão enfeá-lo, e perturbar os seus lindos horizontes. Se é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área de chão convenientemente proporcional.
Nós não estamos como a maior parte dos senhores de Nova York, apertados, em uma pequena ilha; nós nos podemos desenvolver para muitos quadrantes. Para que esta ambição então? Para que perturbar a majestade da nossa natureza, com a plebeia brutalidade de monstruosas construções?
Abandonemos essa vassalagem aos americanos e fiquemos nós mesmos com as nossas casas de dois ou três andares, construídas lentamente, mas que raramente matavam os seus humildes construtores.
Os inconvenientes dessas almanjarras são patentes. Além de não poderem possuir a mínima beleza, em caso de desastre, de incêndio, por exemplo, não podendo os elevadores dar vazão à sua população, as mortes hão de se multiplicar. Acresce ainda a circunstância que, sendo habitada, por perto de meio a um milhar de pessoas, verdadeiras vilas, a não ser que haja uma polícia especial, elas hão de, em breve favorecer a perpetração de crimes misteriosos.
Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nossos purpurinos crepúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com eles; fiquemos nós com as nossas que matam menos e não ofendem muito à beleza e à natureza.
Sei bem que essas considerações são inatuais. Vou contra a corrente geral, mas creiam, que isso não me amedronta. Admiro muito o imperador Juliano e, como ele, gostaria de dizer, ao morrer: “Venceste Galileu.”
Lima Barreto, Revista da Época (20-7-1917)
Todos procuraram explicar os motivos do desastre. Os técnicos e os profanos, os médicos e os boticários, os burocratas e os merceeiros, os motorneiros e os quitandeiros, todos tiveram uma opinião sobre a causa da tremenda catástrofe.
Uma coisa, porém, ninguém se lembrou de ver no desastre: foi a sua significação moral, ou antes, social.
Nesse atropelo em que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas, poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equilibrado, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.
O nosso gosto que sempre teve um estalão equivalente à nossa própria pessoa, está querendo passar, sem um módulo conveniente, para o do gigante Golias ou outro qualquer de sua raça.
A brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons.
O Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e, de tal modo o é, que se ir do Meier à Copacabana, é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto, não se saia da zona urbana.
De resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de sky-scrapers.
Porque os fazem então?
E por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a acoraçoada pela filosofia oficial corrente que nos ensina a imitar aquele poderoso país.
Longe de mim censurar a imitação, pois sei bem de que maneira ela é fator da civilização e do aperfeiçoamento individual, mas aprová-la quand même, é que não posso fazer.
O Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes “cabeças-de-porco”, dessas torres babilônicas que irão enfeá-lo, e perturbar os seus lindos horizontes. Se é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área de chão convenientemente proporcional.
Nós não estamos como a maior parte dos senhores de Nova York, apertados, em uma pequena ilha; nós nos podemos desenvolver para muitos quadrantes. Para que esta ambição então? Para que perturbar a majestade da nossa natureza, com a plebeia brutalidade de monstruosas construções?
Abandonemos essa vassalagem aos americanos e fiquemos nós mesmos com as nossas casas de dois ou três andares, construídas lentamente, mas que raramente matavam os seus humildes construtores.
Os inconvenientes dessas almanjarras são patentes. Além de não poderem possuir a mínima beleza, em caso de desastre, de incêndio, por exemplo, não podendo os elevadores dar vazão à sua população, as mortes hão de se multiplicar. Acresce ainda a circunstância que, sendo habitada, por perto de meio a um milhar de pessoas, verdadeiras vilas, a não ser que haja uma polícia especial, elas hão de, em breve favorecer a perpetração de crimes misteriosos.
Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nossos purpurinos crepúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com eles; fiquemos nós com as nossas que matam menos e não ofendem muito à beleza e à natureza.
Sei bem que essas considerações são inatuais. Vou contra a corrente geral, mas creiam, que isso não me amedronta. Admiro muito o imperador Juliano e, como ele, gostaria de dizer, ao morrer: “Venceste Galileu.”
Lima Barreto, Revista da Época (20-7-1917)
A expansão dos Estados Unidos pela América do Sul
A Doutrina Monroe, instituída em 1823 pelo Presidente Norte-Americano James Monroe, pode ser resumida pelo lema “A América para os Americanos”, uma política regional que se antepunha ao domínio Europeu de colônias nas Américas. Em 1803, os Estados Unidos compraram a Louisiana da França, que se estendia até o Mississipi, por US$ 15 milhões. Durante os anos de 1819-1821, os Estados Unidos anexaram a Flórida, em conflitos armados, que pertenciam à Espanha. Em 1836, os Americanos residentes no Texas declararam a independência em relação ao México, sendo o Texas anexado aos Estados Unidos em 1945, sob pressão. Após a Guerra Estados Unidos-México de 1846 a 1848, em 1848 os Estados Unidos anexaram a Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México e partes do Colorado e do Wyoming, ratificado pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo. Em 1853, sob pressão militar, o Novo México foi vendido aos Estados Unidos por US$ 10 milhões, ratificado pelo acordo de La Mesilla. Em 1898, Porto Rico, então da Espanha, foi anexado pelos Estados Unidos durante a Guerra Hispano-Americana, ratificado no Tratado de Paris. Hoje, cerca de 2/3 do território Norte-Americano corresponde a terras que outrora foram da Espanha e do México.
