quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Flávio Bolsonaro não vale uma palavra que diz ou cala

“Mentem no passado. E no presente / passam a mentira a limpo. / E no futuro mentem novamente”. (Affonso Romano de Sant'Anna)

Em 19 de janeiro de 2025, portanto onze meses antes de ser indicado pelo pai para disputar a eleição presidencial do ano seguinte, o senador Flávio Bolsonaro voou em uma aeronave do banqueiro Daniel Vorcaro ao regressar da Flórida, nos Estados Unidos, para Brasília. Estava acompanhado da mulher, a cirurgiã-dentista Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e das duas filhas do casal.

Sim, havia pelo menos mais um passageiro a bordo: o amigo Willer Tomaz, advogado e empresário que já foi preso no escândalo da JBS e é investigado no esquema de desvios bilionários do INSS. Trata-se do mesmo jato executivo de alto padrão, de prefixo PP-NLR, que transportou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em agosto do mesmo ano.


A empresa Prime You, que tinha então Vorcaro como um dos sócios, já era dona de um terço das cotas da aeronave na data do voo, segundo apurou o repórter Breno Pires. A aquisição foi realizada no fim de 2024. Tomaz confirmou que era dono de uma das três cotas do avião. Além de detentora de outra dessas cotas, a Prime You também era operadora do jato, por meio da Prime Aviation Táxi Aéreo e Serviços, que integra seu portfólio.

A Prime You teve Vorcaro como sócio de 2021 até setembro de 2025. Um relatório da Polícia Federal mostra que cada uma das cotas de 33,33% valia 5,5 milhões de dólares em maio de 2025. Nessa época, a empresa negociava a transferência da participação para o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, o que acabou não se concretizando.

Na Flórida, Flávio e Willer estiveram no Hard Rock Hotel & Casino, onde, segundo a coluna de Lauro Jardim, do jornal O Globo, passaram a noite de 18 para 19 de janeiro, antes de retornarem ao Brasil. Essa foi uma dentre várias viagens que Flávio e Tomaz fizeram juntos, que incluíram ainda um safári na África do Sul dois meses depois, em março de 2025.

Além disso, a proximidade entre Flávio e Willer se estende aos imóveis do advogado. Em agosto último, por exemplo, Flávio usou durante a campanha em São Paulo um apartamento que a empresa de Tomaz havia comprado em fevereiro passado de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, com deságio de 2 milhões de reais.

Flávio desconversa quando o procuram para falar sobre Tomaz. Para ele, por ora, é mais uma página virada.

Único candidato a presidente investigado pelo STF pelos crimes de corrupção passiva e ativa, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e organização criminosa, o primogênito do também único ex-presidente do Brasil condenado e preso por tentativa de golpe de Estado acumula páginas referentes à sua trajetória como político que gostaria de ver esquecidas. Não só porque elas lhe provocam fortes embaraços, como também porque podem atrapalhar seu desempenho nesta reta final da eleição.

Faltam apenas 10 dias para o primeiro turno. Os nervos de Flávio e de Lula estão à flor da pele. Tudo o que Flávio não quer a essa altura é que suas ligações com Vorcaro voltem para o centro do palco.

Nada de relembrar que ele, no dia 13 de maio deste ano, abordado por um jornalista, negou que tivesse enviado um áudio a Vorcaro pedindo dinheiro para financiar um filme sobre seu pai.

— De onde você tirou essa informação? — ele indagou ao jornalista. — É mentira. É mentira, pelo amor de Deus!

E chamou-o de “militante”.

O áudio tornou-se público em poucas horas. No dia seguinte, ele prometeu prestar contas do dinheiro em um prazo de 30 dias. Não prestou até hoje. Dá a página por virada.

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