quinta-feira, 20 de agosto de 2026
É agora que o clima vai voltar a ser urgente?
Durante anos, demasiados anos, falar sobre alterações climáticas na Europa era falar sobre um futuro distante, quase sempre associado a lugares remotos, quantas vezes do lado de lá do mundo em que habitamos.
Subida do nível da água do mar? Isso era um problema para Tuvalu, Kiribati, Vanuatu e outras ilhas que aprendemos a decorar o nome por essa razão e sobre as quais se publicavam reportagens com fotos que anunciavam, geralmente de forma tranquila, a catástrofe que viria daqui a muitos anos. Aumento das secas extremas? Essa era uma desgraça que sabíamos, há muito tempo, que atingia a Etiópia, o Sudão, bem como uma série de outros países em África, há muito condenados à pobreza. Tempestades mais intensas? Não parecia nada connosco, pois quem devia preocupar-se eram aqueles países e zonas costeiras onde costumam entrar os furacões ou tufões, em especial na Ásia ou na América Central e do Norte. Rios sem água e em risco de desaparecer? Mais uma realidade que associávamos a locais com nomes esquisitos na Ásia Central ou noutras regiões remotas de África – para nós, o problema maior dos rios continuava a ser o risco de inundações e, mesmo assim, apenas em invernos invulgares e rigorosos.
Esses foram também os anos em que continuávamos a olhar para os grandes e descontrolados incêndios florestais apenas como resultado da incúria, culpando, liminarmente, quem não tinha sabido acionar a tempo os meios aéreos – e que quantidade de polémicas isso gerou em Portugal, só comparáveis, mais tarde, com as causadas por quem passou a atribuir a culpa de tudo ao SIRESP e à falta de comunicação. E, depois da pandemia, foram também os anos em que todos estes temas começaram a desaparecer do espaço público, como se já tivessem “passado de moda” ou fossem considerados demasiado pessimistas para uma sociedade a precisar de novos alentos de esperança.
Por aquilo que temos visto, este ano de 2026 pode vir a ser, no final, o do novo alarme de despertar para a necessidade de enfrentar o desafio climático. Por razões tão simples quanto cruas: agora, as mudanças de clima deixaram de ser um problema de regiões pobres para passarem a ser uma emergência dos países ricos, com a sucessão de ondas de calor em toda a Europa Ocidental, a eclosão de incêndios de grandes dimensões em países que vão muito para lá da bacia mediterrânica, a culminar, nas últimas semanas, com a falta de água nos rios que, durante séculos, definiram o comércio e a vida no chamado Velho Continente.
Já é mais ou menos consensual que estamos a viver, na Europa, o verão mais quente de sempre. E as consequências desse facto já não se limitam aos países do Sul. Muito pelo contrário: estão a ser muito mais gravosas nos países ricos do Centro e do Norte, que pareciam imunes a este flagelo das ondas de calor, dos incêndios e da falta de água. É por isso que estão a ouvir-se, com mais intensidade, os alarmes. Até porque as consequências disto tudo, não tenhamos dúvidas, estão a chegar ao ponto onde a dor é maior: ao dinheiro. Ou melhor: à economia, com os reflexos normais não só nos resultados das empresas como, logo a seguir, no custo de vida, na inflação e nas poupanças das famílias.
O verão de 2026 na Europa tem tudo para ser um ponto de viragem, assim saibam ler-se os sinais. Se calhar, este é o momento em que passámos a perceber que a eclosão de uma meia dúzia de ondas de calor pode ter o mesmo efeito económico que o aumento do preço do barril de petróleo.
Segundo o Financial Times, que ouviu especialistas de algumas das instituições financeiras mais respeitadas, a atual seca deste ano na Europa deverá causar um impacto económico de curto prazo entre os 50 e os 180 mil milhões de euros. Um relatório da Moody’s alerta para as consequências que esta nova realidade já está a ter nas seguradoras e, logo a seguir, nos consumidores. Preparemo-nos, portanto, para aquele momento que, na verdade, nunca pensámos que fosse possível: as ondas de calor, as secas e as tempestades passarem a ter influência direta no custo de vida, forçando os bancos centrais a manter as taxas de juro elevadas por mais tempo. É este, se calhar, o novo normal – aqui, na Europa, e já não em Kiribati ou em Tuvalu, e sem as imagens poéticas de populações com a água pelos joelhos. Infelizmente é bem pior… e mais caro.
Subida do nível da água do mar? Isso era um problema para Tuvalu, Kiribati, Vanuatu e outras ilhas que aprendemos a decorar o nome por essa razão e sobre as quais se publicavam reportagens com fotos que anunciavam, geralmente de forma tranquila, a catástrofe que viria daqui a muitos anos. Aumento das secas extremas? Essa era uma desgraça que sabíamos, há muito tempo, que atingia a Etiópia, o Sudão, bem como uma série de outros países em África, há muito condenados à pobreza. Tempestades mais intensas? Não parecia nada connosco, pois quem devia preocupar-se eram aqueles países e zonas costeiras onde costumam entrar os furacões ou tufões, em especial na Ásia ou na América Central e do Norte. Rios sem água e em risco de desaparecer? Mais uma realidade que associávamos a locais com nomes esquisitos na Ásia Central ou noutras regiões remotas de África – para nós, o problema maior dos rios continuava a ser o risco de inundações e, mesmo assim, apenas em invernos invulgares e rigorosos.
Esses foram também os anos em que continuávamos a olhar para os grandes e descontrolados incêndios florestais apenas como resultado da incúria, culpando, liminarmente, quem não tinha sabido acionar a tempo os meios aéreos – e que quantidade de polémicas isso gerou em Portugal, só comparáveis, mais tarde, com as causadas por quem passou a atribuir a culpa de tudo ao SIRESP e à falta de comunicação. E, depois da pandemia, foram também os anos em que todos estes temas começaram a desaparecer do espaço público, como se já tivessem “passado de moda” ou fossem considerados demasiado pessimistas para uma sociedade a precisar de novos alentos de esperança.
Por aquilo que temos visto, este ano de 2026 pode vir a ser, no final, o do novo alarme de despertar para a necessidade de enfrentar o desafio climático. Por razões tão simples quanto cruas: agora, as mudanças de clima deixaram de ser um problema de regiões pobres para passarem a ser uma emergência dos países ricos, com a sucessão de ondas de calor em toda a Europa Ocidental, a eclosão de incêndios de grandes dimensões em países que vão muito para lá da bacia mediterrânica, a culminar, nas últimas semanas, com a falta de água nos rios que, durante séculos, definiram o comércio e a vida no chamado Velho Continente.
Já é mais ou menos consensual que estamos a viver, na Europa, o verão mais quente de sempre. E as consequências desse facto já não se limitam aos países do Sul. Muito pelo contrário: estão a ser muito mais gravosas nos países ricos do Centro e do Norte, que pareciam imunes a este flagelo das ondas de calor, dos incêndios e da falta de água. É por isso que estão a ouvir-se, com mais intensidade, os alarmes. Até porque as consequências disto tudo, não tenhamos dúvidas, estão a chegar ao ponto onde a dor é maior: ao dinheiro. Ou melhor: à economia, com os reflexos normais não só nos resultados das empresas como, logo a seguir, no custo de vida, na inflação e nas poupanças das famílias.
O verão de 2026 na Europa tem tudo para ser um ponto de viragem, assim saibam ler-se os sinais. Se calhar, este é o momento em que passámos a perceber que a eclosão de uma meia dúzia de ondas de calor pode ter o mesmo efeito económico que o aumento do preço do barril de petróleo.
Segundo o Financial Times, que ouviu especialistas de algumas das instituições financeiras mais respeitadas, a atual seca deste ano na Europa deverá causar um impacto económico de curto prazo entre os 50 e os 180 mil milhões de euros. Um relatório da Moody’s alerta para as consequências que esta nova realidade já está a ter nas seguradoras e, logo a seguir, nos consumidores. Preparemo-nos, portanto, para aquele momento que, na verdade, nunca pensámos que fosse possível: as ondas de calor, as secas e as tempestades passarem a ter influência direta no custo de vida, forçando os bancos centrais a manter as taxas de juro elevadas por mais tempo. É este, se calhar, o novo normal – aqui, na Europa, e já não em Kiribati ou em Tuvalu, e sem as imagens poéticas de populações com a água pelos joelhos. Infelizmente é bem pior… e mais caro.
Bolsonarismo, integralismo e o neofascismo brasileiro
A seguir à tentativa golpista de 8 de janeiro, escrevi um artigo que procurava caracterizar quais eram as forças sociais que constituíam o bolsonarismo e a oportunidade histórica que se abria naquela conjuntura. Três anos e meio depois, retomo o parágrafo com que encetei aquele texto:
“Quando Jair Bolsonaro deixou o Palácio do Planalto, recebi de amigos portugueses várias mensagens de felicitações. A resposta que eu lhes devolvia era quase sempre a mesma: mas o movimento bolsonarista foi derrotado? O 8 de janeiro de 2023 respondeu de forma brutal. A eleição havia retirado Bolsonaro do Governo; não tinha dissolvido a força social, política, institucional e ideológica que se organizara à sua volta.”
A essência histórica daquela pergunta conjuntural sobre o movimento e as suas bases retorna neste ensaio numa perspetiva de longa duração histórica: o bolsonarismo seria um novo integralismo? Uma resposta rápida seria afirmativa. Encontramos o lema “Deus, Pátria e Família”, o anticomunismo, o culto do líder, a denúncia de uma nação corrompida por inimigos internos, o moralismo religioso, a exaltação da autoridade e a legitimação da violência política. Outra resposta igualmente açodada, mas oposta, lembraria que não houve camisas verdes, Sigma, “Anauê”, partido-milícia estruturado nem projeto corporativo equivalente ao da Ação Integralista Brasileira (AIB) dos anos 1930. Entendo que as duas respostas são insuficientes e aparentes. Uma confunde semelhança com identidade; a outra imagina que um fenómeno histórico só pode reaparecer vestido com o mesmo uniforme, etc. Ambas comparam sinais aparentes (exteriores) antes de analisarem as relações sociais, o terreno histórico do seu surgimento, as formas de organização, os interesses de classe e a sua base social, os aparelhos de Estado, as ideologias e o projeto de poder.
A hipótese central deste artigo é que o integralismo, que teve o maior partido fascista fora da Europa, constitui uma das raízes fundamentais do bolsonarismo, mas sem ser uma explicação totalizante do movimento. Isto é, o bolsonarismo conformou-se socialmente após a crise capitalista de 2008 e a crise da chamada Nova República, numa articulação entre frações dominantes interessadas no aprofundamento das políticas neoliberais: o Partido Fardado (aparelhos militares e policiais) e os aparelhos jurídico-políticos com relativa autonomia; organizações religiosas, empresariais, mediáticas e digitais capazes de produzir consenso e mobilização; bases sociais heterogéneas movidas pelo antipetismo, punitivismo, medo, racismo estrutural e pela (suposta) restauração das hierarquias patriarcais e machistas; e uma direção plebiscitária concentrada em Bolsonaro (totem) e na sua família. Por outras palavras, não estamos diante uma soma de grupos, mas sim perante uma totalidade contraditória: interesses materiais, aparelhos repressivos, ideologia fascizante, afetos políticos, organizações e liderança que se reforçaram mutuamente numa conjuntura de crise económica e política de alta intensidade e conflito social. É essa particular e complexa imbricação que nos permite categorizar e identificar o bolsonarismo como uma forma brasileira do neofascismo.
Entendo que adjetivar como neofascista qualquer conservador ou adversário político transforma a categoria histórica numa demarcação política de cunho depreciativo e sem valor explicativo. Por outro lado, limitar o fascismo a Mussolini e Hitler, como se a História apenas produzisse exemplares únicos e encerrados, também nos deixa desarmados diante das transformações da extrema-direita.
Essa problemática integra, há alguns anos, o meu trabalho de investigação e será, em breve, objeto de uma publicação sobre fascismo e neofascismo, na qual proponho uma separação analítica em quatro níveis. Sinteticamente, o fascismo é uma possibilidade histórica que altera a forma estatal, o regime político, e que mobiliza e reorganiza de modo autoritário a dominação e hegemonia capitalista em condições de múltiplas e intensas crises. O neofascismo atualiza esse núcleo sob condições posteriores ao fascismo histórico (1945). A fascização designa o processo pelo qual movimentos desse cariz político ganham enraizamento, normalizam a violência política e a sua estética, penetram nas estruturas do Estado e alteram a correlação de forças e a referida forma estatal. A neofascização é a forma contemporânea desse processo, atravessada pelo neoliberalismo (padrão de reprodução do capital-imperialismo), pelas grandes plataformas digitais (tecnopolítica), pela fragmentação e agudização da precarização do mundo do trabalho e pelas novas capacidades repressivas e informacionais (vigilância) do Estado.
Esta distinção, ultra-sumarizada, permite apreender os processos históricos nas suas contradições e conflitos, de modo a evitar equívocos recorrentes. Um movimento pode ser neofascista sem ter construído um Estado fascista. Um grupo político é capaz de buscar uma rutura autoritária sem conseguir destruir a (aparente) competição eleitoral. Um governo consegue ser dirigido por uma corrente neofascista e, simultaneamente, agrupar militares, liberais, conservadores, religiosos e partidos tradicionais que não possuem exatamente o mesmo projeto político – convergem na defesa dos mesmos interesses de classe, mas, dependendo da intensidade da crise, optam por soluções políticas fora do regime liberal-capitalista. Alberto Toscano sintetiza a questão decisiva: “Perguntar sobre o fascismo é invariavelmente também perguntar sobre as crises que produzem o fascismo.”
No caso brasileiro, o bolsonarismo surgiu como um movimento e uma corrente ideopolítica com grande apoio popular (quer no seu bloco social, quer no eleitoral). Bolsonaro foi/é a liderança (totem) plebiscitária que o galvanizou e organizou o movimento; o governo do Partido Fardado/Bolsonaro foi uma coligação heterogénea, dirigida hegemonicamente pela extrema-direita, mas composta por grupos com interesses próprios (por exemplo, Sérgio Moro) e, por vezes, conflituantes (como a gestão da pandemia, etc.). O regime político de 2019 a 2022 permaneceu uma democracia representativa liberal, com forte ímpeto autoritário, submetida à erosão institucional e a tentativas de rutura golpista, mas não se transformou num Estado fascista consolidado. Em síntese, o Brasil possuía um conjunto de ideias, imaginários e movimentos atravessados pelo fascismo; além disso, neofascistas estavam na principal posição do Governo central, mas o país não chegou a ter uma ditadura fascista (Boito Jr.). Essa distinção é decisiva, pois negar a matriz social neofascista do movimento porque não existiu partido único é tão errado quanto declarar fascista todo o Estado brasileiro porque Bolsonaro/Partido Fardado chegou à Presidência.
Quais são, então, os elementos constitutivos fundamentais no âmbito da política? No meu entendimento, quatro relações precisam de estar presentes: uma mobilização chauvinista regeneradora/libertadora – livrar o Brasil de um suposto regime socialista – que promete reconstruir a nação; a produção totalizante de inimigos internos que não são reconhecidos como adversários legítimos, mas alvos a serem eliminados; uma reconfiguração na relação hegemónica entre consenso e violência; e a pretensão de reorganizar autoritariamente uma ordem atravessada por uma crise de alta intensidade. O avanço do processo pode ser aferido pela instilação nos aparelhos repressivos, pela neutralização ou exclusão das organizações adversárias, pela legalização ou normalização da exceção, pela subordinação das instituições ao grupo dirigente e pela transformação duradoura da forma política e jurídica do Estado.
O bolsonarismo preencheu os critérios elementares e avançou em diversos dos agravantes. Procurou construir ideologicamente uma comunidade moral do “Brasil de verdade” e “dos cidadãos de bem”, transformar a esquerda — quer os seus setores moderados, quer os seus setores minoritários radicais —, os movimentos sociais, professores, jornalistas, indígenas, feministas e pessoas LGBTQIA+ em partes de uma conspiração do “marxismo cultural” ou da agenda woke; legitimou tortura, violência policial e eliminação física; recorreu ao totem do Partido das Forças Armadas e penetrou profundamente nas polícias (militares); governou mediante a ameaça, a tensão e o conflito permanentes; procurou desacreditar eleições, tribunais e mecanismos de controlo do regime liberal. O bolsonarismo não conseguiu efetivar o golpe que preparara; contudo, o fracasso do objetivo máximo não oculta a substância política e histórica do processo.
Como sinalizámos, o fascismo brasileiro tem uma história anterior ao movimento encabeçado por Jair Messias Bolsonaro. A Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 e dirigida por Plínio Salgado, foi um movimento de massas com organização nacional (com forte preponderância em São Paulo e no Rio de Janeiro), imprensa própria, símbolos, rituais, estética uniformizada, formação de quadros e capacidade de disputar as ruas. O chefe era apresentado como intérprete do destino nacional; a sociedade como organismo moral superior às classes; o comunismo como força dissolvente da família, da religião e da pátria.
No livro O fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo, Leandro Gonçalves e Odilon Caldeira Neto procuraram demonstrar que a dissolução da AIB não destruiu as suas redes e ideias. O integralismo sobreviveu em associações, jornais, círculos culturais, memórias militantes e experiências partidárias, sobretudo ao reorganizar-se no pós-guerra através do Partido de Representação Popular (PRP) e ao reaparecer posteriormente em grupos neointegralistas. Um artigo recente trata de uma mediação fundamental do movimento: a AIB não consistiu numa imitação passiva de Mussolini, pois “articulou vínculos com o fascismo italiano, o nazismo alemão, o integralismo lusitano e o falangismo espanhol” (Bianchi, Defina, Cardoso, 2026). Em resumo, integrou um campo transnacional da direita “ultranacionalista” e fascista do século XX, no qual símbolos, práticas e conceitos circulavam e eram traduzidos para as condições brasileiras.
Há, portanto, continuidade organizativa e ideopolítica suficiente para pôr em causa a “perceção” de que o integralismo desapareceu em 1938 (com a repressão de Getúlio Vargas). Existem elementos constitutivos que atravessaram o tempo: “Deus, Pátria e Família”; o anticomunismo; a autoridade como se fosse a solução para o conflito; a rejeição à luta de classes; a comunidade nacional concebida como unidade espiritual; a violência e a sua estética apresentada numa perspetiva moral e defensiva; a transformação da política numa guerra contra agentes da decadência brasileira. Um ponto fulcral: identificar continuidades não significa repetição, pois a verdade histórica é concretamente particular; o que existe hoje, por mais que tenha elementos semelhantes aos do passado, é diferente (desculpem-me o momento hegeliano). Noutros termos, não é razoável equiparar símbolos e retórica com base apenas nas aparências; é necessário determinar a formação social, os sujeitos das classes, o programa económico e a função política de cada movimento.
