domingo, 2 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


Extrema direita usa medo como arma

Foi um surto humano que durou 24 horas. Na sexta-feira, quando o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, desembarcou em Ceuta, epicentro do rompante migratório vindo do Marrocos, o número de cadáveres recolhidos chegara a 57 — ontem já eram 67. Eles vêm somar-se aos milhares de corpos que não aguentam travessias muitas vezes mais longas pelo mesmo Mediterrâneo: 31.800 só na última década, segundo o Missing Migrants Project.

Ceuta é um exclave, designação para a parte de um país que fica separada de seu território principal. No caso de Ceuta, trata-se de um exclave espanhol fincado na costa mediterrânea do Marrocos, a pouco mais de 60 quilômetros de Gibraltar — ou da Europa continental. Com Melilla, outra cidade autônoma espanhola encravada na costa norte do Marrocos, forma as únicas fronteiras terrestres legitimadas da União Europeia com a África.


Tudo começou às primeiras horas de quinta-feira, quando uma massa humana de migrantes marroquinos se pôs em movimento. Pela fartura de imagens disponíveis, a massa era eufórica, celebrante de uma espécie de segunda Copa do Mundo. Avançou pelo mar, escalou pedras, atropelou barreiras e obstáculos até se aplastar, exausta, pelas ruas de Ceuta. Estima-se que mais de 60 mil tenham desembocado no exclave de meros 84 mil habitantes, quando a média costuma ser de mil entradas irregulares por ano.

Foram recebidos com pavor, os postos de acolhimento transbordaram, e Ceuta se fechou. Nenhum pedaço de pão, nenhuma farmácia, nada ficou aberto. A primeira noite de liberdade foi um pesadelo — sem comida, sem teto, sem água, sem chão. Logo nas primeiras horas da madrugada seguinte, o fluxo inverteu-se. Cabisbaixos, em silêncio e em formação quase ordeira, um total de 48.200 errantes haviam abandonado o cobiçado solo europeu já no final da sexta-feira.

Deixaram para trás uma nova onda de xenofobia europeia, um cipoal de encrencas para o socialista Sánchez e uma oportunidade não desperdiçada pelo presidente americano, Donald Trump, de se fazer ouvir. No fundo, a massa humana que pensou ser agente de seu destino não passou de figurante da geopolítica em curso.

Dez dias atrás, Sánchez havia feito uma visita oficial à Argélia, vizinha e nem sempre alinhada ao Marrocos. Regressara da viagem com um cobiçado acordo bilateral na mala: um aumento substancial nas importações de gás argelino. A notícia deve ter desagradado ao rei marroquino, Mohammed VI. Compreende-se: até 2021, o gás extraído da Argélia atravessava 540 quilômetros de território de seu país até chegar à Espanha. Durante todo esse tempo, a monarquia marroquina cobrava pedágio e ficava com parte do fornecimento para si — de graça. Desde a existência do gasoduto Medgaz, que liga a Argélia diretamente à cidade espanhola de Almeria, isso acabou, e Sánchez ganhou em tempo e dinheiro. Não é de todo fantasioso citar esse fato para explicar a súbita facilidade com que a massa de emigrados conseguiu forçar a fronteira com Ceuta.

Há quem atribua a culpa pela invasão à própria Suprema Corte espanhola, que havia proibido, a partir deste mês, a deportação de migrantes irregulares antes de exauridos todos os recursos judiciais a que têm direito na Espanha, criando assim um incentivo indireto à pressão na fronteira.

Seja como for, a reação das lideranças mundiais espelha o que está em curso. Trump saiu à frente com postagens alarmadas afirmando que os Estados Unidos serão uma Ceuta se os democratas vencerem as eleições em 2028. Vice-presidente, Departamento de Segurança Interna e integrantes do gabinete fizeram coro: “Se a Espanha tivesse um presidente como Donald Trump, isso não ocorreria”, “Se os espanhóis não encontrarem logo um novo Franco, se extinguirão”, “Lembrem-se dessas imagens — podemos ser nós em dois anos”.

As lideranças europeias de extrema direita estudam medidas para conter a “ameaça real à segurança das fronteiras continentais”. A França reforçou em cinco vezes a estrutura de suas fronteiras, e a Itália de Giorgia Meloni já deu entrada no pedido de suspensão da Espanha do espaço Schengen de livre circulação. É como se os hunos estivessem às portas da Europa.

Um mundo turbinado pelo medo é fácil de domar. É a arma mais barata e poderosa à disposição de líderes medíocres. E a mais fácil de desarmar: pelo voto.

Em tempo: Por falar em voto, na semana passada o influenciador Paulo Figueiredo, bolsonarista raivoso de terceira geração, achou interessante divulgar uma de suas taras contra jornalistas profissionais do Brasil. Denunciado na Justiça por vários crimes contra o Estado Democrático de Direito, Paulo toca sua vida cívica rastejante nos Estados Unidos. Considera-se jornalista. Do jornalismo profissional, merece repulsa. Dos alvos de sua covardia verbal, nem sequer desdém merece — um polpudo corretivo processual basta.
 Dorrit Harazim

Petições e memes: estudantes tornam o protesto visível

Aquele vídeo estava destinado a se tornar viral.

Em 22 de julho de 2026, em uma Mumbai chuvosa, uma jovem entrou na frente de uma viatura policial que transportava um grupo de estudantes detidos. Ela colocou a palma da mão sobre o capô, forçando o veículo a parar.

Os celulares registraram o momento de todos os ângulos. Ela chegou a levantar o próprio celular e gravar tudo. Em poucas horas, o vídeo se espalhou pelas redes sociais na Índia e em outros países, tornando-se uma das imagens marcantes dos protestos do Partido Janata Barata , um movimento no qual estudantes exigiam transparência e responsabilização após o vazamento de informações nos exames de admissão para faculdades de medicina, culminando na renúncia do ministro da educação .


Embora o vídeo seja de uma geração criada nas redes sociais , o impulso por trás dele é muito mais antigo. De petições e cartazes revolucionários a fotografias, guarda-chuvas e memes, os movimentos estudantis transformaram as ferramentas e os símbolos disponíveis em veículos de dissidência.

Muito antes de a televisão ou as redes sociais levarem a dissidência além-fronteiras, os estudantes já encontravam maneiras de expressar suas queixas. Na Dinastia Han Oriental (China), por exemplo, acadêmicos da Academia Imperial aliaram-se a funcionários reformistas para se oporem aos todo-poderosos eunucos da corte, amplamente vistos como corruptos e autoritários.

Numa época em que a comunicação política fluía por canais oficiais, as chamadas "petições" eram uma das formas estabelecidas de apresentar queixas ao trono. Redigidas em linguagem formal e entregues através de um sistema burocrático, elas levavam as preocupações dos estudantes diretamente para o sistema de comunicação do Estado.

Séculos mais tarde, os mecanismos mudaram radicalmente. Em Paris, em 1968, por exemplo, os estudantes desafiaram as autoridades universitárias e a ordem social conservadora do pós-guerra. À medida que as manifestações se espalhavam, surgiram os cartazes, uma das contribuições mais duradouras do movimento.

