segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Colapso climático que levou à "Odisseia" pode se repetir
Com exceção dos monstros, esse é um mundo baseado na realidade. A Odisseia – uma história de sobrevivência num contexto pós-Guerra de Tróia – se passa durante o colapso da civilização na Idade do Bronze.
De acordo com um novo estudo, essa situação de crise foi causada por uma grave mudança climática. Na pesquisa, os autores alertam sobre "implicações para o futuro".
Os cientistas já sabem há muito tempo da existência de seca misteriosa e severa que ocorreu há mais de 3 mil anos, coincidindo com a desintegração de reinos e estados em toda a região do Mediterrâneo.
Mas a pesquisa publicada no mês passado lança luz sobre a possível causa dessa crise. De acordo com o estudo, uma tendência lenta de ressecamento, combinada com um ciclo natural mais rápido de clima seco, acabou se sobrepondo e intensificando o fenômeno.
No final da Idade do Bronze, o sistema de monções da África Ocidental já vinha se reduzindo havia milhares de anos, transformando um Saara verde em deserto. Menos chuvas na África significaram menos chuvas no Mediterrâneo.
Essa tendência se intensificou quando a região passou por um período de seca causado por ciclos climáticos naturais do Atlântico, que fazem com que a região oscile entre períodos úmidos e de estiagem que duram décadas.
Katherine Power, pesquisadora da Universidade de Estocolmo que liderou o estudo, afirma que as condições ambientais da época poderiam explicar a migração em massa e os conflitos da era da Odisséia.
Há décadas, os estudiosos vêm especulando sobre a razão por trás desse movimento em grande escala durante o período — também conhecido como a era dos "Povos do Mar".
Arqueólogos argumentam que as mudanças climáticas poderiam ajudar a explicar a migração e o colapso político no final da Idade do Bronze. Agora, as novas descobertas acrescentam mais peças a esse quebra-cabeça.
"Não sabemos necessariamente por que essas pessoas se deslocaram", diz Power. "Mas se pudermos dizer que o clima estava ficando cada vez mais difícil para a sobrevivência, essa poderia ser uma possível causa."
Uma "tempestade perfeita"
Essa situação, afirma a pesquisadora da Universidade de Estocolmo, é relevante para os dias de hoje. Os principais rios da Europa estão com níveis recordes de baixa, e a estiagem está criando condições para incêndios florestais devastadores, além de causar perdas históricas nas colheitas. A França, por exemplo, enfrenta a menor safra de milho em 50 anos.
Os mesmos ciclos de umidade e seca provenientes do Atlântico ainda existem, mas agora ocorrem no contexto de um mundo que está se aquecendo como resultado da queima de petróleo, gás e carvão pelos seres humanos.
"Acho que isso é ainda mais alarmante e representa uma ameaça ainda maior", argumenta Power.
Eric H. Cline, arqueólogo da Universidade George Washington, autor de um livro sobre as origens da crise da Idade do Bronze, acrescenta que a seca e as doenças fizeram parte da "tempestade perfeita de calamidades" que levou ao colapso da sociedade naquela época.
Ele vê paralelos entre a crise na Idade do Bronze e o contexto atual. Cline diz que "devemos ficar muito preocupados" com a possibilidade de que as mudanças climáticas se tornem um fator de estresse para o colapso da civilização. "Esse temor não é nada exagerado."
Mas o arqueólogo afirma que, nos momentos mais otimistas, acredita que a humanidade vai "cair em si e evitar essa possibilidade em algum momento".
A pesquisa de Power buscou desvendar os padrões por trás dos eventos isolados de seca na Idade do Bronze.
Foram examinados esporos de plantas, núcleos de gelo, rochas de cavernas e outros registros naturais que indicavam a ocorrência de estiagem. Em seguida, a pesquisadora e a coautora, a paleoclimatologista Qiong Zhang, também da Universidade de Estocolmo, recorreram à modelagem para obter uma visão mais ampla do contexto geral da época.
O modelo analisou todo o planeta, sobreposto por uma grade em que cada célula abrangia uma área de aproximadamente 125 quilômetros quadrados. Um supercomputador calculou então as condições em cada uma dessas células, para cada mês, ao longo de milhares de anos. Isso permitiu que as cientistas analisassem toda a região do Mediterrâneo.
"Não estamos limitados a apenas um núcleo ou uma caverna", disse Power. "Podemos enxergar mais longe e construir um panorama completo."
O que as pesquisadoras descobriram não foi um único evento que alterou o clima de forma dramática e repentina. Em vez disso, ciclos mais curtos de umidade e seca se alinharam a uma tendência mais longa de aquecimento.
"Quando procuramos conexões entre as mudanças climáticas e as mudanças na civilização, muitas vezes estamos à procura daquele evento grande, gigantesco, abrupto e catastrófico", aponta Power, acrescentando que são mudanças lentas e graduais que levam uma sociedade a "ultrapassar um limiar".
Segundo a pesquisadora, poderia ter sido uma queda constante no abastecimento de água que levou a um declínio gradual nas colheitas, o que fez pessoas migrarem, desencadeando conflitos.
"Não é preciso muito para empurrar uma sociedade para além do limite com o qual ela se sente confortável", diz Power. "E se você acrescentar mais algum fator à equação? Talvez isso a empurre um pouco mais adiante, e você não consiga se recuperar totalmente disso."
Maggie Quinlan
Fome por 'lama'
A metáfora é tão apropriada que parece quase improvisada: os ingredientes sintéticos são concebidos para estimular as papilas gustativas, mas carecem de fibras, vitaminas, proteínas ou aminoácidos essenciais. Quanto mais se come, mais fome se sente. Essa insatisfação, que já deveria ser motivo suficiente para evitar o alimento, é, no entanto, o segredo do seu sucesso. Na década de 1990, um psicólogo chamado Patrick Carnes deu a esse estranho fenômeno um nome : vínculo traumático .
O vínculo traumático explica por que tantas pessoas permanecem presas em relacionamentos exploradores ou abusivos. É difícil de entender porque a explicação desafia o senso comum: elas não agem assim apesar do abuso, mas precisamente por causa dele. Elas retornam ao abusador repetidamente, como alguém que volta a uma máquina caça-níqueis que engole todas as suas moedas, na esperança de que desta vez sua lealdade seja recompensada com um momento de afeto. O aspecto perverso do sistema é que a máquina funciona melhor quando começa a distribuir menos prêmios, e os que distribui são cada vez piores, porque o processo degrada tanto os padrões da pessoa que, quando um alívio temporário chega, ela o recebe com a intensidade mística de uma aparição mariana. Elas transformam um gesto cotidiano, como lembrar um aniversário, em prova de um amor transcendente.
Em 2019, publiquei um livro que começava descrevendo o mesmo fenômeno, mas com foco nas redes sociais, não na IA . Naquela época, a máquina ainda distribuía prêmios. Havia algumas coisas muito interessantes que só existiam no Twitter, Instagram ou TikTok, mas o padrão de abuso já era evidente. Sabíamos que seus algoritmos opacos eram projetados para explorar a privacidade dos usuários, maximizando o tempo de interação. À medida que as plataformas se tornaram monetizadas, dois tipos de conteúdo floresceram: aqueles capazes de gerar o máximo de interação com o mínimo de orçamento e aqueles criados por agentes oportunistas para manipular a população.
A mediocridade é o resultado final desse processo: conteúdo curto, repetitivo, derivado e fragmentado, produzido em larga escala, otimizado para viralizar em questão de horas e, nos piores casos, explorar a instabilidade política e se aproveitar da nossa vulnerabilidade emocional. E isso corrói nossa capacidade de apreciar outras coisas que exigem investimento financeiro e esforço, como jornalismo ou literatura. Relacionamentos saudáveis são tediosos e demandam algo mais difícil do que submissão.
Como disse Jung, aquilo que permanece inconsciente tende a nos guiar, por isso vale a pena entender seu estranho mecanismo: não nos captura apesar de sua estupidez, mas precisamente por causa dela. Nos deixa tão famintos que nos força a comer mais. E essa dieta nos degrada até que não saibamos mais como comer outra coisa. É por isso que se chama degeneração cerebral.
Deforma eleitoral beneficiou sigla ligada à Universal
Agora, um estudo sugere que essa mudança produziu um efeito inesperado: esses limites mais rígidos de gastos deram vantagem ao Republicanos, partido historicamente ligado à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
Segundo os pesquisadores, a vantagem está relacionada à estrutura da Universal e que reflete no Republicanos: presença territorial, capacidade de mobilização e uma organização altamente centralizada - em um momento em que os demais partidos têm menos acesso ao montante para realizar campanhas.
"A igreja é uma maneira de se mobilizar fora do seio dos partidos políticos. Ela é muito influente e, além de tudo, não precisa de financiamento eleitoral, dado que é um tipo de organização que não precisa se preocupar em atrair recursos para as eleições”, afirma Lucas Novaes, professor de Ciência Política do Insper e um dos autores da pesquisa Special Interest Trade-Offs: Campaign Finance Reforms and Religious Influence in Politics in Brazil ("Compromissos entre interesses especiais: reformas no financiamento de campanhas eleitorais e influência religiosa na política brasileira") ao lado de Melani Cammett, de Harvard, e Guadalupe Tuñón, de Princeton.