Plínio Salgado denunciava o grande capital e a finança em nome de uma ordem rural, cristã, hierárquica e fundada na pequena propriedade. O aparente “anticapitalismo” não questionava a propriedade dos meios de produção nem pretendia emancipar o trabalho assalariado da sua alienação; isto é, o integralismo moralizava as relações sociais e projetava uma (hipotética) restauração. O bolsonarismo, ao contrário, promoveu a expansão dos capitais financeiros, da agroexportação e do extrativismo – padrão de produção típico de um país periférico e dependente. Não pretendeu conter a acumulação capitalista, mas quis “libertá-la” das garantias básicas (laborais e de segurança social) que protegiam minimamente os/as trabalhadores/as, da proteção ambiental (“vamos passar a boiada”), das políticas públicas de cariz universalizante, com vista à sua mercantilização, etc. Além disso, identifico uma mudança na materialidade da organização política, visto que o integralismo construiu um partido uniformizado, com milícias, secções territoriais e liturgias públicas. O bolsonarismo tem desenvolvido uma organização (mais) flexível, eleitoral, religiosa e digital (elemento do nosso tempo). A direção continua a produzir unidade, disciplina e inimigos, mas já não depende de uma sede partidária fixa. As redes sociais, os canais de comunicação direta, as igrejas, os gabinetes parlamentares e os movimentos de rua cumprem funções que antes eram concentradas na forma-partido de massas clássica. A base religiosa transformou-se igualmente, pois, o integralismo sustentava-se no catolicismo conservador. No bolsonarismo, lideranças evangélicas/protestantes (pentecostais e neopentecostais) adquiriram um peso sem equivalente; todavia, os setores católicos de cariz mais conservador e reacionário também constituem a base do bolsonarismo, mas não com a força mobilizadora das lideranças evangélicas. O decisivo é que a religião não desapareceu; mudou de instituições, de linguagem e de formas de inserção na vida quotidiana.
O integralismo, portanto, não é a origem exclusiva do bolsonarismo. É uma procedência real, entrelaçada com outras: o anticomunismo militar, a memória apologética da ditadura, o punitivismo policial, o neoliberalismo, o olavismo, o moralismo da Lava Jato, o fundamentalismo religioso, as forças paraestatais e milícias em grandes capitais e a tecnopolítica das plataformas digitais (Big Techs). A questão central é como tradições diferentes foram reativadas, combinadas e subordinadas a um novo projeto de poder.
Frações dominantes e beneficiados
No referido artigo, apresentei o ultraneoliberalismo e o agronegócio como dois “setores” de classe constitutivos do bolsonarismo. Importa fazer duas notas caracterizadoras. O neoliberalismo ultrapassa um determinado grupo social que o defende enquanto política económica e ideologia, pois é, sobretudo, um projeto económico-político de reorganização da acumulação (tendo como eixo dinâmico a financeirização), do Estado e das relações entre capital e trabalho, etc. Quando o categorizo como setor ultraneoliberal, tenho como objetivo sinalizar o conteúdo autoritário (com elementos fascizantes) dessas forças políticas, que se reconfiguram no interior da direita tradicional, maioritariamente. O agronegócio, por sua vez, agrupa os interesses dos proprietários fundiários (fazendeiros), das agroindústrias, dos exportadores, das tradings, dos grandes frigoríficos/matadouros, do capital financeiro ligado à terra e dos representantes parlamentares (bancada do boi).
Nesse contexto, a análise que faço desse processo suscita duas questões fundamentais: quem apoiou e/ou ganhou materialmente com o governo Bolsonaro? A base social ativa de um movimento de cariz neofascista pode ser identificada sociologicamente na pequena burguesia e no que tenho classificado de “pobre premium” (a dita alta “classe média”), enquanto o governo serve prioritariamente frações do grande capital (Boito Jr.). Numa formulação sintética: mobilização social de setores intermédios, governo para as classes dominantes. Ou seja, os que ocupam as ruas, difundem mensagens e imaginam combater o “sistema” não são necessariamente os principais beneficiários da política económica que ajudam a legitimar. O bolsonarismo tem uma vertente com uma forma (sem conteúdo) insurrecional deveras marcado e distintivo no fazer política, o que expressa uma aparência, somente cariz, de antissistema.
A composição concreta do bloco dominante foi disputada: o capital financeiro, o agronegócio, a mineração, os grandes grupos comerciais (retalho) e de comunicação, partes da indústria e o capital estrangeiro não tiveram interesses semelhantes em todos os momentos do governo bolsonarista (por exemplo, durante a pandemia da Covid-19). Ainda assim, convergiram em torno de elementos fundamentais: reforma da Previdência (da segurança social); privatizações; abertura de mercados; desregulação ambiental; enfraquecimento de direitos laborais; “autonomia” (privatização) acrescida do Banco Central; redução da capacidade redistributiva do Estado; e proteção da propriedade diante de movimentos sociais.
As classes dominantes não precisaram de fabricar Bolsonaro desde o início, visto que setores relevantes preferiram candidatos convencionais (por exemplo, Geraldo Alckmin, hoje vice de Lula da Silva). A adesão tornou-se maciça quando ele apareceu como a alternativa capaz de derrotar o PT e executar o programa ultraneoliberal avalizado por Paulo Guedes (associado aos Chicago Boys, tendo prestado serviços à ditadura de Pinochet, no Chile). O movimento liderado por Bolsonaro possuía dinâmica relativamente própria; os capitalistas brasileiros e os ditos conservadores aderiram “pragmaticamente”, pero no mucho, quando reconheceram a sua utilidade, força social e eleitoral.
Observemos a contradição. O bolsonarismo afirmava falar em nome do indivíduo contra o Estado, mas não procurou um Estado menor, como a ideologia neoliberal propala. Todavia, a política seguida foi a de um Estado seletivamente forte. Isto é, fraco para garantir trabalho, saúde, segurança social, educação, preservação ambiental e redistribuição do rendimento, etc.; forte para assegurar austeridade, contratos, privatizações, propriedade, rentismo, fronteira extrativa, repressão policial e disciplina social. A liberdade do capital exigia a limitação da força social daqueles/as que vivem da força do seu trabalho.
Essa lógica de operar sob o neoliberalismo traz em si raízes históricas de longa duração, como alerta Marcelo Matos ao analisar a autocracia burguesa brasileira. A classe dominante brasileira formou-se associada ao capital externo, conciliada com grandes proprietários e estruturalmente hostil a uma verdadeira democratização que ameaçasse a riqueza e o poder (por exemplo, o golpe de 1964). A autocracia não existe apenas em ditaduras abertas. Manifesta-se também na restrição sistemática da participação popular e na prontidão com que as classes possidentes aceitam soluções de força e autoritárias, desde que constituam a forma mais eficiente de preservar os seus interesses.
O suposto “nacionalismo” bolsonarista foi estridente no plano moral e subordinado no plano material. Quer dizer, o slogan “Brasil acima de tudo” conviveu com alinhamento externo (submetido aos EUA), privatização (de setores estratégicos), financeirização e expansão de uma economia agromineira exportadora (intensificando a desindustrialização e a dependência). Quanto menor a soberania económica, maiores podiam ser a exaltação simbólica e o chauvinismo da pátria. A imaginada defesa do Brasil contra aqueles que o bolsonarismo considerava inimigos internos (os comunistas, petistas, ambientalistas, indígenas, professores/as, as mulheres e o feminismo, a comunidade LGBTIQ+), com consequências concretas para estes, desaparece por completo perante a contínua transferência de riqueza (valor) e a dependência cada vez maior do país em relação ao exterior.
No campo e na Amazónia, economia e violência territorial encontraram-se, visto que a expansão do agronegócio extrativista atinge os territórios de povos indígenas, de comunidades quilombolas e de camponeses, bem como a floresta e áreas afins. O armamentismo e a desregulação ambiental não foram apenas temas de retórica, pois integraram condições políticas da acumulação capitalista no Brasil. A figura do “produtor” ameaçado transformou a expropriação de terras e a violência em defesa da propriedade.
Para concluir este tópico, retomo os estudos da historiadora Virgínia Fontes sobre aparelhos privados de hegemonia, que permitem perceber que as classes dominantes não atuam apenas através do financiamento eleitoral. Institutos, fundações, associações patronais e organizações empresariais produzem quadros, programas, campanhas e constrangimentos. O seu “hegemonismo” reduz o campo de decisões possíveis, aproxima programas partidários e apresenta interesses privados como imperativos técnicos. A extrema-direita não substituiu esse ativismo; ofereceu-lhe uma forma de mobilização de massas e uma capacidade acrescida de coerção.
É no esteio desta caracterização que identificamos o papel estruturante e o poder político das classes no bolsonarismo. Contudo, a função das classes, por si só, não explica como milhões de pessoas, na sua maioria pertencentes à classe trabalhadora, foram mobilizadas para constituir o seu bloco (heterogéneo e interclassista) social e eleitoral.
A relação de Jair Bolsonaro com o mundo militar precede em décadas a eleição de 2018. O amotinado e polémico capitão do Exército passou à reserva em 1988, a fim de assumir um cargo político. A sua primeira base foi corporativa: dizia defender os militares e os agentes policiais no que diz respeito a salários, carreiras, etc. O deputado, que parecia folclórico, combinava defesa da ditadura, retórica golpista e anticomunista, e mobilização extraparlamentar. Antes de as formulações reacionárias de Olavo de Carvalho — o olavismo — dominarem a gramática da extrema-direita, a guerra cultural contra o “inimigo interno” já circulava em instituições militares, tendo efetividade nos modos concreto de repressão e perseguição aos opositores perpetrados pela ditadura empresarial-militar.
A categoria “partido fardado”, que utilizamos de um ponto de vista analítico, procura captar e sinalizar a atuação política, relativamente orgânica, de setores militares de alto comando e patentes, a sua pretensão de tutelar a República e a continuidade de uma doutrina que apresenta as Forças Armadas como árbitro superior da vida nacional. Bolsonaro não inventou essa pretensão de poder moderador, apenas se tornou o veículo (totem) eleitoral que permitiu aos militares regressarem ao centro do Executivo, ocuparem milhares de cargos e recuperarem poder sobre áreas civis.
As polícias (militares e civis) constituem um problema com elementos e nuances distintos dos das Forças Armadas, visto serem instituições estaduais, com estatutos e comandos próprios. A lógica de funcionamento e operação nos territórios e as ligações às milícias são permanentes. Contudo, o armamentismo, a retórica de “lei e ordem”, a heroicização da violência e a promessa de proteção jurídica aos agentes repressivos encontraram adesão em setores policiais. A frase retórica “bandido bom é bandido morto” não opera numa sociedade abstrata, pois os suspeitos têm marcadores raciais, territoriais e sociais.
Por isso, a dimensão racial não pode ser acrescentada no fim da análise nem tratada como um tema isolado. A violência policial brasileira é seletiva; a população negra, pobre e periférica conhece o Estado sobretudo através de incursões repressivas, revistas, encarceramento em massa e morte. O racismo vai além de uma herança colonial; constitui uma necessidade do capitalismo na gestão de populações historicamente excluídas e atua como garante legitimador do seu domínio pela violência sistemática. Todavia, o bolsonarismo não criou essa estrutura, mas transformou-a em virtude pública. Enquanto substância histórica do fascismo, a violência converte-se numa estética que torna visível uma dinâmica precedente que, tendencialmente, se procura ocultar ou cujo caráter contínuo se procura velar. A figura do polícia autorizado (impunemente) a matar tornou-se parte da comunidade moral do “cidadão de bem”.
As milícias e outras redes paraestatais pertencem à mesma lógica fascizante, embora o seu peso no conjunto do movimento exija uma abordagem específica e pormenorizada, dadas as singularidades de cada Estado da federação. Mas, no essencial, revelam a circulação entre agentes públicos, economias ilegais, controlo armado territorial, prestação coerciva de serviços e representação política. O bolsonarismo está imbricado e opera, em certa medida, pela lógica e pela estrutura milicianas, indicando que a fronteira entre Estado e paraestado pode funcionar como forma concreta de poder.
O sistema judicial entra nesta caracterização do bolsonarismo por uma via diferente. A operação Lava Jato e os seus principais protagonistas, tanto quanto sabemos, não parecem constituir diretamente uma fração da classe dominante nem possuir ligações às forças políticas que rodeavam o grupo político de Jair Bolsonaro. Identifico-a como uma corrente político-jurídica, instalada em aparelhos do Ministério Público, da magistratura e da Polícia Federal, com forte legitimação mediática e autonomia relativa, mas também interconectada com aspetos do sistema interestatal e da economia política internacional. Os contactos, a cooperação jurídica, a formação, a circulação de doutrinas anticorrupção e as relações com agências estadunidenses são objetos documentáveis.
A operação, liderada por Sérgio Moro, transformou a crise social, política e económica numa perspetiva moralizante da situação. Ou seja, a corrupção deixou de designar relações sistémicas entre empresas, financiamento político, contratos e Estado, etc. – lógica estrutural no capitalismo –, e passou a explicar todos os problemas nacionais, concentrando-os seletivamente no Partido dos Trabalhadores (PT) e nos seus dirigentes, bem como a rotular a esquerda em sentido lato como sinónimo de corrupção e falha moral. O objetivo seria o de apresentar os juízes e procuradores como “salvadores” da pátria acima da política. Noutros termos, a linguagem e as formas jurídicas do processo penal foram utilizadas para reorganizar a competição eleitoral (derrotar o projeto social-liberal do PT). É neste ponto que o lavajatismo intensificou o antipetismo e o anticomunismo, deslegitimou o sistema partidário e contribuiu para o impeachment do golpe de 2016. A prisão e o impedimento eleitoral de Lula da Silva alteraram decisivamente a competição presidencial no ano de 2018. A entrada de Sérgio Moro, juiz que condenou e prendeu Lula da Silva, no Governo militar liderado por Bolsonaro tornou visível a convergência política entre aquela operação jurídico-política e o bolsonarismo, indicando que esse “partido da Lava Jato” viria a constituir uma das bases do bolsonarismo – parece-me evidente que hoje têm uma força política e mediática significativamente reduzida.
O estudioso da questão militar brasileira e jornalista Pedro Marin formulou uma imagem com força explicativa: a Lava Jato foi mais “artilharia” do que “infantaria”. Precisamente, a sua função histórica foi bombardear a ordem existente, destruir reputações, empresas, partidos e mediações políticas. Não possuía, porém, capacidade para ocupar e estabilizar o terreno aberto. A velha direita neoliberal (tucana) também não conseguiu herdar integralmente o resultado; por isso, os militares e a extrema-direita avançaram sobre os escombros.
O ponto central é que a ofensiva liberal-conservadora e neofascista não utilizou apenas as eleições e os partidos; recorreu também às burocracias civis e militares, tribunais, ministérios públicos e polícias para que interviessem na crise, deslocando decisões e construindo legitimidade política e ideológica. É preciso dizer sem rodeios: o bolsonarismo configurou-se a partir dessa politização dos aparelhos estatais, ao mesmo tempo que procurou aprofundar essa politização numa perspetiva autoritária e fascizante.
No esteio das lições de filosofia política de Maquiavel e das experiências históricas, podemos afirmar sem muitas dúvidas, que nenhum movimento de massas se sustenta apenas pela coerção; daí decorre a necessidade de produzir explicações, identidades, consentimentos, afetos e formas de pertença política. A hegemonia opera numa dinâmica contraditória entre consenso e coerção: dependendo do tipo de conflito ou projeto político, um dos polos torna-se preponderante sobre o outro. Nesse sentido, o que temos vindo a identificar e categorizar (provisoriamente) como guerra cultural vai além de táticas de “distração”, “cortina de fumo” e afins, e desponta como um mecanismo constitutivo desse processo político.
Esse brevíssimo preâmbulo relaciona-se com o texto anterior que escrevi sobre o bolsonarismo, no qual sugeri que o “pânico moral” (ou “terrorismo da indignação”) desviava a atenção da agenda da Faria Lima (centro do mercado financeiro brasileiro), o que é verdade; contudo, a formulação precisa de ser ampliada e demarcada. A guerra cultural, objetivando construir outra hegemonia, pode servir para velar reformas económicas antipopulares, mas também tem a capacidade de concertar socialmente o campo bolsonarista, disciplinar os partidários, converter os antagonismos de classe em conflitos de ordem moral, bem como legitimar e normalizar a violência política e unir grupos com interesses materiais e posições de classe diferentes (de um trabalhador evangélico uberizado ao conhecido dono de uma rede de lojas retalhistas do Brasil).
O anticomunismo foi a sua gramática política comum. Importa enfatizar que o anticomunismo não exprimia a força real dos comunistas no Brasil — a esquerda radical é marginal —, mas operava como categoria extensível. O “comunista” podia/pode ser um militante do PT, uma professora, uma feminista, um jornalista, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), um indígena em defesa do território ou alguém que recusasse algumas das ideias-força do bolsonarismo. A ameaça era tanto mais eficiente quanto menos precisava de um referente preciso.
As igrejas e o fundamentalismo religioso tiveram — e continuam a ter — um papel decisivo na constituição do bolsonarismo. Determinadas lideranças e organizações evangélicas conservadoras forneceram-lhe capilaridade territorial, autoridade moral, meios de comunicação, quadros políticos e capacidade de mobilização. Pequenos, mas ideologicamente ativos, grupos católicos reacionários também participaram nessa construção, sobretudo nas campanhas contra o feminismo, os direitos reprodutivos, a população LGBTQIA+ e aquilo a que chamaram “ideologia de género”, etc.
O campo evangélico é social, institucional e teologicamente heterogéneo: os evangélicos históricos, os pentecostais, os neopentecostais, as grandes denominações, as igrejas locais, os pastores de base e os fiéis não pensam nem agem como um corpo uniforme. Existem, ainda que minoritárias, correntes evangélicas progressistas e democráticas, algumas próximas da chamada Teologia da Missão Integral (irmã da Teologia da Libertação de matriz católica), que procuram articular a fé cristã com a justiça social e a defesa dos direitos humanos. Seria, portanto, um erro grosseiro representar milhões de evangélicos como pessoas robotizadas, desprovidas de discernimento, consciência ou interesses próprios. A adesão de parte desse universo ao bolsonarismo não pode ser explicada somente pela manipulação exercida por pastores (que compõem a “burgueses da fé”) ou pela influência de grandes denominações religiosas. É necessário compreender as condições materiais e sociais dentro das quais essas organizações adquiriram tamanha importância.