A ideia surgiu no porão da Escola de Belas Artes. Lá, o Atelier Populaire imprimiu milhares de cartazes com gráficos chamativos, silhuetas e slogans. Produzidos coletivamente, eles ajudaram a transformar a dissidência em uma voz pública unificada e a amplificar a presença visual do protesto.

Os protestos também ganharam maior impacto quando as imagens ultrapassaram fronteiras. Em Soweto, em junho de 1976, estudantes sul-africanos marcharam contra as políticas educacionais do apartheid, rejeitando o africâner como língua obrigatória de instrução nas escolas para pessoas negras. Muitos o consideravam a língua de um estado opressor e uma barreira à igualdade educacional.

Com milhares de estudantes nas ruas, a polícia abriu fogo. Em meio ao caos, o fotógrafo sul-africano Sam Nzima capturou uma imagem que correu o mundo: a fotografia de Hector Pieterson, de 12 anos, sendo carregado nos braços após ser morto a tiros.

A fotografia tornou-se uma das imagens icônicas do apartheid. Para muitos fora da África do Sul, ela ajudou a compreender o protesto, contribuindo para a conscientização internacional e para a oposição ao regime racista.

Na primavera de 1989, milhares de estudantes reuniram-se na Praça Tiananmen, em Pequim, para exigir reformas democráticas, liberdade de expressão e o fim da corrupção. À medida que os protestos cresciam, aumentava também a necessidade de símbolos que pudessem comunicar a sua mensagem.

A história logo se encarregou disso. Após a brutal repressão do regime chinês contra os manifestantes, uma fotografia de um homem solitário em frente a uma coluna de tanques correu o mundo, um símbolo de desafio à autoridade e de resistência.

Com o tempo, a comunicação sobre os protestos deixou de fluir exclusivamente dos organizadores para o público. Multidões e espectadores passaram a contribuir cada vez mais para moldá-la.

Nos protestos de 2011 no Chile, os estudantes exigiram reformas educacionais e usaram flash mobs , performances e espetáculos públicos para chamar a atenção para sua causa. O protesto deixou de ser algo que as pessoas meramente observavam e se tornou algo ao qual podiam se juntar.

Em Hong Kong, em 2014, estudantes que protestavam contra os planos de reforma eleitoral de Pequim transformaram objetos do cotidiano em símbolos políticos. O que começou como uma resposta prática ao gás lacrimogêneo tornou-se a imagem que define o Movimento dos Guarda-Chuvas.

E existem também as plataformas políticas que permitem que o alcance dos símbolos seja ainda mais amplificado, como aconteceu recentemente na Índia.

Os estudantes que protestavam contra irregularidades nos exames apropriaram-se de um insulto que lhes era dirigido, e "barata" rapidamente se tornou um dos símbolos mais reconhecíveis do movimento.

Memes e vídeos curtos se espalham mais rápido do que comunicados oficiais, e os estudantes os utilizam para responder a críticas, zombar de oponentes e mobilizar apoio.

Assim como os cartazes em Paris ou os guarda-chuvas em Hong Kong, este caso mostra como os memes podem transformar um rótulo pejorativo em um poderoso símbolo de protesto.

Milei é o cunhado picareta do Brasil,

Na falta de brasileiros que o apoiem, Flávio Bolsonaro segue recrutando estrangeiros que o defendem em troca de sabe Deus o quê.

Na convenção do PL que lançou o filho do Jair para presidente, nem os grandes partidos de direita brasileiros apareceram para declarar apoio. Carluxo preferiu ir visitar Eduardo nos Estados Unidos. Michelle mandou um vídeo em que elogiava Flávio com menos naturalidade do que o Jair de inteligência artificial.

Depois de papai Trump e de tio Netanyahu, Flávio agora trouxe para a campanha Javier Milei.

Do ponto de vista do Brasil, Milei é como aquele cunhado picareta que perdeu tudo em um esquema de criptomoeda e agora está endividado com o agiota.


O agiota, no caso, é a Casa Branca. O governo Trump deu US$ 20 bilhões para ajudar Milei a segurar a economia argentina até a última eleição.

Enquanto não descobre como pagar, Javier tenta agradar a seu credor fazendo serviços ocasionais de promoção de golpe de Estado na vizinhança. Nesse espírito, foi à convenção do PL declarar seu apoio a Flávio Bolsonaro e ofender a democracia brasileira.

Ao contrário dos chefes do Exército e da Aeronáutica em 2022, Javier assinou a minuta do golpe que Flávio lhe apresentou. Comprou o pacote inteiro: continua apoiando Jair, mesmo depois do 8 de Janeiro. Atacou Alexandre de Moraes por todos os motivos errados: afinal, se atacasse Xandão pelos contatos com o Banco Master, deixaria seu anfitrião sem graça. Aliás, vale investigar se não chegou dinheiro do Master na direita argentina pelas conexões internacionais de Eduardo.

Mesmo se você apoiar o programa econômico de Milei, tem que admitir que no Brasil ele conspira com os golpistas e com Trump contra nossa democracia.

O objetivo de Milei é ajudar Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e superior hierárquico do presidente argentino na internacional de extrema direita, a concorrer à Presidência tendo no currículo uma América Latina submissa aos Estados Unidos.

Se não fosse a possibilidade de intervenção americana, a atual "onda azul" de vitórias direitistas nas eleições sul-americanas seria inteiramente normal. Havia muitos governantes de esquerda, houve alternância de poder, agora há muitos governantes de direita. Nos últimos 30 anos, ondas semelhantes se sucederam, vindas de lados diferentes, sem maiores turbulências.

Mas se há uma superpotência desequilibrando a competição eleitoral a favor de seus candidatos favoritos, temos um problema.

Em uma democracia sólida, os eleitores votam pensando "Qual desses candidatos me entregará melhor qualidade de vida?". Se eles começarem a votar pensando "Qual desses candidatos se submeterá o suficiente aos Estados Unidos para que meu país não sofra sanções econômicas?", tudo muda: os americanos, que não lutariam pelo Brasil em caso de guerra nem pagam impostos aqui, passarão a ter poder sobre nossos eleitores, que pagam impostos aqui e lutariam pelo Brasil na guerra.

Enquanto nossa irmã Argentina estiver casada com Milei, temos que administrá-lo com alguma mistura de indiferença e imposição de limites. O resto é torcer para que uma hora a Argentina largue o boy lixo e arrume coisa melhor.

Um ato de lesa-banana

Na quinta (30), cometi um ato de lesa-banana ao definir Flávio Bolsonaro como um político marca banana, por seus espasmos de filhinho do papai, choramingas e entreguista em campanha pela Presidência. Arrisquei que, se Flávio B. já é tão flácido como candidato, como seria no trono, posto que exige maturidade, firmeza e decisão? Ao mesmo tempo, deixei em aberto a possibilidade de ser isso o que a Faria Lima quer: um banana na Presidência, fácil de ser manipulado.


Leitores concordaram em massa, mas alguns saíram em defesa da banana, lamentando vê-la rebaixada a fláviobolsonaro. Admito que, ao escrever, hesitei —em outras ocasiões, ao me render à tradição de comparar notórias figuras da política a serpentes, antas ou hienas, também fui recriminado pela ofensa aos animais. Daí, a partir de agora, espero não incorrer no erro e quero crer que o uso dessas menções injustas esteja no fim. Um dia, nenhum animal será citado para definir certos humanos.