A mudança começou a valer nas eleições municipais de 2016. Os gastos de campanha passaram a ter limites definidos por lei, calculados a partir do que havia sido desembolsado na eleição anterior.
Mas a regra estabeleceu um ponto de corte: municípios cujo maior gasto em 2012 ficou abaixo de determinado valor receberam um teto fixo em 2016, enquanto aqueles logo acima do corte tiveram um limite proporcionalmente maior. Isso fez com que cidades com gastos muito semelhantes em uma eleição fossem submetidos a tetos diferentes quatro anos depois, criando o que os pesquisadores classificam como um experimento natural.
Na prática, municípios situados imediatamente abaixo do corte ficaram sujeitos a um teto de R$ 108.039, enquanto, logo acima dele, o limite saltava para R$ 133.700, valores já corrigidos pela inflação entre 2012 e 2016. A diferença permitiu comparar cidades semelhantes, mas sujeitas a restrições distintas, e estimar o efeito de campanhas com menos dinheiro disponível.
Assim, candidatos de um grupo tiveram uma restrição maior de recursos, enquanto os do outro puderam gastar mais. Isso permitiu comparar os dois grupos e estimar o efeito provocado especificamente por uma campanha com menos dinheiro disponível, mostra o estudo.
"Nesses municípios [com maior restrição], os candidatos do Republicanos, por poderem contar com o auxílio das igrejas para a mobilização eleitoral, têm mais incentivos para concorrer. A competição se torna mais favorável porque candidatos de outros partidos não podem gastar tanto com mecanismos tradicionais de campanha, como a contratação de cabos eleitorais”, diz Lucas.
A vantagem identificada pelos pesquisadores está ligada a uma relação entre igreja e partido que vai muito além do apoio a determinadas candidaturas. De acordo com Maria das Dores Campos Machado, professora aposentada da UFRJ e pesquisadora de religião e política, o Republicanos funciona como braço político da Igreja Universal, servindo tanto para lançar candidaturas aos poderes Legislativo e Executivo nos estados e municípios quanto para ampliar a influência da igreja junto ao governo federal.
"Em algumas regiões os escritórios de campanha dos candidatos da IURD ficam em edifícios pertencentes à Igreja ou em área anexa ao templo. As fronteiras entre a religião e a política são muito fluídas e porosas", afirma. "Os recursos são de várias naturezas: os cultos são momentos importantes para apresentar ou defender candidaturas; usa-se também as gráficas para a produção de material de divulgação; uso de pessoal, obreiros e obreiras para convencer o eleitor nas ruas; uso da mídia religiosa, etc."
A proximidade entre igreja e partido também é percebida na forma de organização das duas instituições. Segundo Claudia Cerqueira, cientista política e pesquisadora da relação entre a Igreja Universal e o Republicanos, ambas são estruturadas de cima para baixo, em uma relação que ela classifica como quase corporativa.
Na avaliação da pesquisadora, a atuação dos candidatos do Republicanos é orientada mais por questões econômicas e de poder do que propriamente religiosas. As pautas de moral e costumes teriam uma presença mais reativa, enquanto temas econômicos aparecem de forma recorrente na atuação política de seus representantes.
"E isso tem muita relação com o tipo de candidaturas que a igreja tenta emplacar. Tem um termo de 'candidatura corporativa', ou seja, quem concorre pela IURD não é simplesmente um candidato pastor, ele é um cara que representa os interesses da igreja. Por isso acabaram incorporando todas essas atividades que são necessariamente já pautadas pelo partido e igreja", afirma.
Segundo a pesquisa, a maneira centralizada de gestão também fortalece o controle do Republicanos sobre seus quadros, facilitando sua permanência no partido e sua mobilização em outras campanhas e pautas partidárias. "Se a Igreja vira um ativo político e é centralizada, se esse político migrar de partido, ele não vai conseguir levar consigo a organização da Igreja e os benefícios que a Igreja traz para a sua carreira política", conta Lucas Novaes.
Essa centralização também diferencia o Republicanos de outros partidos historicamente ligados a igrejas evangélicas brasileiras. Um dos exemplos citados no estudo é o Partido Social Cristão (PSC), que manteve uma relação com a Assembleia de Deus e, em 2023 foi incorporado pelo Podemos.
"A Igreja Assembleia de Deus é fragmentada e não tem o mesmo modelo de governo e atuação que a IURD. Embora as duas igrejas trabalhem na formação de lideranças para a política partidária, a IURD é uma igreja bem vertical, com uma orientação centralizada e uma grande capacidade de controle sobre seus quadros políticos”, afirma Maria das Dores Campos Machado.
Na prática, a vantagem proporcionada pela estrutura da Universal se refletiu também na estratégia eleitoral do Republicanos. Segundo o estudo, o partido passou não só a vencer mais, como também a lançar mais candidatos nos municípios submetidos aos limites mais rígidos de gastos.
"A gente vê, através disso, que, de fato, aumentaram muito as candidaturas do Republicanos nesses municípios tratados e, além disso, aumentou a quantidade de candidatos eleitos do Republicanos nesses municípios, em comparação aos municípios de controle, que são aqueles onde se pode gastar mais", diz Lucas.
Os resultados também foram influenciados desde o início da nova regra. Nos municípios em que os locais de votação estavam mais próximos dos templos da Igreja Universal, os limites mais rígidos aumentaram a vantagem eleitoral do Republicanos; nos municípios em que essa distância era maior, esse efeito não foi identificado. "Nas seções eleitorais mais perto de igrejas, a gente vê também que o apoio cresce ainda mais para o Republicanos”, afirma o pesquisador.
O estudo encontrou ainda um movimento posterior à eleição de 2016: a Universal passou a abrir novas unidades de forma desproporcional nos municípios submetidos aos limites mais rígidos. Até a eleição seguinte, a diferença acumulada chegava perto de um templo adicional nesses locais.
Apesar de o foco do estudo ser nas eleições municipais e seus desdobramentos, para Novaes, porém, a lógica identificada pelo estudo continua relevante para entender como uma base religiosa organizada nos municípios pode se projetar para outras esferas de poder.
"Dentro do que a gente mostra aqui, diminuir o poder econômico teve esse efeito e esse mecanismo é válido. A gente vê que a bancada evangélica continua forte e acho que esse reforço na base municipal provavelmente reflete também em um maior apoio para candidatos do Congresso, que eventualmente conseguem fazer leis ou influenciar o processo legislativo de acordo com as preferências dessa base local", afirma.
Ao mesmo tempo, o crescimento do Republicanos para além de candidaturas diretamente vinculadas à Universal abre frentes que podem ir além das pautas tradicionais do partido. Um exemplo é São Paulo, governado por Tarcísio de Freitas, que se filiou ao Republicanos em 2022 e não construiu sua trajetória política dentro da IURD.
Para a pesquisadora, quanto mais o Republicanos busca ocupar espaço no sistema político e incorporar lideranças de outras origens, maior pode ser a necessidade de acomodar interesses. "Talvez a IURD tenha que abrir mão de muita coisa para crescer e se tornar um player tão importante em um sistema tão fragmentado", conclui.
Procuradas, a IURD, o Republicanos, a Assembleia de Deus e o Podemos não responderam aos questionamentos da reportagem.
Trump quer ampliar produção de petróleo na Venezuela com garantias pára empresas dos EUA
A Venezuela tem 303 bilhões de barris, mas produz só 1,25 milhão por dia, menos da metade do que antes de duas décadas e meia de destruição de valor e sucateamento sob o regime chavista. O risco de confiscos de pagamentos por credores e desapropriação de ativos por um futuro governo venezuelano tem afugentado as petroleiras americanas. É o que o governo Trump tenta endereçar.
O programa protege as receitas das vendas de petróleo venezuelano nos EUA contra credores. O novo governo apoiado por Washington alterou a legislação para dar mais autonomia às empresas privadas, reduzindo o controle da estatal PDVSA.
Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre campos para companhias americanas. Donald Trump diz que o arranjo assegura “controle majoritário” dos EUA sobre mais de 65 bilhões de barris. É uma definição política, não jurídica: o petróleo continua venezuelano.
A Chevron já se prepara para ampliar suas operações. A SLB, maior empresa de serviços e tecnologia para a indústria de petróleo do mundo, moderniza os precários bancos de dados geológicos da PDVSA.
Mas Exxon e ConocoPhillips, expropriadas por Hugo Chávez, continuam ressabiadas. A Venezuela ainda precisa provar que contratos assinados hoje sobreviverão ao próximo governo e que tribunais, câmbio e regras de propriedade serão previsíveis.
A guerra com o Irã deu nova relevância à estratégia. O petróleo venezuelano é pesado, justamente o tipo para o qual muitas refinarias da Costa do Golfo americano foram projetadas. Durante décadas, elas receberam grandes volumes da Venezuela e, depois das sanções, passaram a buscar alternativas, como petróleo pesado do Oriente Médio. A retirada do mercado desse óleo iraniano eleva a competição por outros óleos do mesmo tipo no Golfo Pérsico.
