quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Uma eleição bem diferente
A eleição deste ano não tem qualquer discussão de política pública, e o processo está sendo soterrado por um tsunami de notícias sobre escândalos. Algumas sérias, outras usadas para confundir. Em ambiente assim, é melhor separar o fato da fumaça feita para esconder a realidade. O candidato Flávio Bolsonaro entrar com uma notícia-crime contra o presidente Lula por suposta relação com Daniel Vorcaro, e por, talvez, ter recebido um whisky, é pura fumaça. Vamos aos fatos. O Banco Central não permitiu a compra do Master pelo BRB, liquidou o Master e denunciou os indícios de crime. A Polícia Federal investigou e prendeu Vorcaro, o pai do Vorcaro, o primo e o cunhado. Em que o governo beneficiou o ex-banqueiro?
Flávio Bolsonaro diz que “conforme foi noticiado”, o advogado Walfrido Warde, que defendia Vorcaro à época, “relata ao seu cliente sucessivas ações destinadas a aproximá-lo do presidente Lula e de autoridades do governo federal”. Registra a reunião que houve no Planalto e cita que “pouco mais de um mês depois” o advogado encaminhou ao Vorcaro “mensagem que indica o recebimento de presente (whisky) do banqueiro por parte do presidente Lula”.
Vamos novamente aos fatos. Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro e recebeu. Insistiu em ter novas parcelas e visitou Vorcaro, após a prisão do então banqueiro, para cobrar mais dinheiro. Não se sabe muito bem, porque ele jamais explicou, o montante que foi para o filme Dark Horse e que caminho percorreu até o seu destino. O candidato do PL é o único dos candidatos ao Planalto que está sendo investigado por suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva e organização criminosa no caso Master. Segundo a notícia-crime que Flávio Bolsonaro apresentou, Lula teria se utilizado do cargo para “atender interesses ilícitos de Daniel Vorcaro”. Foi o senador que disse ao então banqueiro: “fala irmãozão, estarei contigo sempre”.
As notícias sobre a existência de uma suposta “Turma do KN” resultaram numa boa medida preventiva. O Corregedor Nacional de Justiça, Benedito Gonçalves, ordenou o cancelamento do pagamento de R$ 4,73 bilhões em precatórios de usinas de açúcar. Esses papéis foram vendidos ao Banco Master. O dinheiro que estava em contas oficiais será devolvido ao Tesouro. Esse velho pleito dos usineiros, como já disse aqui, é um desses engodos que vão se eternizando no sistema de justiça. Os usineiros disseram que haviam sido prejudicados pelo congelamento do Plano Cruzado, o que não faz qualquer sentido para quem acompanhou os fatos da época. Eles tiveram perdas e ganhos com o congelamento, mas sobretudo foram sempre subsidiados. Vorcaro comprou esses papéis podres e o truque era encontrar magistrados que quisessem dar ganho de causa aos donos dos precatórios. O ministro Kassio Nunes Marques conduziu a segunda turma para o voto em que reconhecia direito dos detentores de precatórios. Direito muito questionável e que agora o ministro Gilmar Mendes quer que seja analisado no plenário.
Nessa enxurrada de notícias sobre os negócios ilícitos e as tentativas de Daniel Vorcaro de corromper a República, muita coisa está se esclarecendo ou exigindo explicação, como as várias comunicações do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro, cliente do escritório de sua mulher. No Supremo Tribunal Federal, uma ala quer que o foco permaneça apenas em Alexandre de Moraes, sobre o qual há fortes indícios. Outra ala defende que sejam todos investigados. Até agora há três ministros citados, ou talvez quatro. Que todas as dúvidas sejam esclarecidas, mas que essa proposta de investigação ampla não seja uma forma de acender o forno de pizza.
O ambiente no país está beligerante, com trocas de acusações, algumas reais, outras resultantes de manipulação. Nesta reta final do processo eleitoral, o Brasil não teve qualquer chance de pensar sobre propostas de políticas públicas em área alguma. Há muito tempo, a polarização extremada tem substituído o bom debate sobre programas de governo, mas nunca se foi tão longe nesse processo de alienação da realidade quanto nesta eleição.
O risco é terminarmos o processo de escolha de novos governantes sem saber o que decidimos para o futuro do país em qualquer área. E a sombra da falta de compromisso com a democracia por parte do candidato Flávio Bolsonaro permanece rondando o país.
Flávio Bolsonaro diz que “conforme foi noticiado”, o advogado Walfrido Warde, que defendia Vorcaro à época, “relata ao seu cliente sucessivas ações destinadas a aproximá-lo do presidente Lula e de autoridades do governo federal”. Registra a reunião que houve no Planalto e cita que “pouco mais de um mês depois” o advogado encaminhou ao Vorcaro “mensagem que indica o recebimento de presente (whisky) do banqueiro por parte do presidente Lula”.
Vamos novamente aos fatos. Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro e recebeu. Insistiu em ter novas parcelas e visitou Vorcaro, após a prisão do então banqueiro, para cobrar mais dinheiro. Não se sabe muito bem, porque ele jamais explicou, o montante que foi para o filme Dark Horse e que caminho percorreu até o seu destino. O candidato do PL é o único dos candidatos ao Planalto que está sendo investigado por suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva e organização criminosa no caso Master. Segundo a notícia-crime que Flávio Bolsonaro apresentou, Lula teria se utilizado do cargo para “atender interesses ilícitos de Daniel Vorcaro”. Foi o senador que disse ao então banqueiro: “fala irmãozão, estarei contigo sempre”.
As notícias sobre a existência de uma suposta “Turma do KN” resultaram numa boa medida preventiva. O Corregedor Nacional de Justiça, Benedito Gonçalves, ordenou o cancelamento do pagamento de R$ 4,73 bilhões em precatórios de usinas de açúcar. Esses papéis foram vendidos ao Banco Master. O dinheiro que estava em contas oficiais será devolvido ao Tesouro. Esse velho pleito dos usineiros, como já disse aqui, é um desses engodos que vão se eternizando no sistema de justiça. Os usineiros disseram que haviam sido prejudicados pelo congelamento do Plano Cruzado, o que não faz qualquer sentido para quem acompanhou os fatos da época. Eles tiveram perdas e ganhos com o congelamento, mas sobretudo foram sempre subsidiados. Vorcaro comprou esses papéis podres e o truque era encontrar magistrados que quisessem dar ganho de causa aos donos dos precatórios. O ministro Kassio Nunes Marques conduziu a segunda turma para o voto em que reconhecia direito dos detentores de precatórios. Direito muito questionável e que agora o ministro Gilmar Mendes quer que seja analisado no plenário.
Nessa enxurrada de notícias sobre os negócios ilícitos e as tentativas de Daniel Vorcaro de corromper a República, muita coisa está se esclarecendo ou exigindo explicação, como as várias comunicações do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro, cliente do escritório de sua mulher. No Supremo Tribunal Federal, uma ala quer que o foco permaneça apenas em Alexandre de Moraes, sobre o qual há fortes indícios. Outra ala defende que sejam todos investigados. Até agora há três ministros citados, ou talvez quatro. Que todas as dúvidas sejam esclarecidas, mas que essa proposta de investigação ampla não seja uma forma de acender o forno de pizza.
O ambiente no país está beligerante, com trocas de acusações, algumas reais, outras resultantes de manipulação. Nesta reta final do processo eleitoral, o Brasil não teve qualquer chance de pensar sobre propostas de políticas públicas em área alguma. Há muito tempo, a polarização extremada tem substituído o bom debate sobre programas de governo, mas nunca se foi tão longe nesse processo de alienação da realidade quanto nesta eleição.
