domingo, 8 de novembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Geraldo Alckmin faz 74 anos como fiador discreto da democracia brasileira

Geraldo Alckmin completou 74 anos neste sábado (7/10) numa posição que pouca gente apostaria há cinco anos. Nascido em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, o vice-presidente chega à data menos de duas semanas depois de ter sido reeleito na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva, líder do partido que ele derrotou quatro vezes nas urnas paulistas e de quem se tornou um dos auxiliares de maior confiança.


A aproximação que mudou o rumo da eleição de 2022 começou em dezembro de 2021, numa conversa entre Alckmin, Gabriel Chalita e Fernando Haddad, segundo apurou a reportagem. Depois de 33 anos no PSDB, o ex-governador deixou o encontro convencido de que era o nome mais adequado para ocupar a vice numa frente ampla contra Jair Bolsonaro.

Coube a Haddad levar a ideia a Lula, e a tarefa foi mais fácil do que se imaginava nos bastidores. A chapa formada pelos antigos adversários venceu o segundo turno com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro, numa disputa decidida por pouco mais de 2 milhões de votos.

Médico com pós-graduação em anestesiologia, Alckmin coordenou o gabinete de transição e articulou a transferência de poder com integrantes do governo que saía. Em dezembro de 2022, foi nomeado para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, acumulando a pasta com a Vice-Presidência, e ali construiu sem alarde a fama de interlocutor paciente.

O papel ficou evidente quando Donald Trump impôs tarifas de 50% a produtos brasileiros em 2025 e Alckmin assumiu a linha de frente das conversas com o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e com o representante comercial Jamieson Greer. Longe dos holofotes, ele apostou na negociação em vez da retaliação e levou às reuniões os números que desmontavam a tese americana, como a tarifa média de 2,7% cobrada pelo Brasil e a tarifa zero aplicada a oito dos dez produtos que os Estados Unidos mais vendem ao país.

O resultado apareceu em novembro de 2025, quando a Casa Branca retirou a sobretaxa de 40% sobre 238 itens, entre eles café, carne bovina, cacau e frutas, um alívio decisivo para o agronegócio brasileiro. Fiel ao próprio estilo, o vice evitou reivindicar a conquista, que Washington atribuiu à conversa entre Trump e Lula.

A permanência de Alckmin na chapa de 2026 chegou a ser posta em dúvida quando setores do PT negociaram a vaga de vice com o MDB e o PSD em troca de apoio nacional. Também houve pressão para que ele disputasse o Senado por São Paulo, mas o vice disse a aliados que só entraria na eleição para repetir a dobradinha. Lula encerrou o debate em 31 de março, na reunião ministerial em que anunciou que o companheiro deixaria o ministério para ser candidato “outra vez”.

Hoje a confiança entre os dois é compartilhada e pública, como ficou claro na convenção do PSB, em julho, quando Lula apresentou o vice como uma garantia de que todos precisam. Em 25 de outubro, depois de terminar a primeira rodada atrás de Flávio Bolsonaro, a dupla virou o jogo e deu a Lula um inédito quarto mandato.

Casado desde 1979 com Maria Lúcia Ribeiro Alckmin, a dona Lu, com quem teve três filhos e tem quatro netos, o vice divide a vida pública com uma mulher que construiu uma trajetória própria no trabalho social. Quando assumiu o Fundo Social de Solidariedade de São Paulo, ela implantou como primeiro projeto o Padaria Artesanal, que ensina a fazer pães nutritivos e de bom valor comercial a pessoas em situação de vulnerabilidade e que, segundo dona Lu, já qualificou mais de 100 mil pessoas no estado.

Ao chegar a Brasília com o marido, em janeiro de 2023, ela levou o projeto para paróquias e entidades do Distrito Federal, onde mais de 2,1 mil pessoas aprenderam o ofício só no primeiro ano. Os alunos se tornam multiplicadores, e a meta declarada de dona Lu é espalhar as padarias pelo país inteiro.

A devoção a Nossa Senhora Aparecida acompanha o casal há décadas, e Alckmin frequenta a Basílica no dia 12 de outubro desde a infância. Neste ano, aproveitou a data para anunciar uma calçada de 134 quilômetros ao lado da Via Dutra, entre Arujá e Aparecida, destinada aos romeiros que fazem o caminho a pé até o Santuário Nacional.