O melhorismo dos governos do PT/lulismo — isto é, a melhoria relativa e limitada das condições de vida de milhões de brasileiros — não enfrentou as grandes fraturas da formação social brasileira (crise urbana, questão da terra, o caráter da dependência e da desindustrialização progressiva). A expansão do emprego, do consumo, do crédito e do rendimento não eliminou o subemprego, a informalidade laboral, a insegurança económica e alimentar, nem a superexploração da força de trabalho. As implementadas políticas públicas universalizantes permaneceram insuficientes e, em vários momentos, foram e continuam a ser intencionalmente enfraquecidas como forma de garantir a política de austeridade. A vida melhorou para muitos, mas continuou subordinada à instabilidade das crises do capitalismo periférico e dependente brasileiro, à precariedade dos serviços públicos, à violência e à desigualdade racial e territorial.
Foi também nesse espaço que as igrejas cresceram como redes quotidianas de sociabilidade, proteção e solidariedade. Ali, “os irmãos em Cristo ajudam-se”: indicam empregos e trabalhos, organizam cabazes alimentares, visitam doentes, cuidam de crianças, apoiam famílias endividadas e acompanham pessoas atingidas pelo alcoolismo, pela violência doméstica ou pelo abandono. Na maioria das vezes, as respostas oferecidas não são suficientes (mas produzem laços de confiança e a perceção de que estão a ser “apoiadas”); algumas reproduzem hierarquias patriarcais e podem silenciar conflitos que deveriam ser enfrentados pelo Estado e pela sociedade (ex. violência doméstica). Mas o auxílio, a escuta e o sentimento de pertencimento são reais. Para pessoas que a sociedade capitalista e racista brasileira reduz frequentemente à invisibilidade, à suspeição ou à condição de força de trabalho descartável, a igreja pode oferecer um nome, uma comunidade e a possibilidade de recomeçar. Nesses espaços, alguém pode “renascer em Cristo” e tornar-se uma “nova criatura”; os erros e os desacertos do passado deixam de constituir uma condenação irrevogável. A conversão não é apenas uma mudança doutrinária. Pode representar a reconstrução da identidade, o abandono de relações assoladoras, a recuperação da autoestima e o ingresso numa rede concreta de reciprocidade e pertencimento social e também político. A gramática da redenção é um afeto e um imaginário político poderosos que as igrejas mobilizam com muita eficácia, mas que a esquerda também mobilizou no passado e hoje parece ser algo secundário.
É precisamente porque não são simples máquinas de manipulação que as igrejas podem tornar-se aparelhos tão poderosos de produção de hegemonia, no eixo do consenso. A mesma capilaridade que acolhe também pode disciplinar; a própria comunidade que protege pode definir quem pertence e quem ameaça a ordem; assim como a autoridade que oferece consolo pode converter uma orientação política em dever religioso. A solidariedade comunitária e a direção reacionária e fascizante não são realidades incompatíveis. Podem coexistir dentro da mesma organização e, por vezes, dentro da mesma experiência individual.
Nesse quadro, penso ser importante destacar o peso específico das organizações neopentecostais e do sionismo cristão nessa articulação no campo do bolsonarismo. Estas igrejas ofereceram redes territoriais, meios de comunicação (por exemplo, a TV Record), dirigentes, linguagem moral, autoridade e mobilização eleitoral. Noutros termos, a batalha política pode ser traduzida como batalha espiritual; o adversário, como força demoníaca; e o líder político, como instrumento providencial de Deus. Por conseguinte, quando o conflito deixa de opor projetos políticos e passa a representar uma guerra entre o Bem e o Mal, a diversidade e a diferença perdem legitimidade. Negociar com o adversário pode parecer uma cedência ao demónio; derrotá-lo torna-se uma missão religiosa e moral. São formas de vida que se confrontam sem qualquer espaço para mediações.
O sionismo cristão é uma corrente do cristianismo, particularmente influente entre setores neopentecostais, que interpreta o apoio ao Estado de Israel e o retorno dos judeus à chamada Terra Prometida como parte do cumprimento das profecias bíblicas, articulando-se ao neopentecostalismo através de uma linguagem escatológica, do uso de símbolos judaico-israelitas e da construção de uma identidade político-religiosa conservadora em torno de Israel. O bolsonarismo sustenta-se também nessa imbricação, ao ponto de um católico, Jair Bolsonaro, ser batizado por um pastor neopentecostal e político, Everaldo Pereira, nas águas do rio Jordão.
A Teologia da Prosperidade acrescentou a essa infraestrutura comunitária neopentecostal uma gramática munida de fortes afinidades com a subjetividade neoliberal. Desta forma, o sucesso aparece como resultado da fé, do mérito, da disciplina e do investimento individual; o fracasso tende a ser interpretado como insuficiência pessoal ou espiritual. O empresário de si mesmo encontra o fiel, que deve demonstrar a sua eleição através da transformação da própria vida. Problemas produzidos pelo desemprego, pelo racismo, pela precariedade e pela desigualdade podem, assim, ser deslocados para o campo da responsabilidade individual.
O que estou a tentar assinalar com essa descrição é que muitos fiéis procuram proteção, sociabilidade, dignidade e apoio material que o Estado e as suas políticas lhes negam. A força das lideranças do fundamentalismo religioso reside precisamente na capacidade de organizar experiências verdadeiras de insegurança e desamparo dentro de uma retórica ideológica de restauração moral, prosperidade individual e guerra espiritual. A minha crítica, portanto, não se dirige à fé nem aos milhões de pessoas que encontram nas igrejas uma comunidade de pertencimento. Dirige-se à conversão da autoridade religiosa, do dinheiro, da comunicação de massas, dos púlpitos e da capilaridade comunitária em poder político. A expressão “burguesia da fé” procura identificar os dirigentes e pastores que acumulam capital económico, mediático e religioso e o transformam em influência política, eleitoral e estatal. Por isso, não deve servir para desprezar os fiéis nem para atribuir irracionalidade a quem procura respostas para situações concretas de desabrigo e desproteção.
O bolsonarismo não criou essas redes, experiências e linguagens; apenas reconheceu a sua força, estabeleceu alianças com parte das suas direções e ofereceu-lhes canais de influência sobre o Estado. Em contrapartida, recebeu legitimidade religiosa, militância, quadros, votos e uma interpretação providencial da sua liderança (Jair Messias Bolsonaro). É justamente nessa relação — e não numa suposta cegueira coletiva dos fiéis — que se constituiu um dos pilares sociais e ideológicos mais sólidos do movimento bolsonarista.
Os meios de comunicação tradicionais (grandes media) também cumpriram uma função contraditória. Partes relevantes da imprensa legitimaram socialmente a operação Lava Jato, anteciparam condenações e apresentaram a corrupção como monopólio de um partido (do PT) ou da esquerda. Mais tarde, entraram em conflito com Bolsonaro/Partido Fardado, foram atacadas e passaram a defender instituições liberais ameaçadas. Um aparelho pode contribuir para preparar o terreno de uma força e, depois, resistir à sua tentativa de domínio ou de hegemonização. Ainda, saliento, o programa económico desses grupos de média e dos setores empresariais brasileiros é o mesmo; em nenhum momento as diretrizes das políticas económicas do ministro da Economia, Paulo Guedes, foram postas em causa.
As plataformas digitais acrescentaram uma nova materialidade a esse processo histórico e político, visto que a propaganda se tornou algo praticamente ininterrupto. Parece evidente que a internet não inventou o anticomunismo, o racismo, a misoginia ou o militarismo; mas modificou a escala, a velocidade, a segmentação e a participação. O partidário deixou de ser apenas recetor, pois agora partilha, comenta, edita, denuncia, vigia e produz nessa estrutura constante de agitação política.
A distinção entre manipulação e modulação é particularmente profícua para analisar e entender os fenómenos políticos neofascistas. A comunicação de massas envia uma narrativa relativamente homogénea e tão ampla quanto possível; a modulação algorítmica recolhe dados, segmenta públicos e ajusta estímulos aos afetos políticos de cada utilizador. Isto não significa que os algoritmos sejam sujeitos históricos autónomos; representa, sim, que são tecnologias pertencentes a empresas, orientadas por modelos de negócio, acionadas por recursos, dirigentes, produtores de conteúdos e militantes.
Um estudo recente sobre o Brasil Paralelo demonstra que a guerra cultural na construção de uma hegemonia política reacionária e fascizante exige instituições de produção de “conhecimento” ou formas de explicação e justificação daquela conceção de mundo. Filmes, cursos, vídeos e documentários disputam a memória da ditadura empresarial-militar, desacreditam universidades, buscam reescrever a História e oferecem uma visão do mundo em que a esquerda marxista controla a cultura e persegue a maioria cristã. Assim, o olavismo forneceu a linguagem conspiratória; empresas culturais deram-lhe continuidade, profissionalização e mercado. Nesse contexto, outro trabalho interessante, apesar das dúvidas que se colocam quanto à forma-partido, é o estudo da organização denominada Partido Digital Bolsonarista, com coordenação, hierarquias, cadeias de lealdade, disciplina, financiamento, seleção de candidaturas, rituais e capacidade de transformar influência em poder institucional.
Esta forma-partido não cabe plenamente nos diretórios tradicionais, visto que opera através de perfis, gabinetes parlamentares, influenciadores, canais, eventos, financiamento contínuo e sinais de lealdade. O Partido Liberal (PL) funciona como interface jurídica, eleitoral e financeira, mas não esgota o bolsonarismo organizado. Uma dissidência pode não ser punida por uma comissão formal; perde alcance, acesso à base, legitimidade e capacidade de mobilização; basta analisarmos figuras que divergiram do bolsonarismo. A fórmula que melhor resume esta arquitetura é a seguinte: direção simbolicamente centralizada e organização materialmente distribuída. Bolsonaro permanece o principal ponto de condensação (totem), mas o movimento possui quadros, repertórios, recursos e mecanismos que ultrapassam a pessoa e a figura do líder.
Num artigo instigante do ponto de vista da tecnopolítica, Bruno Reinhardt e Letícia Cesarino acrescentam outra dimensão ao trabalharem com a categorização comunicacional de “fascismo atmosférico”. O que significa isto? O bolsonarismo governou também a temporalidade: ameaça iminente, prontidão, indecisão, sensação de golpe que pode ocorrer a qualquer momento — uma dinâmica que, em termos de tática militar, conceptualizamos como “aproximações sucessivas”. Nesse sentido, o 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada, mas como condensação de uma atmosfera construída durante anos por discursos, motociatas, acampamentos, armas, rituais militares, redes digitais e conspirações simultaneamente exibidas e negadas.
A hegemonia política bolsonarista no campo da direita, ainda que truncada e difusa, conformou-se nessa combinação de Forças Armadas, púlpito, televisão, empresas de produção cultural, plataformas digitais, rua e Parlamento. É precisamente neste ponto que a guerra cultural (para construir uma nova-velha hegemonia social) se torna a mediação entre o programa de classe e a experiência quotidiana dos seus partidários/ativistas.
Base social e eleitoral
Quem são os sujeitos políticos que constituem a base social do bolsonarismo? A pergunta parece simples, mas obriga a distinguir categorias que muitas análises confundem, propositadamente ou não. Isto é, financiadores não são necessariamente dirigentes ou quadros políticos; dirigentes não são necessariamente militantes/ativistas; estes militantes não expressam a totalidade complexa do eleitorado. Do mesmo modo, os eleitores podem não ser beneficiários económicos do projeto político que defendem. Noutros termos, os grupos afetados pelo programa económico podem aderir por razões religiosas, raciais, punitivas, morais, pró-capitalista ou anticomunistas. Em suma, o que estou a tentar indicar é a heterogeneidade de classes do movimento bolsonarista, que tem nos segmentos intermédios e subalternos a sua base social e eleitoral.
As mobilizações de 2015 e 2016 tiveram forte presença de pessoas com rendimentos médios e altos, profissionais liberais, pequenos empresários e sucedâneos; esses grupos produziram quadros, recursos, redes e uma militância visível. Entretanto, o bolsonarismo só se tornou força nacional porque atravessou fronteiras de classe e chegou a trabalhadores precarizados, informais, fiéis de igrejas populares, pequenos comerciantes, camionistas, militares de baixa patente, polícias e habitantes das periferias.
Como procurei demonstrar, explicar esta adesão como mera manipulação é intelectualmente cómodo e politicamente desastroso. As notícias falsas (fake news) e as redes sociais não criam do nada o medo do subemprego e da insegurança urbana, a ausência de serviços públicos, a humilhação social ou a procura de pertença, entre muitas outras expressões da questão social. Entendo que elas traduzem esses conflitos reais numa retórica deslocada, oferecendo culpados, uma comunidade e uma promessa de ordem e de futuro. Essa é uma questão central no meu entendimento: a capacidade política de fazer as pessoas sonharem e de prospetar um futuro melhor, principalmente, entre os jovens que parecem viver uma futurofobia.
O trabalhador transformado em “empreendedor de si” pode identificar-se com o discurso contra impostos e direitos laborais, mesmo quando depende de políticas públicas. O fiel pode votar orientado por uma autoridade que o acompanha no quotidiano e tem nela uma referência espiritual. Os pequenos proprietários/comerciantes ou os pobres premium podem temer a proletarização. O assalariado médio pode interpretar a ampliação de direitos dos grupos subalternos como perda do seu estatuto relativo ou de distinção social.
A figura ideológica do “cidadão de bem” condensou essa base heterogénea. Tal designação não se refere a quem supostamente respeita as leis e a ordem, mas a uma comunidade política-moral que se identifica como cristã, heterossexual, patriarcal, proprietária ou aspirante à propriedade, trabalhadora, armamentista, anticomunista (sendo que, no caso brasileiro, o anticomunismo se aproxima do antipetismo) e obediente à autoridade. A sua identidade precisava de um outro negativo/exterior: o “vagabundo”, o criminoso, a feminista, o professor “doutrinador”, o indígena que impede o progresso, o negro acusado de vitimismo ou wokismo, a pessoa LGBTQIA+ apresentada como ameaça às crianças ou com ligações a pedofilia.
A questão racial, o género e o território organizam materialmente a comunidade e os seus inimigos; não podem ser vistos como questões laterais ou secundárias. A polícia que recebe autorização moral e legal para matar atua em territórios racializados e empobrecidos. Do mesmo modo, a fronteira agroextrativa avança sobre povos indígenas e quilombolas. A precarização distribui-se de forma racial e sexualmente desigual. Nesse contexto, a imaginada defesa da família tradicional procura “restaurar autoridade” masculina, disciplinar sexualidades e devolver às mulheres o trabalho invisível da reprodução social. O suposto “anti-identitarismo” bolsonarista era e é, ele próprio, uma política de identidade dominante (branca). Os seus defensores afirmavam denunciar os negros, as mulheres, os indígenas e as pessoas LGBTQIA+ por se organizarem politicamente, enquanto apresentavam o homem cristão, proprietário e heterossexual como indivíduo universal, sem etnia-raça, género ou posição social. A substância histórica e social é a mesma, o que muda são os figurinos e forma de aparecimento a depender da conjuntura histórica.
Para concluir este tópico, há uma dimensão relevante a demarcar, especialmente na perspetiva eleitoral. Penso que não se deve assumir que todos os eleitores de Bolsonaro/bolsonaristas sejam neofascistas conscientes ou militantes, visto que, num processo eleitoral, se agrupam motivações distintas, como o antipetismo, a religião, a expectativa económica, o medo da criminalidade urbana, a rejeição da política do regime liberal, a identificação militar/militarista, a desinformação, o voto útil e outras razões afins. Portanto, a natureza histórica de um movimento não é determinada pela consciência integral de cada eleitor, mas pela direção que organiza essa diversidade, pelos inimigos que constrói e pelo projeto que transforma os votos em poder político. Em síntese, o apoio popular não anula a função de classe de um governo/Estado, do mesmo modo que a função de classe não elimina a necessidade de compreender o consentimento. É precisamente na distância entre os interesses materiais de parte da base social e os beneficiários efetivos do programa económico que a ideologia e a hegemonia revelam a sua força.
Como procuramos demonstrar neste artigo e noutros textos desta série, o bolsonarismo enquanto movimento político não surgiu “do nada”. Antes da sua vitória eleitoral de 2018 já existiam o anticomunismo como um dos pilares das Forças Armadas, as diferentes franjas da direita e da extrema-direita de cariz fascizante, o lavajatismo e uma certa moralização política, movimentos de direita com força nas ruas, o ativismo empresarial, o fundamentalismo religioso e o olavismo como uma corrente filosófica reacionária, assim como os produtores de conteúdos digitais, as forças policiais mobilizadas e uma nostalgia memorialística da ditadura empresarial-militar (1964-1985). A crise do capitalismo periférico brasileiro e do regime político liberal da Nova República aproximou forças que possuíam uma direção: somente a via autoritária aprofundaria as soluções para a crise em prol das classes dominantes.
Nesse quadro, saliento que tratar a figura (totem) de Jair Bolsonaro como recipiente passivo desses conflitos e crises parece-me, no mínimo, um equívoco. Ele, a sua família e o seu grupo político caninamente fiel procuraram articular símbolos e slogans, hierarquizaram os inimigos a derrotar ou “eliminar”, interligaram as agendas/pautas de uma direita fascista e ofereceram legitimidade e voz nacional a discursos antes considerados marginais (agora, ser abertamente racista, misógino e homofóbico já não “ficava tão mal” porque o presidente também era). O que temos é uma relação contraditória: o campo reacionário produziu Bolsonaro; ao tornar-se líder, Bolsonaro/bolsonarismo produziu uma nova-velha forma de fazer política, suprimindo a direita tradicional/oligárquica e tornando-se a força hegemónica desse campo.
Para compreender melhor o que estou a tentar sinalizar de um ponto de vista do imaginário político e ideológico, recupero um pensador de quem discordo em muitos aspetos, mas que foi preciso ao formular freudianamente a figura do “pequeno grande homem” (Theodor Adorno). Sumariamente, o líder fascista apresenta-se como alguém comum, vítima das mesmas proibições e ressentimentos dos correligionários políticos, mas simultaneamente como figura excecional capaz de agir e ir até às últimas consequências para defender o seu projeto político. No caso brasileiro, Bolsonaro comia, falava, insultava e errava como “qualquer pessoa” — e o que mais se ouvia: “ele é autêntico”; ao mesmo tempo, era o “Mito” destinado a salvar a pátria do “socialismo”. Essa duplicidade permitiu a identificação e a submissão. O partidário via no líder alguém semelhante e participava simbolicamente da sua força. As limitações impostas ao racismo, à misoginia ou à violência eram convertidas em censura contra o “homem comum”. O privilégio ameaçado aparecia como opressão.