O risco é terminarmos o processo de escolha de novos governantes sem saber o que decidimos para o futuro do país em qualquer área. E a sombra da falta de compromisso com a democracia por parte do candidato Flávio Bolsonaro permanece rondando o país.
A Grande Ficha, ela tem que cair
Nunca foi fácil realizar debate eleitoral profundo nas democracias de massa. Ainda menos em sociedades tão desiguais e diversas. A competição por votos tende a convidar a demagogia e a mentira. Fair-play é para losers.
Por isso o ideal de eleições "livres e justas", em que cidadãos se informem e façam escolhas autônomas, sempre pareceu inflacionado. Nos contentamos com regulação de campanhas, com a contagem fidedigna dos votos, a regularidade formal do processo.
E ficou muito mais difícil na última década.
A frustração com a insegurança material que a democracia tem entregado, somado a um ambiente informacional governado por plataformas pluto-algorítmicas, só fazem turbinar as dissonâncias cognitivas, o medo do futuro e a tentação por soluções messiânicas. O voto se descolou ainda mais de fatos, da análise comparativa de políticas públicas, das soluções para angústias reais.
Laerte, em meio aos protestos de junho de 2013, publicou uma tira: "A Grande Ficha. Em algum momento... ela vai cair". Em março de 2020, início da pandemia, Laerte gritou em caixa alta nas redes: "A Ficha caiu porraaaa!!!" A metáfora expressou nossa inabilidade para entender, senão tardiamente, as causas de nossas aflições e o tamanho dos desafios coletivos.
A Grande Ficha demora a cair. É mais fácil vê-la em retrospectiva. Foi mais fácil ver em 2022 o que se temia em 2018.
A Grande Ficha continua a mostrar que a continuidade da democracia está pressionada por muitas frentes. A desigualdade, a crise climática, o crime organizado, a tensão militar, a expansão do poder corporativo sobre o poder político, a apropriação privada do bem comum, o definhamento de capacidades estatais. Projetos autocráticos não saíram do vácuo.
Nesta eleição, nenhuma candidatura tem vocação ou capacidade para entregar um Brasil digno das promessas constitucionais ou à altura dos nossos problemas. Nenhuma salva a democracia dos seus múltiplos riscos existenciais que marcam a época histórica.
Mas apenas uma candidatura está inscrita oficialmente no projeto global de autocratização. Um projeto que combate nossa liberdade individual, profissional e econômica. E busca tirar do Estado até os meios para proteger a vida, a família e a propriedade. Até mesmo as competências para viabilizar o livre-mercado de ideias, bens e serviços.
A institucionalidade pública, afinal, dificulta o projeto. A ordem pública é adversária. O servidor público imparcial é adversário. O jornalista, o cientista, o professor, o juiz íntegro são inimigos.
Essa candidatura propõe um Brasil que renuncia a qualquer pretensão à soberania territorial, financeira ou tecnológica, à soberania alimentar, mineral ou ambiental. Uma autocratização de tipo subalterno. Nela não cabe sequer a ideia de interesse nacional.
Está comprometida com privatizar o futuro. Mais precisamente, sequestra qualquer projeto coletivo e contrata futuro oligárquico.
Essa Grande Ficha, ela tem que cair. Resta saber o quão tarde e o grau de destruição e sofrimento necessários para perceber a gravidade do erro. Ou se vamos dar conta de nossa cumplicidade e elaborar visão alternativa de futuro. Futuros nunca estão inteiramente abertos, nem inteiramente fechados.
Conrado Hübner Mendes
Por isso o ideal de eleições "livres e justas", em que cidadãos se informem e façam escolhas autônomas, sempre pareceu inflacionado. Nos contentamos com regulação de campanhas, com a contagem fidedigna dos votos, a regularidade formal do processo.
E ficou muito mais difícil na última década.
A frustração com a insegurança material que a democracia tem entregado, somado a um ambiente informacional governado por plataformas pluto-algorítmicas, só fazem turbinar as dissonâncias cognitivas, o medo do futuro e a tentação por soluções messiânicas. O voto se descolou ainda mais de fatos, da análise comparativa de políticas públicas, das soluções para angústias reais.
Laerte, em meio aos protestos de junho de 2013, publicou uma tira: "A Grande Ficha. Em algum momento... ela vai cair". Em março de 2020, início da pandemia, Laerte gritou em caixa alta nas redes: "A Ficha caiu porraaaa!!!" A metáfora expressou nossa inabilidade para entender, senão tardiamente, as causas de nossas aflições e o tamanho dos desafios coletivos.
A Grande Ficha demora a cair. É mais fácil vê-la em retrospectiva. Foi mais fácil ver em 2022 o que se temia em 2018.
A Grande Ficha continua a mostrar que a continuidade da democracia está pressionada por muitas frentes. A desigualdade, a crise climática, o crime organizado, a tensão militar, a expansão do poder corporativo sobre o poder político, a apropriação privada do bem comum, o definhamento de capacidades estatais. Projetos autocráticos não saíram do vácuo.
Nesta eleição, nenhuma candidatura tem vocação ou capacidade para entregar um Brasil digno das promessas constitucionais ou à altura dos nossos problemas. Nenhuma salva a democracia dos seus múltiplos riscos existenciais que marcam a época histórica.
Mas apenas uma candidatura está inscrita oficialmente no projeto global de autocratização. Um projeto que combate nossa liberdade individual, profissional e econômica. E busca tirar do Estado até os meios para proteger a vida, a família e a propriedade. Até mesmo as competências para viabilizar o livre-mercado de ideias, bens e serviços.
A institucionalidade pública, afinal, dificulta o projeto. A ordem pública é adversária. O servidor público imparcial é adversário. O jornalista, o cientista, o professor, o juiz íntegro são inimigos.
Essa candidatura propõe um Brasil que renuncia a qualquer pretensão à soberania territorial, financeira ou tecnológica, à soberania alimentar, mineral ou ambiental. Uma autocratização de tipo subalterno. Nela não cabe sequer a ideia de interesse nacional.
Está comprometida com privatizar o futuro. Mais precisamente, sequestra qualquer projeto coletivo e contrata futuro oligárquico.
Essa Grande Ficha, ela tem que cair. Resta saber o quão tarde e o grau de destruição e sofrimento necessários para perceber a gravidade do erro. Ou se vamos dar conta de nossa cumplicidade e elaborar visão alternativa de futuro. Futuros nunca estão inteiramente abertos, nem inteiramente fechados.
Conrado Hübner Mendes
Flávio Bolsonaro não vale uma palavra que diz ou cala
“Mentem no passado. E no presente / passam a mentira a limpo. / E no futuro mentem novamente”. (Affonso Romano de Sant'Anna)
Em 19 de janeiro de 2025, portanto onze meses antes de ser indicado pelo pai para disputar a eleição presidencial do ano seguinte, o senador Flávio Bolsonaro voou em uma aeronave do banqueiro Daniel Vorcaro ao regressar da Flórida, nos Estados Unidos, para Brasília. Estava acompanhado da mulher, a cirurgiã-dentista Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e das duas filhas do casal.
Sim, havia pelo menos mais um passageiro a bordo: o amigo Willer Tomaz, advogado e empresário que já foi preso no escândalo da JBS e é investigado no esquema de desvios bilionários do INSS. Trata-se do mesmo jato executivo de alto padrão, de prefixo PP-NLR, que transportou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em agosto do mesmo ano.
A empresa Prime You, que tinha então Vorcaro como um dos sócios, já era dona de um terço das cotas da aeronave na data do voo, segundo apurou o repórter Breno Pires. A aquisição foi realizada no fim de 2024. Tomaz confirmou que era dono de uma das três cotas do avião. Além de detentora de outra dessas cotas, a Prime You também era operadora do jato, por meio da Prime Aviation Táxi Aéreo e Serviços, que integra seu portfólio.