Desde a reeleição, a disputa por ministérios movimenta Brasília, e Alckmin tem se mostrado ainda mais reservado do que de costume. Ele não gosta de ver o próprio nome em listas de cotados e não alimenta especulações sobre a Esplanada. Segundo apurou a reportagem, o vice não tem pretensão ministerial para o novo mandato e promete a Lula apenas o que já cumpre há quatro anos, a lealdade.

Geração TTP

 


 Constanza Peña, filha do ex-presidente do Paraguai, Santiago Peña, Constanza Peña apelidada de Maria Antonieta do Paraguai, dos Estados Unidos, onde estuda, postou foto na academia com camisa estampada com a frase "Taxem os pobres" 

A pornológica dos poderes

Há uma bizarra relação entre "De civilitate morum puerilium" ("Da civilidade dos costumes infantis", 1530), de Erasmo de Roterdã, e o comportamento recente de figura da alta magistratura brasileira. Na pequena ética que ensina às crianças como se conduzir em sociedade, Erasmo visibiliza regras relacionadas às transformações históricas: moderar os gestos, sentar-se à mesa, manter a higiene etc. Um marco importante na história da civilidade europeia: antes, comia-se farofa com a mão, cuspindo no prato.


Algo em Erasmo, porém, viria destoar do bom tom moderno, assinalado pelo "Emílio" (1762), de Jean-Jacques Rousseau, texto fundamental da filosofia da educação. Em vez de etiqueta, Rousseau aborda o desenvolvimento harmônico do indivíduo, sem pressões civilizatórias. É, assim, desafinada a passagem em que Erasmo sugere ao jovem espertezas de como escapar ao pagamento pelos serviços sexuais de uma dama. Um aconselhamento que soa natural no seu tempo, mas incompatível com a moralidade moderna.

Esse, o ponto de ligação entre a permissividade seiscentista e o que hoje é corrupção moral, tipificada no caso brasileiro. O foco incide sobre a notícia de que um magistrado (publicamente, adepto da pauta de costumes) se trancou num quarto com cinco mulheres. Até aí a conduta é só mais rebarbativa do que o famoso flagrante, décadas atrás, de um deputado de cuecas em sua casa. Cassado por isso, aliás.

O elo com o passado está na aceitação presente do incentivo de Erasmo, safadíssimo, no latim "abi sine dominae solutione!", isto é, "vá embora sem pagar à dama". Infantilizada, a autoridade escafedeu-se, a lesada reclamou até ser quitada pelo Master Corruptor. Só uma teria "laborado" dentre as cinco, que pareciam simbolizar ("ubinam gentium!", "quem diria"?) o número regulamentar de uma turma suprema. Um símbolo operativo: também membro dessa turma, o magistrado sentiu-se à vontade para driblar a conta, modesta na fatura da corrupção.

A opinião pública mostra-se acanhada nos comentários sobre os escândalos, seja o relativo à fraude do Banco Master, que ainda relega a responsabilidade por R$ 40,6 bilhões ao FGC, sejam os relativos à dissolução de costumes, pouco analisada. Ambos, porém, fazem par. Costumes morais referem-se a presunções de decência e indecência. É bandeira hipócrita da direita, de torpe tradição: o nazifascismo, dissoluto, fazia da dissolução de fachada um instrumento de denúncia da liberdade sexual, do feminismo e das vanguardas artísticas.

Hoje, os grandes corruptores, cientes de que seu poder consiste em desligar-se dos sistemas, isto é, tornarem-se invisíveis aos mecanismos de controle, precisam controlar os circuitos legais. Daí a naziperversão, que tem duas faces: violência e devassidão exuberante.

No todo, um poder fascista e pornológico: nas bacanais de Vorcaro, o poder orgástico às custas de todos é grife distintiva, como um rolex. As cinco do magistrado dão fé de seu estatuto fálico "distingué". Mas, data vênia, o bom senso pede a palavra para indagar se o cinismo vai se sobrepor à vergonha na instituição que o abriga.
Muniz Sodré

Ora, provas para quê? O fantástico mundo de Flávio na América

Era só o que faltava para a família Bolsonaro, seus fiéis seguidores e eleitores de ocasião: Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, reconhecer a vitória de Lula no último dia 25, ou, pelo menos, admitir que o processo eleitoral brasileiro decorreu sem evidências de fraude. Não o fez até hoje. Não está com pinta de que o fará tão cedo.