O plano tem boas chances de produzir aumento inicial da oferta para 1,5 milhão ou 1,7 milhão de barris por dia. Chegar novamente perto de 3 milhões é mais difícil. Exigiria dezenas de bilhões de dólares, infraestrutura e anos de estabilidade jurídica.
Trump tenta exercer poder com política energética: retirar petróleo da órbita da China e trazê-lo para a matriz energética americana. O maior risco está na abordagem. Quanto mais o acordo parecer uma nova forma de colonialismo, maior a contestação futura de sua legitimidade na Venezuela.
O silêncio de Flávio Bolsonaro e a miragem autoritária de El Salvador
Em entrevista, ontem à noite, à TV Record, Flávio Bolsonaro voltou a repetir que nada houve de errado com o financiamento do filme “Dark Horse” por Daniel Vorcaro, o dono do extinto Banco Master e o protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil. Disse estar tranquilo e negou que o caso tenha envolvido dinheiro público. Vorcaro está preso e ainda não foi julgado, se é que um dia será. Sua vertiginosa ascensão à condição de um dos homens mais ricos do país deveu-se a favores regiamente pagos por ele a figuras públicas em troca de investimentos em seu banco. Trata-se de dinheiro pago pelos contribuintes por meio de impostos; dinheiro desviado.
Flávio considera que a discussão em torno do assunto “é página virada”. Esquece que prometera esclarecer em 30 dias tudo o que fosse preciso para que não restassem mais dúvidas a respeito. Mas já se passaram 100 dias desde então e ele julga que isso não é mais necessário. Aos insatisfeitos, cabe esperar uma decisão da Justiça.
Nada há de estranho no comportamento de Flávio. Primeiro, porque já recuperou os percentuais de voto perdidos nas pesquisas eleitorais. Segundo, porque qualquer coisa que fale só lhe causará prejuízos. Terceiro, porque os jornalistas que o interrogam, na maioria das vezes, se contentam com o que ele fala, desde que fale. A esse tipo de entrevista, o mais corrente, dá-se o nome de “quebra-queixo”. O jornalista quebra o seu ao perguntar, o entrevistado ao responder. E acaba ficando tudo por isso mesmo. A cada um, a sua missão. A do entrevistador, cumprir sua pauta, ou a que lhe deram. A do entrevistado, enganar o distinto público. Bola pra frente.
Na manhã de ontem, em um hotel no centro de São Paulo, Flávio reuniu-se com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Nayib Bukele, de El Salvador, a meca dos candidatos da extrema-direita à Presidência dos seus países na América Latina. Em El Salvador, bandido bom é bandido morto. De acordo com Flávio, Bukele e Villatoro foram responsáveis por “implementar um dos maiores e mais eficazes resgates de soberania e devolver a segurança pública para o povo deles, o povo salvadorenho”. Aqui, acrescentou Flávio, “tem pouco preso. Tinha que ter mais, só não tem mais porque a legislação é frouxa”.
Que nada. A população carcerária no Brasil é de cerca de 965 mil pessoas, segundo o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. É a terceira maior do mundo e cresce a uma taxa média de 3,3% ao ano desde o início da década. Há superlotação em 28% dos presídios. El Salvador tem 6,4 milhões de habitantes, dos quais 100 mil estão presos. El Salvador vive um regime de exceção permanente, aprovado pelo Congresso, que suspendeu garantias constitucionais como o direito de defesa. Presos são torturados e mortos. A Câmara Constitucional aprovou um regime de reeleição indefinida do atual governo. Donald Trump morre de inveja de Bukele. Pelo visto, Flávio também.
Brasileiro é tão bonzinho mesmo?
Kate Lyra tinha razão: brasileiro é muito bonzinho. O que nos falta quando o assunto é Nobel e Copa do Mundo (quem diria, não?) é compensado com o talento para eufemismos.
O governo (este, o de antes, o anterior àquele e por aí afora) nunca é corrupto — apenas chegado a uma maracutaia. A expressão tem um quê de brincadeira infantil, mistura de maracatu e gandaia, a doce acidez do maracujá e a domesticidade da samambaia. Roubar, fraudar, corromper são verbos fortes demais para o nosso paladar — por aqui só rola uma boquinha, uma mamata. Uma ingênua mutreta, um lúdico cambalacho.
Se o presidente esconde gastos e finge que as contas públicas estão em ordem, o crime de responsabilidade contra a lei orçamentária, feito o sapo dos contos de fadas, vira pedalada. Como essas que a gente — no caso, você, porque minha coluna não permite esses arroubos — dá pelo Aterro ou nas ciclovias. Aliás, está arraigado na fala o hábito de não assumirmos nossos atos. Não bisbilhotamos, só damos uma espiada. Nunca fugimos: damos uma escapada. Então o governo nem sequer pedala: dá uma pedalada. Mais um pouco e será só uma voltinha de velocípede.
O diminutivo — que tem menos a ver com tamanho e mais com afeto — é nosso xodó, é coisa nossa. Covid era gripezinha. Crise financeira internacional, marolinha. A tentativa desesperada de criar mais impostos e aumentar a arrecadação, para dar conta da gastança, se transformou em taxa das blusinhas. Peculato é uma palavra muito feia: o desvio de salário de assessores públicos é simplesmente uma rachadinha.
Quem achaca quando você vai estacionar é o flanelinha. O garoto que rouba a carteira ou o celular é o trombadinha. A soltura antecipada de criminosos que o sistema prisional não cuidou de recuperar — e a sociedade que se vire — é uma saidinha. A propina para o policial fazer vista grossa a alguma irregularidade é a cervejinha. Tudo assim, carinhosa e simpaticamente no diminutivo, porque somos um povo cordial e inzoneiro, pouco afeito a ficar criando caso por coisa miúda.
Há também os aumentativos, que não aumentam nada, só deixam tudo mais jocoso: mensalão, tapetão, acordão, pistolão, Centrão, Xandão.
Trapaça para burlar o teto constitucional? Não: penduricalho. Nomeação de pencas de apadrinhados em fim de mandato? Trem da alegria. Emenda aprovada de contrabando com Projeto de Lei ou Medida Provisória? Jabuti. Cargo inútil, para acomodar parentes ou aliados, com salário pago pelo Estado (ou seja, por você e por mim)? Cabide. Empréstimo de nome ou conta para ocultar o responsável por algo ilícito? Laranja. Acordo de bastidores para abafar um escândalo, arquivar um processo, deixar um culpado impune? Pizza.
Como vamos nos indignar com um simpático quelônio, um cítrico rico em vitamina C, um comboio festivo, um balangandã ou a solução milagrosa para a fome e a preguiça de fazer comida?
Um filho do atual presidente — acusado de tráfico de influência e corrupção — e um do seu antecessor — já condenado por coação — são tratados por Lulinha e Bananinha, como se fossem personagens de desenho animado da Sessão da Tarde.
Será difícil tomarmos jeito se continuarmos partidários do jeitinho. Ou nos tornarmos bons de verdade enquanto insistirmos em ser tão bonzinhos.Eduardo Affonso
domingo, 30 de agosto de 2026
A náusea no caminho das urnas
Não se trata de nojo, esse mal-estar psicológico que decorre da visão de uma sujidade, de intolerância física ou de repugnância moral frente a um comportamento execrável. Geralmente é individual, mas o nojo coletivo se manifesta em situações aberrantes, como figuras de uma antropologia negativa. Ficou gravada na memória pública a postagem despropositada pelo ex-presidente da República de um vídeo repulsivo, conhecido como "golden shower". O fato e o ato definem-se como asco, nojo absoluto.
A náusea, entretanto, não se confunde com essa abjeção. Trata-se de sensação estranha, o profundo mal-estar existencial categorizado como uma das bases do existencialismo de Sartre, descrito no romance "A Náusea" (1938). O protagonista experimenta a angústia de perceber que não há sentido predeterminado para o mundo. Do choque da existência sem essência nem finalidade, tal e qual ela aparece, advém a náusea.
Essa narrativa filosófica, que sempre trafegou no círculo das altas ideias, tem hoje correspondências com o mundo das significações correntes. Significação é o que se vive na prática de uma estrutura ou de um fenômeno, é o que torna concreto um conceito aplicado à vida. Viver uma realidade é percebê-la e lhe dar uma significação.
O problema atual é que as grandes transformações sociais acarretam mudanças em níveis diversos de consciência, com perturbações profundas nos modelos de percepção da realidade e de elaboração de significações. Algo como se as palavras estivessem anêmicas, perdendo força.
Uma das consequências é a estupidez coletiva como fenômeno das clivagens político-partidárias agravadas pela infecção neofascista, que antes era assintomática. Nesse processo, aberto à ascensão ao poder por aberrações políticas, emerge popularmente uma formação psíquica, patológica ao juízo imediato, mas de fato relacionada ao distúrbio que na Antiguidade Clássica inquietou os estoicos: a estupidez. O indivíduo não reza a um pneu de caminhão porque é louco, e sim porque é idiota ou estúpido.