No núcleo do movimento, a família Bolsonaro e a “família militar” constituem o primeiro círculo de direção e decisão (como vimos agora na decisão de lançar o filho como candidato nas presidenciais), mas não era o único, pois quadros políticos formados na escola de Olavo de Carvalho (o olavismo), pastores (especialmente a burguesia da fé), empresários, parlamentares, dirigentes partidários, comunicadores digitais e influenciadores ocupavam posições distintas.
Isto explica as contradições e conflitos dentro do governo do Partido Fardado liderado por Bolsonaro. O grupo neofascista queria mobilização permanente e rutura reacionária; os setores militares pretendiam tutela e preservação institucional aparente da sua autoridade – o golpismo seria uma última solução, porém teria que ser chancelado pela White House; o grupo de neoliberais liderado por Paulo Guedes desejava levar a cabo uma contrarreforma do Estado brasileiro que mercantilizasse tudo o que fosse possível, uma política de austeridade punitiva contra os trabalhadores e pobres; o Centrão pretendia recursos, cargos e continuidade da sua lógica fisiológica (orçamento secreto); a burguesia da fé (Malafaia e sucedâneos) procurava obter poder político-religioso (Estado cristão) e aprovar pautas conservadoras e reacionárias; a classe dominante brasileira sustentava o programa económico do bolsonarismo, mas algumas das suas frações consideravam disfuncionais os conflitos, as tensões e os ímpetos golpistas do bolsonarismo – tanto que Lula da Silva teve apoio desses setores na eleição de 2022 (na figura do vice-presidente Geraldo Alckmin).
A direção da comunicação digital e as formas de organização reforçaram essa autonomia em relação aos modos tradicionais dos partidos. O bolsonarismo já possui mecanismos de reprodução que não dependem exclusivamente da presença física de Bolsonaro (que está preso por golpe de Estado). A figura do líder continua central, mas a organização pode produzir sucessores (dentro da família), transferir lealdades, disciplinar divergências e manter uma lógica de campanha política permanente. Por isso, retirar Bolsonaro não equivale a desmontar o partido difuso que se formou em torno dele e da família militar (Partido Fardado). A sua liderança popular tem raízes profundas na História do Brasil, da colonização até aos dias de hoje.
Numa perspetiva de longa duração histórica, retomamos o integralismo por este possuir uma genealogia documentada, com sobrevivências organizativas, circulação de símbolos, repertórios anticomunistas, moralismo cristão, culto da hierarquização e da autoridade, assim como as formas de produção do inimigo (interno). Além disso, grupos neointegralistas participaram na recomposição contemporânea da extrema-direita e reconheceram no bolsonarismo um campo de convergência. Contudo, o movimento bolsonarista não é uma reiteração da Ação Integralista Brasileira, ainda que tenha reavivado seletivamente o integralismo e subordinado essa tradição a uma síntese mais ampla, marcada pela condição periférica e dependente do capitalismo brasileiro neoliberal, pela tutela militar, pelo lavajatismo, pelo neopentecostalismo, pelo olavismo, pelas redes milicianas (criminosas), pelo ativismo empresarial e pela organização e comunicação digitais, entre outros elementos. Essa relação de descontinuidade-continuidade entre o integralismo e o bolsonarismo tem no capitalismo o seu terreno histórico, mas as particularidades da realidade brasileira e a crise estrutural apresentam contornos diferentes e talvez mais perigosos do que no século passado.
O neofascismo brasileiro apresenta-se concretamente como ultraneoliberal: adota o empresariamento e a mercantilização como lógica totalizante da sociabilidade, o fundamentalismo religioso como instrumento de deslaicização do Estado e uma operação jurídica moralizadora da política; incorpora ainda os “patriotas dos EUA”, uma rede de influenciadores digitais, parlamentares e cidadãos armados. Portanto, não propõe a mesma economia corporativa da AIB, mas defende, sim, uma liberdade desmedida para os capitalistas e uma coerção e uma precarização brutal sobre o mundo do trabalho. Além disso, os seus agentes não precisam de uma milícia partidária única, visto que podem apoiar-se em polícias, clubes de tiro, redes paraestatais, grupos digitais e aparelhos repressivos existentes dentro do próprio Estado.
A sua novidade não elimina a continuidade funcional nem o seu papel de solução para as classes dominantes em momentos de crise de alta intensidade, nos quais o regime político liberal não consegue dar resposta às contradições. Tal como os fascismos históricos, procura transformar a crise numa mobilização “regeneradora”; unir grupos sociais distintos por meio de inimigos (construídos ideologicamente); destruir ou enfraquecer a autonomia das organizações populares (movimentos sociais, sindicatos, etc.); construir uma estética da violência política visível de matriz colonial; e reorganizar autoritariamente a dominação de classe e a hegemonia política.
Perfazendo, o bolsonarismo não constitui uma reprodução do integralismo, mas uma forma brasileira e contemporânea de neofascismo que reativa essa tradição e a combina com os elementos supracitados. A sua função política consiste em mobilizar setores intermédios e subalternos para aprofundar o poder das classes dominantes, convertendo as crises sociais em conflito moral, perseguição de inimigos internos e legitimação da violência neofascista. Por isso, a derrota eleitoral de um grupo ou o fracasso de uma tentativa golpista não dissolvem o movimento, visto que permanecem os aparelhos, os interesses, as redes e os afetos políticos que o sustentam. O problema, portanto, não se encerra em Bolsonaro, porque o bolsonarismo constitui uma totalidade social e política mais ampla do que uma figura política. Bolsonaro pode cair; enquanto permanecer intacta a ordem que o produziu, o bolsonarismo continuará à procura de outro rosto e com outros nomes.
Carlos Hortmann
“Quando Jair Bolsonaro deixou o Palácio do Planalto, recebi de amigos portugueses várias mensagens de felicitações. A resposta que eu lhes devolvia era quase sempre a mesma: mas o movimento bolsonarista foi derrotado? O 8 de janeiro de 2023 respondeu de forma brutal. A eleição havia retirado Bolsonaro do Governo; não tinha dissolvido a força social, política, institucional e ideológica que se organizara à sua volta.”
A essência histórica daquela pergunta conjuntural sobre o movimento e as suas bases retorna neste ensaio numa perspetiva de longa duração histórica: o bolsonarismo seria um novo integralismo? Uma resposta rápida seria afirmativa. Encontramos o lema “Deus, Pátria e Família”, o anticomunismo, o culto do líder, a denúncia de uma nação corrompida por inimigos internos, o moralismo religioso, a exaltação da autoridade e a legitimação da violência política. Outra resposta igualmente açodada, mas oposta, lembraria que não houve camisas verdes, Sigma, “Anauê”, partido-milícia estruturado nem projeto corporativo equivalente ao da Ação Integralista Brasileira (AIB) dos anos 1930. Entendo que as duas respostas são insuficientes e aparentes. Uma confunde semelhança com identidade; a outra imagina que um fenómeno histórico só pode reaparecer vestido com o mesmo uniforme, etc. Ambas comparam sinais aparentes (exteriores) antes de analisarem as relações sociais, o terreno histórico do seu surgimento, as formas de organização, os interesses de classe e a sua base social, os aparelhos de Estado, as ideologias e o projeto de poder.
A hipótese central deste artigo é que o integralismo, que teve o maior partido fascista fora da Europa, constitui uma das raízes fundamentais do bolsonarismo, mas sem ser uma explicação totalizante do movimento. Isto é, o bolsonarismo conformou-se socialmente após a crise capitalista de 2008 e a crise da chamada Nova República, numa articulação entre frações dominantes interessadas no aprofundamento das políticas neoliberais: o Partido Fardado (aparelhos militares e policiais) e os aparelhos jurídico-políticos com relativa autonomia; organizações religiosas, empresariais, mediáticas e digitais capazes de produzir consenso e mobilização; bases sociais heterogéneas movidas pelo antipetismo, punitivismo, medo, racismo estrutural e pela (suposta) restauração das hierarquias patriarcais e machistas; e uma direção plebiscitária concentrada em Bolsonaro (totem) e na sua família. Por outras palavras, não estamos diante uma soma de grupos, mas sim perante uma totalidade contraditória: interesses materiais, aparelhos repressivos, ideologia fascizante, afetos políticos, organizações e liderança que se reforçaram mutuamente numa conjuntura de crise económica e política de alta intensidade e conflito social. É essa particular e complexa imbricação que nos permite categorizar e identificar o bolsonarismo como uma forma brasileira do neofascismo.
Entendo que adjetivar como neofascista qualquer conservador ou adversário político transforma a categoria histórica numa demarcação política de cunho depreciativo e sem valor explicativo. Por outro lado, limitar o fascismo a Mussolini e Hitler, como se a História apenas produzisse exemplares únicos e encerrados, também nos deixa desarmados diante das transformações da extrema-direita.
Essa problemática integra, há alguns anos, o meu trabalho de investigação e será, em breve, objeto de uma publicação sobre fascismo e neofascismo, na qual proponho uma separação analítica em quatro níveis. Sinteticamente, o fascismo é uma possibilidade histórica que altera a forma estatal, o regime político, e que mobiliza e reorganiza de modo autoritário a dominação e hegemonia capitalista em condições de múltiplas e intensas crises. O neofascismo atualiza esse núcleo sob condições posteriores ao fascismo histórico (1945). A fascização designa o processo pelo qual movimentos desse cariz político ganham enraizamento, normalizam a violência política e a sua estética, penetram nas estruturas do Estado e alteram a correlação de forças e a referida forma estatal. A neofascização é a forma contemporânea desse processo, atravessada pelo neoliberalismo (padrão de reprodução do capital-imperialismo), pelas grandes plataformas digitais (tecnopolítica), pela fragmentação e agudização da precarização do mundo do trabalho e pelas novas capacidades repressivas e informacionais (vigilância) do Estado.
Esta distinção, ultra-sumarizada, permite apreender os processos históricos nas suas contradições e conflitos, de modo a evitar equívocos recorrentes. Um movimento pode ser neofascista sem ter construído um Estado fascista. Um grupo político é capaz de buscar uma rutura autoritária sem conseguir destruir a (aparente) competição eleitoral. Um governo consegue ser dirigido por uma corrente neofascista e, simultaneamente, agrupar militares, liberais, conservadores, religiosos e partidos tradicionais que não possuem exatamente o mesmo projeto político – convergem na defesa dos mesmos interesses de classe, mas, dependendo da intensidade da crise, optam por soluções políticas fora do regime liberal-capitalista. Alberto Toscano sintetiza a questão decisiva: “Perguntar sobre o fascismo é invariavelmente também perguntar sobre as crises que produzem o fascismo.”
No caso brasileiro, o bolsonarismo surgiu como um movimento e uma corrente ideopolítica com grande apoio popular (quer no seu bloco social, quer no eleitoral). Bolsonaro foi/é a liderança (totem) plebiscitária que o galvanizou e organizou o movimento; o governo do Partido Fardado/Bolsonaro foi uma coligação heterogénea, dirigida hegemonicamente pela extrema-direita, mas composta por grupos com interesses próprios (por exemplo, Sérgio Moro) e, por vezes, conflituantes (como a gestão da pandemia, etc.). O regime político de 2019 a 2022 permaneceu uma democracia representativa liberal, com forte ímpeto autoritário, submetida à erosão institucional e a tentativas de rutura golpista, mas não se transformou num Estado fascista consolidado. Em síntese, o Brasil possuía um conjunto de ideias, imaginários e movimentos atravessados pelo fascismo; além disso, neofascistas estavam na principal posição do Governo central, mas o país não chegou a ter uma ditadura fascista (Boito Jr.). Essa distinção é decisiva, pois negar a matriz social neofascista do movimento porque não existiu partido único é tão errado quanto declarar fascista todo o Estado brasileiro porque Bolsonaro/Partido Fardado chegou à Presidência.
Quais são, então, os elementos constitutivos fundamentais no âmbito da política? No meu entendimento, quatro relações precisam de estar presentes: uma mobilização chauvinista regeneradora/libertadora – livrar o Brasil de um suposto regime socialista – que promete reconstruir a nação; a produção totalizante de inimigos internos que não são reconhecidos como adversários legítimos, mas alvos a serem eliminados; uma reconfiguração na relação hegemónica entre consenso e violência; e a pretensão de reorganizar autoritariamente uma ordem atravessada por uma crise de alta intensidade. O avanço do processo pode ser aferido pela instilação nos aparelhos repressivos, pela neutralização ou exclusão das organizações adversárias, pela legalização ou normalização da exceção, pela subordinação das instituições ao grupo dirigente e pela transformação duradoura da forma política e jurídica do Estado.
O bolsonarismo preencheu os critérios elementares e avançou em diversos dos agravantes. Procurou construir ideologicamente uma comunidade moral do “Brasil de verdade” e “dos cidadãos de bem”, transformar a esquerda — quer os seus setores moderados, quer os seus setores minoritários radicais —, os movimentos sociais, professores, jornalistas, indígenas, feministas e pessoas LGBTQIA+ em partes de uma conspiração do “marxismo cultural” ou da agenda woke; legitimou tortura, violência policial e eliminação física; recorreu ao totem do Partido das Forças Armadas e penetrou profundamente nas polícias (militares); governou mediante a ameaça, a tensão e o conflito permanentes; procurou desacreditar eleições, tribunais e mecanismos de controlo do regime liberal. O bolsonarismo não conseguiu efetivar o golpe que preparara; contudo, o fracasso do objetivo máximo não oculta a substância política e histórica do processo.
Como sinalizámos, o fascismo brasileiro tem uma história anterior ao movimento encabeçado por Jair Messias Bolsonaro. A Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 e dirigida por Plínio Salgado, foi um movimento de massas com organização nacional (com forte preponderância em São Paulo e no Rio de Janeiro), imprensa própria, símbolos, rituais, estética uniformizada, formação de quadros e capacidade de disputar as ruas. O chefe era apresentado como intérprete do destino nacional; a sociedade como organismo moral superior às classes; o comunismo como força dissolvente da família, da religião e da pátria.
No livro O fascismo em camisas verdes: do integralismo ao neointegralismo, Leandro Gonçalves e Odilon Caldeira Neto procuraram demonstrar que a dissolução da AIB não destruiu as suas redes e ideias. O integralismo sobreviveu em associações, jornais, círculos culturais, memórias militantes e experiências partidárias, sobretudo ao reorganizar-se no pós-guerra através do Partido de Representação Popular (PRP) e ao reaparecer posteriormente em grupos neointegralistas. Um artigo recente trata de uma mediação fundamental do movimento: a AIB não consistiu numa imitação passiva de Mussolini, pois “articulou vínculos com o fascismo italiano, o nazismo alemão, o integralismo lusitano e o falangismo espanhol” (Bianchi, Defina, Cardoso, 2026). Em resumo, integrou um campo transnacional da direita “ultranacionalista” e fascista do século XX, no qual símbolos, práticas e conceitos circulavam e eram traduzidos para as condições brasileiras.
Há, portanto, continuidade organizativa e ideopolítica suficiente para pôr em causa a “perceção” de que o integralismo desapareceu em 1938 (com a repressão de Getúlio Vargas). Existem elementos constitutivos que atravessaram o tempo: “Deus, Pátria e Família”; o anticomunismo; a autoridade como se fosse a solução para o conflito; a rejeição à luta de classes; a comunidade nacional concebida como unidade espiritual; a violência e a sua estética apresentada numa perspetiva moral e defensiva; a transformação da política numa guerra contra agentes da decadência brasileira. Um ponto fulcral: identificar continuidades não significa repetição, pois a verdade histórica é concretamente particular; o que existe hoje, por mais que tenha elementos semelhantes aos do passado, é diferente (desculpem-me o momento hegeliano). Noutros termos, não é razoável equiparar símbolos e retórica com base apenas nas aparências; é necessário determinar a formação social, os sujeitos das classes, o programa económico e a função política de cada movimento.
Plínio Salgado denunciava o grande capital e a finança em nome de uma ordem rural, cristã, hierárquica e fundada na pequena propriedade. O aparente “anticapitalismo” não questionava a propriedade dos meios de produção nem pretendia emancipar o trabalho assalariado da sua alienação; isto é, o integralismo moralizava as relações sociais e projetava uma (hipotética) restauração. O bolsonarismo, ao contrário, promoveu a expansão dos capitais financeiros, da agroexportação e do extrativismo – padrão de produção típico de um país periférico e dependente. Não pretendeu conter a acumulação capitalista, mas quis “libertá-la” das garantias básicas (laborais e de segurança social) que protegiam minimamente os/as trabalhadores/as, da proteção ambiental (“vamos passar a boiada”), das políticas públicas de cariz universalizante, com vista à sua mercantilização, etc. Além disso, identifico uma mudança na materialidade da organização política, visto que o integralismo construiu um partido uniformizado, com milícias, secções territoriais e liturgias públicas. O bolsonarismo tem desenvolvido uma organização (mais) flexível, eleitoral, religiosa e digital (elemento do nosso tempo). A direção continua a produzir unidade, disciplina e inimigos, mas já não depende de uma sede partidária fixa. As redes sociais, os canais de comunicação direta, as igrejas, os gabinetes parlamentares e os movimentos de rua cumprem funções que antes eram concentradas na forma-partido de massas clássica. A base religiosa transformou-se igualmente, pois, o integralismo sustentava-se no catolicismo conservador. No bolsonarismo, lideranças evangélicas/protestantes (pentecostais e neopentecostais) adquiriram um peso sem equivalente; todavia, os setores católicos de cariz mais conservador e reacionário também constituem a base do bolsonarismo, mas não com a força mobilizadora das lideranças evangélicas. O decisivo é que a religião não desapareceu; mudou de instituições, de linguagem e de formas de inserção na vida quotidiana.
O integralismo, portanto, não é a origem exclusiva do bolsonarismo. É uma procedência real, entrelaçada com outras: o anticomunismo militar, a memória apologética da ditadura, o punitivismo policial, o neoliberalismo, o olavismo, o moralismo da Lava Jato, o fundamentalismo religioso, as forças paraestatais e milícias em grandes capitais e a tecnopolítica das plataformas digitais (Big Techs). A questão central é como tradições diferentes foram reativadas, combinadas e subordinadas a um novo projeto de poder.
