Na capital da Albânia, os recepcionistas dos hotéis fazem questão de ressaltar que os protestos em andamento do lado de fora são totalmente pacíficos. Aparentemente, houve um número considerável de cancelamento de reservas desde que as manifestações em massa começaram no segundo trimestre. Mas, se perguntados diretamente, eles podem insinuar discretamente que veem com bons olhos a participação de turistas nos protestos. Todas as noites, pessoas de todas as idades se reúnem diante do escritório do primeiro-ministro Edi Rama para denunciar a corrupção e exigir sua renúncia.
A chamada “Revolução dos Flamingos” foi deflagrada por um acordo que muitos consideram questionável entre o governo albanês e Jared Kushner, genro do presidente americano Donald Trump. Assim, estamos testemunhando um efeito global inesperado do trumpismo: um governo que se alia ao governo mais corrupto da história dos Estados Unidos corre o risco de abrir espaço para que adversários internos se levantem contra ele.
Muita coisa pode mudar em um ano. Basta lembrar que, ao longo de 2025, comentaristas de todo o mundo denunciavam, com razão, a destruição da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e lamentavam o que o segundo mandato de Trump prenunciava para a democracia e os direitos humanos em escala global. A mensagem para os autocratas, em praticamente toda parte, era de que eles não enfrentariam resistência. Dado o conhecido apreço de Trump por líderes autoritários, eles poderiam até ser aplaudidos.
Foi assim que o presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, ordenou batidas policiais em várias ONGs apoiadas pela Usaid, justificando com entusiasmo esses ataques descarados à sociedade civil ao apontar para a designação da agência como uma “organização criminosa” feita por Elon Musk. Segundo algumas estimativas, o desmantelamento da Usaid levará a milhões de mortes; mas os autocratas do mundo encararam o fim da agência como algo puramente positivo.
Talvez os integrantes da chamada “Autocracia S.A.” devessem ter percebido que receber o apoio de Trump para suas atividades nefastas acabaria sendo uma faca de dois gumes. Afinal, a lógica política que tantos observadores lamentavam em 2025 poderia se inverter, e os vínculos com o regime de Trump passariam a ser vistos como prova da própria corrupção.
E assim aconteceu. Trump não é apenas profundamente impopular em boa parte do mundo, como aqueles que se opõem a governos aliados ao presidente americano podem agora explorar muito mais facilmente os argumentos sobre corrupção. Afinal, mesmo pessoas que não conhecem particularmente bem os meandros da política americana provavelmente já ouviram falar de escândalos como o presente do Catar a Trump: um “palácio voador da propina”.
A reação popular à corrupção à moda Trump parece descrever bem a situação na Albânia. Segundo a própria versão deles, Kushner e Ivanka Trump “descobriram” uma ilha maravilhosa na costa albanesa (Sazan estava longe de ser desconhecida, já que por muito tempo abrigou uma base militar albanesa). Além disso, eles encontraram essa joia e suas belas praias durante uma temporada no superiate de seu amigo bilionário Nathaniel Rothschild, na companhia de ninguém menos do que Edi Rama.
Poucos imaginariam que, apenas um ano atrás, o retorno de Trump à Casa Branca acabaria alimentando um movimento de massa em defesa da democracia e por mais transparência em todo o mundo. Os autocratas do mundo ganharam um novo inimigo: seu melhor amigo.
Pouco depois, Kushner e Ivanka Trump começaram a explorar a possibilidade de transformar em resort de luxo uma reserva natural oficialmente designada para a proteção de flamingos. Quando manifestantes locais se opuseram ao projeto, foram violentamente retirados por seguranças particulares. Mas tudo isso foi registrado em vídeo e as manifestações logo se espalharam do sul do país para Tirana. Agora, grandes manifestações são realizadas todas as noites, com destaque para flamingos de todos os tipos e formatos - de recortes de papelão a grandes infláveis cor-de-rosa.
Curiosamente, em meio às muitas bandeiras albanesas empunhadas pelos manifestantes, também aparecem bandeiras americanas. Em um país tradicionalmente pró-EUA, os cidadãos claramente querem deixar claro que sua mensagem não é antiamericana, mas contra a corrupção. O que eles rejeitam é a completa falta de transparência.
Trump é o catalisador perfeito para um movimento desse tipo porque é mais descaradamente corrupto do que a maioria dos líderes autoritários de hoje. Ele aceita com orgulho presentes extravagantes - de diamantes a pagamentos em criptomoedas - e depois, ao que tudo indica, “coincidentemente” reduz tarifas ou concede indultos em consequência disso. As evidências de operações com informação privilegiada e manipulação do mercado eram esmagadoras antes mesmos da rede social de Trump passar a vender explicitamente acesso antecipado a declarações do presidente capazes de mexer com os mercados.
A mensagem oficial da Casa Branca de Trump para o resto do mundo não poderia ser mais clara. Em 2025, ela “suspendeu” a aplicação da Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (Foreign Corrupt Practices Act), uma importante arma contra o suborno fora das fronteiras dos EUA. Depois, neste verão no Hemisfério Norte, esvaziou a Lei da Transparência Corporativa (Corporate Transparency Act), que já havia sido celebrada pelo secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, como “a lei mais importante contra a corrupção e a lavagem de dinheiro em décadas” - facilitado para criminosos americanos e estrangeiros se esconderem atrás de empresas de fachada.