E tampouco a banana. O que devemos a ela como fonte de prazer, de sobrevivência e de energia nunca poderá ser pago. Prata, d’água ou da terra, crua, cozida ou em calda, é o que mantém muitos brasileiros de pé, um dos quais eu —não há dia em que não mande pelo menos uma para dentro. O respeito pela banana deverá eliminar também o verbo "embananar", sentir-se confuso, sem ação, e o gesto de "dar uma banana", dar com a mão no covo do braço a fim de mandar alguém simbolicamente para tal lugar. Mais respeito, portanto, com a banana.

Para desgraça da banana, ela já está ligada à família Bolsonaro pela alcunha de Eduardo, Dudu Bananinha, irmão de Flávio B., não se sabe bem por quê. Em nome da banana, sugiro que seja removida. Eduardo Bolsonaro e seu repelente servo Paulo Figueiredo dispensam analogias — basta ler ou ouvir o que zurram. Epa! —nada também de atribuir-lhes a voz de nossos irmãos jumentos.

Donde retiro a palavra banana para classificar Flávio B., embora ele se delicie em operar no produto resultante da digestão da dita banana.

Macaquice tem lugar de fala

Guerra não é motivo de orgulho moral e cívico para país nenhum. Bem o sabem os argentinos, modestos em feitos armados, afora a luta pela independência. Nas duas vezes contra o Brasil (Guerra Cisplatina e do Prata), foram derrotados. Depois, ao lado dos brasileiros e uruguaios na Tríplice Aliança contra o Paraguai, foram caso invulgar de indisciplina militar, desertando das fileiras de combate. Reza a crônica que, após a desastrosa batalha de Curupaiti, às vezes tinham de ser amarrados para não fugirem.

É relevante, porém, o registro histórico de sua vida cultural. Em seguida ao apogeu econômico (1880-1914), quando a Argentina se tornou uma das economias mais prósperas do mundo, sobreveio o cultural (1920-1950), que fez de Buenos Aires um dos principais centros de letras do mundo hispânico. Disso davam prova escritores de projeção internacional como Silvina Ocampo e Jorge Luis Borges, além de universidades, editoras e livrarias. São detentores de cinco Prêmios Nobel. "Paris da América do Sul" era epíteto da capital portenha.

É glória passada. Mas parece persistir, embora discutível, o conceito de caráter nacional, por uma espécie de "síndrome aspiracional", se não tanto em setores mais ponderados, pelo menos em estratos médios, que passaram a sentir na pele os efeitos da decadência econômica e das convulsões do caudilhismo peronista desde a segunda metade do século 20. A história tem fundo duplo, o mito, que pode emergir nas crises, distorcido por ideologias nacionalistas. O mito do gaúcho, personagem central da cultura pratense, hábil em "peleas" de faca, ganhou vezo identitário nacional.




Decadência, quando afeta moralidade ou ética social imediata, caminha junto com ressentimento e crueldade. O país abriu portas a criminosos nazistas. Das ditaduras sul-americanas desde os anos 1970, a argentina foi a mais mortífera: cerca de 30 mil mortos e desaparecidos, crianças sequestradas, torturas inomináveis. Na Guerra das Malvinas, desfez-se o mito do gaúcho destemido, impotente frente às tropas inglesas de desembarque. Julgados e condenados, os generais da ditadura tiveram de entender a diferença de facilidade entre assassinar civis e enfrentar um exército estrangeiro.

Da persistência psicossocial das distorções do velho fundo mítico, acompanhada de abalos econômicos no cotidiano argentino, tem aflorado um mal-estar civilizatório. Reforçou-se o ethos de troca imaginária da condição sul-americana pela europeia, coisa que nem europeus reivindicam para si mesmos, pois se identificam como franceses, ingleses, alemães etc. O patético racismo de jogadores e torcidas de futebol soa como mecanismo compensatório. E é extensivo às turbulências de comportamento tribal fora do país.

Javier Milei, capacho das elites financeiras e de Trump, é chorume desse histórico lixo existencial. Atua à revelia das boas relações oficiais entre Brasil e Argentina. Zé cuecas da política, palhaço dentro e fora do picadeiro, ele enxovalhou a liturgia do cargo presidencial ao insultar e macaquear no lançamento da candidatura de seu par. Se leu, não entendeu "História Universal da Infâmia", do compatriota Borges, e veio encenar um personagem. Infame, "por supuesto".

As vítimas invisíveis do duplo terremoto na Venezuela

"Ser pobre em uma zona de desastre já é uma tragédia por si só. Talvez sua casa não tenha desabado, mas sua vida sim." Com essa frase, Omar Zambrano, fundador e economista-chefe da ANOVA Policy Research, retrata uma dimensão pouco vista da catástrofe causada pelo duplo terremoto de 24 de junho na Venezuela .

Enquanto as câmeras e a atenção pública se concentravam na paisagem devastadora de prédios desabados ao longo da faixa costeira do estado de La Guaira, outra tragédia se desenrolava silenciosamente entre mais de cem mil pessoas que já viviam em condições de extrema vulnerabilidade naquela região. São cidadãos que, sem necessariamente perderem suas casas, viram sua renda, seus meios de subsistência, o acesso a serviços vitais como água, saneamento e eletricidade, além de educação, saúde e transporte, tudo desmoronar.

Isso foi revelado no estudo "Duplo Sísmico: População Vulnerável, Distribuição de Danos e Priorização Territorial em La Guaira", publicado em 23 de julho pela ANOVA Policy Research. Ao cruzar a avaliação de danos em edifícios por satélite, realizada pelo Laboratório de Pesquisa de IA para o Bem da Microsoft, com um Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), o estudo constatou que o mapa territorial de danos físicos não coincidia com o mapa de vulnerabilidade social das populações ao longo da costa de Guaira.


Essa disparidade, aponta o relatório, é um fator determinante para a elaboração de uma resposta calibrada, oportuna e relevante para todas as vítimas da tragédia: "Se a estratégia de políticas públicas e a mobilização de recursos de cooperação internacional se concentrarem exclusivamente nas áreas de devastação física causadas pelos terremotos, os efeitos sociais do colapso do circuito econômico de La Guaira serão estruturalmente negligenciados."

Omar Zambrano, coautor do estudo ANOVA, conversou com a Deutsche Welle sobre as conclusões mais relevantes desta pesquisa, algumas das políticas públicas que poderiam ser derivadas de suas descobertas e as fragilidades estruturais do Estado venezuelano na concepção e implementação desse tipo de resposta.

O estudo ANOVA estima que, antes do duplo terremoto, 187.305 dos 310.592 habitantes das sete paróquias de La Guaira viviam em condições de vulnerabilidade social. A reconstrução, portanto, ocorrerá em um território onde a fragilidade social não é marginal, mas sim a condição predominante.

Para identificar prioridades e tipos de atendimento, os pesquisadores cruzaram dados sobre vulnerabilidade social com dados sobre danos físicos e classificaram os resultados em quatro grandes quadrantes.