Para a mentalidade antiga, estoica principalmente, a estupidez era calamidade pública por afetar o laço social, dissolvendo formas de vida comunitárias, familiares e civis. Num plano distinto da loucura, o estúpido não perde a dimensão cognitiva nem moral, mas, incapaz de vínculos construtivos, perverte significações e valores como democracia, liberdade e outros. Entre nós, isso tem se concretizado na boçalidade bolsonarista. É um fenômeno que banaliza a náusea sartreana na figura do eleitor da antidemocracia, besta quadrada da manipulação algorítmica, que vota bovinamente no pasto do nojo moral.
A insurgência do analógico
— Saber que tenho um número limitado de rolos obriga-me a olhar melhor. A escolher o que quero fotografar…
Mauro não está sozinho. Há cada vez mais fotógrafos optando pelo analógico. Muitos são jovens. Estão descobrindo as tecnologias antigas como se estas fossem revolucionárias — e são.
Porque no contexto atual, em que podemos produzir quase tudo num piscar de olhos, sem o menor esforço, uma imagem única, irrepetível, elaborada na sequência de um processo longo e difícil, seguindo rituais antigos, muito próximos da magia, é um formidável ato de resistência, um luxo, uma afirmação de autoria.
A banda paraibana Papangu foi notícia por ter gravado há poucas semanas um novo álbum, “Celestial”, num estúdio de Berlim, diretamente em fita magnética de duas polegadas. Tudo analógico, incluindo a masterização. Edição em vinil, claro.
Noutros países há outros exemplos. JP Cooper gravou “Just a few folk”, em fevereiro deste ano, em fita, sem recorrer a computadores, e com os músicos tocando juntos numa mesma sala. Cooper explicou que pretendera criar um álbum com todos os sons que um ser humano produz para que a música possa acontecer, da respiração ao deslizar dos dedos nas cordas.
Na literatura começa a desenhar-se uma onda semelhante. Conheço casos de escritores que voltaram a escrever à mão, em pequenos cadernos, num esforço para recuperar a emoção dos primeiros gestos.
Há também um número crescente de romancistas que decidem publicar nas redes sociais evidências físicas do seu labor. A Wired, revista norte-americana especializada em novas tecnologias e no impacto destas na vida política e cultural, publicou uma matéria com escritores mostrando manuscritos, pilhas de notas, cadernos cobertos de gatafunhos.
Quanto a mim, nunca deixei de tomar notas em cadernos. Escrevo e desenho nos lugares mais improváveis. A experiência ensinou-me que escrever à mão me traz a imponderável vantagem do erro. Muitas vezes, ao passar as anotações para o computador, não consigo decifrar o que eu próprio escrevi. Nesse esforço acabo descobrindo caminhos particularmente interessantes.
Escrever num computador é avançar ao longo de uma via expressa. Escrever à mão é passear ao longo de uma estradinha de terra batida, no meio do mato.
Uma escolha não exclui a outra.
A insurgência contra a enxurrada de produtos sem alma que a utilização preguiçosa da IA propiciou parece-me positiva; convém, contudo, não jogar fora o bebê, juntamente com a água suja. A IA continua sendo um instrumento magnífico. Precisamos, isso sim, de reaprender a utilizá-lo, ao mesmo tempo que reabilitamos o erro como instrumento criativo. O que mais me agrada em todo este processo é a demonstração do quanto, por vezes, o arcaico pode ser moderno.
O Império da Mercadoria
O Império Chinês nunca se interessou pela remota e pouco civilizada Europa, mas o contrário não é verdadeiro. A Europa sempre se interessou pela China, como fonte de conhecimento, tecnologia e luxo – invenções da bússola, papel, imprensa, pólvora; produção de chá, porcelana, seda etc. – desde Marco Polo no século XIII, passando pelo Renascimento Europeu, para desembocar na expansão do Capitalismo Industrial no século XIX.
A Inglaterra, em meados do século XIX, submeteu o Império Chinês, que desabou em 1912. Seguiu-se a república, a guerra civil sob as lideranças de Mao Ze Dong e Chiang Kai Shek, a invasão do Japão e, por fim, a Revolução de 1949. A China, então uma sociedade predominantemente agrária, com 90% da população vivendo na zona rural, desenvolveu as suas “forças produtivas” sob a liderança do Partido Comunista, industrializando e urbanizando o país, a ponto de transformá-lo no polo hegemônico do capitalismo internacional nas primeiras décadas do século XXI.
A gênese do Império da Mercadoria, que corresponde à sua pré-história, data do Renascimento europeu e de sua expansão ultramarina iniciada no século XV. O processo de generalização da Mercadoria, propriamente dito, ocorreu durante a Revolução Industrial inglesa, na passagem dos séculos XVIII para o XIX. O eixo hegemônico do sistema capitalista internacional cruzou o Atlântico no século XX e o Pacífico no século XXI… e, assim, completamos a volta ao mundo, voltamos para a China, agora não mais na condição de um império milenar, mas como a nova sede do Império da Mercadoria.
O país que está herdando a hegemonia do capitalismo internacional está em clima de festa. A poderosa elite banha-se em champanha e acende charutos com notas de 100 yuan. O dinheiro não vale mais nada, pode-se gastar, pode-se desperdiçar à vontade. A massiva classe média, mais comedida, segue atrás, refestelando-se com o mundo da Mercadoria às suas mãos, feliz por se libertar da carestia, abraçando o desperdício, ainda que com certo acanhamento. Os camponeses e os migrantes urbanos, mesmo sujeitos à baixa remuneração e restritos direitos trabalhistas e sociais para habitação, saúde, educação etc., são deferentes à autoridade do governo e agradecem o Partido Comunista por lhes garantir a sobrevivência – o apoio popular ao governo (90%) está entre os mais elevados do mundo.
Dedicados operários batem continência, agradecem o governo por lhes oferecer trabalho e se dedicam à produção em prol de garantir a sobrevivência da restaurada soberania da China – suas vidas privadas e familiares são uma abstração. Em maio de 2026, em Shang Hai, por acaso, presenciei, na abertura do expediente de um restaurante, uma gerente falando com oito funcionários em pé, eretos, postados em duas fileiras (como um sargento a seus soldados). Já havia visto cenas semelhantes em vídeos que retratavam operários em unidades industriais e fiquei observando o evento à distância. A gerente falava pelos cotovelos e os garçons, altamente concentrados, nem piscavam. Depois que ela acabou o seu longo discurso, todos levantaram os braços, dispersando e gritando hurra! Pela música, entendi que ela não tinha nada para comunicar, era só um ritual, um exercício de autoritarismo e subserviência (a cena também chamava a atenção pelo empenho da gerente, apesar do reduzido número de subalternos).
Para se ter uma ideia do expediente que impera na China, os comissários de bordo da Air China são “desenhados” acompanhando o layout das aeronaves – idade entre 18 e 25 anos, longilíneos, como só jovens adultos soem ser. Dois tripulantes conseguem transitar tranquilamente lado a lado pelos estreitos corredores; entre os comissários das companhias ocidentais você pode encontrar pessoas com idade avançada e sobrepeso, até com dificuldade de se locomover na aeronave.
A China já está até exportando tecnologia em gerenciamento da classe trabalhadora. A Fuyao Glass Industry Group, que assumiu uma planta industrial nos Estados Unidos, autorizou a filmagem de American Factory acreditando que o documentário registraria uma história de sucesso, a geração de milhares de empregos. Os cineastas independentes, porém, com amplo acesso ao chão de fábrica, reuniões, operários e executivos, nos Estados Unidos e na China, documentaram conflitos trabalhistas, redução de salários, aceleração do ritmo de trabalho, imposição de horas extras, ressentimentos pela restrita vida privada e familiar, cerceamento à organização sindical etc. Ironicamente, a China Comunista está ensinando ao Império Capitalista Americano como fazer seus trabalhadores esquecerem seus parcos direitos trabalhistas conquistados e se submeterem ao capital.
O presidente da Fuyao, Cao De Wang, no final do documentário, disse que a China de sua juventude era pobre, mas que sentia que era mais feliz naquela época. Declarou: “Nas últimas décadas, eu construí inúmeras fábricas. Será que só causei perturbação e destruí o meio ambiente? Não sei se contribuí para o bem ou se sou um criminoso.”
A forte interferência do Estado na economia tem sido usada por algumas organizações de esquerda – que não conseguem sobreviver sem uma “pátria do socialismo” – para identificar a China como comunista. Mas a ingerência do Estado na economia não é algo novo no capitalismo. Durante o século XIX, o capitalismo enfrentava crises econômicas periódicas sem que o Estado interferisse em sua dinâmica. Mas, a partir do século XX, o Estado passou a intervir com maior ou menor intensidade nas economias capitalistas. Uma das mais importantes iniciativas, além de políticas fiscais anticíclicas, foi a substituição do padrão ouro pelo padrão monetário administrado por bancos centrais, com o uso de políticas monetárias.