Frações dominantes e beneficiados
No referido artigo, apresentei o ultraneoliberalismo e o agronegócio como dois “setores” de classe constitutivos do bolsonarismo. Importa fazer duas notas caracterizadoras. O neoliberalismo ultrapassa um determinado grupo social que o defende enquanto política económica e ideologia, pois é, sobretudo, um projeto económico-político de reorganização da acumulação (tendo como eixo dinâmico a financeirização), do Estado e das relações entre capital e trabalho, etc. Quando o categorizo como setor ultraneoliberal, tenho como objetivo sinalizar o conteúdo autoritário (com elementos fascizantes) dessas forças políticas, que se reconfiguram no interior da direita tradicional, maioritariamente. O agronegócio, por sua vez, agrupa os interesses dos proprietários fundiários (fazendeiros), das agroindústrias, dos exportadores, das tradings, dos grandes frigoríficos/matadouros, do capital financeiro ligado à terra e dos representantes parlamentares (bancada do boi).
Nesse contexto, a análise que faço desse processo suscita duas questões fundamentais: quem apoiou e/ou ganhou materialmente com o governo Bolsonaro? A base social ativa de um movimento de cariz neofascista pode ser identificada sociologicamente na pequena burguesia e no que tenho classificado de “pobre premium” (a dita alta “classe média”), enquanto o governo serve prioritariamente frações do grande capital (Boito Jr.). Numa formulação sintética: mobilização social de setores intermédios, governo para as classes dominantes. Ou seja, os que ocupam as ruas, difundem mensagens e imaginam combater o “sistema” não são necessariamente os principais beneficiários da política económica que ajudam a legitimar. O bolsonarismo tem uma vertente com uma forma (sem conteúdo) insurrecional deveras marcado e distintivo no fazer política, o que expressa uma aparência, somente cariz, de antissistema.
A composição concreta do bloco dominante foi disputada: o capital financeiro, o agronegócio, a mineração, os grandes grupos comerciais (retalho) e de comunicação, partes da indústria e o capital estrangeiro não tiveram interesses semelhantes em todos os momentos do governo bolsonarista (por exemplo, durante a pandemia da Covid-19). Ainda assim, convergiram em torno de elementos fundamentais: reforma da Previdência (da segurança social); privatizações; abertura de mercados; desregulação ambiental; enfraquecimento de direitos laborais; “autonomia” (privatização) acrescida do Banco Central; redução da capacidade redistributiva do Estado; e proteção da propriedade diante de movimentos sociais.
As classes dominantes não precisaram de fabricar Bolsonaro desde o início, visto que setores relevantes preferiram candidatos convencionais (por exemplo, Geraldo Alckmin, hoje vice de Lula da Silva). A adesão tornou-se maciça quando ele apareceu como a alternativa capaz de derrotar o PT e executar o programa ultraneoliberal avalizado por Paulo Guedes (associado aos Chicago Boys, tendo prestado serviços à ditadura de Pinochet, no Chile). O movimento liderado por Bolsonaro possuía dinâmica relativamente própria; os capitalistas brasileiros e os ditos conservadores aderiram “pragmaticamente”, pero no mucho, quando reconheceram a sua utilidade, força social e eleitoral.
Observemos a contradição. O bolsonarismo afirmava falar em nome do indivíduo contra o Estado, mas não procurou um Estado menor, como a ideologia neoliberal propala. Todavia, a política seguida foi a de um Estado seletivamente forte. Isto é, fraco para garantir trabalho, saúde, segurança social, educação, preservação ambiental e redistribuição do rendimento, etc.; forte para assegurar austeridade, contratos, privatizações, propriedade, rentismo, fronteira extrativa, repressão policial e disciplina social. A liberdade do capital exigia a limitação da força social daqueles/as que vivem da força do seu trabalho.
Essa lógica de operar sob o neoliberalismo traz em si raízes históricas de longa duração, como alerta Marcelo Matos ao analisar a autocracia burguesa brasileira. A classe dominante brasileira formou-se associada ao capital externo, conciliada com grandes proprietários e estruturalmente hostil a uma verdadeira democratização que ameaçasse a riqueza e o poder (por exemplo, o golpe de 1964). A autocracia não existe apenas em ditaduras abertas. Manifesta-se também na restrição sistemática da participação popular e na prontidão com que as classes possidentes aceitam soluções de força e autoritárias, desde que constituam a forma mais eficiente de preservar os seus interesses.
O suposto “nacionalismo” bolsonarista foi estridente no plano moral e subordinado no plano material. Quer dizer, o slogan “Brasil acima de tudo” conviveu com alinhamento externo (submetido aos EUA), privatização (de setores estratégicos), financeirização e expansão de uma economia agromineira exportadora (intensificando a desindustrialização e a dependência). Quanto menor a soberania económica, maiores podiam ser a exaltação simbólica e o chauvinismo da pátria. A imaginada defesa do Brasil contra aqueles que o bolsonarismo considerava inimigos internos (os comunistas, petistas, ambientalistas, indígenas, professores/as, as mulheres e o feminismo, a comunidade LGBTIQ+), com consequências concretas para estes, desaparece por completo perante a contínua transferência de riqueza (valor) e a dependência cada vez maior do país em relação ao exterior.
No campo e na Amazónia, economia e violência territorial encontraram-se, visto que a expansão do agronegócio extrativista atinge os territórios de povos indígenas, de comunidades quilombolas e de camponeses, bem como a floresta e áreas afins. O armamentismo e a desregulação ambiental não foram apenas temas de retórica, pois integraram condições políticas da acumulação capitalista no Brasil. A figura do “produtor” ameaçado transformou a expropriação de terras e a violência em defesa da propriedade.
Para concluir este tópico, retomo os estudos da historiadora Virgínia Fontes sobre aparelhos privados de hegemonia, que permitem perceber que as classes dominantes não atuam apenas através do financiamento eleitoral. Institutos, fundações, associações patronais e organizações empresariais produzem quadros, programas, campanhas e constrangimentos. O seu “hegemonismo” reduz o campo de decisões possíveis, aproxima programas partidários e apresenta interesses privados como imperativos técnicos. A extrema-direita não substituiu esse ativismo; ofereceu-lhe uma forma de mobilização de massas e uma capacidade acrescida de coerção.
É no esteio desta caracterização que identificamos o papel estruturante e o poder político das classes no bolsonarismo. Contudo, a função das classes, por si só, não explica como milhões de pessoas, na sua maioria pertencentes à classe trabalhadora, foram mobilizadas para constituir o seu bloco (heterogéneo e interclassista) social e eleitoral.
A relação de Jair Bolsonaro com o mundo militar precede em décadas a eleição de 2018. O amotinado e polémico capitão do Exército passou à reserva em 1988, a fim de assumir um cargo político. A sua primeira base foi corporativa: dizia defender os militares e os agentes policiais no que diz respeito a salários, carreiras, etc. O deputado, que parecia folclórico, combinava defesa da ditadura, retórica golpista e anticomunista, e mobilização extraparlamentar. Antes de as formulações reacionárias de Olavo de Carvalho — o olavismo — dominarem a gramática da extrema-direita, a guerra cultural contra o “inimigo interno” já circulava em instituições militares, tendo efetividade nos modos concreto de repressão e perseguição aos opositores perpetrados pela ditadura empresarial-militar.
A categoria “partido fardado”, que utilizamos de um ponto de vista analítico, procura captar e sinalizar a atuação política, relativamente orgânica, de setores militares de alto comando e patentes, a sua pretensão de tutelar a República e a continuidade de uma doutrina que apresenta as Forças Armadas como árbitro superior da vida nacional. Bolsonaro não inventou essa pretensão de poder moderador, apenas se tornou o veículo (totem) eleitoral que permitiu aos militares regressarem ao centro do Executivo, ocuparem milhares de cargos e recuperarem poder sobre áreas civis.
As polícias (militares e civis) constituem um problema com elementos e nuances distintos dos das Forças Armadas, visto serem instituições estaduais, com estatutos e comandos próprios. A lógica de funcionamento e operação nos territórios e as ligações às milícias são permanentes. Contudo, o armamentismo, a retórica de “lei e ordem”, a heroicização da violência e a promessa de proteção jurídica aos agentes repressivos encontraram adesão em setores policiais. A frase retórica “bandido bom é bandido morto” não opera numa sociedade abstrata, pois os suspeitos têm marcadores raciais, territoriais e sociais.
Por isso, a dimensão racial não pode ser acrescentada no fim da análise nem tratada como um tema isolado. A violência policial brasileira é seletiva; a população negra, pobre e periférica conhece o Estado sobretudo através de incursões repressivas, revistas, encarceramento em massa e morte. O racismo vai além de uma herança colonial; constitui uma necessidade do capitalismo na gestão de populações historicamente excluídas e atua como garante legitimador do seu domínio pela violência sistemática. Todavia, o bolsonarismo não criou essa estrutura, mas transformou-a em virtude pública. Enquanto substância histórica do fascismo, a violência converte-se numa estética que torna visível uma dinâmica precedente que, tendencialmente, se procura ocultar ou cujo caráter contínuo se procura velar. A figura do polícia autorizado (impunemente) a matar tornou-se parte da comunidade moral do “cidadão de bem”.
As milícias e outras redes paraestatais pertencem à mesma lógica fascizante, embora o seu peso no conjunto do movimento exija uma abordagem específica e pormenorizada, dadas as singularidades de cada Estado da federação. Mas, no essencial, revelam a circulação entre agentes públicos, economias ilegais, controlo armado territorial, prestação coerciva de serviços e representação política. O bolsonarismo está imbricado e opera, em certa medida, pela lógica e pela estrutura milicianas, indicando que a fronteira entre Estado e paraestado pode funcionar como forma concreta de poder.
O sistema judicial entra nesta caracterização do bolsonarismo por uma via diferente. A operação Lava Jato e os seus principais protagonistas, tanto quanto sabemos, não parecem constituir diretamente uma fração da classe dominante nem possuir ligações às forças políticas que rodeavam o grupo político de Jair Bolsonaro. Identifico-a como uma corrente político-jurídica, instalada em aparelhos do Ministério Público, da magistratura e da Polícia Federal, com forte legitimação mediática e autonomia relativa, mas também interconectada com aspetos do sistema interestatal e da economia política internacional. Os contactos, a cooperação jurídica, a formação, a circulação de doutrinas anticorrupção e as relações com agências estadunidenses são objetos documentáveis.
A operação, liderada por Sérgio Moro, transformou a crise social, política e económica numa perspetiva moralizante da situação. Ou seja, a corrupção deixou de designar relações sistémicas entre empresas, financiamento político, contratos e Estado, etc. – lógica estrutural no capitalismo –, e passou a explicar todos os problemas nacionais, concentrando-os seletivamente no Partido dos Trabalhadores (PT) e nos seus dirigentes, bem como a rotular a esquerda em sentido lato como sinónimo de corrupção e falha moral. O objetivo seria o de apresentar os juízes e procuradores como “salvadores” da pátria acima da política. Noutros termos, a linguagem e as formas jurídicas do processo penal foram utilizadas para reorganizar a competição eleitoral (derrotar o projeto social-liberal do PT). É neste ponto que o lavajatismo intensificou o antipetismo e o anticomunismo, deslegitimou o sistema partidário e contribuiu para o impeachment do golpe de 2016. A prisão e o impedimento eleitoral de Lula da Silva alteraram decisivamente a competição presidencial no ano de 2018. A entrada de Sérgio Moro, juiz que condenou e prendeu Lula da Silva, no Governo militar liderado por Bolsonaro tornou visível a convergência política entre aquela operação jurídico-política e o bolsonarismo, indicando que esse “partido da Lava Jato” viria a constituir uma das bases do bolsonarismo – parece-me evidente que hoje têm uma força política e mediática significativamente reduzida.
O estudioso da questão militar brasileira e jornalista Pedro Marin formulou uma imagem com força explicativa: a Lava Jato foi mais “artilharia” do que “infantaria”. Precisamente, a sua função histórica foi bombardear a ordem existente, destruir reputações, empresas, partidos e mediações políticas. Não possuía, porém, capacidade para ocupar e estabilizar o terreno aberto. A velha direita neoliberal (tucana) também não conseguiu herdar integralmente o resultado; por isso, os militares e a extrema-direita avançaram sobre os escombros.
O ponto central é que a ofensiva liberal-conservadora e neofascista não utilizou apenas as eleições e os partidos; recorreu também às burocracias civis e militares, tribunais, ministérios públicos e polícias para que interviessem na crise, deslocando decisões e construindo legitimidade política e ideológica. É preciso dizer sem rodeios: o bolsonarismo configurou-se a partir dessa politização dos aparelhos estatais, ao mesmo tempo que procurou aprofundar essa politização numa perspetiva autoritária e fascizante.
No esteio das lições de filosofia política de Maquiavel e das experiências históricas, podemos afirmar sem muitas dúvidas, que nenhum movimento de massas se sustenta apenas pela coerção; daí decorre a necessidade de produzir explicações, identidades, consentimentos, afetos e formas de pertença política. A hegemonia opera numa dinâmica contraditória entre consenso e coerção: dependendo do tipo de conflito ou projeto político, um dos polos torna-se preponderante sobre o outro. Nesse sentido, o que temos vindo a identificar e categorizar (provisoriamente) como guerra cultural vai além de táticas de “distração”, “cortina de fumo” e afins, e desponta como um mecanismo constitutivo desse processo político.
Esse brevíssimo preâmbulo relaciona-se com o texto anterior que escrevi sobre o bolsonarismo, no qual sugeri que o “pânico moral” (ou “terrorismo da indignação”) desviava a atenção da agenda da Faria Lima (centro do mercado financeiro brasileiro), o que é verdade; contudo, a formulação precisa de ser ampliada e demarcada. A guerra cultural, objetivando construir outra hegemonia, pode servir para velar reformas económicas antipopulares, mas também tem a capacidade de concertar socialmente o campo bolsonarista, disciplinar os partidários, converter os antagonismos de classe em conflitos de ordem moral, bem como legitimar e normalizar a violência política e unir grupos com interesses materiais e posições de classe diferentes (de um trabalhador evangélico uberizado ao conhecido dono de uma rede de lojas retalhistas do Brasil).
O anticomunismo foi a sua gramática política comum. Importa enfatizar que o anticomunismo não exprimia a força real dos comunistas no Brasil — a esquerda radical é marginal —, mas operava como categoria extensível. O “comunista” podia/pode ser um militante do PT, uma professora, uma feminista, um jornalista, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), um indígena em defesa do território ou alguém que recusasse algumas das ideias-força do bolsonarismo. A ameaça era tanto mais eficiente quanto menos precisava de um referente preciso.
As igrejas e o fundamentalismo religioso tiveram — e continuam a ter — um papel decisivo na constituição do bolsonarismo. Determinadas lideranças e organizações evangélicas conservadoras forneceram-lhe capilaridade territorial, autoridade moral, meios de comunicação, quadros políticos e capacidade de mobilização. Pequenos, mas ideologicamente ativos, grupos católicos reacionários também participaram nessa construção, sobretudo nas campanhas contra o feminismo, os direitos reprodutivos, a população LGBTQIA+ e aquilo a que chamaram “ideologia de género”, etc.
O campo evangélico é social, institucional e teologicamente heterogéneo: os evangélicos históricos, os pentecostais, os neopentecostais, as grandes denominações, as igrejas locais, os pastores de base e os fiéis não pensam nem agem como um corpo uniforme. Existem, ainda que minoritárias, correntes evangélicas progressistas e democráticas, algumas próximas da chamada Teologia da Missão Integral (irmã da Teologia da Libertação de matriz católica), que procuram articular a fé cristã com a justiça social e a defesa dos direitos humanos. Seria, portanto, um erro grosseiro representar milhões de evangélicos como pessoas robotizadas, desprovidas de discernimento, consciência ou interesses próprios. A adesão de parte desse universo ao bolsonarismo não pode ser explicada somente pela manipulação exercida por pastores (que compõem a “burgueses da fé”) ou pela influência de grandes denominações religiosas. É necessário compreender as condições materiais e sociais dentro das quais essas organizações adquiriram tamanha importância.
O melhorismo dos governos do PT/lulismo — isto é, a melhoria relativa e limitada das condições de vida de milhões de brasileiros — não enfrentou as grandes fraturas da formação social brasileira (crise urbana, questão da terra, o caráter da dependência e da desindustrialização progressiva). A expansão do emprego, do consumo, do crédito e do rendimento não eliminou o subemprego, a informalidade laboral, a insegurança económica e alimentar, nem a superexploração da força de trabalho. As implementadas políticas públicas universalizantes permaneceram insuficientes e, em vários momentos, foram e continuam a ser intencionalmente enfraquecidas como forma de garantir a política de austeridade. A vida melhorou para muitos, mas continuou subordinada à instabilidade das crises do capitalismo periférico e dependente brasileiro, à precariedade dos serviços públicos, à violência e à desigualdade racial e territorial.
Foi também nesse espaço que as igrejas cresceram como redes quotidianas de sociabilidade, proteção e solidariedade. Ali, “os irmãos em Cristo ajudam-se”: indicam empregos e trabalhos, organizam cabazes alimentares, visitam doentes, cuidam de crianças, apoiam famílias endividadas e acompanham pessoas atingidas pelo alcoolismo, pela violência doméstica ou pelo abandono. Na maioria das vezes, as respostas oferecidas não são suficientes (mas produzem laços de confiança e a perceção de que estão a ser “apoiadas”); algumas reproduzem hierarquias patriarcais e podem silenciar conflitos que deveriam ser enfrentados pelo Estado e pela sociedade (ex. violência doméstica). Mas o auxílio, a escuta e o sentimento de pertencimento são reais. Para pessoas que a sociedade capitalista e racista brasileira reduz frequentemente à invisibilidade, à suspeição ou à condição de força de trabalho descartável, a igreja pode oferecer um nome, uma comunidade e a possibilidade de recomeçar. Nesses espaços, alguém pode “renascer em Cristo” e tornar-se uma “nova criatura”; os erros e os desacertos do passado deixam de constituir uma condenação irrevogável. A conversão não é apenas uma mudança doutrinária. Pode representar a reconstrução da identidade, o abandono de relações assoladoras, a recuperação da autoestima e o ingresso numa rede concreta de reciprocidade e pertencimento social e também político. A gramática da redenção é um afeto e um imaginário político poderosos que as igrejas mobilizam com muita eficácia, mas que a esquerda também mobilizou no passado e hoje parece ser algo secundário.
É precisamente porque não são simples máquinas de manipulação que as igrejas podem tornar-se aparelhos tão poderosos de produção de hegemonia, no eixo do consenso. A mesma capilaridade que acolhe também pode disciplinar; a própria comunidade que protege pode definir quem pertence e quem ameaça a ordem; assim como a autoridade que oferece consolo pode converter uma orientação política em dever religioso. A solidariedade comunitária e a direção reacionária e fascizante não são realidades incompatíveis. Podem coexistir dentro da mesma organização e, por vezes, dentro da mesma experiência individual.