Numa das extremidades do espectro encontram-se os quadrantes III e IV, que abrangem os setores com menor urgência relativa. O quadrante III compreende 59.766 pessoas, o equivalente a 19,2% da população. Concentrado principalmente ao longo do corredor costeiro de segundas residências para turistas, corresponde a agregados familiares localizados em áreas de elevado dano material, mas com maior capacidade de absorver perdas de rendimento. O quadrante IV, por outro lado, inclui 32.920 pessoas com baixa vulnerabilidade e baixo dano material.

No outro extremo está o Quadrante I, onde ocorreu a tempestade perfeita. Ali, concentram-se 105.681 pessoas, o equivalente a 34% da população analisada, apresentando alta vulnerabilidade social e elevado nível de danos físicos. Segundo o estudo, este é o grupo que requer atenção mais urgente, pois combina necessidades de abrigo e substituição habitacional com exigências imediatas de proteção social.

Mas a descoberta mais surpreendente do estudo está no quadrante II. Este quadrante contém o maior grupo: 112.225 pessoas que vivem em áreas de alta vulnerabilidade social, mas com baixos níveis de danos físicos. Elas representam 36,1% da população analisada. De acordo com a ANOVA, esses indivíduos constituem o grupo com maior risco de serem negligenciados caso a resposta do governo se concentre exclusivamente em casas destruídas.

Zambrano afirma que, embora milhares de pessoas desse grupo tenham mantido suas casas, seus meios de subsistência desapareceram da noite para o dia. "Grande parte da força de trabalho de La Guaira é empregada por instituições públicas — o gabinete do governador, a prefeitura, o porto ou o aeroporto. Essas quatro instituições estão basicamente inoperantes ou funcionando apenas parcialmente após o terremoto", declara o economista.

A isso se soma o impacto do terremoto na economia informal e nas atividades ligadas ao turismo. "Muitas pessoas viviam do comércio informal, vendendo na praia ou trabalhando em atividades relacionadas ao turismo da região. Tudo isso acabou", diz Zambrano, que alerta que essa parte do circuito econômico de La Guaira pode levar anos para se recuperar.

Segundo o estudo, essas famílias vulneráveis ​​que mantiveram suas casas, mas perderam seus meios de subsistência, necessitam urgentemente de proteção social e políticas de recuperação produtiva especificamente concebidas para a sua situação.

O primeiro passo, segundo Zambrano, seria criar um cadastro direto da população afetada para identificar quem perdeu sua renda, quais atividades econômicas foram interrompidas e quais famílias enfrentam maiores dificuldades para suprir suas necessidades básicas. Seria necessário também localizar, dentro desse grupo, as famílias com crianças, idosos, doentes ou pessoas com deficiência.

Para proteger temporariamente a renda dos afetados, o economista propõe um programa de transferências diretas de renda, por pelo menos um ano, para compensar parcialmente essa dificuldade econômica. No caso dos servidores públicos, ele sugere uma política de realocação temporária para outras funções dentro da administração ou para o próprio processo de reconstrução.

A recuperação também deve proteger os negócios que sobreviveram. Com base na experiência do terremoto do Haiti, Zambrano alerta que a assistência baseada unicamente na distribuição gratuita de bens pode acabar deslocando os comerciantes e produtores locais, incapazes de competir com produtos entregues sem custo. Portanto, ele sugere que uma parte dos fundos de reconstrução e ajuda seja direcionada aos comerciantes, transportadores, pousadas, restaurantes e fornecedores locais que permanecerem em atividade.

Como aponta o relatório da ANOVA, os terremotos são fenômenos naturais, mas suas consequências humanas e econômicas não o são. Diante de eventos de tal magnitude, a mortalidade, as perdas e a velocidade da recuperação dependem em grande parte da capacidade institucional do Estado de produzir informações, estabelecer prioridades e implementar respostas oportunas.

A Venezuela enfrenta essa tragédia com capacidades institucionais profundamente fragilizadas. A falta de estatísticas territoriais atualizadas — a Venezuela não publica uma pesquisa domiciliar confiável desde 2015 — aliada à deterioração dos equipamentos técnicos, limita a elaboração e a implementação de políticas direcionadas. Zambrano resume a situação categoricamente: "É impossível para este governo, no atual estado das coisas, realizar uma reconstrução efetiva com base em critérios técnicos e evidências. Eles estão navegando às cegas."

Zambrano alerta que essa fragilidade institucional ameaça amplificar as consequências do desastre. Se as famílias que mantiveram suas casas, mas perderam seus meios de subsistência, não receberem apoio estatal decisivo e imediato, muitas poderão ser deslocadas para outras regiões ou se juntar a uma nova onda migratória. Esse despovoamento privaria La Guaira de trabalhadores, consumidores e empreendedores essenciais para a reconstrução de sua economia e, em última análise, agravaria a tragédia que as políticas públicas deveriam conter.

Céu de brigadeiro para Tarcísio e tempo fechado para Flávio

O diabo é sábio não porque é diabo, mas porque é velho e acumula conhecimentos. Esse é o caso de Luiz Inácio Lula da Silva, que já disputou seis eleições presidenciais, tendo perdido as três primeiras (1989, 1994 e 1998) e vencido as três seguintes (2002, 2006 e 2022). Concorrerá à sétima daqui a exatos 63 dias.

Devido à idade (80 anos) e à lei que impede o exercício de três mandatos consecutivos, esta será a última eleição da vida de Lula. A não ser que, se reeleito, ele renuncie à Presidência em abril de 2030 para se candidatar ao Senado, talvez por Pernambuco, seu estado natal. Nesse cenário, o vice-presidente Geraldo Alckmin assumiria o cargo.


Ao redor de Lula, mas longe dos seus ouvidos, há quem já comece a falar sobre essa possibilidade. Se acontecer, não será nenhuma novidade. Depois de presidir o Brasil de 1985 a 1989, o maranhense José Sarney foi senador pelo Amapá durante 24 anos, o equivalente a três mandatos. Sarney segue vivo e em boa forma física e mental aos 96 anos de idade.

Lula considera-se pronto para derrotar o filho daquele a quem venceu em 2022. Flávio foi educado pelo pai para comportar-se como se fosse um boneco de ventríloquo. Por isso, pouco aprendeu por conta própria. Em compensação, nada esqueceu do que lhe foi incutido, vagando por aí sem saber direito o que fazer, confiando apenas na força política de quem o escolheu.

Os irmãos parecem mais espertos do que ele. O do meio pode acabar se elegendo senador por um estado onde não nasceu, mas que se tornou o reduto eleitoral da família (Santa Catarina). O terceiro autoexilou-se nos Estados Unidos, país onde gostaria de ter nascido. O quarto irmão é candidato a deputado federal por estrita imposição do pai.

Se a inveja matasse, Flávio estaria morto. Ele compareceu à convenção do Republicanos que lançou Tarcísio de Freitas candidato a governar São Paulo por mais quatro anos. Enquanto Tarcísio conta com o apoio de uma ampla coligação de 12 partidos (Avante, MDB, Podemos, PP, União Brasil, PL, PSD, Novo, PRD, Mobiliza, PSDB e Cidadania), Flávio vê seu arco de alianças restrito basicamente ao PL.