Diante da Grande Depressão de 1929, sob a presidência de Franklin Roosevelt, os Estados Unidos lançaram o New Deal, com forte intervenção estatal na economia, criação de empregos, regulação financeira e medidas para garantir o bem-estar social. O Estado na Alemanha, sob a liderança de Adolf Hitler, também exerceu forte intervenção na economia – um sucesso do ponto de vista econômico, expressiva reativação industrial e redução do desemprego.
Barack Obama foi eleito em meio à Crise Financeira de 2008 e, em 2009, seu papel no enfrentamento da crise nos Estados Unidos, que evitou o aprofundamento da crise na Europa, foi o motivo subjacente, não explicitado, de ele receber o Prêmio Nobel da Paz (em 2009, os Estados Unidos estavam militarmente envolvidos em conflitos com o Afeganistão, Iraque, Paquistão, Iêmen e Somália). Obama havia declarado publicamente que ninguém gostava de ajudar os bancos a saírem de uma crise que eles mesmo geraram, mas que as consequências para a sociedade seriam piores se o governo não socorresse as instituições financeiras.
Voltando à interferência do Estado na economia capitalista da Alemanha Nacional-Socialista, seu desempenho econômico foi angariado por uma política estatal racista, expansionista e bélica. Por um momento, isto me fez lembrar a política estatal da atual administração da decadente sociedade norte-americana.
Flávio Bolsonaro renega ajuste fiscal; direita já pode defender a democracia
Não vou falar dos 145 mil mortos só por falta de vacina durante a pandemia. Não vou falar sobre a tentativa de golpe que quase deu certo e que, se tivesse dado certo, teria matado milhares de opositores de Bolsonaro usando as armas da República. Não vou falar do fato evidente de que os R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro seriam recompensa pela licença que os bolsonaristas deram para Vorcaro se tornar banqueiro, bem como pelos bilhões que os governadores bolsonaristas deram de dinheiro de aposentados do Rio de Janeiro e do BRB para o Banco Master. Não vou falar da conspiração bolsonarista pelos tarifaços nem da tentativa de melar a eleição presidencial usando uma superpotência estrangeira.
Pode ficar tranquilo, vou falar do único tema que a direita discute utilizando o conceito adequado de risco: ajuste fiscal.
Ninguém no mercado acha que o risco de crise fiscal é zero até o dia em que o país quebra. Mas é assim que os ricos brasileiros medem o risco que o bolsonarismo representa para a democracia: só admitirão que a democracia corre risco quando os adversários da ditadura de direita já estiverem no pau-de-arara por pelo menos seis meses. E olhe lá.
Enfim, Flávio Bolsonaro foi ao Jornal Nacional e disse que não vai fazer os ajustes que o mercado está pedindo. Disse que vai dar aumento real para o salário mínimo, que não vai desindexar os programas sociais do salário mínimo, que não vai mexer na Previdência. Disse inclusive que vai cortar impostos, o que agravaria o desequilíbrio fiscal.
Também disse que não acredita no aquecimento global. Mas calma, já falei que só vou falar de coisas que você, direitista, acha importantes.
O fato de Flávio no JN ter contrariado sua equipe econômica, em si, não é grave: sua equipe econômica é uma porcaria.
Se alguém na Faria Lima declarar apoio a Flávio Bolsonaro, tenha certeza: é gente da série D do mercado querendo outra boquinha como a que o bolsonarismo ofereceu a Daniel Vorcaro. São patrocinadores em potencial da continuação de "Dark Horse", "The Revenge of Little Banana".
O problema, para Flávio, é que no JN ele aumentou o preço de fazer o ajuste que já prometeu à Faria Lima que fará. Os dois presidentes impichados em nossa história começaram o governo fazendo o que tinham prometido que não fariam.
A única medida de ajuste que Flávio anunciou no JN foi combate à corrupção. Pois é. O Flávio. Combatendo a corrupção. Enfim.
Mesmo se a proposta fosse séria, seria insuficiente. Pergunte para qualquer economista: não é a corrupção que explica nossa taxa de juros, a estagnação de nossa produtividade, o déficit da Previdência ou a trajetória da dívida pública.
E sim, esses assuntos deveriam ocupar uma parte maior de nosso debate público. Eu topo um ajuste fiscal equânime na distribuição de sacrifícios. Mas não contem comigo para discutir economia enquanto anistia aos golpistas, golpe no STF e submissão aos Estados Unidos estiverem sendo discutidos na sala ao lado.
Gosto de contas públicas equilibradas, mas gosto mais de democracia e de soberania nacional. No Jornal Nacional, Flávio não soube defender nenhum dos três. Quem sabe agora você, leitor direitista, comece a se preocupar com os outros dois.
O partido da mídia
Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.
Fábio Luís da Silva, o primogênito apelidado de “Lulinha” pela mídia para criar uma associação direta com o pai, começou a despontar com mais frequência no noticiário e no universo das fake news em 2010. Lulinha, sabe qualquer cidadão de bem, é proprietário de uma Ferrari banhada a ouro e dono da Friboi. Em 2014, no auge da República de Curitiba, a revista Veja, às vésperas das eleições, estampou a capa “Eles sabiam”, ilustrada com as fotos de Lula e da presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição.
A cruzada midiática não impediu as vitórias do PT nas urnas, mas degradou o ambiente político. Dois anos depois, Dilma seria cassada sem cometer crime de responsabilidade. Na sequência, Lula passaria 580 dias atrás das grades. Como era preciso prender e “esculachar”, o então ex-presidente acabaria impedido pelo ministro do STF José Dias Toffoli, acoelhado pela pressão da “opinião pública”, de ir ao enterro do irmão Vavá. E silenciado durante a disputa presidencial de 2018, quando o bolsonarismo emergiu das tubulações.
Em 2022, aturdidos pelas ameaças golpistas de Jair Bolsonaro, os meios de comunicação ficaram entre a cruz e a espada. Mas não demoraram a rodopiar no salão um Sátántangó, o tango com satã. Sem a quimera da “terceira via”, escolheram para a valsa um juiz-torcedor (qualquer semelhança não é mera coincidência) e as viúvas da Lava Jato na PF. Lulinha está de novo sob os holofotes, por meio de vazamentos seletivos, novelizados e desconexos. Já a apuração sobre os 61 milhões doados por Daniel Vorcaro ao clã Bolsonaro merece registros pontuais.
Não se trata exatamente de torcer por Flávio Bolsonaro. Basta conter qualquer ímpeto heterodoxo do atual mandatário. Quanto mais difícil a eventual vitória de Lula, menor a margem de ação do presidente no quarto e derradeiro mandato. Em paralelo, Arminio Fraga encarna Cassandra e vaticina, com ampla cobertura, a derrota da Troia petista. “Recessão, recessão”, repete aos quatro ventos.
Engana-se quem pensa que os adversários de Lula foram no passado os tucanos e são no presente os Bolsonaro. Desde sempre, a oposição é o partido da mídia.
CartaCapital
O jornalista e o que ele deve fazer diante de um mentiroso compulsivo
Recapitulando: em 2014, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, ele afirmou na tribuna da Assembleia Legislativa que havia desconfiança na população em relação à urna eletrônica, já que ela não podia ser auditada — o que não é verdade. “O que nos une é a desconfiança da urna eletrônica, um programa feito por uma empresa venezuelana, a Smartmatic, que é impossível de ser auditada porque não tem o voto impresso”, disse ele.
No seu perfil no X, em 11 de setembro de 2018, Flávio voltou a dizer que “é impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso”, acrescentando: “Na minha avaliação, alguns institutos de pesquisas podem ser usados, exatamente, para dar um ar de legitimidade ao candidato da urna eletrônica, e não o do eleitor, vencer as eleições”. Em agosto de 2021, no Senado, lamentou a rejeição da proposta de restabelecimento do voto impresso: “Teremos eleições sob suspeita”.
Logo após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, Flávio deu uma entrevista ao jornal O Globo em que afirmou que não houve fraude nas urnas, “mas podia ter acontecido”. Fez menção a um relatório das Forças Armadas sobre a fiscalização do sistema eletrônico de votação. O documento, contudo, encomendado por seu pai, não detectou qualquer falha concreta de segurança que pudesse levar à adulteração de votos.
Finalmente, em julho último, durante o evento “Debatendo o Brasil”, realizado em Brasília com representantes de mais de 40 países, Flávio afirmou falsamente que as urnas eletrônicas brasileiras teriam sido fabricadas pela Smartmatic — empresa que ele associou a suspeitas de fraudes eleitorais na Venezuela utilizando relatórios da CIA, agência de espionagem dos Estados Unidos. Na entrevista ao JN, ele admitiu ter se equivocado ao citar a Smartmatic.
É fato, pois, que Flávio mentiu ao JN ao garantir que jamais questionou “a questão do processo eleitoral”. Mas não foi a única vez que mentiu ao longo da entrevista de 40 minutos. Para driblar as repetidas perguntas sobre suas ligações com Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, ele chegou a criar um diálogo fictício entre Lula e Vorcaro. Nesse ponto, Tralli e Renata poderiam ter falado: “Espera aí, senador, isso não existiu”. Mas não falaram.