A Prime You teve Vorcaro como sócio de 2021 até setembro de 2025. Um relatório da Polícia Federal mostra que cada uma das cotas de 33,33% valia 5,5 milhões de dólares em maio de 2025. Nessa época, a empresa negociava a transferência da participação para o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, o que acabou não se concretizando.
Na Flórida, Flávio e Willer estiveram no Hard Rock Hotel & Casino, onde, segundo a coluna de Lauro Jardim, do jornal O Globo, passaram a noite de 18 para 19 de janeiro, antes de retornarem ao Brasil. Essa foi uma dentre várias viagens que Flávio e Tomaz fizeram juntos, que incluíram ainda um safári na África do Sul dois meses depois, em março de 2025.
Além disso, a proximidade entre Flávio e Willer se estende aos imóveis do advogado. Em agosto último, por exemplo, Flávio usou durante a campanha em São Paulo um apartamento que a empresa de Tomaz havia comprado em fevereiro passado de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, com deságio de 2 milhões de reais.
Flávio desconversa quando o procuram para falar sobre Tomaz. Para ele, por ora, é mais uma página virada.
Único candidato a presidente investigado pelo STF pelos crimes de corrupção passiva e ativa, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e organização criminosa, o primogênito do também único ex-presidente do Brasil condenado e preso por tentativa de golpe de Estado acumula páginas referentes à sua trajetória como político que gostaria de ver esquecidas. Não só porque elas lhe provocam fortes embaraços, como também porque podem atrapalhar seu desempenho nesta reta final da eleição.
Faltam apenas 10 dias para o primeiro turno. Os nervos de Flávio e de Lula estão à flor da pele. Tudo o que Flávio não quer a essa altura é que suas ligações com Vorcaro voltem para o centro do palco.
Nada de relembrar que ele, no dia 13 de maio deste ano, abordado por um jornalista, negou que tivesse enviado um áudio a Vorcaro pedindo dinheiro para financiar um filme sobre seu pai.
— De onde você tirou essa informação? — ele indagou ao jornalista. — É mentira. É mentira, pelo amor de Deus!
E chamou-o de “militante”.
O áudio tornou-se público em poucas horas. No dia seguinte, ele prometeu prestar contas do dinheiro em um prazo de 30 dias. Não prestou até hoje. Dá a página por virada.
Em 19 de janeiro de 2025, portanto onze meses antes de ser indicado pelo pai para disputar a eleição presidencial do ano seguinte, o senador Flávio Bolsonaro voou em uma aeronave do banqueiro Daniel Vorcaro ao regressar da Flórida, nos Estados Unidos, para Brasília. Estava acompanhado da mulher, a cirurgiã-dentista Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e das duas filhas do casal.
Sim, havia pelo menos mais um passageiro a bordo: o amigo Willer Tomaz, advogado e empresário que já foi preso no escândalo da JBS e é investigado no esquema de desvios bilionários do INSS. Trata-se do mesmo jato executivo de alto padrão, de prefixo PP-NLR, que transportou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em agosto do mesmo ano.
A empresa Prime You, que tinha então Vorcaro como um dos sócios, já era dona de um terço das cotas da aeronave na data do voo, segundo apurou o repórter Breno Pires. A aquisição foi realizada no fim de 2024. Tomaz confirmou que era dono de uma das três cotas do avião. Além de detentora de outra dessas cotas, a Prime You também era operadora do jato, por meio da Prime Aviation Táxi Aéreo e Serviços, que integra seu portfólio.
A Prime You teve Vorcaro como sócio de 2021 até setembro de 2025. Um relatório da Polícia Federal mostra que cada uma das cotas de 33,33% valia 5,5 milhões de dólares em maio de 2025. Nessa época, a empresa negociava a transferência da participação para o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, o que acabou não se concretizando.
Na Flórida, Flávio e Willer estiveram no Hard Rock Hotel & Casino, onde, segundo a coluna de Lauro Jardim, do jornal O Globo, passaram a noite de 18 para 19 de janeiro, antes de retornarem ao Brasil. Essa foi uma dentre várias viagens que Flávio e Tomaz fizeram juntos, que incluíram ainda um safári na África do Sul dois meses depois, em março de 2025.
Além disso, a proximidade entre Flávio e Willer se estende aos imóveis do advogado. Em agosto último, por exemplo, Flávio usou durante a campanha em São Paulo um apartamento que a empresa de Tomaz havia comprado em fevereiro passado de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, com deságio de 2 milhões de reais.
Flávio desconversa quando o procuram para falar sobre Tomaz. Para ele, por ora, é mais uma página virada.
Único candidato a presidente investigado pelo STF pelos crimes de corrupção passiva e ativa, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e organização criminosa, o primogênito do também único ex-presidente do Brasil condenado e preso por tentativa de golpe de Estado acumula páginas referentes à sua trajetória como político que gostaria de ver esquecidas. Não só porque elas lhe provocam fortes embaraços, como também porque podem atrapalhar seu desempenho nesta reta final da eleição.
Faltam apenas 10 dias para o primeiro turno. Os nervos de Flávio e de Lula estão à flor da pele. Tudo o que Flávio não quer a essa altura é que suas ligações com Vorcaro voltem para o centro do palco.
Nada de relembrar que ele, no dia 13 de maio deste ano, abordado por um jornalista, negou que tivesse enviado um áudio a Vorcaro pedindo dinheiro para financiar um filme sobre seu pai.
— De onde você tirou essa informação? — ele indagou ao jornalista. — É mentira. É mentira, pelo amor de Deus!
E chamou-o de “militante”.
O áudio tornou-se público em poucas horas. No dia seguinte, ele prometeu prestar contas do dinheiro em um prazo de 30 dias. Não prestou até hoje. Dá a página por virada.
Ultradireita ameaça memória histórica na América Latina
Condenado a mais de mil anos de prisão em mais de 80 sentenças confirmadas pela Suprema Corte do Chile, o ex-militar Miguel Krassnoff, de 80 anos, está preso desde 2005 por sequestro, tortura e desaparecimento de pessoas durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).
Em seus escritos, ele não demonstra arrependimento. E continua justificando a repressão do regime. "Não preciso de perdão nem de favores", afirmou recentemente em uma carta.
Ele é um dos condenados por violações dos direitos humanos que podem ser indultados pelo presidente chileno, o ultradireitista José Antonio Kast — a despeito dos protestos de familiares das vítimas e de organizações de direitos humanos.
Defensor da ditadura, Kast afirmou que analisará os casos individualmente, por razões humanitárias.
"De uma perspectiva histórica e de projeção para o futuro, considero um péssimo sinal pensar que crimes contra a humanidade possam ser indultados, porque isso também contraria o compromisso do Estado de oferecer garantias de não repetição", afirma Elizabeth Lira, do Centro de Direitos Humanos da Universidade Alberto Hurtado (UAH), no Chile.
"É muito problemático para a ideia de institucionalidade e de segurança jurídica que as disposições civilizadas de um país para processar aqueles que têm responsabilidade por crimes atrozes sejam substituídas por uma decisão política do Poder Executivo", pontua.
Lira, que é professora de psicologia na UAH, ressalta que, assim como Krassnoff, a maioria dos condenados por crimes contra a humanidade no Chile "foi julgada por muitos casos, em muitos processos".
Para Verónica Torras, diretora da Memoria Abierta, aliança de organizações argentinas de direitos humanos, o indulto nesses casos é uma "medida de impunidade". "Os julgamentos no Chile e na Argentina, apesar de suas dificuldades, são processos bastante consolidados", afirma ela, que também é vice-presidente do Centro de Estudos Legais e Sociais da Argentina.