Como ficariam por lá os fugitivos Flávio e Eduardo? Ou não ficariam? Afinal, ambos dispõem de passaporte italiano que os habilitaria a escapar para a Itália, abrigo temporário ou definitivo da ex-deputada Carla Zambelli. Se tivesse permanecido aqui, ela estaria presa, depois de ser condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).


Você não lembra mais de Zambelli, ligada a um hacker famoso? Nem do furor provocado por ela no centro da capital paulista ao correr com uma arma em punho à caça de um militante político com quem trocara desaforos no meio da rua? Foi na véspera do segundo turno da eleição de 2022, perdida por Jair Bolsonaro para Lula.

Habituado a culpar os outros por seus próprios erros, o ex-presidente, condenado por tentativa de golpe de Estado, apontou o dedo para Zambelli: sim, se não fosse ela, ele teria sido reeleito. Para tal, faltaram-lhe poucos votos. O ex-deputado Roberto Jefferson também teve culpa, porque recepcionou com tiros e granadas agentes federais que foram dar uma batida em sua casa, no Rio de Janeiro.

À falta do que fazer na América, a não ser divertir-se gastando parte do dinheiro que tomou do ex-banqueiro Daniel Vorcaro supostamente para financiar o filme em memória de seu pai, Flávio ocupou-se, em sua primeira semana por lá, em conceder entrevistas aos jornais The New York Times, Folha de S.Paulo e The Washington Post — uma, cópia quase perfeita da outras, com raros acréscimos. Ele sempre foi bom de decoreba. Dá-se mal quando tem de improvisar.

Ao Post, a mais recente, ele afirmou que o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), “não sabe do que está falando” quando diz que não houve fraude nas eleições brasileiras. Flávio foi quem indicou Nunes Marques ao pai para uma vaga de ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ao cabo do primeiro encontro com Jair no Palácio da Alvorada, Nunes Marques saiu de lá na condição de próximo ministro do STF.

“Eu garanto a vocês que ele [Nunes Marques] não sabe do que está falando. Nem eu, nem vocês, nem ninguém que esteja assistindo, nem o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, pode afirmar com 100% de certeza que não houve fraude”, disse Flávio ao jornal norte-americano. Cadê as provas disso?

Ora, provas para quê? Flávio escora-se em Trump. Citou duas declarações de seu guia e protetor. A primeira: “O pleito foi uma fraude”. A segunda: “Foi uma vergonha”. Trump não apresentou provas para sustentar o que disse, mas não importa. Flávio assegurou que Trump “está convencido de que o Brasil não é mais uma democracia plena”.

Como cerca de 60 milhões de eleitores foram capazes de votar para presidente da República em um candidato sem qualificação alguma para exercer qualquer mandato eletivo e cuja história de vida é salpicada de lama? Investigado pelo STF por meia dúzia de crimes, se Flávio puser os pés no Brasil, será preso. Aqui, sua ausência só será cada vez mais festejada. Em breve, não falaremos mais dele.

A fantasia de Flávio está rasgada

Em 1973, Ivo Pitanguy vivia o auge do prestígio internacional. Considerado o "rei da cirurgia plástica", o "Michelangelo do bisturi" e o brasileiro mais famoso do mundo na época, ao lado de Pelé, ele comprou uma ilha em Angra dos Reis. Para o povaréu, era um sinal de status e de riqueza inquestionável.

Se quisesse construir um grande complexo hoteleiro na Ilha dos Porcos Grandes, ninguém o impediria. O médico manteve intocada a vegetação de mata atlântica. A casa principal e os bangalôs foram projetados para sumir no meio das árvores —um esconderijo perfeito para visitantes e pacientes, entre os quais Brigitte Bardot e Jackie Onassis.


De lá para cá, Angra dos Reis, com sua natureza sempre ameaçada, mudou bastante. A ilha de Pitanguy está à venda, os herdeiros pedem US$ 100 milhões. Um preço estratosférico, mas quem sabe o advogado Willer Tomaz, investigado no Supremo Tribunal Federal junto com Flávio Bolsonaro por suspeita de evasão de divisas e lavagem de dinheiro em plataformas de jogatina online, possa topar ou intermediar o negócio.