Também ouviram em silêncio Flávio dizer que o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da Força Aérea Brasileira à época do governo de seu pai, anda pedindo votos para reeleger Lula. Baptista chamou a afirmação de “leviandade”, dizendo que o comentário foi uma forma de o candidato fugir de uma pergunta dos entrevistadores. A birra de Flávio com o tenente-brigadeiro é porque ele não aderiu ao golpe de 8 de janeiro de 2023.
Perguntado sobre o Pix, e se o manterá caso se eleja presidente da República, Flávio respondeu que sim, informando em seguida que a gratuidade do Pix foi decidida por exigência do seu pai. Mentiu, para variar. A gratuidade foi decidida pelo Banco Central em outubro de 2020. Jair Bolsonaro não fazia a menor ideia do que se tratava. Indagado a respeito por um apoiador que o parabenizou pela medida, Bolsonaro pai disse:
— Não tomei conhecimento. Vou conversar esta semana com o Roberto Campos [presidente do Banco Central].
Se o compromisso número um do jornalista é com a verdade, ele não pode deixar passar mentiras quando entrevista alguém ao vivo ou para posterior divulgação. Se procede assim, associa-se às mentiras e desinforma em vez de informar. Esse é um dos pecados capitais do jornalismo, infelizmente muito em voga.
sábado, 29 de agosto de 2026
'Dark Horse', estrangeiro onde?
Como definir se uma produção cinematográfica é nacional ou estrangeira? Ao contrário do que se pensa, não é pelo nome do produtor que, nos pôsteres, vem logo abaixo dos atores e do diretor. Ele é apenas o produtor executivo, o que contrata os astros e a equipe, supervisiona as filmagens, controla o organograma e acompanha o processo até o último corte e a exibição. É um funcionário, assim como todos que passam às pressas nos créditos ao fim do filme, só um pouco mais graduado. O verdadeiro produtor, cujo nome nem sempre aparece, é o que pôs o dinheiro.
Este é o dono do filme, o proprietário legal do produto final, ou seja, do arquivo ou do negativo original, da distribuição e exibição em outras mídias e, importante, do copyright. Enfim, o produtor é o financiador, aquele que pagou para que o filme fosse possível –e que, certamente, exigirá muita coisa em troca, seja em dinheiro ou, talvez, favores institucionais. Quem botou o dinheiro para filmar "Dark Horse"?
Não me parece plausível que produtores americanos invistam num filme cuja bilheteria é duvidosa até no Brasil. Além disso, o país inteiro escutou Flávio Bolsonaro suplicar milhões a Daniel Vorcaro a fim de pagar os atrasados aos bacanas americanos. Será então Vorcaro o produtor? Nesse caso, "Dark Horse" é uma produção nacional e nos deve satisfações, sim.
Ficam assim informados a Ancine, a Polícia Civil de São Paulo , a PF, a PGR, o STF e o, no caso, descansado ministro André Mendonça.
O velho padrão Globo de entrevistar Lula
É claro que uma entrevista com candidatos em momento eleitoral decisivo deve explorar todos os temas e realmente questionar aquele candidato sobre propostas, pautas inquietantes, o que ele fez na vida pública, quais são seus projetos. Mas questionamento não é inquérito, esse é o primeiro ponto importante nesta reflexão. O segundo ponto é que a estratégia do uso da corrupção tem um fim muito específico há bastante tempo no sistema midiático em relação a Lula, sobretudo no sistema Globo – ela é um elemento para provocar desestabilização. Não é somente um tema que precisa ser abordado, é um instrumento midiático de constrangimento, um modo de fazer com que aquele personagem fique acuado e não consiga se articular para responder às outras perguntas. Não é aleatório, portanto, é técnica, é algo como “padrão Globo de entrevista com Lula”.
E um terceiro ponto refere-se às ausências propositais. Se uma entrevista/sabatina tem por objetivo mostrar ao eleitor quem é o candidato, quais são suas propostas, o que ele fez na vida pública e apresentar um conjunto robusto de perguntas pelos entrevistadores para avaliar o conhecimento daquele candidato sobre os temas pertinentes, o evento protagonizado pelo Jornal Nacional em nada se assemelha a isso. Lula foi questionado em relação à investigação sobre um filho que não é candidato – investigação sobre a qual pesam denúncias de vazamento seletivo –, foi questionado sobre os problemas de segurança pública do estado da Bahia, do qual ele não é o governador, foi arguido de novo sobre investigações que ele não domina, como no caso do assessor Marcola. Nada se falou sobre o que ele fez, como tirar o país do Mapa da Fome pela segunda vez, ou sobre o que pretende fazer em relação às bets, que estão destruindo o Brasil e fazem propaganda no intervalo de jornais e novelas da Globo.
A entrevista foi muito mal conduzida – Tralli e Renata pareciam aqueles professores em bancas de avaliação que não estão nem um pouco interessados no trabalho apresentado, mas querem mesmo é mostrar que sabem um monte de coisas. Arrogância e despreparo, uma combinação bem perigosa. Mesmo assim, a entrevista teve até momentos bem divertidos e bastante esclarecedores. Por exemplo, quando Lula disse que não havia esquecido o PowerPoint: “A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço do PowerPoint mentiroso contra mim. Eu não esqueço”. O presidente se referia à nefasta apresentação de Deltan Dallagnol ligando o então ex-presidente a toda uma trama de corrupção. César Tralli, ao melhor estilo “vestir a camisa da empresa”, correu a justificar a tática da Organização e respondeu: “O senhor falou do PowerPoint. Eu só quero dizer ao senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint: nos nossos princípios editoriais, nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto. Então, eu peço que a gente siga com a entrevista”. Ele fazia menção a outro PowerPoint supertendencioso contra Lula (que foi apresentado por Andrea Sadi na GloboNews, ligando Lula ao caso Master). Foi quase uma confissão de culpa mesmo.
A mediocridade midiática, fruto da intolerância da imprensa com Lula ao longo de décadas, se mostrou, mais uma vez, na entrevista/sabatina do JN. Em alguns momentos, um inquérito; em outros, um debate entre candidatos, dada a postura arrogante dos apresentadores. Esse tipo de entrevista não é e não pode ser uma conversa entre comadres, de fato. Mas tampouco pode ser transformada num interrogatório em que os jornalistas são advogados de acusação e juízes, ao vivo, em horário nobre na emissora de maior audiência do País.
Por fim, Lula soube se safar das inúmeras tentativas de acuá-lo e de constrangê-lo. Não podemos abusar da euforia e dizer que ele arrasou, tirou de letra etc. Mas é possível dizer que o presidente, atirado à cova dos leões, soube se livrar e achar a saída.
Flávio Bolsonaro quer entregar Brasil a Cristo
O primeiro problema com o período flaviano é que ele carrega um imenso "non sequitur". Se você convida alguém para um debate, o pressuposto é o de que pretende persuadi-lo pela força dos seus argumentos, o que entra em contradição com o recurso à canetada, que impõe o dogma sem se importar em obter o consentimento dos que estariam sujeitos à medida.
O segundo problema é que o tal decreto, que já tem algo de etéreo, pois não deixa claro o que significaria para o país "ser" de Cristo, carregaria vício constitucional insanável. André Mendonça até poderia concordar com Flávio, mas quero crer que o hipotético diploma seria rapidamente anulado pelo STF. O artigo 19 da Carta veda ao poder público "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança". Flávio é advogado. Imagina-se que foi aprovado em direito constitucional.
O terceiro problema é que a tentativa de Flávio de aproximar-se dos evangélicos revela abissal ignorância sobre a história das religiões. O princípio da laicidade estatal que ele se propõe a subverter surgiu para proteger as religiões, não enfraquecê-las. Determinar que o Estado permanecesse neutro em matéria religiosa e assegurasse a liberdade de culto a todos foi a solução que a Europa encontrou para conter as guerras entre católicos e protestantes, dos quais os evangélicos são herdeiros. Ateus, que por definição não cultuamos nenhum deus, não temos maior interesse na liberdade de culto. Basta-nos não ser obrigados a seguir uma religião.
Louve-se em Flávio sua capacidade de, com uma única declaração, escancarar tantas camadas de seu despreparo para o cargo de presidente da República.
Sobre o desastre
Todos procuraram explicar os motivos do desastre. Os técnicos e os profanos, os médicos e os boticários, os burocratas e os merceeiros, os motorneiros e os quitandeiros, todos tiveram uma opinião sobre a causa da tremenda catástrofe.
Uma coisa, porém, ninguém se lembrou de ver no desastre: foi a sua significação moral, ou antes, social.
Nesse atropelo em que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas, poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equilibrado, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.
O nosso gosto que sempre teve um estalão equivalente à nossa própria pessoa, está querendo passar, sem um módulo conveniente, para o do gigante Golias ou outro qualquer de sua raça.