Rainer Huhle, do Centro de Direitos Humanos de Nuremberg, na Alemanha, diz que um indulto só deveria ser cogitado quando houver alguma contrapartida às vítimas. "Ou seja: uma confissão do condenado de que aquilo que fez foi um crime, o reconhecimento da culpa, um pedido de desculpas e uma tentativa de reparação. E o mínimo da reparação é dizer a verdade sobre o que fez e informar o paradeiro das pessoas desaparecidas", detalha.
Do contrário, afirma Huhle, o indulto "aparentemente humanitário" teria mesmo é "sabor de impunidade".
Quanto à possibilidade de redução de penas, o cientista político observa que isso exige um processo específico, como ocorreu na Colômbia: "Se pensarmos na Jurisdição Especial para a Paz, houve penas significativamente reduzidas, mas em troca de um forte compromisso com a verdade e com pedidos de desculpas. Sem isso, libertar os principais criminosos me parece inadmissível."
Prisão domiciliar: gesto humanitário ou rota para impunidade?
Paralelamente, um projeto de lei impulsionado por senadores de direita no Chile poderia conceder o benefício da prisão domiciliar, sob determinadas condições, a pessoas com graves problemas de saúde e a condenados com mais de 70 anos. O argumento é de que a medida, além de atender a uma finalidade humanitária, contribuiria para aliviar o sistema prisional. Críticos, porém, afirmam que ela favorece criminosos da ditadura.
Em geral, as legislações vigentes permitem que uma pessoa gravemente doente, que necessite de tratamento médico com acompanhamento permanente, cumpra pena em outro estabelecimento ou em casa.
"Em todos os países isso é o normal. A pergunta é por que seria necessária uma nova lei para isso", questiona Huhle. "Se o benefício de sair da prisão decorre de um problema de saúde devidamente comprovado por médicos independentes, trata-se de uma norma humanitária e eu não a chamaria de medida de impunidade. O importante é ter certeza de que esse é o único motivo, porque já vimos que doenças também podem ser simuladas. Todos os chilenos se lembram bem da chegada de Pinochet ao Chile se desfazendo da bengala."
Sobre a possibilidade de conceder prisão domiciliar com base apenas na idade, Huhle pondera que "idade, por si só, não é doença e não pode justificar a libertação de uma pessoa condenada por crimes contra a humanidade".
Em outros países, como a Argentina, esse benefício já existe. Ali, segundo Torras, os juízes podem concedê-lo após considerar fatores como o risco de fuga e de obstrução das investigações judiciais. Ela diz que, nos últimos anos, a tendência tem sido aceitar os pedidos apresentados por condenados por violações dos direitos humanos.
"Esses pedidos foram negados apenas em casos específicos e emblemáticos, envolvendo repressores cujos crimes marcaram profundamente a opinião pública e cuja conduta posterior agravou sua imagem. Hoje, praticamente 90% dos condenados por crimes contra a humanidade na Argentina desfrutam do benefício da prisão domiciliar", afirma Torras.
Lira, da UAH, pondera ainda que muitos desses condenados no Chile "não têm condições de retornar às suas famílias, porque foram abandonados ou porque seus parentes não desejam assumir sua responsabilidade. A única alternativa para o Estado é mantê-los presos ou encontrar outras condições adequadas."
Reescrevendo a história?
A controvérsia não se limita ao Chile. Em meio à onda de governos de direita na América Latina, surgem disputas em torno da revisão da memória histórica e das consequências jurídicas dos crimes do passado.
Diversos governos reduziram o orçamento destinado às políticas públicas de memória, desmontando programas existentes. Há também tentativas de revisar a historiografia oficial nos museus. Em alguns casos, cargos estratégicos foram entregues a negacionistas, com o objetivo de influenciar os relatos sobre o passado recente.
Um exemplo disso citado por Huhle é o Lugar da Memória, em Lima, museu que trata das violências que tomaram o Peru de 1980 a 2000, quando o país viveu um conflito armado interno e a ditadura de Alberto Fujimori (1990-2000), e cuja narrativa está agora sob disputa com o novo governo. "Há um discurso abertamente contrário, que busca negar esses crimes e reconhecer apenas os da insurgência. Há uma anticultura da memória histórica", afirma o alemão.
Para Lira, indultar quem comete crimes contra a humanidade é enfraquecer "os mecanismos acordados para resolver conflitos e criar condições de paz". E quando a isso se soma a deterioração da capacidade institucional de preservar a memória, "existe um grande risco de que formas de violência antes consideradas superadas sejam restabelecidas".
Nesse contexto, ela se diz preocupada com a redução do financiamento do processo de paz na Colômbia e das políticas de memória na Argentina. Outro fato que a deixa apreensiva são os cortes no orçamento do plano nacional chileno de busca pelos desaparecidos e a interrupção do processo de desapropriação da antiga Colonia Dignidad, onde se pretendia instalar um memorial.
"Tenho uma enorme desesperança em relação a tudo isso, porque é como se as pessoas que hoje governam fossem muito ignorantes em relação à história, ou tivessem decidido ignorar as consequências de desconsiderá-la por causa de suas próprias posições políticas", lamenta a acadêmica chilena.
Torras, contudo, considera que a ascensão de governos reacionários em matéria de direitos humanos pode favorecer o surgimento de fortes movimentos de resistência dentro da sociedade.
Mas ela alerta que uma hegemonia da ultradireita na América Latina pode levar ao aprofundamento das disputas sobre as narrativas históricas, inclusive com abordagens abertamente negacionistas ou que fazem apologia a regimes autoritários do passado.
"Se Flávio Bolsonaro vencer as eleições no Brasil no próximo mês, será a primeira vez em 50 anos que toda a América Latina terá uma hegemonia da direita extrema. Uma situação semelhante não ocorre desde a época das ditaduras e dos governos autoritários", afirma.
Em seus escritos, ele não demonstra arrependimento. E continua justificando a repressão do regime. "Não preciso de perdão nem de favores", afirmou recentemente em uma carta.
Ele é um dos condenados por violações dos direitos humanos que podem ser indultados pelo presidente chileno, o ultradireitista José Antonio Kast — a despeito dos protestos de familiares das vítimas e de organizações de direitos humanos.
Defensor da ditadura, Kast afirmou que analisará os casos individualmente, por razões humanitárias.
"De uma perspectiva histórica e de projeção para o futuro, considero um péssimo sinal pensar que crimes contra a humanidade possam ser indultados, porque isso também contraria o compromisso do Estado de oferecer garantias de não repetição", afirma Elizabeth Lira, do Centro de Direitos Humanos da Universidade Alberto Hurtado (UAH), no Chile.
"É muito problemático para a ideia de institucionalidade e de segurança jurídica que as disposições civilizadas de um país para processar aqueles que têm responsabilidade por crimes atrozes sejam substituídas por uma decisão política do Poder Executivo", pontua.
Lira, que é professora de psicologia na UAH, ressalta que, assim como Krassnoff, a maioria dos condenados por crimes contra a humanidade no Chile "foi julgada por muitos casos, em muitos processos".
Para Verónica Torras, diretora da Memoria Abierta, aliança de organizações argentinas de direitos humanos, o indulto nesses casos é uma "medida de impunidade". "Os julgamentos no Chile e na Argentina, apesar de suas dificuldades, são processos bastante consolidados", afirma ela, que também é vice-presidente do Centro de Estudos Legais e Sociais da Argentina.
Rainer Huhle, do Centro de Direitos Humanos de Nuremberg, na Alemanha, diz que um indulto só deveria ser cogitado quando houver alguma contrapartida às vítimas. "Ou seja: uma confissão do condenado de que aquilo que fez foi um crime, o reconhecimento da culpa, um pedido de desculpas e uma tentativa de reparação. E o mínimo da reparação é dizer a verdade sobre o que fez e informar o paradeiro das pessoas desaparecidas", detalha.