O amigo e sócio do filho 01 tem outras cinco casas em ilhas de Angra, além da mansão que virou alvo de disputa com o jogador Richarlison. À exceção de uma, elas foram compradas entre 2021 e 2022, quando Flávio apresentou no Senado um projeto de lei para estimular empreendimentos na região da Costa Verde, flexibilizando as regras de proteção ambiental e permitindo a exploração econômica. Na mesma época, Flávio Bolsonaro foi o relator da PEC das Praias, cujo texto propõe extinguir e transferir a propriedade de terrenos de marinha. Sua tramitação está estrategicamente vinculada ao projeto de lei que legaliza jogos de azar e cassinos no país.

Amparado no roteiro autocrata de poder, o clã Bolsonaro é uma fábrica de acumular dinheiro desde a primeira eleição do patriarca. Após a prisão de Jair, o esquema passou a ser chefiado por Flávio. O "exílio" nos Estados Unidos nada tem a ver com política. Fugiu para não ser investigado, denunciado e julgado.

Bolsonarismo como herdeiro do fascismo e integralismo

Tendo em vista que o principal apoio internacional do bolsonarismo ficará, no mínimo, enfraquecido com a esmagadora derrota de Donald Trump na eleição de meio de mandato nos EUA, e levando em conta a derrota de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, é hora de retomar a discussão sobre a natureza e o destino do bolsonarismo no Brasil.

Ao contrário de alguns autores que destacam o caráter inédito do bolsonarismo no Brasil, entendo ser mais adequado afirmar que o bolsonarismo é o integralismo ressignificado pelo neoliberalismo. A linha reta que liga o integralismo ao bolsonarismo foi interrompida e redirecionada pelo neoliberalismo.

Assim, a proposta de Estado forte herdada do fascismo clássico pelo integralismo se transforma, por influência do neoliberalismo, em prioridade ao mercado e às ações individuais, restando ao Estado uma política repressiva nas áreas de segurança, cultura, educação e outras de caráter não diretamente econômico.


A reflexão de Umberto Eco sobre o chamado fascismo eterno constitui uma importante referência para compreender o crescimento da extrema-direita na contemporaneidade e, particularmente, o fenômeno do bolsonarismo no Brasil. Em seu ensaio O fascismo eterno (1995), Umberto Eco argumenta que o fascismo não deve ser entendido apenas como uma experiência histórica delimitada, associada aos regimes de Mussolini e Hitler, mas como uma mentalidade política capaz de reaparecer em diferentes contextos, adaptando seus discursos, símbolos e estratégias às circunstâncias de cada época.

A partir dessa perspectiva, o bolsonarismo pode ser analisado como uma manifestação contemporânea de autoritarismo que recupera e ressignifica elementos do integralismo brasileiro, movimento de inspiração fascista surgido na década de 1930. Entretanto, essa relação não representa uma reprodução direta do integralismo, mas a atualização de determinados valores nacionalistas, conservadores, anticomunistas e autoritários em um contexto marcado pelo neoliberalismo, pela crise de representação política e pela expansão das tecnologias digitais.

Uma das principais características dessa atualização é a combinação entre a defesa de um Estado forte na segurança, na disciplina social e na imposição de valores morais conservadores e, simultaneamente, a defesa de um Estado reduzido em suas responsabilidades econômicas e sociais. Essa articulação permite compreender tanto as especificidades do bolsonarismo quanto sua permanência na política brasileira para além de uma liderança individual.

Em sua análise, Umberto Eco identifica 14 características do que denomina “Ur-fascismo”, ou “fascismo eterno”. Entre elas estão o culto à tradição, a rejeição do pensamento crítico, o medo da diferença, o nacionalismo, a valorização da ação em detrimento da reflexão, a construção de inimigos internos e o culto a um líder apresentado como representante exclusivo da vontade popular.

Essas características não precisam aparecer simultaneamente nem reproduzir exatamente os modelos fascistas do século XX. Sua permanência ocorre justamente pela capacidade de adaptação a diferentes realidades históricas. No bolsonarismo, podem ser identificados elementos dessa mentalidade política, especialmente na construção de uma sociedade dividida entre aqueles considerados defensores da nação e grupos apresentados como ameaças aos seus valores.