O mar de bandeiras que inundou o local da convenção estampava o nome de Tarcísio e dos candidatos aos demais cargos em disputa. O nome de Flávio, contudo, não apareceu em nenhuma delas. Tarcísio só o mencionou em seu discurso para declarar lealdade ao pai dele, afirmando: “Ele tinha genialidade e carisma. Nós amamos Jair Messias Bolsonaro”.

Por último, nada chamou mais atenção na convenção que aclamou Tarcísio do que a fragilidade da candidatura do filho do ex-presidente enfermo e condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.

sábado, 1 de agosto de 2026

Pensamento do Dia

 


O cerco americano ao capitalismo

Para entender as aberrações de conduta política do presidente americano e de seu secretário de Estado em relação a países como o nosso, é sociologicamente incorreto imputar a Lula e às esquerdas a responsabilidade pela polarização ideológica que nos sufoca e cerceia.

Responsabilizá-los ainda é parte do jogo político da polarização promovida pelo “centro”. Em várias partes, as esquerdas da era pós-stalinista jogam o jogo já feito para nele identificar e superar seus erros, suas brechas, e ocupá-las.

As esquerdas já entenderam que não são elas que fazem o jogo político contemporâneo pois já feito pelas irracionalidades, pelas ambições de riqueza e poder, pela corrupção, que delas decorre. Há muito, o mundo não está polarizado entre capitalismo e comunismo. Está determinado pelo mero crescimento econômico a qualquer preço, de lucro imediato e desmedido, sem desenvolvimento social.

As esquerdas assumiram a função política de agentes de consciência social crítica das contradições autodestrutivas do capital.


Tudo sugere que o modelo capitalista americano está em decadência. Defende-se combatendo o capitalismo no país dos outros, como o nosso, o México, o Canadá. Isso não é coisa de agora. Em relação a nós, vem de longe.

É preciso definir as temporalidades do crescente processo de ação americana em suas relações internacionais no sentido de monitorar e limitar economias do Terceiro Mundo e, no que nos interessa, cercear o desenvolvimento capitalista na América Latina e, em particular na Argentina, no México e no Brasil.

O capitalismo se desenvolveu mais típica e caracteristicamente na Inglaterra, onde ocorreu a primeira revolução econômica capitalista. O Brasil nasceu, como país independente, patrocinado e financiado pela Inglaterra, que concebeu nossa independência e a financiou como parte do projeto inglês de potência econômica colonial. Esse plano está num documento de 1805 da Biblioteca Britânica, de Londres.

Quando a crise do capitalismo abateu o capitalismo inglês, o eixo da economia internacional se deslocou para os EUA. Surgiu a “doutrina” da América Latina como quintal americano, agora ainda invocada pelo governo Trump. O chamado imperialismo surgiu geopoliticamente como um modo de impedir a expansão territorial do capitalismo, para concentrar na metrópole sua poderosa capacidade de produzir riquezas e distribuí-las parcimoniosamente por menos do que o apetecido pelos subdesenvolvidos.

Antes mesmo de consolidar-se a transferência da hegemonia econômica da Inglaterra para os EUA, os americanos já temiam e estavam preocupados com o desenvolvimento da indústria no Brasil. Nos anos 1920, o Departamento de Comércio realizou na Argentina e no Brasil uma pesquisa sobre o desenvolvimento industrial nos dois países.

Descobriu que ambos tinham um desenvolvimento industrial significativo, com capacidade ociosa para atender a demanda interna de produtos industrializados numa eventual crise que dificultasse a importação de bens de consumo. Nossa industrialização não nasceu da crise do café, como equivocadamente supôs Celso Furtado, que não examinou os documentos americanos para explicá-la.

Os nossos engenheiros, mesmo os formados nas escolas militares, e nossa mão de obra qualificada, foram capazes de inventar peças e máquinas, começaram a substituir importações substituindo peças desgastadas de máquinas importadas por peças fabricadas aqui mesmo, artesanalmente, com a reciclagem de ferro-velho. Ou importação de matéria-prima.

Mesmo a espionagem industrial entrou no jogo. Antônio Pereira Inácio, que seria sogro de José Ermírio de Moraes, expressão da burguesia nacional, fez isso em empresas americanas. Quando decidiu voltar ao Brasil e montar sua própria indústria, devolveu à empresa que espionara todos os salários recebidos.

O exemplo que entre nós evidencia o quanto o capitalismo americano é anticapitalista é o da biografia de Roberto Cochrane Simonsen, industrial e político. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os americanos montaram o Plano Marshall para aplicar recursos de rápido desenvolvimento econômico nos países vencidos, especialmente na Europa.

Roberto Simonsen foi aos EUA defender que o Plano Marshall fosse estendido à América Latina, que se transformaria numa potência econômica. Os americanos recusaram o apoio. Sem dizê-lo, não queriam que a América Latina se transformasse numa potência capitalista. Ficamos confinados nos limites bem definidos de um subcapitalismo, como o definiu Fernando Henrique Cardoso.

O golpe de 1964 foi patrocinado pelo governo americano em nome da geopolítica da dominação econômica. Para não sermos o que tínhamos condições de ser.

Acelerar de olhos fechados… contra o muro

“Acho que vamos precisar de um barco maior.” Esta frase, saída da boca do ator Roy Scheider, tornou-se rapidamente a mais célebre de Tubarão, de Spielberg, e uma das mais lembradas da história do cinema. Ela é proferida ao fim de uma hora de filme, quando o grupo de três homens numa frágil embarcação viu, finalmente, a dimensão do animal que perseguia. Em meia dúzia de palavras, estava ali tudo: além de ajudar a alimentar o clima de suspense, aquela meia dúzia de palavras passou a ser usada também, como parábola, em diversas situações, como quando se percebe que alguém não está preparado para a tarefa a que se propôs, que subestimou a dimensão de um problema ou ganhou consciência de que as ferramentas que tem ao dispor são demasiado pequenas para a enormidade do desafio que tem de enfrentar.

É uma frase que, na sua simplicidade, revela os valores da prudência e do bom senso. E da necessidade de um bom planeamento, de forma a evitar surpresas desagradáveis.


O mundo mudou muito, entretanto. Tanto que, ao contrário desses idos de 1975, em que até em Hollywood ainda se acreditava que a justiça iria prevalecer e que os justos acabariam sempre por derrubar os injustos, hoje a prudência e o bom senso passaram a ser características em desuso, associadas, tantas vezes, a espíritos fracos, quiçá medrosos. Foram substituídas pela fé inabalável no progresso tecnológico, pela ganância do lucro desmedido e pelo mais completo desprezo pela vida humana.

A corrida vertiginosa a que se assiste pelo domínio da Inteligência Artificial é o exemplo paradigmático de tudo isto. É um palco onde ninguém admite que está num barco pequeno demais para a envergadura do desafio. Aliás, neste mundo da IA ninguém quer estar no barco – todos querem ser o grande e poderoso tubarão-branco que vai devorar tudo e todos, não importa como e com que consequências.