Do contrário, afirma Huhle, o indulto "aparentemente humanitário" teria mesmo é "sabor de impunidade".
Quanto à possibilidade de redução de penas, o cientista político observa que isso exige um processo específico, como ocorreu na Colômbia: "Se pensarmos na Jurisdição Especial para a Paz, houve penas significativamente reduzidas, mas em troca de um forte compromisso com a verdade e com pedidos de desculpas. Sem isso, libertar os principais criminosos me parece inadmissível."
Prisão domiciliar: gesto humanitário ou rota para impunidade?
Paralelamente, um projeto de lei impulsionado por senadores de direita no Chile poderia conceder o benefício da prisão domiciliar, sob determinadas condições, a pessoas com graves problemas de saúde e a condenados com mais de 70 anos. O argumento é de que a medida, além de atender a uma finalidade humanitária, contribuiria para aliviar o sistema prisional. Críticos, porém, afirmam que ela favorece criminosos da ditadura.
Em geral, as legislações vigentes permitem que uma pessoa gravemente doente, que necessite de tratamento médico com acompanhamento permanente, cumpra pena em outro estabelecimento ou em casa.
"Em todos os países isso é o normal. A pergunta é por que seria necessária uma nova lei para isso", questiona Huhle. "Se o benefício de sair da prisão decorre de um problema de saúde devidamente comprovado por médicos independentes, trata-se de uma norma humanitária e eu não a chamaria de medida de impunidade. O importante é ter certeza de que esse é o único motivo, porque já vimos que doenças também podem ser simuladas. Todos os chilenos se lembram bem da chegada de Pinochet ao Chile se desfazendo da bengala."
Sobre a possibilidade de conceder prisão domiciliar com base apenas na idade, Huhle pondera que "idade, por si só, não é doença e não pode justificar a libertação de uma pessoa condenada por crimes contra a humanidade".
Em outros países, como a Argentina, esse benefício já existe. Ali, segundo Torras, os juízes podem concedê-lo após considerar fatores como o risco de fuga e de obstrução das investigações judiciais. Ela diz que, nos últimos anos, a tendência tem sido aceitar os pedidos apresentados por condenados por violações dos direitos humanos.
"Esses pedidos foram negados apenas em casos específicos e emblemáticos, envolvendo repressores cujos crimes marcaram profundamente a opinião pública e cuja conduta posterior agravou sua imagem. Hoje, praticamente 90% dos condenados por crimes contra a humanidade na Argentina desfrutam do benefício da prisão domiciliar", afirma Torras.
Lira, da UAH, pondera ainda que muitos desses condenados no Chile "não têm condições de retornar às suas famílias, porque foram abandonados ou porque seus parentes não desejam assumir sua responsabilidade. A única alternativa para o Estado é mantê-los presos ou encontrar outras condições adequadas."
Reescrevendo a história?
A controvérsia não se limita ao Chile. Em meio à onda de governos de direita na América Latina, surgem disputas em torno da revisão da memória histórica e das consequências jurídicas dos crimes do passado.
Diversos governos reduziram o orçamento destinado às políticas públicas de memória, desmontando programas existentes. Há também tentativas de revisar a historiografia oficial nos museus. Em alguns casos, cargos estratégicos foram entregues a negacionistas, com o objetivo de influenciar os relatos sobre o passado recente.
Um exemplo disso citado por Huhle é o Lugar da Memória, em Lima, museu que trata das violências que tomaram o Peru de 1980 a 2000, quando o país viveu um conflito armado interno e a ditadura de Alberto Fujimori (1990-2000), e cuja narrativa está agora sob disputa com o novo governo. "Há um discurso abertamente contrário, que busca negar esses crimes e reconhecer apenas os da insurgência. Há uma anticultura da memória histórica", afirma o alemão.
Para Lira, indultar quem comete crimes contra a humanidade é enfraquecer "os mecanismos acordados para resolver conflitos e criar condições de paz". E quando a isso se soma a deterioração da capacidade institucional de preservar a memória, "existe um grande risco de que formas de violência antes consideradas superadas sejam restabelecidas".
Nesse contexto, ela se diz preocupada com a redução do financiamento do processo de paz na Colômbia e das políticas de memória na Argentina. Outro fato que a deixa apreensiva são os cortes no orçamento do plano nacional chileno de busca pelos desaparecidos e a interrupção do processo de desapropriação da antiga Colonia Dignidad, onde se pretendia instalar um memorial.
"Tenho uma enorme desesperança em relação a tudo isso, porque é como se as pessoas que hoje governam fossem muito ignorantes em relação à história, ou tivessem decidido ignorar as consequências de desconsiderá-la por causa de suas próprias posições políticas", lamenta a acadêmica chilena.
Torras, contudo, considera que a ascensão de governos reacionários em matéria de direitos humanos pode favorecer o surgimento de fortes movimentos de resistência dentro da sociedade.
Mas ela alerta que uma hegemonia da ultradireita na América Latina pode levar ao aprofundamento das disputas sobre as narrativas históricas, inclusive com abordagens abertamente negacionistas ou que fazem apologia a regimes autoritários do passado.
"Se Flávio Bolsonaro vencer as eleições no Brasil no próximo mês, será a primeira vez em 50 anos que toda a América Latina terá uma hegemonia da direita extrema. Uma situação semelhante não ocorre desde a época das ditaduras e dos governos autoritários", afirma.
O Bolsonaro mais perigoso pode ser o mais moderado
Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, é mais perigoso para a democracia do que o pai, Jair. Não por ser mais radical, mas por parecer mais moderado.
O pai tentou dar um golpe seguindo uma cartilha ultrapassada, um tanto demodê, e fracassou. Jair é impulsivo, errático e dado ao confronto. Flávio parece mais disciplinado, mais integrado ao sistema partidário e mais capaz de negociar com aqueles que o pai preferia ameaçar. Em determinados contextos, contudo, a moderação pode tornar mais eficaz o radicalismo dos objetivos. Não há entre eles diferença de convicções —basta olhar a trajetória do 01—, mas uma diferença de método: confronto, no caso do pai; acomodação, no caso do filho. Diferentemente de 2018, em 2026 estão dadas as condições para que Flávio possa subverter a democracia por dentro.
Em 2018, muito se discutiu sobre a capacidade de resiliência da democracia diante de um populista autoritário que chegava à Presidência da República. Para uns, a democracia brasileira corria, sim, um risco; para outros, esse risco era mínimo ou mesmo inexistente.
O argumento do segundo grupo se apoiava sobretudo no desenho institucional brasileiro e em seus mecanismos de freios e contrapesos: um sistema consensual, marcado pela dispersão do poder e por múltiplos pontos de veto. A fragmentação partidária, a existência de legendas disciplinadas e centralizadas no Legislativo, um Congresso fortalecido, o federalismo, um Judiciário constitucionalmente forte e independente e órgãos de controle relativamente autônomos constituíam obstáculos que dificultavam significativamente um "executive takeover" por parte de Jair Bolsonaro.
Obstáculos institucionais, contudo, não são garantia da sobrevivência da democracia. Se o Legislativo pode funcionar como contrapoder, nada garante que um Congresso Nacional conservador não possa se tornar aliado de um eventual processo de autocratização. Mais significativo, na conjuntura de 2026 —e diferentemente da de 2018— é que não apenas o Supremo Tribunal Federal (STF) está enfraquecido por uma crise de legitimidade sem precedentes como também quatro ministros podem ser nomeados pelo próximo presidente.