A brutalidade dos Estados Unidos, a sua grosseria mercantil, a sua desonestidade administrativa e o seu amor ao apressado estão nos fascinando e tirando de nós aquele pouco que nos era próprio e nos fazia bons.
O Rio é uma cidade de grande área e de população pouco densa; e, de tal modo o é, que se ir do Meier à Copacabana, é uma verdadeira viagem, sem que, entretanto, não se saia da zona urbana.
De resto, a valorização dos terrenos não se há feito, a não ser em certas ruas e assim mesmo em certos trechos delas, não se há feito, dizia, de um modo tão tirânico que exigisse a construção em nesgas de chão de sky-scrapers.
Porque os fazem então?
E por imitação, por má e sórdida imitação dos Estados Unidos, naquilo que têm de mais estúpido – a brutalidade. Entra também um pouco de ganância, mas esta é a acoraçoada pela filosofia oficial corrente que nos ensina a imitar aquele poderoso país.
Longe de mim censurar a imitação, pois sei bem de que maneira ela é fator da civilização e do aperfeiçoamento individual, mas aprová-la quand même, é que não posso fazer.
O Rio de Janeiro não tem necessidade de semelhantes “cabeças-de-porco”, dessas torres babilônicas que irão enfeá-lo, e perturbar os seus lindos horizontes. Se é necessário construir algum, que só seja permitido em certas ruas com a área de chão convenientemente proporcional.
Nós não estamos como a maior parte dos senhores de Nova York, apertados, em uma pequena ilha; nós nos podemos desenvolver para muitos quadrantes. Para que esta ambição então? Para que perturbar a majestade da nossa natureza, com a plebeia brutalidade de monstruosas construções?
Abandonemos essa vassalagem aos americanos e fiquemos nós mesmos com as nossas casas de dois ou três andares, construídas lentamente, mas que raramente matavam os seus humildes construtores.
Os inconvenientes dessas almanjarras são patentes. Além de não poderem possuir a mínima beleza, em caso de desastre, de incêndio, por exemplo, não podendo os elevadores dar vazão à sua população, as mortes hão de se multiplicar. Acresce ainda a circunstância que, sendo habitada, por perto de meio a um milhar de pessoas, verdadeiras vilas, a não ser que haja uma polícia especial, elas hão de, em breve favorecer a perpetração de crimes misteriosos.
Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nossos purpurinos crepúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com eles; fiquemos nós com as nossas que matam menos e não ofendem muito à beleza e à natureza.
Sei bem que essas considerações são inatuais. Vou contra a corrente geral, mas creiam, que isso não me amedronta. Admiro muito o imperador Juliano e, como ele, gostaria de dizer, ao morrer: “Venceste Galileu.”
Lima Barreto, Revista da Época (20-7-1917)
A expansão dos Estados Unidos pela América do Sul
Em 1867, os Estados Unidos compraram o Alaska do Império Russo por US$ 7,2 milhões.
As tentativas de anexação por parte dos Estados Unidos de partes do Canadá nunca lograram êxito, como na invasão do Canadá em 1775 durante a Revolução Americana; e na Guerra Estados Unidos-Canadá de 1812 a 1815, com os Estados Unidos incendiando parte de Toronto em 1813, e tropas Britânicas e Canadenses incendiando a Casa Branca e o Capitólio em Washington em 1814, resultando no Tratado de Gante, na manutenção das fronteiras originais.
Hoje, a Doutrina Monroe é reeditada por Donald Trump, no que tem sido chamado de Doutrina “Donroe”.
Diante da atual expansão econômica da China no mundo e na América Latina; diante da perda da liderança Americana sobre a Europa; e diante das recentes ações dos Estados Unidos no Oriente Médio, que pouco resultaram, os Estados Unidos voltam-se para as Américas, como estratégia geopolítica na economia mundial, presente e futura.
Hoje, os Estados Unidos estão militarmente presentes, em maior ou menor grau, em 4 países da América do Sul: na Guiana, desde 2023, onde foram descobertos significativos campos de petróleo a partir de 2015, com empresas americanas na exploração comercial a partir de 2019; na Venezuela, desde a captura de Maduro em janeiro de 2026, país detentor de 18% das reservas mundiais de petróleo; no Paraguai, desde março deste ano de 2026, para o treinamento e combate ao narcotráfico, nos termos do SOFA (Status of Forces Agreement) – país que faz parte da Tríplice Fronteira, Brasil- Argentina- Paraguai; e, agora, no Equador.
Trump comemora o radicalismo de Milei na Argentina, e os governos de direita de Espriella na Colômbia, Kast no Chile, Santiago Peña no Paraguai, Keiko Fujimori no Peru, Rodrigo Paz na Bolívia, e Daniel Noboa no Equador.
O Brasil é repleto de recursos naturais, com florestas, água, minérios, terras raras, petróleo e agropecuária. Embora sejamos a 10ª economia mundial, somos muito frágeis política e economicamente diante das grandes potências. E militarmente estamos desprovidos de capacidade efetiva de dissuasão, não para guerras, mas para a manutenção da paz, no novo jogo geopolítico mundial.
Temos que olhar para o futuro.
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Como o crime gera onda de 'bukelização' na América Latina
Uma nova onda conservadora avança pelo continente. De Buenos Aires a Bogotá, passando por Santiago, Quito e Lima, candidatos de direita e de perfil populista vêm conquistando espaço ao prometer soluções rápidas para problemas que há décadas desafiam os governos latino-americanos: violência, crime organizado, imigração irregular e crescimento econômico insuficiente.
A eleição do colombiano Abelardo de la Espriella se tornou o episódio mais recente desse movimento. Uma vitória que confirmou uma tendência já observada em países como Argentina, Chile, Equador e Peru, onde lideranças conservadoras conseguiram capitalizar o descontentamento popular com a situação econômica e a sensação crescente de insegurança.
O principal combustível da atual guinada à direita é a segurança pública. Embora a taxa média de homicídios na América Latina tenha diminuído em relação aos níveis registrados uma década atrás, a expansão do crime organizado e o crescimento de delitos como extorsão, sequestros e tráfico de drogas transformaram a segurança na principal preocupação do eleitorado em muitos países.
A natureza do crime também mudou. Organizações criminosas já não dependem apenas do tráfico internacional de cocaína. Hoje controlam minas ilegais, redes de extorsão, rotas migratórias e economias paralelas inteiras em bairros urbanos e regiões periféricas.
No Peru, comerciantes e transportadores enfrentam cobranças sistemáticas de grupos criminosos. No Equador, gangues ligadas a cartéis mexicanos e colombianos desencadearam uma escalada de violência sem precedentes. Na Colômbia, grupos armados continuam ocupando regiões pouco controladas pelo Estado.
Diante desse cenário, propostas de longo prazo defendidas por setores progressistas – como reformas policiais, fortalecimento da Justiça, prevenção da violência e inclusão social – passaram a competir com promessas mais imediatas e de forte apelo popular.
Foi nesse ambiente que Nayib Bukele, presidente de El Salvador, se transformou em modelo para parte da direita latino-americana. Seu combate agressivo às gangues, baseado em prisões em massa e forte militarização da segurança, reduziu drasticamente os índices de violência no país e lhe garantiu índices recordes de aprovação.
Mesmo enfrentando críticas de organizações de direitos humanos, o chamado "modelo Bukele" passou a inspirar candidatos em diversos países da região.
Discursos de campanha apresentando os imigrantes como criminosos e defendendo estratégias rigorosas de segurança popularizadas por Bukele garantiram a candidatos conservadores o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e mobilizaram eleitores descontentes, apesar das preocupações de que essas táticas possam incentivar violações dos direitos humanos ou ameaçar a democracia.
"Há uma nova direita emergente que colabora intensamente em toda a região e com os Estados Unidos por meio do movimento Maga, que também usa o combate ao crime como bandeira para mobilização política", afirmou Enrique Roig, vice-presidente da organização sem fins lucrativos Human Rights First e ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA. "É mais fácil vender a ideia de prender pessoas do que lidar com as razões pelas quais principalmente jovens ingressam em gangues em países como El Salvador."
Embora o populismo tenha obtido sucesso em diferentes espectros políticos, apenas a direita tem oferecido soluções de curto prazo para a segurança, que fazem os eleitores "se sentirem mais seguros em seis meses", mesmo que isso exija "sacrificar a democracia e os direitos humanos", avalia Adam Isacson, diretor de supervisão de defesa da organização Washington Office on Latin America (Wola).
Segundo ele, propostas da esquerda, como programas comunitários de prevenção da violência, melhor treinamento policial e reformas no sistema judiciário e prisional, levam mais tempo para produzir resultados.
"É exatamente o que deveria ser feito, mas a paciência das pessoas acaba", resalta Isacson sobre as propostas de longo prazo. "Então surgem os Bukeles do mundo dizendo: 'Quer se sentir melhor? Deixe conosco.'"
No Peru, onde os casos de extorsão aumentaram cinco vezes nos últimos cinco anos, Keiko Fujimori avançou rapidamente para o segundo turno presidencial de 7 de junho com uma plataforma baseada em lei e ordem. Ela prometeu empregar as Forças Armadas nas prisões e nas fronteiras, apoiando-se no legado autoritário de seu falecido pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, cuja trajetória permanece controversa.