Os sinais acumulam-se. Na última semana, tivemos conhecimento de como um dos modelos da OpenAI, a empresa do ChatGPT, conseguiu escapar ao controlo, invadir o sistema de uma outra empresa e, como que obedecendo ao seu “instinto”, aniquilar tudo o que foi preciso para cumprir a sua tarefa. Ou seja: aproximando-se daquilo a que se chama ganhar vida própria e, assim, deixar de responder ao seu “criador”.

Soaram os alarmes, mas é difícil acreditar que alguma coisa de importante vá mudar. Há anos que imensos cientistas têm alertado para os riscos do poder descontrolado da IA. Recentemente, uma consulta a 272 especialistas na matéria, conduzida pelo insuspeito MIT, indicou que existe uma probabilidade de 22% de ocorrerem danos catastróficos nos próximos cinco anos, caso o desenvolvimento das ferramentas e dos modelos de IA continuem como estão. E atenção que esses “danos catastróficos” são muito piores do que o ataque do tubarão-branco no filme de Spielberg: foram definidos como mais de um milhão de mortes ou dez mil milhões de dólares em perdas financeiras.

Mas o que é que isso interessa, bem poderia ter dito Elon Musk, na entrevista recente – e histórica – que deu à revista The Economist. Nessa longa conversa, o homem da Tesla e da SpaceX apenas quis sublinhar as virtudes da IA, que trará “dentro de dez anos” um mundo de abundância sem paralelo, em que as pessoas já não precisarão de trabalhar, em que as máquinas desempenham a maioria dos serviços, sejam eles manuais ou criativos. Mas, claro, será um mundo em que as contradições habituais de Musk estarão mais visíveis do que nunca, já que, em paralelo com o paraíso tecnológico, ele prevê também um pesadelo geopolítico em que, por exemplo, o Reino Unido cairá numa guerra civil.

O mais incrível é que Musk também admite que há riscos neste percurso. Só que considera que não se pode fazer nada para travar o desenvolvimento de máquinas com capacidade de substituir os humanos. “O melhor que temos a fazer é aproveitar a viagem”, afirmou.

É melhor que tenhamos consciência do que pode ser essa viagem. Pela amostra que temos tido, será uma viagem em que a era da abundância será apenas para alguns. E em que outros terão de viajar sem cinto de segurança e a uma velocidade cada vez maior, a confiar que a IA não se esqueça de pisar no travão, antes de o carro embater contra o muro. Face ao desvario digital e ao crescente descontrolo das máquinas, o mundo está mesmo a precisar de mais prudência e de bom senso. Ou seja, de um barco maior..

O Brasil picou?

Os americanos, que vivem em competição doentia com os outros e entre eles próprios, têm uma expressão: "to peak". Significa atingir o pico, o ponto mais alto, o máximo de alguma coisa. Só que eles a usam como verbo: picar. Fulano picou na profissão, a música tal picou em décimo lugar nas paradas, a temperatura ontem picou em 35ºC. No Brasil, não falamos assim, mas poderíamos — e deveríamos. Para um país que há séculos se diz do futuro, o que fazer se, ao contrário do que queremos acreditar, o Brasil já tiver picado?


Ivan Lessa, arguto pensador popular, era dessa opinião. Para ele, o Brasil picou em algum momento entre os anos 1950 e 1960 — de Juscelino a, digamos, 1963. Foi quando tivemos vasta industrialização, urbanização e politização; o país começou a ser exaustivamente "pensado"; a criatividade em todas as categorias chegou a níveis absurdos; éramos adultos, responsáveis e otimistas; e tudo num clima de total liberdade democrática. Claro que esta é só a opinião de Ivan Lessa. Outros poderão atribuir outras épocas ao pico do Brasil. O que interessa é se o Brasil ainda tem jeito ou se já picou mesmo.

Desiludido, Ivan se mandou para Londres em 1978 e morreu lá, em 2012. Imagino se soubesse do Brasil de hoje, o paraíso dos bolsonaros, vorcaros, malafaias, neymares e outros luminares, dedicados a nos fazer de otários em primeiro grau. Eis alguns:

Políticos ligados a milicianos e facções. Influenciadores promovendo estilos de vida irrealizáveis. "Consultores" financeiros recomendando investimentos com lucros fabulosos em ativos sem lastro na economia real. Vendedores de cursos online sobre como ficar rico. Aliciadores de menores na internet. Sem falar em torcedores não mais de futebol, mas de "fubetol" (obrigado, Sérgio Rodrigues), cantores de sofrência pagos em milhões por prefeituras de cidades sem escolas e hospitais; mulheres com peitos pneumáticos, boca de peixe e bochechas de Fofão; etc.

Dúvida atroz: e se, em vez de ter picado no passado, o Brasil estiver picando agora?

O engano pelas palavras

Com a intenção de defender sua indústria, a Inglaterra usou o argumento humanista do combate ao trabalho escravo no Brasil, há pouco mais de duzentos anos. Agora, o governo de Donald Trump utiliza o mesmo argumento, com hipocrisia. É preciso condenar o oportunismo trumpista, mas sem perder de vista um drama social brasileiro real, que vem sendo camuflado por um vocabulário afeito a suavizar a tragédia. Para evitar caracterizar os brasileiros submetidos a trabalho análogo à escravidão como pobres desassistidos, o dicionário politicamente correto passou a chamá-los de “hipossuficientes”, termo técnico que esconde o drama e, de algum modo, absolve a responsabilidade dos políticos. Os sem-teto passam a ser “moradores em situação de vulnerabilidade”, expressão que não traduz o relento, nem a exclusão. Se, na África do Sul, o apartheid tivesse sido chamado de desigualdade racial, a bárbara desumanidade da separação entre negros e brancos teria sido diluída. É isso que se faz no Brasil ao chamar de desigualdade social a apartação que caracteriza a sociedade brasileira segregando condomínios de tugúrios.


O uso da expressão “vítima de insegurança alimentar”, em vez da palavra faminto, transforma a dor em um conceito técnico e não transmite o sofrimento de quem passa fome. Para evitar estigmas, o termo prostituição infantil foi substituído por “exploração sexual de menores”. Evita-se a marca infame de crianças submetidas à prostituição, mas atenua-se a violência moral e transforma-se a vergonha social em mais um tipo de exploração, como se a ação de um criminoso pervertido fosse comparável à exploração de um operário. De forma semelhante, trocar favela por “comunidade” pode atenuar o estigma de quem mora nela, mas mascara a carência de serviços urbanos e oculta o tamanho da desigualdade.

O politicamente correto é moralmente imperfeito

Por sentirem que o termo analfabeto carrega discriminação ofensiva, alguns defendem o uso do termo “iletrado”. Essa substituição disfarça a tortura diária de quem não sabe ler e isenta os governos da responsabilidade por essa tragédia. Iletrado é quem aprendeu a ler, mas não lê com frequência, sem a dramaticidade da situação de uma pessoa que, por falta de cuidados do Estado e da sociedade, chegou à vida adulta incapaz de ler. A mudança de escravo para “escravizado” tem o mérito de lembrar que os africanos eram livres antes de capturados, mas ofusca o fato de que, salvo raras exceções de alforria ou fuga, o capturado tornava-se escravo por toda a vida. O sistema fazia com que, desde a captura, o estar escravizado se transformasse na condição permanente de ser escravo. A mulher negra grávida carregava um bebê ainda não escravizado, mas já escravo — condenado desde o ventre, como se o útero fosse um navio negreiro humano. A boa intenção de indicar uma condição temporária pode ocultar a perversidade de um sistema vitalício.