Há, enfim, outra diferença em relação a 2018: um segundo governo Donald Trump elevou a interferência na América Latina a um novo patamar e está determinado a influenciar as eleições para favorecer a vitória de candidatos da extrema direita em todo o continente. Ao estudar os autoritarismos competitivos, Steven Levitsky e Lucan Way ("Competitive Authoritarianism: Hybrid Regimes After the Cold War") mostraram que, após o fim da Guerra Fria, a influência ocidental aumentava os custos da autocratização. O que se vê hoje é uma inversão desse mecanismo: a principal potência hemisférica, sob o comando de Trump e Marco Rubio, deixou de elevar os custos da erosão democrática e passou até mesmo a recompensá-la —desde que praticada por governos ideologicamente alinhados a Washington.
O cenário mais perigoso talvez não seja o de tanques nas ruas, mas o de uma sucessão de decisões formalmente legais, aprovadas por maiorias parlamentares conservadoras, respaldadas pelos EUA e justificadas como correções dos "abusos" de um STF agora "moralizado", sem Alexandre de Moraes e com novos ministros bolsonaristas, além de André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.
Em 2022, a democracia brasileira sobreviveu a Jair, que anunciava quase diariamente sua disposição de golpeá-la. Talvez o perigo maior venha de Flávio, que pode ter aprendido que, para esvaziar uma democracia, é melhor não declarar guerra contra ela.
O pai tentou dar um golpe seguindo uma cartilha ultrapassada, um tanto demodê, e fracassou. Jair é impulsivo, errático e dado ao confronto. Flávio parece mais disciplinado, mais integrado ao sistema partidário e mais capaz de negociar com aqueles que o pai preferia ameaçar. Em determinados contextos, contudo, a moderação pode tornar mais eficaz o radicalismo dos objetivos. Não há entre eles diferença de convicções —basta olhar a trajetória do 01—, mas uma diferença de método: confronto, no caso do pai; acomodação, no caso do filho. Diferentemente de 2018, em 2026 estão dadas as condições para que Flávio possa subverter a democracia por dentro.
Em 2018, muito se discutiu sobre a capacidade de resiliência da democracia diante de um populista autoritário que chegava à Presidência da República. Para uns, a democracia brasileira corria, sim, um risco; para outros, esse risco era mínimo ou mesmo inexistente.
O argumento do segundo grupo se apoiava sobretudo no desenho institucional brasileiro e em seus mecanismos de freios e contrapesos: um sistema consensual, marcado pela dispersão do poder e por múltiplos pontos de veto. A fragmentação partidária, a existência de legendas disciplinadas e centralizadas no Legislativo, um Congresso fortalecido, o federalismo, um Judiciário constitucionalmente forte e independente e órgãos de controle relativamente autônomos constituíam obstáculos que dificultavam significativamente um "executive takeover" por parte de Jair Bolsonaro.
Obstáculos institucionais, contudo, não são garantia da sobrevivência da democracia. Se o Legislativo pode funcionar como contrapoder, nada garante que um Congresso Nacional conservador não possa se tornar aliado de um eventual processo de autocratização. Mais significativo, na conjuntura de 2026 —e diferentemente da de 2018— é que não apenas o Supremo Tribunal Federal (STF) está enfraquecido por uma crise de legitimidade sem precedentes como também quatro ministros podem ser nomeados pelo próximo presidente.
Há, enfim, outra diferença em relação a 2018: um segundo governo Donald Trump elevou a interferência na América Latina a um novo patamar e está determinado a influenciar as eleições para favorecer a vitória de candidatos da extrema direita em todo o continente. Ao estudar os autoritarismos competitivos, Steven Levitsky e Lucan Way ("Competitive Authoritarianism: Hybrid Regimes After the Cold War") mostraram que, após o fim da Guerra Fria, a influência ocidental aumentava os custos da autocratização. O que se vê hoje é uma inversão desse mecanismo: a principal potência hemisférica, sob o comando de Trump e Marco Rubio, deixou de elevar os custos da erosão democrática e passou até mesmo a recompensá-la —desde que praticada por governos ideologicamente alinhados a Washington.
O cenário mais perigoso talvez não seja o de tanques nas ruas, mas o de uma sucessão de decisões formalmente legais, aprovadas por maiorias parlamentares conservadoras, respaldadas pelos EUA e justificadas como correções dos "abusos" de um STF agora "moralizado", sem Alexandre de Moraes e com novos ministros bolsonaristas, além de André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.
Em 2022, a democracia brasileira sobreviveu a Jair, que anunciava quase diariamente sua disposição de golpeá-la. Talvez o perigo maior venha de Flávio, que pode ter aprendido que, para esvaziar uma democracia, é melhor não declarar guerra contra ela.
Esqueceram?
Se quiseres brilhar como o sol, terás, em primeiro lugar, que queimar, como ele.
Eu uso a emoção para muitos e reservo a razão para poucos.
Só aquele que domina a juventude domina o futuro.
Ao vencedor, nunca lhe será perguntado se disse a verdade.
Para boa reflexão dos entusiásticos extremistas de direita, estes pensamentos foram motores de arranque de uma das maiores calamidades que assolaram a Humanidade.
O autor destes aforismos incendiários e que andam por aí, na ordem do dia, chamou-se Adolf Hitler.
O excesso é aliado de Flávio
O excesso confunde. Flávio Bolsonaro se manter viável não se justifica pela falta de informação, mas pelo seu contrário. São muitas suspeitas, casos e investigações: milícia, rachadinha, mansão, chocolate, Master, Dark Horse. Episódios, períodos e situações jurídicas diferentes, que, ao invés de ampliar a rejeição, embaralham a percepção. Podem até parecer repetição, notícias velhas, pois têm sempre o mesmo protagonista bolsonarista.
Para todos esses casos, as mesmas respostas: isso é passado ou perseguição. Está consolidado para bolsonaristas e antipetistas e reforça a impressão de ultrapassado. Quando surgiram os áudios com Vorcaro, Flávio colecionou reações desastrosas. Mentiu e foi desmentido muitas vezes. Há que se reconhecer que o gerenciamento da crise melhorou. A cobertura da imprensa não faz diferença (e os influenciadores de esquerda precisam mudar).
O eleitor está cansado de notícias de corrupção? Esse tipo de informação deixou de acrescentar significado para ser o ruído na disputa eleitoral? Esta são apenas duas variáveis em um cenário muito mais complexo.
Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada hoje mostra que 43,8% veem aliados de Bolsonaro mais envolvidos no Master; 43,4%, os de Lula. Empate técnico. Para 52,3%, crise no STF prejudica mais Lula; 20,8% dizem afetar mais Flávio. Toda a crise do STF é impulsionada pelas revelações do celular de Vorcaro, mas o STF permanece como aliado do presidente por condenar os golpistas do 8 de janeiro.
Ainda hoje, a Atlas apontou que Lula tem 47,7% e Flávio Bolsonaro 47,4% no 2º turno. Lula voltou a passar Flávio numericamente, mas os dois permanecem tecnicamente empatados.
Em dezembro, o PT comemorava os conflitos da direita com a escolha da candidatura de Flávio. Tarifaço, aumento da isenção do IR davam uma liderança folgada a Lula. Com candidatura mais conhecida, Flávio se aproximou. Em maio, com as denúncias de Dark Horse, Lula começou a se distanciar. A maré mudou. O custo de vida segue importunando o bolso dos brasileiros. Há um desejo de mudança. Lula pode proibir as bets, distribuir canetas emagrecedoras, reajustar o Bolsa Família. Essenciais melhorias com cheiro de naftalina para parte do eleitorado. A eleição será apertada. Soberania, Trump, pandemia, as lembranças do péssimo governo Bolsonaro. Será que nada mais cola em Flávio?