Nesse quadro, penso ser importante destacar o peso específico das organizações neopentecostais e do sionismo cristão nessa articulação no campo do bolsonarismo. Estas igrejas ofereceram redes territoriais, meios de comunicação (por exemplo, a TV Record), dirigentes, linguagem moral, autoridade e mobilização eleitoral. Noutros termos, a batalha política pode ser traduzida como batalha espiritual; o adversário, como força demoníaca; e o líder político, como instrumento providencial de Deus. Por conseguinte, quando o conflito deixa de opor projetos políticos e passa a representar uma guerra entre o Bem e o Mal, a diversidade e a diferença perdem legitimidade. Negociar com o adversário pode parecer uma cedência ao demónio; derrotá-lo torna-se uma missão religiosa e moral. São formas de vida que se confrontam sem qualquer espaço para mediações.
O sionismo cristão é uma corrente do cristianismo, particularmente influente entre setores neopentecostais, que interpreta o apoio ao Estado de Israel e o retorno dos judeus à chamada Terra Prometida como parte do cumprimento das profecias bíblicas, articulando-se ao neopentecostalismo através de uma linguagem escatológica, do uso de símbolos judaico-israelitas e da construção de uma identidade político-religiosa conservadora em torno de Israel. O bolsonarismo sustenta-se também nessa imbricação, ao ponto de um católico, Jair Bolsonaro, ser batizado por um pastor neopentecostal e político, Everaldo Pereira, nas águas do rio Jordão.
A Teologia da Prosperidade acrescentou a essa infraestrutura comunitária neopentecostal uma gramática munida de fortes afinidades com a subjetividade neoliberal. Desta forma, o sucesso aparece como resultado da fé, do mérito, da disciplina e do investimento individual; o fracasso tende a ser interpretado como insuficiência pessoal ou espiritual. O empresário de si mesmo encontra o fiel, que deve demonstrar a sua eleição através da transformação da própria vida. Problemas produzidos pelo desemprego, pelo racismo, pela precariedade e pela desigualdade podem, assim, ser deslocados para o campo da responsabilidade individual.
O que estou a tentar assinalar com essa descrição é que muitos fiéis procuram proteção, sociabilidade, dignidade e apoio material que o Estado e as suas políticas lhes negam. A força das lideranças do fundamentalismo religioso reside precisamente na capacidade de organizar experiências verdadeiras de insegurança e desamparo dentro de uma retórica ideológica de restauração moral, prosperidade individual e guerra espiritual. A minha crítica, portanto, não se dirige à fé nem aos milhões de pessoas que encontram nas igrejas uma comunidade de pertencimento. Dirige-se à conversão da autoridade religiosa, do dinheiro, da comunicação de massas, dos púlpitos e da capilaridade comunitária em poder político. A expressão “burguesia da fé” procura identificar os dirigentes e pastores que acumulam capital económico, mediático e religioso e o transformam em influência política, eleitoral e estatal. Por isso, não deve servir para desprezar os fiéis nem para atribuir irracionalidade a quem procura respostas para situações concretas de desabrigo e desproteção.
O bolsonarismo não criou essas redes, experiências e linguagens; apenas reconheceu a sua força, estabeleceu alianças com parte das suas direções e ofereceu-lhes canais de influência sobre o Estado. Em contrapartida, recebeu legitimidade religiosa, militância, quadros, votos e uma interpretação providencial da sua liderança (Jair Messias Bolsonaro). É justamente nessa relação — e não numa suposta cegueira coletiva dos fiéis — que se constituiu um dos pilares sociais e ideológicos mais sólidos do movimento bolsonarista.
Os meios de comunicação tradicionais (grandes media) também cumpriram uma função contraditória. Partes relevantes da imprensa legitimaram socialmente a operação Lava Jato, anteciparam condenações e apresentaram a corrupção como monopólio de um partido (do PT) ou da esquerda. Mais tarde, entraram em conflito com Bolsonaro/Partido Fardado, foram atacadas e passaram a defender instituições liberais ameaçadas. Um aparelho pode contribuir para preparar o terreno de uma força e, depois, resistir à sua tentativa de domínio ou de hegemonização. Ainda, saliento, o programa económico desses grupos de média e dos setores empresariais brasileiros é o mesmo; em nenhum momento as diretrizes das políticas económicas do ministro da Economia, Paulo Guedes, foram postas em causa.
As plataformas digitais acrescentaram uma nova materialidade a esse processo histórico e político, visto que a propaganda se tornou algo praticamente ininterrupto. Parece evidente que a internet não inventou o anticomunismo, o racismo, a misoginia ou o militarismo; mas modificou a escala, a velocidade, a segmentação e a participação. O partidário deixou de ser apenas recetor, pois agora partilha, comenta, edita, denuncia, vigia e produz nessa estrutura constante de agitação política.
A distinção entre manipulação e modulação é particularmente profícua para analisar e entender os fenómenos políticos neofascistas. A comunicação de massas envia uma narrativa relativamente homogénea e tão ampla quanto possível; a modulação algorítmica recolhe dados, segmenta públicos e ajusta estímulos aos afetos políticos de cada utilizador. Isto não significa que os algoritmos sejam sujeitos históricos autónomos; representa, sim, que são tecnologias pertencentes a empresas, orientadas por modelos de negócio, acionadas por recursos, dirigentes, produtores de conteúdos e militantes.
Um estudo recente sobre o Brasil Paralelo demonstra que a guerra cultural na construção de uma hegemonia política reacionária e fascizante exige instituições de produção de “conhecimento” ou formas de explicação e justificação daquela conceção de mundo. Filmes, cursos, vídeos e documentários disputam a memória da ditadura empresarial-militar, desacreditam universidades, buscam reescrever a História e oferecem uma visão do mundo em que a esquerda marxista controla a cultura e persegue a maioria cristã. Assim, o olavismo forneceu a linguagem conspiratória; empresas culturais deram-lhe continuidade, profissionalização e mercado. Nesse contexto, outro trabalho interessante, apesar das dúvidas que se colocam quanto à forma-partido, é o estudo da organização denominada Partido Digital Bolsonarista, com coordenação, hierarquias, cadeias de lealdade, disciplina, financiamento, seleção de candidaturas, rituais e capacidade de transformar influência em poder institucional.
Esta forma-partido não cabe plenamente nos diretórios tradicionais, visto que opera através de perfis, gabinetes parlamentares, influenciadores, canais, eventos, financiamento contínuo e sinais de lealdade. O Partido Liberal (PL) funciona como interface jurídica, eleitoral e financeira, mas não esgota o bolsonarismo organizado. Uma dissidência pode não ser punida por uma comissão formal; perde alcance, acesso à base, legitimidade e capacidade de mobilização; basta analisarmos figuras que divergiram do bolsonarismo. A fórmula que melhor resume esta arquitetura é a seguinte: direção simbolicamente centralizada e organização materialmente distribuída. Bolsonaro permanece o principal ponto de condensação (totem), mas o movimento possui quadros, repertórios, recursos e mecanismos que ultrapassam a pessoa e a figura do líder.
Num artigo instigante do ponto de vista da tecnopolítica, Bruno Reinhardt e Letícia Cesarino acrescentam outra dimensão ao trabalharem com a categorização comunicacional de “fascismo atmosférico”. O que significa isto? O bolsonarismo governou também a temporalidade: ameaça iminente, prontidão, indecisão, sensação de golpe que pode ocorrer a qualquer momento — uma dinâmica que, em termos de tática militar, conceptualizamos como “aproximações sucessivas”. Nesse sentido, o 8 de janeiro de 2023 não surgiu do nada, mas como condensação de uma atmosfera construída durante anos por discursos, motociatas, acampamentos, armas, rituais militares, redes digitais e conspirações simultaneamente exibidas e negadas.
A hegemonia política bolsonarista no campo da direita, ainda que truncada e difusa, conformou-se nessa combinação de Forças Armadas, púlpito, televisão, empresas de produção cultural, plataformas digitais, rua e Parlamento. É precisamente neste ponto que a guerra cultural (para construir uma nova-velha hegemonia social) se torna a mediação entre o programa de classe e a experiência quotidiana dos seus partidários/ativistas.
Base social e eleitoral
Quem são os sujeitos políticos que constituem a base social do bolsonarismo? A pergunta parece simples, mas obriga a distinguir categorias que muitas análises confundem, propositadamente ou não. Isto é, financiadores não são necessariamente dirigentes ou quadros políticos; dirigentes não são necessariamente militantes/ativistas; estes militantes não expressam a totalidade complexa do eleitorado. Do mesmo modo, os eleitores podem não ser beneficiários económicos do projeto político que defendem. Noutros termos, os grupos afetados pelo programa económico podem aderir por razões religiosas, raciais, punitivas, morais, pró-capitalista ou anticomunistas. Em suma, o que estou a tentar indicar é a heterogeneidade de classes do movimento bolsonarista, que tem nos segmentos intermédios e subalternos a sua base social e eleitoral.
As mobilizações de 2015 e 2016 tiveram forte presença de pessoas com rendimentos médios e altos, profissionais liberais, pequenos empresários e sucedâneos; esses grupos produziram quadros, recursos, redes e uma militância visível. Entretanto, o bolsonarismo só se tornou força nacional porque atravessou fronteiras de classe e chegou a trabalhadores precarizados, informais, fiéis de igrejas populares, pequenos comerciantes, camionistas, militares de baixa patente, polícias e habitantes das periferias.
Como procurei demonstrar, explicar esta adesão como mera manipulação é intelectualmente cómodo e politicamente desastroso. As notícias falsas (fake news) e as redes sociais não criam do nada o medo do subemprego e da insegurança urbana, a ausência de serviços públicos, a humilhação social ou a procura de pertença, entre muitas outras expressões da questão social. Entendo que elas traduzem esses conflitos reais numa retórica deslocada, oferecendo culpados, uma comunidade e uma promessa de ordem e de futuro. Essa é uma questão central no meu entendimento: a capacidade política de fazer as pessoas sonharem e de prospetar um futuro melhor, principalmente, entre os jovens que parecem viver uma futurofobia.
O trabalhador transformado em “empreendedor de si” pode identificar-se com o discurso contra impostos e direitos laborais, mesmo quando depende de políticas públicas. O fiel pode votar orientado por uma autoridade que o acompanha no quotidiano e tem nela uma referência espiritual. Os pequenos proprietários/comerciantes ou os pobres premium podem temer a proletarização. O assalariado médio pode interpretar a ampliação de direitos dos grupos subalternos como perda do seu estatuto relativo ou de distinção social.
A figura ideológica do “cidadão de bem” condensou essa base heterogénea. Tal designação não se refere a quem supostamente respeita as leis e a ordem, mas a uma comunidade política-moral que se identifica como cristã, heterossexual, patriarcal, proprietária ou aspirante à propriedade, trabalhadora, armamentista, anticomunista (sendo que, no caso brasileiro, o anticomunismo se aproxima do antipetismo) e obediente à autoridade. A sua identidade precisava de um outro negativo/exterior: o “vagabundo”, o criminoso, a feminista, o professor “doutrinador”, o indígena que impede o progresso, o negro acusado de vitimismo ou wokismo, a pessoa LGBTQIA+ apresentada como ameaça às crianças ou com ligações a pedofilia.
A questão racial, o género e o território organizam materialmente a comunidade e os seus inimigos; não podem ser vistos como questões laterais ou secundárias. A polícia que recebe autorização moral e legal para matar atua em territórios racializados e empobrecidos. Do mesmo modo, a fronteira agroextrativa avança sobre povos indígenas e quilombolas. A precarização distribui-se de forma racial e sexualmente desigual. Nesse contexto, a imaginada defesa da família tradicional procura “restaurar autoridade” masculina, disciplinar sexualidades e devolver às mulheres o trabalho invisível da reprodução social. O suposto “anti-identitarismo” bolsonarista era e é, ele próprio, uma política de identidade dominante (branca). Os seus defensores afirmavam denunciar os negros, as mulheres, os indígenas e as pessoas LGBTQIA+ por se organizarem politicamente, enquanto apresentavam o homem cristão, proprietário e heterossexual como indivíduo universal, sem etnia-raça, género ou posição social. A substância histórica e social é a mesma, o que muda são os figurinos e forma de aparecimento a depender da conjuntura histórica.
Para concluir este tópico, há uma dimensão relevante a demarcar, especialmente na perspetiva eleitoral. Penso que não se deve assumir que todos os eleitores de Bolsonaro/bolsonaristas sejam neofascistas conscientes ou militantes, visto que, num processo eleitoral, se agrupam motivações distintas, como o antipetismo, a religião, a expectativa económica, o medo da criminalidade urbana, a rejeição da política do regime liberal, a identificação militar/militarista, a desinformação, o voto útil e outras razões afins. Portanto, a natureza histórica de um movimento não é determinada pela consciência integral de cada eleitor, mas pela direção que organiza essa diversidade, pelos inimigos que constrói e pelo projeto que transforma os votos em poder político. Em síntese, o apoio popular não anula a função de classe de um governo/Estado, do mesmo modo que a função de classe não elimina a necessidade de compreender o consentimento. É precisamente na distância entre os interesses materiais de parte da base social e os beneficiários efetivos do programa económico que a ideologia e a hegemonia revelam a sua força.
Como procuramos demonstrar neste artigo e noutros textos desta série, o bolsonarismo enquanto movimento político não surgiu “do nada”. Antes da sua vitória eleitoral de 2018 já existiam o anticomunismo como um dos pilares das Forças Armadas, as diferentes franjas da direita e da extrema-direita de cariz fascizante, o lavajatismo e uma certa moralização política, movimentos de direita com força nas ruas, o ativismo empresarial, o fundamentalismo religioso e o olavismo como uma corrente filosófica reacionária, assim como os produtores de conteúdos digitais, as forças policiais mobilizadas e uma nostalgia memorialística da ditadura empresarial-militar (1964-1985). A crise do capitalismo periférico brasileiro e do regime político liberal da Nova República aproximou forças que possuíam uma direção: somente a via autoritária aprofundaria as soluções para a crise em prol das classes dominantes.
Nesse quadro, saliento que tratar a figura (totem) de Jair Bolsonaro como recipiente passivo desses conflitos e crises parece-me, no mínimo, um equívoco. Ele, a sua família e o seu grupo político caninamente fiel procuraram articular símbolos e slogans, hierarquizaram os inimigos a derrotar ou “eliminar”, interligaram as agendas/pautas de uma direita fascista e ofereceram legitimidade e voz nacional a discursos antes considerados marginais (agora, ser abertamente racista, misógino e homofóbico já não “ficava tão mal” porque o presidente também era). O que temos é uma relação contraditória: o campo reacionário produziu Bolsonaro; ao tornar-se líder, Bolsonaro/bolsonarismo produziu uma nova-velha forma de fazer política, suprimindo a direita tradicional/oligárquica e tornando-se a força hegemónica desse campo.
Para compreender melhor o que estou a tentar sinalizar de um ponto de vista do imaginário político e ideológico, recupero um pensador de quem discordo em muitos aspetos, mas que foi preciso ao formular freudianamente a figura do “pequeno grande homem” (Theodor Adorno). Sumariamente, o líder fascista apresenta-se como alguém comum, vítima das mesmas proibições e ressentimentos dos correligionários políticos, mas simultaneamente como figura excecional capaz de agir e ir até às últimas consequências para defender o seu projeto político. No caso brasileiro, Bolsonaro comia, falava, insultava e errava como “qualquer pessoa” — e o que mais se ouvia: “ele é autêntico”; ao mesmo tempo, era o “Mito” destinado a salvar a pátria do “socialismo”. Essa duplicidade permitiu a identificação e a submissão. O partidário via no líder alguém semelhante e participava simbolicamente da sua força. As limitações impostas ao racismo, à misoginia ou à violência eram convertidas em censura contra o “homem comum”. O privilégio ameaçado aparecia como opressão.
No núcleo do movimento, a família Bolsonaro e a “família militar” constituem o primeiro círculo de direção e decisão (como vimos agora na decisão de lançar o filho como candidato nas presidenciais), mas não era o único, pois quadros políticos formados na escola de Olavo de Carvalho (o olavismo), pastores (especialmente a burguesia da fé), empresários, parlamentares, dirigentes partidários, comunicadores digitais e influenciadores ocupavam posições distintas.
Isto explica as contradições e conflitos dentro do governo do Partido Fardado liderado por Bolsonaro. O grupo neofascista queria mobilização permanente e rutura reacionária; os setores militares pretendiam tutela e preservação institucional aparente da sua autoridade – o golpismo seria uma última solução, porém teria que ser chancelado pela White House; o grupo de neoliberais liderado por Paulo Guedes desejava levar a cabo uma contrarreforma do Estado brasileiro que mercantilizasse tudo o que fosse possível, uma política de austeridade punitiva contra os trabalhadores e pobres; o Centrão pretendia recursos, cargos e continuidade da sua lógica fisiológica (orçamento secreto); a burguesia da fé (Malafaia e sucedâneos) procurava obter poder político-religioso (Estado cristão) e aprovar pautas conservadoras e reacionárias; a classe dominante brasileira sustentava o programa económico do bolsonarismo, mas algumas das suas frações consideravam disfuncionais os conflitos, as tensões e os ímpetos golpistas do bolsonarismo – tanto que Lula da Silva teve apoio desses setores na eleição de 2022 (na figura do vice-presidente Geraldo Alckmin).
A direção da comunicação digital e as formas de organização reforçaram essa autonomia em relação aos modos tradicionais dos partidos. O bolsonarismo já possui mecanismos de reprodução que não dependem exclusivamente da presença física de Bolsonaro (que está preso por golpe de Estado). A figura do líder continua central, mas a organização pode produzir sucessores (dentro da família), transferir lealdades, disciplinar divergências e manter uma lógica de campanha política permanente. Por isso, retirar Bolsonaro não equivale a desmontar o partido difuso que se formou em torno dele e da família militar (Partido Fardado). A sua liderança popular tem raízes profundas na História do Brasil, da colonização até aos dias de hoje.
Numa perspetiva de longa duração histórica, retomamos o integralismo por este possuir uma genealogia documentada, com sobrevivências organizativas, circulação de símbolos, repertórios anticomunistas, moralismo cristão, culto da hierarquização e da autoridade, assim como as formas de produção do inimigo (interno). Além disso, grupos neointegralistas participaram na recomposição contemporânea da extrema-direita e reconheceram no bolsonarismo um campo de convergência. Contudo, o movimento bolsonarista não é uma reiteração da Ação Integralista Brasileira, ainda que tenha reavivado seletivamente o integralismo e subordinado essa tradição a uma síntese mais ampla, marcada pela condição periférica e dependente do capitalismo brasileiro neoliberal, pela tutela militar, pelo lavajatismo, pelo neopentecostalismo, pelo olavismo, pelas redes milicianas (criminosas), pelo ativismo empresarial e pela organização e comunicação digitais, entre outros elementos. Essa relação de descontinuidade-continuidade entre o integralismo e o bolsonarismo tem no capitalismo o seu terreno histórico, mas as particularidades da realidade brasileira e a crise estrutural apresentam contornos diferentes e talvez mais perigosos do que no século passado.