A prática de camuflar a tragédia, tratando-a como etapa de um processo, repete-se no uso da expressão “em vias de desenvolvimento”, em lugar de subdesenvolvido. Embora a palavra mais antiga transmita a ideia de condenação ao atraso, a nova expressão oculta o círculo vicioso que mantém as populações na pobreza, caso não ocorram rupturas políticas, econômicas e educacionais. Embora com boas intenções, o politicamente correto fica imperfeito moralmente.

Eleição além-fronteiras

“Não temos tido sequer um minuto de sossego”, afirmou o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez ao receber em 1982 o Nobel de Literatura em um discurso no qual ele percorre a história de fantasias e dramas da América do Sul. Mais de 40 anos depois, a frase parece ecoar uma vez mais e, no Brasil, será escrito e testado o próximo capítulo dessa história de assédio ao continente.

A eleição no País não vai determinar apenas quem será o novo presidente ou qual a composição do Congresso. O que está em jogo é uma disputa que vai muito além de nossas fronteiras. Vamos definir quem somos no mundo, que projeto de nação queremos. Mas também como a nova ordem global será desenhada. O que vimos nos últimos dias com o envolvimento de Javier Milei, viagens de equipes obscuras de Donald Trump ou mesmo um telefonema de Xi Jinping são sinais escancarados de que há muito mais em jogo na eleição brasileira do que interesses domésticos.


Para o governo de Trump, reafirmar a América Latina como quintal é parte fundamental de sua política externa e estratégia para conter o avanço da influência chinesa pelo mundo. Ao longo dos últimos meses, a ação da Casa Branca em eleições pela região foi determinante para os resultados das urnas. Qualquer ambição de controlar a América Latina entraria, no entanto, para a história como um projeto fracassado se não incluir o Brasil, que representa um terço da população e do território, além de um volume preponderante da economia do continente. Para Washington, portanto, a eleição é o momento definidor dessa estratégia.

Para a extrema-direita global, as urnas no País também são centrais. Sequestrar o Estado brasileiro é fundamental para o plano de refundar o Ocidente a partir de novos valores, ultraconservadores. Ao longo dos últimos anos –e principalmente após a vitória de Trump nos EUA –, o movimento orquestrou uma tentativa de sequestro de organismos internacionais. A tática foi tão simples quanto assustadora. Washington fechou as torneiras a entidades globais e condicionou qualquer retomada de recursos a uma transformação daquelas instituições para que cumpram seus objetivos. Em outras palavras: um sequestro e uma exigência para iniciar qualquer diálogo que permita um resgate da vítima. Mas há um limite. Principalmente no mundo em desenvolvimento. Ter em suas mãos a rede da diplomacia brasileira garante ao movimento reacionário a influência sobre dezenas de países que contam com o Brasil como referência e uma força sedutora substancial nos organismos internacionais e regionais.

O que ocorrer em outubro também terá uma repercussão imediata para o destino de Javier Milei, José Kast e tantos outros líderes sul-americanos de extrema-direita. Ainda que façam oposição ao presidente Lula, todos sabem que suas economias irão à falência se o Brasil optar por romper acordos ou fechar pontes comerciais ou diplomáticas. Na Casa Rosada ou em qualquer outro gabinete presidencial da região, os governos são cientes de que precisam do mercado brasileiro para que ­suas próprias economias possam prosperar.

Essa é também uma eleição estratégica para a China. Em Pequim, diplomatas questionam de que maneira uma eventua­l vitória de Flávio Bolsonaro seria decisiva para o novo mapa mundial que se desenha e a ambição de Trump de expulsar qualquer presença chinesa na América Latina. Um Brasil sem forças progressistas significaria um golpe profundo no projeto do BRICS? Um Brasil com um Bolsonaro submisso à Casa Branca significaria o fim do projeto de desdolarizar parte do comércio mundial? Quem teria controle sobre as terras-raras brasileiras? Qual o destino da agenda de desenvolvimento, de combate à fome e das questões climáticas globais com um governo em Brasília que romperia com tratados internacionais? Não há almoço grátis no mundo do poder. Qual seria, portanto, o preço que Trump cobrará de Flávio Bolsonaro para apoiá-lo na eleição?

Nas urnas brasileiras, essencialmente, são rabiscadas as fronteiras estratégicas da disputa entre dois poderes que têm ambições hegemônicas. No fundo, é a própria definição do conceito de soberania e a sobrevivência do direito internacional que estão sendo testados.

As veias abertas da América Latina continuam a sangrar. Um continente que percorre séculos na tentativa de construir um caminho do outro lado do colonialismo. A esperança é que essas veias também resistam. Uma resistência que terá no Brasil um de seus capítulos mais críticos de nossa geração. Com disputas por terras, violência e ingerências que repetem algumas das cenas mais tristes de um continente exausto, a história global do século XXI tem sido taquigrafada uma vez mais no Brasil.

Religião ajuda ou atrasa um país?

Sou um homem de fé, sempre fui. Gosto de acreditar no divino, no mistério, na transcendência, no candomblé, no budismo. Educado por padres jesuítas, aprendi muita coisa, mas também a detestar toda aquela arquitetura do medo, da culpa, do desamparo, que os padres incutiam nos adolescentes. Depois, a duras penas, você se liberta, ou quase. A verdade é que você pode sair dos jesuítas, mas eles não saem de você. Na origem, é uma ordem religiosa militarizada, fundada por Santo Inácio de Loyola como Companhia de Jesus, em que os fiéis são “soldados de Cristo”, guerreiros da fé, que deve ser levada aos infiéis a qualquer preço, pela catequese ou pelas armas.


Durante muito tempo, o Brasil foi o maior país católico do mundo, mas não é mais, com o crescimento dos evangélicos a quase 30% da população, enquanto os católicos caíram para 55%. Nos Estados Unidos, eles são só 20%, enquanto os protestantes de diversas denominações são quase 45%.

Enquanto isso, China e Japão exibem um progresso espetacular e estão entre os países mais prósperos do mundo, com menos de 1% de cristãos na população. Na China, mais da metade do povo é de ateus, e, entre os crentes, a maioria é budista e confucionista. No Japão, mais de 80% são budistas e xintoístas, que não são propriamente religiões, mas um conjunto de filosofias e regras de conduta.

Quando a religião se mistura cada vez mais com a política e se transforma em instrumento de poder no Brasil, é inevitável pensar em que medida a religião pode atrasar o progresso social e econômico de um país. Vejam a China e o Japão, em contraste com os países em que a religião tem grande poder e exerce o culto do medo, da obediência, da exclusão, da intolerância, da irracionalidade, da ignorância, da ânsia de pertencimento, de transcendência, onde a religião se mistura com partidos e políticos de direita têm atrasado o progresso social e a liberdade individual com preconceitos e discriminações de origem supostamente religiosa.