Para todos esses casos, as mesmas respostas: isso é passado ou perseguição. Está consolidado para bolsonaristas e antipetistas e reforça a impressão de ultrapassado. Quando surgiram os áudios com Vorcaro, Flávio colecionou reações desastrosas. Mentiu e foi desmentido muitas vezes. Há que se reconhecer que o gerenciamento da crise melhorou. A cobertura da imprensa não faz diferença (e os influenciadores de esquerda precisam mudar).
O eleitor está cansado de notícias de corrupção? Esse tipo de informação deixou de acrescentar significado para ser o ruído na disputa eleitoral? Esta são apenas duas variáveis em um cenário muito mais complexo.
Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada hoje mostra que 43,8% veem aliados de Bolsonaro mais envolvidos no Master; 43,4%, os de Lula. Empate técnico. Para 52,3%, crise no STF prejudica mais Lula; 20,8% dizem afetar mais Flávio. Toda a crise do STF é impulsionada pelas revelações do celular de Vorcaro, mas o STF permanece como aliado do presidente por condenar os golpistas do 8 de janeiro.
Ainda hoje, a Atlas apontou que Lula tem 47,7% e Flávio Bolsonaro 47,4% no 2º turno. Lula voltou a passar Flávio numericamente, mas os dois permanecem tecnicamente empatados.
Em dezembro, o PT comemorava os conflitos da direita com a escolha da candidatura de Flávio. Tarifaço, aumento da isenção do IR davam uma liderança folgada a Lula. Com candidatura mais conhecida, Flávio se aproximou. Em maio, com as denúncias de Dark Horse, Lula começou a se distanciar. A maré mudou. O custo de vida segue importunando o bolso dos brasileiros. Há um desejo de mudança. Lula pode proibir as bets, distribuir canetas emagrecedoras, reajustar o Bolsa Família. Essenciais melhorias com cheiro de naftalina para parte do eleitorado. A eleição será apertada. Soberania, Trump, pandemia, as lembranças do péssimo governo Bolsonaro. Será que nada mais cola em Flávio?
Peter Thiel, o bilionário que conecta Trump, anticristo e IA
Embora não busque os holofotes da mesma forma que o presidente americano Donald Trump, Elon Musk ou muitos de seus outros amigos e associados, Peter Thiel pode legitimamente ser considerado uma das figuras mais influentes – e também uma das mais ricas – do mundo.
Nascido em 1967 em Frankfurt, na então Alemanha Ocidental, Thiel se mudou com a família para os Estados Unidos quando tinha apenas um ano de idade. A família também viveu seis anos na Namíbia, então sob ocupação sul-africana, entre 1971 e 1977.
A ascensão de Thiel à notoriedade ocorreu graças às suas empresas de tecnologia e investimentos. Seu primeiro grande sucesso foi o PayPal, uma plataforma de pagamentos digitais na qual Musk também esteve inicialmente envolvido. Em seguida, Thiel se tornou o primeiro investidor externo do Facebook.
Hoje, ele também detém participações na SpaceX de Musk e na empresa de inteligência artificial (IA) OpenAI, além de várias outras. A revista Forbes estima sua fortuna pessoal em 35,7 bilhões de dólares (R$ 209 bilhões).
Contudo, talvez sua empresa mais notável seja a Palantir. Especializada em vigilância, IA e análise de dados, a companhia conquistou contratos governamentais bilionários para desenvolver softwares para o Pentágono e para o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE). Em abril, a empresa divulgou um manifesto de 22 pontos que, segundo críticos, carregava a marca do "tecnofascismo".
Thiel, no entanto, pode ser considerado tão influente na política quanto nos negócios – e não apenas nos EUA.
Embora vários países europeus – incluindo Reino Unido, Holanda, França, Alemanha e Espanha – comecem a reavaliar ou encerrar vínculos governamentais e militares com a Palantir devido a preocupações com a segurança, a empresa está profundamente integrada a sistemas em todo o mundo.
O próprio Thiel se mudou recentemente para a Argentina, onde teria mantido conversas com o presidente do país, o ultradireitista Javier Milei, em um momento em que o governo propõe uma série de regulamentações que incluem incentivos a empresas estrangeiras e visam atrair investimentos para centros de dados de IA.
Thiel foi um dos primeiros apoiadores – e, mais tarde, conselheiro – de Donald Trump; ele doou 1,25 milhão de dólares para a campanha eleitoral do republicano em 2016 e discursou na Convenção Nacional Republicana naquele mesmo ano, numa época em que o Vale do Silício era amplamente visto como alinhado ao Partido Democrata. Com exceção de um hiato entre 2023 e 2025, ele tem sido um doador generoso para campanhas e figuras republicanas, incluindo o vice-presidente J.D. Vance.
As convicções políticas de Thiel não são fáceis de definir. Ele já foi descrito como um nacionalista libertário e sempre defendeu a ideia de que "a tecnologia é a alternativa à política".
Ele também demonstra desconfiança em relação a autoridades, regulamentações e elites liberais. Isso decorre, em parte, da frustração com o que Thiel considera ser uma tomada de decisão ineficiente por parte de autoridades eleitas e dos próprios eleitores.
"Isso beira o fascismo", disse à revista Time Max Chafkin, autor de uma biografia de Thiel publicada em 2021. "Ele fala sobre como as empresas são mais bem administradas do que os governos porque têm um único tomador de decisões – basicamente, um ditador. Ele é hostil à ideia de democracia, o que é bastante assustador quando se considera o papel desempenhado pelas empresas com as quais ele esteve envolvido."
Essas convicções parecem ter começado a emergir durante o período em que ele estudou na Universidade de Stanford, na Califórnia. Thiel criticava duramente a ideologia liberal predominante no campus e fundou a Stanford Review, uma publicação destinada a expressar pontos de vista contrários – algo que ecoa seu atual desprezo pelas crenças rotuladas como "woke", ou "politicamente correto".
Thiel foi criado em um lar profundamente cristão, e há poucas dúvidas de que sua religião influenciou sua vida e carreira. Recentemente, ele se descreveu como um "cristão ortodoxo com 'o' minúsculo", algo que parece influenciar suas convicções políticas conservadoras. Sua homossexualidade e seu casamento com o financista americano Matt Danzeisen parecem, para muitos, contradizer essa postura. O paradoxo, no entanto, não é algo incomum na trajetória de Thiel.
Mais recentemente, ele passou a se dedicar ao conceito do anticristo, percorrendo o mundo com uma série de palestras nos últimos anos. Em vez da figura retratada na Bíblia, Thiel vê o Anticristo como alguém – ou algum grupo – que provocará o apocalipse "explorando nossos medos em relação à tecnologia e nos seduzindo rumo à decadência com o lema do anticristo: 'paz e segurança'".
Entre aqueles que foram, de maneira relativamente vaga, apontados como soldados do anticristo estão a ativista ambiental Greta Thunberg – a quem ele descreve como uma "ludista que quer acabar com toda a ciência" – e governos que buscam regulamentar a IA. Em julho, ele acusou o papa Leão 14 de "trabalhar para os comunistas chineses" depois que o pontífice alertou sobre o "risco de desumanização" causado pela IA.
Apesar de sua forte ligação com o setor de tecnologia, Thiel também se beneficia de suas relações com pessoas influentes, como Musk, Trump e Vance.
"Construí grandes amizades ao longo dos anos com pessoas com quem trabalhei", disse Thiel ao jornal Washington Post, em 2014. "Acredito que essa seja uma parte fundamental do que permite a alguém alcançar o sucesso a longo prazo em nossa sociedade."