O neofascismo brasileiro apresenta-se concretamente como ultraneoliberal: adota o empresariamento e a mercantilização como lógica totalizante da sociabilidade, o fundamentalismo religioso como instrumento de deslaicização do Estado e uma operação jurídica moralizadora da política; incorpora ainda os “patriotas dos EUA”, uma rede de influenciadores digitais, parlamentares e cidadãos armados. Portanto, não propõe a mesma economia corporativa da AIB, mas defende, sim, uma liberdade desmedida para os capitalistas e uma coerção e uma precarização brutal sobre o mundo do trabalho. Além disso, os seus agentes não precisam de uma milícia partidária única, visto que podem apoiar-se em polícias, clubes de tiro, redes paraestatais, grupos digitais e aparelhos repressivos existentes dentro do próprio Estado.
A sua novidade não elimina a continuidade funcional nem o seu papel de solução para as classes dominantes em momentos de crise de alta intensidade, nos quais o regime político liberal não consegue dar resposta às contradições. Tal como os fascismos históricos, procura transformar a crise numa mobilização “regeneradora”; unir grupos sociais distintos por meio de inimigos (construídos ideologicamente); destruir ou enfraquecer a autonomia das organizações populares (movimentos sociais, sindicatos, etc.); construir uma estética da violência política visível de matriz colonial; e reorganizar autoritariamente a dominação de classe e a hegemonia política.
Perfazendo, o bolsonarismo não constitui uma reprodução do integralismo, mas uma forma brasileira e contemporânea de neofascismo que reativa essa tradição e a combina com os elementos supracitados. A sua função política consiste em mobilizar setores intermédios e subalternos para aprofundar o poder das classes dominantes, convertendo as crises sociais em conflito moral, perseguição de inimigos internos e legitimação da violência neofascista. Por isso, a derrota eleitoral de um grupo ou o fracasso de uma tentativa golpista não dissolvem o movimento, visto que permanecem os aparelhos, os interesses, as redes e os afetos políticos que o sustentam. O problema, portanto, não se encerra em Bolsonaro, porque o bolsonarismo constitui uma totalidade social e política mais ampla do que uma figura política. Bolsonaro pode cair; enquanto permanecer intacta a ordem que o produziu, o bolsonarismo continuará à procura de outro rosto e com outros nomes.
Carlos Hortmann
Alimento da 'baleia'
Quando a Faria Lima fica cobrando ajuste fiscal, eles sabem o que é isso? Eles não têm noção. Porque o pobre é um número. E a diferença é que, pra nós, o pobre é uma mulher, um homem. Não é um número.
Antonio Palocci
Antonio Palocci
Diferença entre salários de CEOs e trabalhadores é foguete sem freio
Vivemos em uma lógica que permite que um CEO ganhe mil vezes mais que um funcionário da mesma empresa. Ou que empresas menores paguem mais a seus presidentes do que companhias muito maiores, sem transparência ou critérios. As remunerações milionárias dos executivos das grandes empresas brasileiras exigem duas perguntas: quanto vale o trabalho de um CEO — e quem decide quanto ele deve receber?
O mestre em contabilidade Renato Chaves realizou um estudo independente a partir de dados da CVM (Comissão de Valores Imobiliários). Os resultados mostram essa disparidade corporativa. Em 2025, a remuneração máxima nas empresas do Ibovespa foi, em média, 434 vezes superior ao salário mediano dos trabalhadores. O número representa um salto em relação às 184 vezes registradas no ano anterior.
O caso exemplar é da Smart Fit. A remuneração de seu principal executivo chegou a cerca de R$ 19,6 milhões em 2025, enquanto o salário mediano de seus funcionários foi de aproximadamente R$ 17.080 por ano. A diferença chega a 1.151 vezes.
Mas a desigualdade não aparece apenas quando se compara o executivo ao trabalhador. Ela também surge quando se confronta o salário do CEO com empresas similares. Nas companhias com receita de até R$ 5 bilhões, a remuneração média dos executivos ficou em torno de R$ 8,9 milhões. Um dos casos destacados pelo estudo é o da Multiplan: com faturamento de aproximadamente R$ 2,9 bilhões, seu CEO recebeu cerca de R$ 24 milhões — valor superior ao pago aos presidentes de empresas muito maiores, como Klabin e Natura.
Entre companhias com receita de R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões, a média da remuneração de CEOs chegou a R$ 9,9 milhões. A Smart Fit pagou cerca de R$ 19 milhões e a Totvs, aproximadamente R$ 21 milhões. No grupo de empresas com faturamento entre R$ 10 bilhões e R$ 30 bilhões, a média ficou em cerca de R$ 17 milhões. O presidente da B3 recebeu ao redor de R$ 47 milhões, enquanto o executivo da Prio chegou a quase R$ 68 milhões, segundo o especialista.
Os números questionam a existência de uma relação objetiva entre faturamento e remuneração executiva. Se empresas menores podem pagar mais a seus presidentes do que companhias muito maiores, é preciso investigar quais critérios estão determinando esses valores.
Um dos argumentos das empresas é o da atração, retenção e incentivo de talentos. Executivos capazes de comandar grandes organizações e gerar resultados são profissionais escassos e disputados pelo mercado.
Quem fiscaliza quem?
As assembleias de acionistas aprovam uma verba global destinada à remuneração dos administradores. Cabe então ao conselho de administração distribuir esse montante entre os executivos e demais administradores. O problema, segundo Chaves, surge quando o próprio conselho não exerce uma fiscalização efetiva sobre esses valores.
O dilema ético envolve aqueles que participam da decisão sobre a remuneração também são beneficiários dela. Por isso Chaves questiona o comportamento dos conselheiros. Segundo sua avaliação, conselheiros que recebem remunerações elevadas podem ter pouco incentivo para confrontar os executivos e seus salários excessivos. Afinal, isso pode colocar em risco a própria permanência no conselho.
A fiscalização deveria partir principalmente dos acionistas minoritários, já que parcela relevante do dinheiro investido nas empresas não pertence necessariamente a investidores individuais, defende Chaves. Pode ser aplicada, direta ou indiretamente, por fundos de pensão, fundos de investimento e planos de previdência. O pequeno acionista, nesse sentido, pode ter pouca influência econômica individual, mas possui um instrumento importante: o direito de participar das assembleias e questionar os administradores.
O especialista afirma que compra pequenas quantidades de ações de diversas empresas justamente para poder participar desses processos e fazer perguntas. A estratégia transforma o acionista minoritário em uma espécie de fiscal externo da governança.
Por fim, Chaves levanta um questionamento. Executivos são recompensados quando determinados indicadores melhoram. Mas o que acontece quando decisões estratégicas produzem desastres? Casos como o da Vale em Brumadinho alimentam o debate. Em grandes organizações, decisões tomadas no topo podem produzir consequências que atingem milhares de pessoas, mas a responsabilização nem sempre acompanha a hierarquia decisória. Isso coloca em dúvida uma das premissas da remuneração variável: se o executivo recebe mais quando cria valor, deveria também assumir uma parcela proporcionalmente maior do custo quando destrói valor.
O mestre em contabilidade Renato Chaves realizou um estudo independente a partir de dados da CVM (Comissão de Valores Imobiliários). Os resultados mostram essa disparidade corporativa. Em 2025, a remuneração máxima nas empresas do Ibovespa foi, em média, 434 vezes superior ao salário mediano dos trabalhadores. O número representa um salto em relação às 184 vezes registradas no ano anterior.
O caso exemplar é da Smart Fit. A remuneração de seu principal executivo chegou a cerca de R$ 19,6 milhões em 2025, enquanto o salário mediano de seus funcionários foi de aproximadamente R$ 17.080 por ano. A diferença chega a 1.151 vezes.
Mas a desigualdade não aparece apenas quando se compara o executivo ao trabalhador. Ela também surge quando se confronta o salário do CEO com empresas similares. Nas companhias com receita de até R$ 5 bilhões, a remuneração média dos executivos ficou em torno de R$ 8,9 milhões. Um dos casos destacados pelo estudo é o da Multiplan: com faturamento de aproximadamente R$ 2,9 bilhões, seu CEO recebeu cerca de R$ 24 milhões — valor superior ao pago aos presidentes de empresas muito maiores, como Klabin e Natura.
Entre companhias com receita de R$ 5 bilhões a R$ 10 bilhões, a média da remuneração de CEOs chegou a R$ 9,9 milhões. A Smart Fit pagou cerca de R$ 19 milhões e a Totvs, aproximadamente R$ 21 milhões. No grupo de empresas com faturamento entre R$ 10 bilhões e R$ 30 bilhões, a média ficou em cerca de R$ 17 milhões. O presidente da B3 recebeu ao redor de R$ 47 milhões, enquanto o executivo da Prio chegou a quase R$ 68 milhões, segundo o especialista.
Os números questionam a existência de uma relação objetiva entre faturamento e remuneração executiva. Se empresas menores podem pagar mais a seus presidentes do que companhias muito maiores, é preciso investigar quais critérios estão determinando esses valores.
Um dos argumentos das empresas é o da atração, retenção e incentivo de talentos. Executivos capazes de comandar grandes organizações e gerar resultados são profissionais escassos e disputados pelo mercado.
Quem fiscaliza quem?
As assembleias de acionistas aprovam uma verba global destinada à remuneração dos administradores. Cabe então ao conselho de administração distribuir esse montante entre os executivos e demais administradores. O problema, segundo Chaves, surge quando o próprio conselho não exerce uma fiscalização efetiva sobre esses valores.
O dilema ético envolve aqueles que participam da decisão sobre a remuneração também são beneficiários dela. Por isso Chaves questiona o comportamento dos conselheiros. Segundo sua avaliação, conselheiros que recebem remunerações elevadas podem ter pouco incentivo para confrontar os executivos e seus salários excessivos. Afinal, isso pode colocar em risco a própria permanência no conselho.
A fiscalização deveria partir principalmente dos acionistas minoritários, já que parcela relevante do dinheiro investido nas empresas não pertence necessariamente a investidores individuais, defende Chaves. Pode ser aplicada, direta ou indiretamente, por fundos de pensão, fundos de investimento e planos de previdência. O pequeno acionista, nesse sentido, pode ter pouca influência econômica individual, mas possui um instrumento importante: o direito de participar das assembleias e questionar os administradores.
O especialista afirma que compra pequenas quantidades de ações de diversas empresas justamente para poder participar desses processos e fazer perguntas. A estratégia transforma o acionista minoritário em uma espécie de fiscal externo da governança.
Por fim, Chaves levanta um questionamento. Executivos são recompensados quando determinados indicadores melhoram. Mas o que acontece quando decisões estratégicas produzem desastres? Casos como o da Vale em Brumadinho alimentam o debate. Em grandes organizações, decisões tomadas no topo podem produzir consequências que atingem milhares de pessoas, mas a responsabilização nem sempre acompanha a hierarquia decisória. Isso coloca em dúvida uma das premissas da remuneração variável: se o executivo recebe mais quando cria valor, deveria também assumir uma parcela proporcionalmente maior do custo quando destrói valor.
Muita testosterona e pouca pólvora
Em setembro próximo, completa-se um ano da ordem executiva pela qual Donald Trump mudou o nome do Departamento de Defesa para Departamento de Guerra: “Vamos para a ofensiva, não apenas para a defensiva. Letalidade máxima, não legalidade morna. Efeito violento, não politicamente correto”, disse Pete Hegseth, então Secretário de Guerra , na época , para justificar a decisão.
Essa não foi a única mudança semântica e cultural dentro do aparato de defesa dos EUA. Algumas semanas depois, o governo convocou todos os generais para uma reunião sem precedentes na base de Quantico, na Virgínia, alegando a ameaça de uma “invasão interna”. Entre os inimigos declarados estavam as políticas progressistas que supostamente haviam suavizado as forças armadas. Aparentemente, Hegseth acreditava que havia muitos negros, mulheres e pessoas acima do peso em uniforme, e que a imagem que já não era projetada era suficientemente masculina ou viril. A partir de então, as políticas de igualdade e o politicamente correto foram abolidos, assim como barbas, cabelos compridos e o sobrepeso.
O movimento MAGA tem a masculinidade como um de seus pilares. Para eles, os Estados Unidos estão em perigo porque o papel central do homem branco na sociedade foi questionado. A chamada cultura woke das últimas décadas supervalorizou o papel das mulheres e das minorias, prejudicando o desenvolvimento social e cultural da nação. Portanto, é necessário projetar força e não se limitar à defesa. A guerra deve ser travada. E deve ser travada não apenas com táticas, estratégias e armamento, mas também com músculos salientes e abdomens definidos. A estética e o corpo como parte da mensagem.
Hegseth implementou essa ideia desde o início do segundo mandato de Trump. Ele lançou uma campanha para “renovar a masculinidade” que promove uma nova filosofia centrada na restauração do “ethos guerreiro”. Essa política o levou a remover mulheres da maioria dos cargos de alto escalão que ocupavam e a criar uma comissão especial para desmantelar programas de diversidade e igualdade. Ele também publica frequentemente vídeos nas redes sociais levantando pesos ou se exercitando com tropas.
Essa visão goza de considerável apoio em um segmento da sociedade . De acordo com um estudo sobre tribos políticas realizado este ano pela Echelon Insights , 18% dos americanos, em sua maioria homens, pertencem ao que é considerado a “direita leal”. Eles são os apoiadores mais fervorosos do movimento Trump e têm uma visão tradicional da sociedade, com o homem branco no centro. Temem que a perda percebida de masculinidade esteja causando uma regressão.
Essa ideia não impacta apenas a política. Vai muito além. A crescente importância atribuída ao desenvolvimento da força física tornou os tratamentos com testosterona populares. Isso está acontecendo no mundo todo, mas especialmente nos Estados Unidos, onde as prescrições aumentaram cerca de 154% desde 2020. Publicações virais abundam nas redes sociais calculando quanta testosterona um homem deveria produzir com base em sua idade, e os chamados ” marombeiros” estão recomendando cada vez mais o uso de suplementos especiais, apesar dos alertas médicos contra essa prática. O próprio Hegseth aderiu recentemente a essa tendência ao anunciar que o Pentágono realizará testes de testosterona em militares com mais de 30 anos. Aqueles com deficiência poderão se submeter à terapia.
Durante o primeiro ano do retorno de Trump, essa mudança cultural caminhou lado a lado com um aumento na letalidade das forças armadas americanas, o que inclusive levou a acusações de possíveis violações de direitos humanos. Nesse período, realizaram 658 ataques aéreos em todo o mundo , quase tantos quanto os 694 conduzidos pelo governo Biden durante todo o seu mandato de quatro anos. E eles se orgulhavam disso. Vídeos da destruição de barcos de narcotráfico, bombardeios a alvos nucleares iranianos e a captura de Nicolás Maduro no meio da noite viralizaram nas redes sociais. A guerra como espetáculo visual e digital.
Mas agora, parece que o barril de pólvora se rompeu. A masculinidade sem estratégia colidiu frontalmente com a realidade. As últimas notícias indicam que os Estados Unidos abortaram seus ataques ao Irã porque estão ficando sem munição . Muita ostentação nas redes sociais, mas pouca capacidade de fogo real, porque a arte da guerra é muito mais do que disparar indiscriminadamente sem cálculo. Talvez devessem ter gasto seu tempo lendo Sun Tzu em vez de desperdiçá-lo assistindo e criando vídeos de marombeiros . Muito tratamento com testosterona, mas pouca oferta.
Essa situação azedou a relação entre Trump e Hegseth, que antes era um de seus ministros favoritos. Segundo o The Washington Post , o presidente o criticou por sua falta de visão em relação à escassez de munição e pelo fato de a guerra no Irã ter se prolongado muito mais do que o previsto. Além disso, o ministro ainda não conseguiu convencer o Congresso a aprovar o novo orçamento de defesa. Tudo indica que o foco excessivo na guerra cultural levou à negligência dos aspectos técnicos da guerra convencional. Estamos nas mãos de agitadores, não de profissionais.
Antoni Gutiérrez-Rubi
Essa não foi a única mudança semântica e cultural dentro do aparato de defesa dos EUA. Algumas semanas depois, o governo convocou todos os generais para uma reunião sem precedentes na base de Quantico, na Virgínia, alegando a ameaça de uma “invasão interna”. Entre os inimigos declarados estavam as políticas progressistas que supostamente haviam suavizado as forças armadas. Aparentemente, Hegseth acreditava que havia muitos negros, mulheres e pessoas acima do peso em uniforme, e que a imagem que já não era projetada era suficientemente masculina ou viril. A partir de então, as políticas de igualdade e o politicamente correto foram abolidos, assim como barbas, cabelos compridos e o sobrepeso.
O movimento MAGA tem a masculinidade como um de seus pilares. Para eles, os Estados Unidos estão em perigo porque o papel central do homem branco na sociedade foi questionado. A chamada cultura woke das últimas décadas supervalorizou o papel das mulheres e das minorias, prejudicando o desenvolvimento social e cultural da nação. Portanto, é necessário projetar força e não se limitar à defesa. A guerra deve ser travada. E deve ser travada não apenas com táticas, estratégias e armamento, mas também com músculos salientes e abdomens definidos. A estética e o corpo como parte da mensagem.
Hegseth implementou essa ideia desde o início do segundo mandato de Trump. Ele lançou uma campanha para “renovar a masculinidade” que promove uma nova filosofia centrada na restauração do “ethos guerreiro”. Essa política o levou a remover mulheres da maioria dos cargos de alto escalão que ocupavam e a criar uma comissão especial para desmantelar programas de diversidade e igualdade. Ele também publica frequentemente vídeos nas redes sociais levantando pesos ou se exercitando com tropas.
Essa visão goza de considerável apoio em um segmento da sociedade . De acordo com um estudo sobre tribos políticas realizado este ano pela Echelon Insights , 18% dos americanos, em sua maioria homens, pertencem ao que é considerado a “direita leal”. Eles são os apoiadores mais fervorosos do movimento Trump e têm uma visão tradicional da sociedade, com o homem branco no centro. Temem que a perda percebida de masculinidade esteja causando uma regressão.