A esquerda, o comunismo, os movimentos sociais, as universidades, a imprensa e as instituições democráticas foram frequentemente associados a supostos projetos de destruição da ordem nacional.

Outro elemento é a centralidade da figura do líder. Jair Bolsonaro construiu sua identidade política apresentando-se como alguém externo ao sistema tradicional, capaz de representar diretamente o povo e combater os inimigos que, segundo essa narrativa, controlariam as instituições. Essa personalização da política aproxima-se do culto ao líder identificado por Umberto Eco.

Também se destaca a valorização de uma tradição nacional associada à família patriarcal, ao cristianismo conservador, à autoridade militar e à defesa de uma ordem social hierarquizada. Dessa forma, o bolsonarismo atualiza características do fascismo eterno por meio de discursos religiosos, nacionalistas, anticomunistas e contrários ao pluralismo democrático.

A compreensão das raízes históricas do bolsonarismo exige recuperar a experiência da Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 por Plínio Salgado. Principal movimento de inspiração fascista organizado no Brasil, o integralismo defendia o nacionalismo exacerbado, o anticomunismo, a hierarquia social, a autoridade e a organização da sociedade em torno de um Estado forte. Seu lema, “Deus, Pátria e Família”, sintetizava seus principais valores políticos e ideológicos.

O integralismo apresentava-se como alternativa tanto ao liberalismo quanto ao comunismo. Rejeitava o individualismo liberal e combatia o socialismo, propondo uma organização autoritária baseada na unidade nacional, na disciplina e na subordinação dos interesses individuais a um projeto coletivo.

É possível identificar aproximações entre essa matriz ideológica e o bolsonarismo, especialmente na recuperação do lema integralista, na valorização das Forças Armadas, no conservadorismo religioso, no anticomunismo e na representação da esquerda como inimiga da nação. A idealização de um passado nacional supostamente mais ordeiro e a desconfiança em relação ao pluralismo também constituem pontos de aproximação.

Entretanto, não se deve estabelecer uma identidade absoluta entre os dois movimentos. O integralismo possuía uma estrutura organizacional e uma concepção de Estado próprias da década de 1930, enquanto o bolsonarismo reúne diferentes segmentos sociais, como militares, empresários, grupos religiosos, setores das classes médias e militantes digitais. Sua unidade depende menos de uma doutrina sistematizada do que de valores compartilhados, identificações políticas e inimigos comuns.

A principal diferença encontra-se na dimensão econômica. Enquanto o integralismo defendia um Estado nacional forte, centralizador e corporativista, o bolsonarismo incorporou uma agenda neoliberal. Privatizações, austeridade fiscal, desregulamentação e redução das políticas públicas passaram a integrar seu projeto econômico. Assim, preservam-se elementos autoritários e conservadores do passado, mas reorganizados em torno de uma concepção econômica distinta.
O neoliberalismo e a ressignificação do integralismo

A associação entre bolsonarismo e neoliberalismo representa uma das características centrais do fenômeno. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), a agenda econômica foi marcada pela defesa das privatizações, pela reforma da Previdência, pela flexibilização de normas trabalhistas e ambientais e pela contenção dos gastos públicos.

Entretanto, a redução do Estado não significou o desaparecimento de sua capacidade de intervenção. O Estado neoliberal transforma suas prioridades: reduz sua responsabilidade na garantia de direitos sociais e na redistribuição de renda, mas permanece atuante na proteção da propriedade privada, na organização do mercado, na manutenção da ordem e no controle social. Sua dimensão social e redistributiva é restringida, enquanto suas funções coercitivas, policiais e de manutenção da ordem podem ser fortalecidas.

Essa contradição permite compreender como o bolsonarismo combina a defesa da liberdade econômica com a reivindicação de maior autoridade estatal na segurança pública e na imposição de valores morais conservadores. A liberdade é valorizada principalmente no campo econômico, mas convive com discursos que procuram restringir direitos relacionados à diversidade, à educação, à cultura e aos costumes.

Além disso, o discurso neoliberal tende a deslocar a responsabilidade pelos problemas sociais das estruturas econômicas para os indivíduos, apresentando a desigualdade como resultado de escolhas pessoais ou de uma suposta dependência excessiva do poder público. Paralelamente, o discurso autoritário oferece explicações simplificadas para problemas complexos, identificando inimigos internos e prometendo restaurar uma ordem considerada ameaçada.