Em 1867, os Estados Unidos compraram o Alaska do Império Russo por US$ 7,2 milhões.
As tentativas de anexação por parte dos Estados Unidos de partes do Canadá nunca lograram êxito, como na invasão do Canadá em 1775 durante a Revolução Americana; e na Guerra Estados Unidos-Canadá de 1812 a 1815, com os Estados Unidos incendiando parte de Toronto em 1813, e tropas Britânicas e Canadenses incendiando a Casa Branca e o Capitólio em Washington em 1814, resultando no Tratado de Gante, na manutenção das fronteiras originais.
Hoje, a Doutrina Monroe é reeditada por Donald Trump, no que tem sido chamado de Doutrina “Donroe”.
Diante da atual expansão econômica da China no mundo e na América Latina; diante da perda da liderança Americana sobre a Europa; e diante das recentes ações dos Estados Unidos no Oriente Médio, que pouco resultaram, os Estados Unidos voltam-se para as Américas, como estratégia geopolítica na economia mundial, presente e futura.
Hoje, os Estados Unidos estão militarmente presentes, em maior ou menor grau, em 4 países da América do Sul: na Guiana, desde 2023, onde foram descobertos significativos campos de petróleo a partir de 2015, com empresas americanas na exploração comercial a partir de 2019; na Venezuela, desde a captura de Maduro em janeiro de 2026, país detentor de 18% das reservas mundiais de petróleo; no Paraguai, desde março deste ano de 2026, para o treinamento e combate ao narcotráfico, nos termos do SOFA (Status of Forces Agreement) – país que faz parte da Tríplice Fronteira, Brasil- Argentina- Paraguai; e, agora, no Equador.
Trump comemora o radicalismo de Milei na Argentina, e os governos de direita de Espriella na Colômbia, Kast no Chile, Santiago Peña no Paraguai, Keiko Fujimori no Peru, Rodrigo Paz na Bolívia, e Daniel Noboa no Equador.
O Brasil é repleto de recursos naturais, com florestas, água, minérios, terras raras, petróleo e agropecuária. Embora sejamos a 10ª economia mundial, somos muito frágeis política e economicamente diante das grandes potências. E militarmente estamos desprovidos de capacidade efetiva de dissuasão, não para guerras, mas para a manutenção da paz, no novo jogo geopolítico mundial.
Temos que olhar para o futuro.
Em 1867, os Estados Unidos compraram o Alaska do Império Russo por US$ 7,2 milhões.
As tentativas de anexação por parte dos Estados Unidos de partes do Canadá nunca lograram êxito, como na invasão do Canadá em 1775 durante a Revolução Americana; e na Guerra Estados Unidos-Canadá de 1812 a 1815, com os Estados Unidos incendiando parte de Toronto em 1813, e tropas Britânicas e Canadenses incendiando a Casa Branca e o Capitólio em Washington em 1814, resultando no Tratado de Gante, na manutenção das fronteiras originais.
Hoje, a Doutrina Monroe é reeditada por Donald Trump, no que tem sido chamado de Doutrina “Donroe”.
Diante da atual expansão econômica da China no mundo e na América Latina; diante da perda da liderança Americana sobre a Europa; e diante das recentes ações dos Estados Unidos no Oriente Médio, que pouco resultaram, os Estados Unidos voltam-se para as Américas, como estratégia geopolítica na economia mundial, presente e futura.
Hoje, os Estados Unidos estão militarmente presentes, em maior ou menor grau, em 4 países da América do Sul: na Guiana, desde 2023, onde foram descobertos significativos campos de petróleo a partir de 2015, com empresas americanas na exploração comercial a partir de 2019; na Venezuela, desde a captura de Maduro em janeiro de 2026, país detentor de 18% das reservas mundiais de petróleo; no Paraguai, desde março deste ano de 2026, para o treinamento e combate ao narcotráfico, nos termos do SOFA (Status of Forces Agreement) – país que faz parte da Tríplice Fronteira, Brasil- Argentina- Paraguai; e, agora, no Equador.
Trump comemora o radicalismo de Milei na Argentina, e os governos de direita de Espriella na Colômbia, Kast no Chile, Santiago Peña no Paraguai, Keiko Fujimori no Peru, Rodrigo Paz na Bolívia, e Daniel Noboa no Equador.
O Brasil é repleto de recursos naturais, com florestas, água, minérios, terras raras, petróleo e agropecuária. Embora sejamos a 10ª economia mundial, somos muito frágeis política e economicamente diante das grandes potências. E militarmente estamos desprovidos de capacidade efetiva de dissuasão, não para guerras, mas para a manutenção da paz, no novo jogo geopolítico mundial.
Temos que olhar para o futuro.
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