Certamente na China e no Japão as pessoas dispõem de um imenso espaço livre no seu pensamento para tudo o que lhes interessa de verdade, sem a opressão e os limites da religião. Imagino quanto espaço a religião ocupa na vida das pessoas no Brasil e nos países católicos. O poder que desfrutam os pastores sobre seus rebanhos, como representantes de Deus na Terra. Sejam evangélicos ou católicos, muçulmanos ou judeus. O problema é o rebanho e suas crenças. A mistura de política e religião deu na teocracia iraniana que criou um estado policial que exige obediência absoluta a regras religiosas, e deu todo o poder aos aiatolás há 47 anos. No Afeganistão, o Talibã se consolidou no poder na base de princípios religiosos que destroem a liberdade individual e o crescimento social.

Na China e no Japão não há manadas de crentes. A religião não influi nas políticas de Estado. Não dá votos nem para síndico do prédio. Não dá dinheiro para seus pastores, cardeais ou mulás. Não é o “ópio do povo” de Marx. O ópio do povo são as bets.

Pensamento proibido

Pedi para ir para a catequese. Os meus pais eram aquilo a que se chama católicos não praticantes. A minha mãe andava com pagelas de santinhos na carteira e rezava quando tinha uma aflição. O meu pai não se metia nisso. E a religião não era propriamente um tema em minha casa, a não ser nas vezes em que a minha mãe decidia perceber outros ritos e lá tínhamos nós mórmons ou testemunhas de Jeová em casa. Mas essa é outra conversa. E eu pedi para ir para a catequese em parte, estou certa disso, por causa da ideia do vestido branco e da festa da primeira comunhão, mas também porque tinha genuína curiosidade. Tive, claro, um vestido com laços cor-de-rosa, feito especialmente para mim, e os avós e primos do Porto num almoço. Mas quando a refeição foi servida e o bolo cortado, já eu tinha decidido que não acreditava em nada daquilo.

Tomei essa decisão definitiva quando percebi que tinha de inventar pecados para a confissão que iria dar-me acesso à hóstia sagrada. Mas era uma coisa que já andava a maturar nas aulas da catequese, enquanto a mente vagueava por dúvidas e eu percebia que esse Deus todo-poderoso não conseguia entrar nos meandros da minha mente de criança. Se eu conseguia mentir na confissão sem que nada me acontecesse, então nada daquilo fazia sentido, concluí eu. E não pensei mais nisso.


A ideia de que ninguém entra na nossa cabeça é uma das armas mais poderosas que se pode ter na infância. Percebi isso cedo. Usava esse superpoder para imaginar outros mundos, viajar sem sair do quarto, inventar histórias e conversas, quando o que estava à volta não me interessava, quando precisava de combater o tédio de não ter nada para fazer ou resolver o facto de não ter com quem brincar naquele momento. Esse músculo fica para a vida. Há uma resistência em quem consegue viver dentro da própria cabeça sem que lhe falte o ar.

Os tempos estranhos que vivemos fazem-me pensar em coisas como esta. No pensamento como resistência, na imaginação como arma. Vivi toda a minha vida sem ser realmente confrontada com a possibilidade de haver ideias interditas. É impossível andar pelo mundo sem perceber que algumas ideias pesam mais do que outras, algumas convicções vêm com preços altos a pagar. Sabemos disso. Mas o mundo ocidental ofereceu-nos nas últimas décadas a ilusão de uma bolha de liberdade que começa agora a revelar as suas fissuras.

No site da Casa Branca está em destaque um comunicado de 16 de julho no qual se anuncia que a Administração americana “vai lançar uma campanha global para esmagar o terrorismo da extrema-esquerda”. A palavra “global” é importante, porque este é um anúncio sobre como esta luta se vai estender internacionalmente e não é por acaso que, entre os 60 países que aceitaram ir a uma reunião sobre esta estratégia, está Portugal. Há muito poucos anos, independentemente da filiação política de cada um, ninguém se atreveria a defender que um antifascista era um alvo abater. Os antifascistas eram aqueles poucos que tinham passado 48 anos a sofrer na pele a tortura, a clandestinidade, a perseguição e o exílio por ousarem pensar de forma diferente, por lutarem contra a injustiça, por quererem igualdade e liberdade. Querem que nos esqueçamos disso.

A Estratégia de Combate ao Terrorismo dos Estados Unidos para 2026, publicada em maio, aponta os antifascistas como terroristas. Não há uma definição clara de que atividades estão aqui em causa. Só um pensamento. Aparentemente, ser contra o fascismo é o problema. É um crime pensar assim. E a indefinição sobre os termos daquilo que é proibido pensar faz com que a regra se torne suficientemente elástica para pôr qualquer um em perigo. Não era isso o fascismo? E, se ser antifascista é um crime, é suposto os cidadãos americanos serem a favor do fascismo? Estas são perguntas que devem fazer todos os democratas pensar.

Nunca tive dúvidas de que pensar é a coisa mais perigosa que existe. Nunca tive dúvidas de que imaginar é a atividade mais subversiva de todas. Mas também nunca pensei chegar a ver o dia em que o pensamento voltasse a ser perseguido como um crime e em que a imaginação fosse erradicada, substituída pelas fórmulas mastigadas e vazias de vídeos de TikTok e criações de Inteligência Artificial.

Habituámo-nos a pensar que o fascismo era uma coisa com cheiro a ranço, guardada no formol dos museus. Esquecemo-nos de que o fascismo quando nasce é revolucionário, apanha o comboio da modernidade do momento, é futurista e deslumbrado com as tecnologias que lhe servem os propósitos de repressão. Começa por prometer abalar o sistema que falha, para depois o substituir por um novo sistema velho, muito mais podre e instalado.

E o problema está em abrir-lhes a porta. Deixar que entrem e nos digam quais são as pessoas proibidas, as bandeiras proibidas, os livros proibidos, as palavras proibidas, as ideias proibidas. Enquanto invocam a liberdade, amordaçam, enquanto invocam a segurança, atemorizam, enquanto invocam a ordem, espalham o caos. Conhecemos os métodos. Sabemos ao que vêm. Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.

Sabemos tudo dos livros e da nossa memória ou da dos outros. Mas isso não chega. E o problema não está só nos que entram, mas nos que lhes abrem a porta. Nos que fingem que está tudo bem. Nos que nos deixam frustrados com uma igualdade que não se cumpre, com uma liberdade que é um luxo exclusivo de alguns. É preciso dizer todas estas coisas em voz alta, uma e outra vez, antes de sermos obrigados a guardar para nós pensamentos que serão perseguidos. Outra vez. E desta vez com máquinas capazes de os adivinhar, com algoritmos capazes de nos fazer duvidar de nós próprios, com tecnologia capaz de nos aniquilar qualquer possibilidade de existência social antes mesmo de nos matar.

Nada está escrito antes de acontecer. As coisas não são inevitáveis. O pensamento não tem de voltar a ser proibido. A desigualdade não tem de ser galopante. A liberdade não tem de ser restringida. Repitam-no em voz alta e muitas vezes. E voltará a ser verdade.