Portanto, a ressignificação do integralismo pelo bolsonarismo não consiste na recuperação integral de seu projeto econômico, mas na preservação de mecanismos de exclusão, hierarquização e mobilização autoritária, agora articulados à racionalidade neoliberal.

A permanência do bolsonarismo para além da Presidência de Jair Bolsonaro demonstra que o movimento não está limitado à figura de seu principal líder. Os acontecimentos posteriores às eleições de 2022, especialmente os atos de 8 de janeiro de 2023, quando grupos de apoiadores invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, evidenciaram a continuidade de uma mobilização política marcada pela contestação das instituições democráticas e pela rejeição dos resultados eleitorais.

O movimento também manteve sua presença institucional por meio do Partido Liberal (PL), de lideranças religiosas, parlamentares, influenciadores digitais e diferentes setores conservadores que asseguraram a sobrevivência e a reorganização do movimento para além de seu principal representante. Os resultados eleitorais de 2026 também permitem observar essa permanência.

A derrota de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial para Lula demonstrou, entre outros fatores, os limites eleitorais da tentativa de continuidade familiar. Entretanto, a votação expressiva alcançada pela candidatura bolsonarista, próxima de 60 milhões de votos, evidencia a manutenção de uma base social significativa.

A derrota na disputa presidencial não significa necessariamente o desaparecimento do bolsonarismo, pois o conservadorismo permanece influente na política brasileira, com presença de representantes no Legislativo, em governos estaduais e municipais, e a circulação de discursos antissistema nas redes sociais.

Esses elementos favorecem a reprodução de uma cultura política bolsonarista. A derrota eleitoral de seu representante familiar pode abrir espaço para disputas pela liderança da direita, sem necessariamente eliminar a identidade política construída em torno do bolsonarismo.

Assim, é importante distinguir o enfraquecimento de uma liderança específica da permanência de um fenômeno social e ideológico. O bolsonarismo representa não apenas uma organização eleitoral, mas uma identidade política associada ao conservadorismo nos costumes, ao antipetismo, ao nacionalismo de direita, à desconfiança das instituições e à valorização de lideranças personalistas.

A análise do bolsonarismo a partir da noção de fascismo eterno de Umberto Eco permite compreender como práticas autoritárias podem permanecer na sociedade mesmo após a derrota de governos e lideranças políticas. Essas práticas adaptam seus discursos e estratégias às transformações econômicas, culturais e tecnológicas.

O bolsonarismo recupera e ressignifica elementos presentes no integralismo brasileiro, especialmente o nacionalismo excludente, o anticomunismo, o conservadorismo moral, a valorização da autoridade e a construção de inimigos internos. Sua especificidade histórica, entretanto, está na articulação desses elementos com o neoliberalismo, que redefine as funções do Estado, restringindo sua atuação social e redistributiva, mas preservando e fortalecendo suas dimensões repressivas e de manutenção da ordem.

Os acontecimentos políticos recentes em relação ao bolsonarismo demonstram que sua permanência eleitoral, parlamentar e cultural revela a consolidação de uma identidade política que ultrapassa os limites de uma candidatura ou de uma organização partidária. Assim, um dos principais desafios para a democracia brasileira está na naturalização de práticas e valores autoritários de extrema-direita dentro do próprio sistema democrático.

Quando o antipluralismo, a intolerância, o descrédito das instituições e a deslegitimação dos adversários passam a ser incorporados como elementos normais da disputa política, criam-se condições para a reprodução daquilo que Umberto Eco denomina fascismo eterno.

Conclui-se, portanto, que o bolsonarismo não pode ser considerado definitivamente superado por suas derrotas eleitorais. Sua trajetória expressa contradições estruturais da sociedade brasileira, especialmente a desigualdade social, a fragilidade da cultura democrática e a articulação entre interesses econômicos neoliberais e conservadorismo autoritário.

Como adverte Umberto Eco, o fascismo não precisa retornar com os mesmos símbolos e instituições do passado: pode reaparecer sob discursos de liberdade, defesa da família, patriotismo e combate aos inimigos da nação. Reconhecer essas continuidades históricas é fundamental para compreender os desafios contemporâneos da democracia brasileira.