Na Costa Rica, abalada por níveis recordes de homicídios relacionados ao narcotráfico, os eleitores escolheram, em fevereiro, a populista conservadora Laura Fernández, atraídos por sua plataforma de combate rigoroso ao crime. Em Honduras, o empresário Nasry Asfura venceu as eleições de dezembro após receber o apoio de Trump como aliado na luta contra os chamados "narcocomunistas".
Segundo a organização InSight Crime, especializada no estudo do crime organizado nas Américas, a taxa média de homicídios na América Latina e no Caribe caiu mais de 5% no último ano em comparação com 2024, atingindo uma média de aproximadamente 17,6 homicídios por 100 mil habitantes.
No entanto, existem exceções importantes. As mortes relacionadas ao narcotráfico aumentaram no Peru e na Colômbia, os maiores produtores de cocaína do mundo, assim como no Equador, cujos principais portos são vistos pelos traficantes como uma porta de entrada para os mercados europeus.
No ano passado, as autoridades registraram 2.400 homicídios no Peru e 14.780 na Colômbia, os maiores números observados em ambos os países desde pelo menos 2020. No Equador, os assassinatos cresceram expressivos 31% em relação ao ano anterior, chegando a 9.216 casos.
Grande parte da violência no Equador é atribuída às gangues criminosas. Durante a pandemia, cartéis do México, da Colômbia e dos Bálcãs ampliaram suas operações no país e recrutaram habitantes locais, desencadeando uma disputa sangrenta pelas rotas do tráfico de drogas. Os confrontos também se estenderam ao sistema prisional, onde centenas de detentos foram mortos desde 2021.
As autoridades equatorianas registraram ainda mais de 16.100 casos de extorsão no ano passado – uma redução em relação aos 23 mil registrados em 2024 – embora especialistas alertem que esse tipo de crime continua amplamente subnotificado.
Há quatro anos, os eleitores chilenos rejeitaram o político ultraconservador José Antonio Kast e elegeram o ex-presidente Gabriel Boric, um jovem ex-líder estudantil que prometia enfrentar as desigualdades sociais históricas do Chile.
No ano passado, porém, o temor diante do aumento da criminalidade – frequentemente associado pela mídia ao crescimento da população de imigrantes venezuelanos – favoreceu Kast e contribuiu para seu retorno ao poder.
À medida que organizações criminosas venezuelanas, como a gangue Tren de Aragua, aproveitaram a onda de migração em massa para expandir suas atividades e se infiltrar em redes de tráfico de pessoas após a pandemia, o Chile, tradicionalmente considerado um dos países mais seguros da América Latina, passou a registrar uma explosão sem precedentes de roubos de veículos, sequestros e tiroteios.
De acordo com o Ministério do Interior chileno, a taxa de homicídios no país aumentou 30%, alcançando o pico de 6,7 por 100 mil habitantes entre 2021 e 2022. Embora tenha diminuído desde então, permanece acima dos níveis anteriores a 2021. Outros crimes violentos continuam em alta, especialmente os sequestros, que cresceram quase 180% nos últimos quatro anos.
Inspirado por Bukele – e após visitar suas megaprisões em El Salvador durante a campanha – Kast derrotou com ampla margem sua adversária de esquerda em dezembro, prometendo construir um grande muro na fronteira, endurecer as condições carcerárias para membros de gangues e deportar centenas de milhares de imigrantes em situação irregular.
Em troca das promessas de segurança, muitos eleitores minimizaram suas posições contrárias ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como sua defesa da ditadura de Augusto Pinochet.
No Peru, apesar do legado controverso do condenado Alberto Fujimori, a candidatura de sua filha se beneficiou da escalada da criminalidade violenta, quatro anos após sua derrota para o professor Pedro Castillo.
Com o slogan "Peru com ordem", Keiko Fujimori obteve a maior votação no primeiro turno realizado em abril. Com mais de 99% das urnas apuradas do segundo turno, realizado em 7 de junho, ela tinha ligeira vantagem sobre Roberto Sánchez, herdeiro político do preso Pedro Castillo, de cerca de 40 mil votos.
Especialistas afirmam que o apetite popular por medidas rígidas – historicamente associadas às ditaduras de direita do século 20 na região – cresceu à medida que diminuía a confiança da população nas instituições estatais e aumentava a insatisfação com a democracia.
"O raciocínio costuma ser: 'a democracia não conseguiu manter minha família e eu seguros, então talvez a própria democracia seja parte do problema'", afirmou Eduardo Moncada, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Columbia.
Isso representa um desafio significativo para a esquerda latino-americana, que em muitos países tem enfrentado economias estagnadas, escândalos de corrupção e dificuldades para cumprir promessas de reforma social.
Até mesmo políticos progressistas, como Jeannette Jara, no Chile, e Roberto Sánchez, no Peru, adaptaram seus discursos ao novo contexto político. O presidente uruguaio Yamandú Orsi descreveu o modelo de Bukele como um exemplo digno de estudo. Já o governo de centro-esquerda da Guatemala decretou estado de emergência para combater a violência das gangues e recebeu apoio da administração Trump no combate ao narcotráfico.
Mas as ambições linha-dura dos governantes recém-eleitos têm esbarrado nas dificuldades práticas de administrar democracias complexas e com limitações orçamentárias, como Equador e Chile. Esses países diferem bastante de El Salvador, onde o partido de Bukele possui ampla maioria no Legislativo.
Durante sua campanha de 2023, o presidente equatoriano Daniel Noboa prometeu prender líderes de gangues em prisões flutuantes e construir megaprisões. Após assumir o cargo, abandonou a proposta das embarcações-prisão, e seu governo levou até novembro para inaugurar a primeira megaprisão.
"Construir megaprisões não tem sido tão simples nem tão direto porque o país atravessa uma situação financeira muito difícil e porque Noboa ainda se vê como um democrata", explica Beatriz García Nice, analista de políticas públicas do centro de pesquisa Stimson Center.
No Chile, o governo de José Antonio Kast já enfrenta desgaste diante da dificuldade de cumprir promessas de deportações em massa e soluções rápidas para a criminalidade. Quase três meses após a sua posse, pesquisas indicam que uma parcela cética da população não percebe grandes diferenças entre sua política de segurança e a de seu antecessor de esquerda.
Seu governo realizou apenas dois voos de deportação, apesar de ter prometido deter e expulsar imediatamente mais de 300 mil imigrantes sem status legal. Além disso, seu discurso tornou-se mais moderado. No mês passado, ele foi alvo de críticas ao afirmar que a promessa de deportação em massa era apenas "uma metáfora".
Mesmo ao anunciar novas medidas de segurança em um discurso realizado em 1º de junho – incluindo a proibição de benefícios sociais para condenados por agressão a policiais – Kast procurou reduzir as expectativas de seus apoiadores.
"Governar, como muitos de vocês sabem, significa assumir responsabilidade diante da realidade, especialmente quando ela é difícil", declarou. "Estou avançando passo a passo porque isso não é algo que acontece da noite para o dia."
Déficits descambam em protestos
Líderes de direita na Argentina, Chile, Peru e Colômbia ganharam apoio com promessas de cortes de impostos, redução do tamanho do governo e flexibilização das regras para mineração e combustíveis fósseis. No entanto, muitos enfrentam déficits orçamentários, o que os obriga a implementar cortes de gastos impopulares que têm provocado protestos.
A Bolívia declarou estado de emergência em junho e começou a remover bloqueios que haviam paralisado o país por mais de 50 dias, enquanto sindicatos e outros grupos protestavam contra as medidas de austeridade adotadas pelo presidente de centro-direita Rodrigo Paz.
No Chile, o índice de aprovação de Kast despencou após a guerra com o Irã que levou seu governo a aumentar os preços dos combustíveis, enquanto as medidas de austeridade do presidente argentino Javier Milei têm sido recebidas com protestos recorrentes.
Os desafios de segurança persistem, apesar das promessas de combate rigoroso ao crime. No Equador, os homicídios aumentaram 30% no ano passado, e o governo de Noboa atribuiu o aumento às disputas territoriais entre facções criminosas dissidentes que competem pelo controle.
Os homicídios também cresceram na Costa Rica sob o governo do populista de direita Rodrigo Chaves. Sua sucessora, Laura Fernández, prometeu uma guerra contra o crime, mas os índices de homicídio continuam elevados, à medida que o pequeno país da América Central se tornou um importante ponto de trânsito para a cocaína sul-americana destinada aos Estados Unidos e à Europa.
Na Colômbia, Abelardo de la Espriella assume um país marcado pela presença de grupos armados, economias ilegais e profundas divisões políticas. Sua vitória apertada e um Congresso fragmentado indicam que a implementação de uma agenda de mudanças encontrará obstáculos significativos.
O mesmo desafio vale para o Peru, onde Keiko Fujimori, chega ao poder prometendo restaurar a ordem em um país cada vez mais impactado pela violência e pela instabilidade institucional.