Essa ideia não impacta apenas a política. Vai muito além. A crescente importância atribuída ao desenvolvimento da força física tornou os tratamentos com testosterona populares. Isso está acontecendo no mundo todo, mas especialmente nos Estados Unidos, onde as prescrições aumentaram cerca de 154% desde 2020. Publicações virais abundam nas redes sociais calculando quanta testosterona um homem deveria produzir com base em sua idade, e os chamados ” marombeiros” estão recomendando cada vez mais o uso de suplementos especiais, apesar dos alertas médicos contra essa prática. O próprio Hegseth aderiu recentemente a essa tendência ao anunciar que o Pentágono realizará testes de testosterona em militares com mais de 30 anos. Aqueles com deficiência poderão se submeter à terapia.
Durante o primeiro ano do retorno de Trump, essa mudança cultural caminhou lado a lado com um aumento na letalidade das forças armadas americanas, o que inclusive levou a acusações de possíveis violações de direitos humanos. Nesse período, realizaram 658 ataques aéreos em todo o mundo , quase tantos quanto os 694 conduzidos pelo governo Biden durante todo o seu mandato de quatro anos. E eles se orgulhavam disso. Vídeos da destruição de barcos de narcotráfico, bombardeios a alvos nucleares iranianos e a captura de Nicolás Maduro no meio da noite viralizaram nas redes sociais. A guerra como espetáculo visual e digital.
Mas agora, parece que o barril de pólvora se rompeu. A masculinidade sem estratégia colidiu frontalmente com a realidade. As últimas notícias indicam que os Estados Unidos abortaram seus ataques ao Irã porque estão ficando sem munição . Muita ostentação nas redes sociais, mas pouca capacidade de fogo real, porque a arte da guerra é muito mais do que disparar indiscriminadamente sem cálculo. Talvez devessem ter gasto seu tempo lendo Sun Tzu em vez de desperdiçá-lo assistindo e criando vídeos de marombeiros . Muito tratamento com testosterona, mas pouca oferta.
Essa situação azedou a relação entre Trump e Hegseth, que antes era um de seus ministros favoritos. Segundo o The Washington Post , o presidente o criticou por sua falta de visão em relação à escassez de munição e pelo fato de a guerra no Irã ter se prolongado muito mais do que o previsto. Além disso, o ministro ainda não conseguiu convencer o Congresso a aprovar o novo orçamento de defesa. Tudo indica que o foco excessivo na guerra cultural levou à negligência dos aspectos técnicos da guerra convencional. Estamos nas mãos de agitadores, não de profissionais.
Antoni Gutiérrez-Rubi
Grandes varejistas estão em crise pelo mundo
Fechamento de lojas, recuperação judicial e falências deixaram de ser episódios isolados no varejo. Da Europa aos Estados Unidos e ao Brasil, grandes redes que dominaram o consumo nas últimas décadas enfrentam dificuldades para se adaptar a um ambiente marcado por juros elevados, personalização do consumo e concorrência cada vez maior.
A alemã Galeria Kaufhof avalia fechar dezenas de lojas e mantém uma página dedicada a mostrar as filiais encerradas. A brasileira Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial. E a americana Sears, símbolo do varejo décadas atrás, luta para permanecer em operação, após "sobreviver a duas guerras mundiais, uma depressão econômica e diversas oscilações financeiras”.
Embora cada caso tenha suas particularidades, especialistas apontam uma combinação de fatores econômicos, transformação digital e mudanças nos hábitos de consumo entre as causas por trás das dificuldades encontradas pelo segmento.
Parte dessas transformações já vinha sendo observada há mais de uma década. Em meados da década de 2010, o termo Retail Apocalypse ("apocalipse do varejo”) ganhou força no mercado financeiro com a expansão do comércio eletrônico, segundo o jornal Financial Times. Hoje, porém, analistas avaliam que a pressão sobre o setor vai além da digitalização e incorpora desafios financeiros e concorrenciais cada vez mais complexos.
Na Alemanha, que também tem vivido um cenário desafiador para o segmento, um estudo da seguradora de crédito Allianz Trade contabilizou 2.490 falências na área entre agosto de 2024 e agosto de 2025. Já a Sears, que chegou a ser a maior varejista dos Estados Unidos, mantinha apenas cinco lojas no país ao final de 2025, de acordo com a Forbes. No Brasil, além das Casas Bahia, a rede de móveis Marabraz também pediu recuperação judicial.
Apesar da sequência de dificuldades enfrentadas por grandes empresas, especialistas ressaltam que não há uma única explicação para o momento vivido pelo setor.
Para Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, especializada em varejo, "há uma continuidade, mas não é exatamente o mesmo fenômeno” do apocalipse do varejo, inicialmente associado à dificuldade de grandes redes tradicionais em adaptar extensas estruturas de lojas físicas a uma nova jornada de consumo.
Segundo ela, a transformação digital continua em curso, mas agora é acompanhada por uma pressão financeira maior. Depois de anos de crédito barato, empresas que expandiram suas operações com forte alavancagem (dívidas) passaram a enfrentar juros mais altos, crédito mais restrito e custos maiores para financiar estoques e capital de giro. Ao mesmo tempo, consumidores lidam com endividamento crescente e perda de poder de compra.
"Estamos em uma segunda fase dessa transformação: a primeira questionou o modelo de loja física; a atual está testando a sustentabilidade financeira dos modelos de negócio”, acrescenta.
Os impactos variam entre segmentos. Varejistas de bens duráveis, como móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, tendem a sofrer mais em ambientes de juros elevados por dependerem de financiamento ao consumidor e de grandes estoques. Já empresas ligadas a produtos de consumo recorrente e essenciais costumam mostrar maior resiliência.
"Por isso, não considero correto falar em uma crise homogênea do varejo. Existem modelos de negócio e categorias muito mais expostos do que outros. O próprio varejo global voltou a crescer em termos reais em 2025, mostrando que não existe um colapso generalizado do setor”, explica ela.
Para Ulysses Reis, professor da Strong Business School (SBS), da Fundação Getulio Vargas (FGV), comportamento do consumidor, economia e tecnologia estão diretamente relacionados neste cenário.
Ele observa que a pandemia acelerou mudanças de hábitos e consolidou o comércio eletrônico entre consumidores que hoje priorizam conveniência, rapidez e comparação de preços.
Entre esses novos modelos estão o dropshipping, em que o vendedor comercializa produtos sem manter estoque próprio; os showrooms, usados apenas para exposição; o conceito phygital, que combina experiências físicas e digitais e, muito em breve, a ascensão das inteligências agênticas, que automatizam decisões de compra de forma personalizada com informações que o próprio comprador fornece à IA.
Todos esses são modelos que priorizam a eficiência logística e a redução de custos fixos e tornam o atual modelo do varejo de departamento obsoleto, segundo Ulysses.
Embora os níveis de juros variem entre os países, especialistas apontam desafios econômicos semelhantes em diferentes mercados.
Eduardo Yamashita, sócio diretor da consultoria Gouvêa Inteligência, cita que o cenário globalmente — e principalmente no Brasil — , é impulsionado pela inadimplência, endividamento e pela inflação, que impedem o aumento da renda de chegar ao consumo. Ao mesmo tempo, custos operacionais e despesas financeiras elevados pressionam receitas, margens e geração de caixa.
No pedido de recuperação judicial, as Casas Bahia citaram "patamares elevados de taxas de juros, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro" entre os fatores que levaram ao agravamento da situação financeira da empresa.
O professor lembra que a empresa surfou o bom momento econômico de estabilização da economia brasileira com o Plano Real, com crescimento do consumo e à popularização das vendas a prazo. Segundo ele, o modelo "começou a dar errado quando a Selic subiu". "O juro cresce assustadoramente e a população empobrece, e isso reduz o mercado de consumo porque a população tem menos dinheiro disponível”.Por isso, para Ulysses, modelos baseados em grandes redes de lojas físicas, estoques elevados e forte dependência do crediário perderam espaço para empresas que operam com estruturas mais enxutas, logística eficiente e de forma mais digital, como Amazon e Mercado Livre. "O modelo que a gente tem hoje está superado. É caro, ineficiente e tem taxas de juros absurdas”.
"Estamos vivendo modelos que estão acabando”, ressalta. "A pandemia foi tão dura nos países ricos também que o comportamento mudou. Na Alemanha, é mais provável fazer comida em casa do que almoçar ou jantar fora. E quando quiser uma comida, pede um delivery porque o custo de manter um salão e os garçons é muito alto. É um esquema sem volta. O modelo de negócio de varejo baseado em loja, vendedores, estoque e crediário, acabou”, conta Ulysses.
Outro fator apontado pelos especialistas é o avanço de plataformas internacionais como Shein, Shopee e Temu, que oferece preços bem menores e espreme as margens das varejistas globais. "O consumidor não compara mais uma loja com a loja da esquina. Ele compara o preço de uma varejista nacional com dezenas ou centenas de vendedores de diferentes países em poucos segundos”, explica a especialista da AGR.
Segundo ela, a vantagem dessas empresas vai além do baixo custo de produção. O modelo combina escala industrial, tecnologia, marketplaces globais, logística internacional e análise de dados em larga escala, "transformando tendência em produto final com enorme rapidez”.
Diante desse cenário, diversos países têm adotado medidas para taxar encomendas internacionais de baixo valor. Para Ana Paula, o debate envolve a busca por condições mais equilibradas de concorrência.
"O problema não é competir com a China. A competição é saudável. O problema é competir em um ambiente de assimetria , em que a empresa brasileira larga atrás porque carrega uma estrutura tributária e regulatória diferente daquela do produto que chega pelas plataformas internacionais”, descreve ela.
Ulysses argumenta que a melhor resposta seria reduzir custos e tributos para empresas locais, em vez de ampliar tarifas sobre importações.
Efeito das apostas online
Como fator adicional de pressão sobre o consumo, executivos do varejo também passaram a apontar as plataformas de apostas esportivas.
No Brasil, um levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), utilizando dados do Banco Central, estimou que famílias brasileiras destinaram R$ 62,5 bilhões às apostas em 2025.
Para Ana Paula, as chamadas bets passaram a disputar diretamente a renda disponível das famílias, sobretudo em um contexto de elevado endividamento.
"O orçamento familiar é limitado. Quando uma nova categoria de gasto cresce rapidamente, ela precisa disputar espaço com alguma coisa: consumo, entretenimento, pagamento de dívidas ou poupança. Portanto, principalmente nas famílias de menor renda, valores recorrentes destinados às apostas podem reduzir a renda disponível para outras despesas”, diz ela.
Apesar dos desafios enfrentados por grandes redes, especialistas avaliam que o setor não caminha para um desaparecimento das lojas físicas, mas para uma reestruturação. Para Ulysses, a sobrevivência das empresas dependerá cada vez mais da capacidade de oferecer comodidade, transparência e preços competitivos em um ambiente altamente digitalizado.
A alemã Galeria Kaufhof avalia fechar dezenas de lojas e mantém uma página dedicada a mostrar as filiais encerradas. A brasileira Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial. E a americana Sears, símbolo do varejo décadas atrás, luta para permanecer em operação, após "sobreviver a duas guerras mundiais, uma depressão econômica e diversas oscilações financeiras”.
Embora cada caso tenha suas particularidades, especialistas apontam uma combinação de fatores econômicos, transformação digital e mudanças nos hábitos de consumo entre as causas por trás das dificuldades encontradas pelo segmento.
Parte dessas transformações já vinha sendo observada há mais de uma década. Em meados da década de 2010, o termo Retail Apocalypse ("apocalipse do varejo”) ganhou força no mercado financeiro com a expansão do comércio eletrônico, segundo o jornal Financial Times. Hoje, porém, analistas avaliam que a pressão sobre o setor vai além da digitalização e incorpora desafios financeiros e concorrenciais cada vez mais complexos.
Na Alemanha, que também tem vivido um cenário desafiador para o segmento, um estudo da seguradora de crédito Allianz Trade contabilizou 2.490 falências na área entre agosto de 2024 e agosto de 2025. Já a Sears, que chegou a ser a maior varejista dos Estados Unidos, mantinha apenas cinco lojas no país ao final de 2025, de acordo com a Forbes. No Brasil, além das Casas Bahia, a rede de móveis Marabraz também pediu recuperação judicial.
Apesar da sequência de dificuldades enfrentadas por grandes empresas, especialistas ressaltam que não há uma única explicação para o momento vivido pelo setor.
Para Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, especializada em varejo, "há uma continuidade, mas não é exatamente o mesmo fenômeno” do apocalipse do varejo, inicialmente associado à dificuldade de grandes redes tradicionais em adaptar extensas estruturas de lojas físicas a uma nova jornada de consumo.
Segundo ela, a transformação digital continua em curso, mas agora é acompanhada por uma pressão financeira maior. Depois de anos de crédito barato, empresas que expandiram suas operações com forte alavancagem (dívidas) passaram a enfrentar juros mais altos, crédito mais restrito e custos maiores para financiar estoques e capital de giro. Ao mesmo tempo, consumidores lidam com endividamento crescente e perda de poder de compra.
"Estamos em uma segunda fase dessa transformação: a primeira questionou o modelo de loja física; a atual está testando a sustentabilidade financeira dos modelos de negócio”, acrescenta.
Os impactos variam entre segmentos. Varejistas de bens duráveis, como móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, tendem a sofrer mais em ambientes de juros elevados por dependerem de financiamento ao consumidor e de grandes estoques. Já empresas ligadas a produtos de consumo recorrente e essenciais costumam mostrar maior resiliência.
"Por isso, não considero correto falar em uma crise homogênea do varejo. Existem modelos de negócio e categorias muito mais expostos do que outros. O próprio varejo global voltou a crescer em termos reais em 2025, mostrando que não existe um colapso generalizado do setor”, explica ela.
Para Ulysses Reis, professor da Strong Business School (SBS), da Fundação Getulio Vargas (FGV), comportamento do consumidor, economia e tecnologia estão diretamente relacionados neste cenário.
Ele observa que a pandemia acelerou mudanças de hábitos e consolidou o comércio eletrônico entre consumidores que hoje priorizam conveniência, rapidez e comparação de preços.
Entre esses novos modelos estão o dropshipping, em que o vendedor comercializa produtos sem manter estoque próprio; os showrooms, usados apenas para exposição; o conceito phygital, que combina experiências físicas e digitais e, muito em breve, a ascensão das inteligências agênticas, que automatizam decisões de compra de forma personalizada com informações que o próprio comprador fornece à IA.
Todos esses são modelos que priorizam a eficiência logística e a redução de custos fixos e tornam o atual modelo do varejo de departamento obsoleto, segundo Ulysses.
Embora os níveis de juros variem entre os países, especialistas apontam desafios econômicos semelhantes em diferentes mercados.
Eduardo Yamashita, sócio diretor da consultoria Gouvêa Inteligência, cita que o cenário globalmente — e principalmente no Brasil — , é impulsionado pela inadimplência, endividamento e pela inflação, que impedem o aumento da renda de chegar ao consumo. Ao mesmo tempo, custos operacionais e despesas financeiras elevados pressionam receitas, margens e geração de caixa.
No pedido de recuperação judicial, as Casas Bahia citaram "patamares elevados de taxas de juros, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro" entre os fatores que levaram ao agravamento da situação financeira da empresa.
O professor lembra que a empresa surfou o bom momento econômico de estabilização da economia brasileira com o Plano Real, com crescimento do consumo e à popularização das vendas a prazo. Segundo ele, o modelo "começou a dar errado quando a Selic subiu". "O juro cresce assustadoramente e a população empobrece, e isso reduz o mercado de consumo porque a população tem menos dinheiro disponível”.Por isso, para Ulysses, modelos baseados em grandes redes de lojas físicas, estoques elevados e forte dependência do crediário perderam espaço para empresas que operam com estruturas mais enxutas, logística eficiente e de forma mais digital, como Amazon e Mercado Livre. "O modelo que a gente tem hoje está superado. É caro, ineficiente e tem taxas de juros absurdas”.
"Estamos vivendo modelos que estão acabando”, ressalta. "A pandemia foi tão dura nos países ricos também que o comportamento mudou. Na Alemanha, é mais provável fazer comida em casa do que almoçar ou jantar fora. E quando quiser uma comida, pede um delivery porque o custo de manter um salão e os garçons é muito alto. É um esquema sem volta. O modelo de negócio de varejo baseado em loja, vendedores, estoque e crediário, acabou”, conta Ulysses.
Outro fator apontado pelos especialistas é o avanço de plataformas internacionais como Shein, Shopee e Temu, que oferece preços bem menores e espreme as margens das varejistas globais. "O consumidor não compara mais uma loja com a loja da esquina. Ele compara o preço de uma varejista nacional com dezenas ou centenas de vendedores de diferentes países em poucos segundos”, explica a especialista da AGR.
Segundo ela, a vantagem dessas empresas vai além do baixo custo de produção. O modelo combina escala industrial, tecnologia, marketplaces globais, logística internacional e análise de dados em larga escala, "transformando tendência em produto final com enorme rapidez”.
Diante desse cenário, diversos países têm adotado medidas para taxar encomendas internacionais de baixo valor. Para Ana Paula, o debate envolve a busca por condições mais equilibradas de concorrência.
"O problema não é competir com a China. A competição é saudável. O problema é competir em um ambiente de assimetria , em que a empresa brasileira larga atrás porque carrega uma estrutura tributária e regulatória diferente daquela do produto que chega pelas plataformas internacionais”, descreve ela.
Ulysses argumenta que a melhor resposta seria reduzir custos e tributos para empresas locais, em vez de ampliar tarifas sobre importações.
Efeito das apostas online
Como fator adicional de pressão sobre o consumo, executivos do varejo também passaram a apontar as plataformas de apostas esportivas.
No Brasil, um levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), utilizando dados do Banco Central, estimou que famílias brasileiras destinaram R$ 62,5 bilhões às apostas em 2025.
Para Ana Paula, as chamadas bets passaram a disputar diretamente a renda disponível das famílias, sobretudo em um contexto de elevado endividamento.
"O orçamento familiar é limitado. Quando uma nova categoria de gasto cresce rapidamente, ela precisa disputar espaço com alguma coisa: consumo, entretenimento, pagamento de dívidas ou poupança. Portanto, principalmente nas famílias de menor renda, valores recorrentes destinados às apostas podem reduzir a renda disponível para outras despesas”, diz ela.
Apesar dos desafios enfrentados por grandes redes, especialistas avaliam que o setor não caminha para um desaparecimento das lojas físicas, mas para uma reestruturação. Para Ulysses, a sobrevivência das empresas dependerá cada vez mais da capacidade de oferecer comodidade, transparência e preços competitivos em um ambiente altamente digitalizado.
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