Muitos observadores acreditam que Thiel possa estar usando sua relação com Vance para proteger a si mesmo e a seus interesses comerciais no futuro, visto que o vice-presidente é considerado o republicano com maior probabilidade de suceder Trump.
Os dois se conheceram em 2011, quando Thiel ministrou uma palestra na Faculdade de Direito de Yale. Vance – cujas convicções religiosas e políticas mudaram desde então – escreveu na revista cristã The Lamp que Thiel "desafiou o padrão social que eu havia construído: o de que pessoas ignorantes eram cristãs e as inteligentes, ateias".
Diz-se que Thiel se tornou uma espécie de mentor para Vance, além de ter ajudado a harmonizar a relação entre ele e Trump, à medida que Vance mudou radicalmente de posição, passando de opositor do presidente a integrante de sua chapa para 2024. Vale destacar, sobretudo, que Thiel doou 15 milhões de dólares para a campanha de Vance ao Senado em 2022, a maior quantia já doada a um único candidato ao Senado dos EUA.
Os recentes apelos para desacelerar o ritmo da IA, feitos em parte por CEOs em posições semelhantes à de Thiel, podem acabar afetando os interesses comerciais dele. No entanto, sua personalidade singular e suas conexões o mantiveram, até agora, um passo à frente.
Nascido em 1967 em Frankfurt, na então Alemanha Ocidental, Thiel se mudou com a família para os Estados Unidos quando tinha apenas um ano de idade. A família também viveu seis anos na Namíbia, então sob ocupação sul-africana, entre 1971 e 1977.
A ascensão de Thiel à notoriedade ocorreu graças às suas empresas de tecnologia e investimentos. Seu primeiro grande sucesso foi o PayPal, uma plataforma de pagamentos digitais na qual Musk também esteve inicialmente envolvido. Em seguida, Thiel se tornou o primeiro investidor externo do Facebook.
Hoje, ele também detém participações na SpaceX de Musk e na empresa de inteligência artificial (IA) OpenAI, além de várias outras. A revista Forbes estima sua fortuna pessoal em 35,7 bilhões de dólares (R$ 209 bilhões).
Contudo, talvez sua empresa mais notável seja a Palantir. Especializada em vigilância, IA e análise de dados, a companhia conquistou contratos governamentais bilionários para desenvolver softwares para o Pentágono e para o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE). Em abril, a empresa divulgou um manifesto de 22 pontos que, segundo críticos, carregava a marca do "tecnofascismo".
Thiel, no entanto, pode ser considerado tão influente na política quanto nos negócios – e não apenas nos EUA.
Embora vários países europeus – incluindo Reino Unido, Holanda, França, Alemanha e Espanha – comecem a reavaliar ou encerrar vínculos governamentais e militares com a Palantir devido a preocupações com a segurança, a empresa está profundamente integrada a sistemas em todo o mundo.
O próprio Thiel se mudou recentemente para a Argentina, onde teria mantido conversas com o presidente do país, o ultradireitista Javier Milei, em um momento em que o governo propõe uma série de regulamentações que incluem incentivos a empresas estrangeiras e visam atrair investimentos para centros de dados de IA.
Thiel foi um dos primeiros apoiadores – e, mais tarde, conselheiro – de Donald Trump; ele doou 1,25 milhão de dólares para a campanha eleitoral do republicano em 2016 e discursou na Convenção Nacional Republicana naquele mesmo ano, numa época em que o Vale do Silício era amplamente visto como alinhado ao Partido Democrata. Com exceção de um hiato entre 2023 e 2025, ele tem sido um doador generoso para campanhas e figuras republicanas, incluindo o vice-presidente J.D. Vance.
As convicções políticas de Thiel não são fáceis de definir. Ele já foi descrito como um nacionalista libertário e sempre defendeu a ideia de que "a tecnologia é a alternativa à política".
Ele também demonstra desconfiança em relação a autoridades, regulamentações e elites liberais. Isso decorre, em parte, da frustração com o que Thiel considera ser uma tomada de decisão ineficiente por parte de autoridades eleitas e dos próprios eleitores.
"Isso beira o fascismo", disse à revista Time Max Chafkin, autor de uma biografia de Thiel publicada em 2021. "Ele fala sobre como as empresas são mais bem administradas do que os governos porque têm um único tomador de decisões – basicamente, um ditador. Ele é hostil à ideia de democracia, o que é bastante assustador quando se considera o papel desempenhado pelas empresas com as quais ele esteve envolvido."
Essas convicções parecem ter começado a emergir durante o período em que ele estudou na Universidade de Stanford, na Califórnia. Thiel criticava duramente a ideologia liberal predominante no campus e fundou a Stanford Review, uma publicação destinada a expressar pontos de vista contrários – algo que ecoa seu atual desprezo pelas crenças rotuladas como "woke", ou "politicamente correto".
Thiel foi criado em um lar profundamente cristão, e há poucas dúvidas de que sua religião influenciou sua vida e carreira. Recentemente, ele se descreveu como um "cristão ortodoxo com 'o' minúsculo", algo que parece influenciar suas convicções políticas conservadoras. Sua homossexualidade e seu casamento com o financista americano Matt Danzeisen parecem, para muitos, contradizer essa postura. O paradoxo, no entanto, não é algo incomum na trajetória de Thiel.
Mais recentemente, ele passou a se dedicar ao conceito do anticristo, percorrendo o mundo com uma série de palestras nos últimos anos. Em vez da figura retratada na Bíblia, Thiel vê o Anticristo como alguém – ou algum grupo – que provocará o apocalipse "explorando nossos medos em relação à tecnologia e nos seduzindo rumo à decadência com o lema do anticristo: 'paz e segurança'".
Entre aqueles que foram, de maneira relativamente vaga, apontados como soldados do anticristo estão a ativista ambiental Greta Thunberg – a quem ele descreve como uma "ludista que quer acabar com toda a ciência" – e governos que buscam regulamentar a IA. Em julho, ele acusou o papa Leão 14 de "trabalhar para os comunistas chineses" depois que o pontífice alertou sobre o "risco de desumanização" causado pela IA.
Apesar de sua forte ligação com o setor de tecnologia, Thiel também se beneficia de suas relações com pessoas influentes, como Musk, Trump e Vance.
"Construí grandes amizades ao longo dos anos com pessoas com quem trabalhei", disse Thiel ao jornal Washington Post, em 2014. "Acredito que essa seja uma parte fundamental do que permite a alguém alcançar o sucesso a longo prazo em nossa sociedade."
Muitos observadores acreditam que Thiel possa estar usando sua relação com Vance para proteger a si mesmo e a seus interesses comerciais no futuro, visto que o vice-presidente é considerado o republicano com maior probabilidade de suceder Trump.
Os dois se conheceram em 2011, quando Thiel ministrou uma palestra na Faculdade de Direito de Yale. Vance – cujas convicções religiosas e políticas mudaram desde então – escreveu na revista cristã The Lamp que Thiel "desafiou o padrão social que eu havia construído: o de que pessoas ignorantes eram cristãs e as inteligentes, ateias".
Diz-se que Thiel se tornou uma espécie de mentor para Vance, além de ter ajudado a harmonizar a relação entre ele e Trump, à medida que Vance mudou radicalmente de posição, passando de opositor do presidente a integrante de sua chapa para 2024. Vale destacar, sobretudo, que Thiel doou 15 milhões de dólares para a campanha de Vance ao Senado em 2022, a maior quantia já doada a um único candidato ao Senado dos EUA.
Os recentes apelos para desacelerar o ritmo da IA, feitos em parte por CEOs em posições semelhantes à de Thiel, podem acabar afetando os interesses comerciais dele. No entanto, sua personalidade singular e suas conexões o mantiveram, até agora, um passo à frente.
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