Diante dessa mensagem, não chega a surpreender que aqueles que fazem negócios ostensivos com o nascente “Estado mafioso” de Trump acabem levantando suspeitas. Embora o discurso de Trump sobre “fake news” tenha ajudado autocratas de todas as partes do mundo a justificar ataques à imprensa, sua corrupção descarada também acabou chamando atenção para os próprios esquemas de favorecimento desses líderes.
No caso da Albânia, os manifestantes estão criticando tanto Rama quanto o líder da oposição, Sali Berisha, um ex-presidente e ex-primeiro-ministro. A condenação moral dos manifestantes recai sobre toda a classe política do país, que há muito tempo apenas finge apoiar a adesão à União Europeia, ao mesmo tempo em que torna esse desfecho menos provável ao atender os interesses de figuras como os Kushner. Parlamentares da União Europeia já alertaram Rama de que acordos que ignorem as regras do bloco podem colocar em risco a adesão do país.
Rama reclama que “se não fosse Jared Kushner... ninguém daria a mínima para os flamingos, para a Albânia, para nada. É todo esse ódio contra Trump que está provocando todo esse escrutínio”. Ele tem razão, embora não da maneira que pretendia. Poucos poderiam imaginar que, apenas um ano atrás, o retorno de Trump à Casa Branca acabaria alimentando um movimento de massa em defesa da democracia e por mais transparência em todo o mundo. Os autocratas do mundo, porém, ganharam um novo inimigo: seu melhor amigo.
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Monstruosamente normal
A violência de gênero contra as mulheres é uma epidemia global. De acordo com o relatório mais recente das Nações Unidas sobre feminicídios, ela vitima, em média, 140 mulheres por dia em todo o mundo, um número equivalente ao desaparecimento diário de uma pequena aldeia de mulheres. Na Espanha, a última pesquisa nacional sobre violência de gênero (2024) mostra que 9,2% das mulheres com 16 anos ou mais residentes no país sofreram violência física por parte de seus parceiros em algum momento de suas vidas (o que representa aproximadamente dois milhões de mulheres), 3% (629.994) nos quatro anos anteriores às entrevistas e 1,5% (326.298) no último ano. Esses números descrevem uma violação vergonhosa dos direitos humanos em escala planetária. E, no entanto, ela continua a crescer: um fluxo constante e feroz que corrói nossas sociedades, sem que a indignação imediata provocada por cada novo caso se traduza em mudanças estruturais duradouras.
O recente assassinato de Laura Cruz pelas mãos de seu ex-companheiro ilustra de forma contundente o mecanismo que perpetua essa violência em todos os cantos do mundo. A jovem indiana casada prematuramente; a sul-africana agredida na rua; a dona de casa abusada durante décadas pelo marido; ou, neste caso, uma agente da Guarda Civil assassinada por seu ex-companheiro, também agente da Guarda Civil. Todas compartilham a mesma perda fundamental vivenciada por todas as vítimas de violência de gênero: a perda do controle sobre suas próprias vidas.
A violência de gênero é diferente de qualquer outro crime violento. Ela ocorre dentro da família, justamente o lugar onde todos deveríamos nos sentir seguros. A violência é perpetrada por alguém não apenas conhecido da vítima, mas com quem ela compartilha afeto, intimidade, planos de vida e até mesmo filhos. Alguém que alega amar sua vítima. Esse tipo de violência é corrosivo e insidioso: muitas vezes permanece oculto até mesmo dos parentes mais próximos, porque as lesões físicas mais visíveis são frequentemente precedidas por feridas igualmente devastadoras: o abuso verbal e emocional.
Essa violência se alastra por meio de mecanismos psicológicos tóxicos baseados no controle obsessivo do agressor, que emprega uma ampla gama de estratégias para limitar, monitorar e dirigir a vida da mulher que afirma amar, minando progressivamente sua capacidade de tomar decisões e sua independência. Um argumento recorrente entre os agressores é que o amor intenso que sentem por suas parceiras domina completamente sua vontade, a ponto de levá-los a cometer atos de violência e crueldade inaceitáveis. A ideia de que amor e violência têm a mesma origem não é apenas enganosa: é aterradora. E é também uma ideia que nossa cultura tem alimentado por gerações por meio de narrativas românticas onde o ciúme é disfarçado de paixão e o controle é confundido com cuidado.
Em seu livro *Marcas Invisíveis *, a jornalista Sandra Susany retrata agressores marcados por um narcisismo exacerbado, propensos ao engano e à duplicidade, com vícios (principalmente álcool) que são mais ou menos visíveis e tolerados. Estudos acadêmicos acrescentam outros fatores associados a esse perfil: exposição à violência na infância, falta de apoio social, pobreza ou abuso de substâncias. Mas essas evidências provêm principalmente da análise de casos de violência que terminam em feminicídio, e o feminicídio é apenas o desfecho final de uma longa trajetória de abuso e agressão que muitas vezes permanece silenciada pelos inúmeros obstáculos que as vítimas enfrentam ao tentar denunciá-la.
A produção cultural dos últimos anos nos aproxima desse caminho, povoado por fantasmas, silêncios, medos e desolação absoluta. Séries como Querer retratam a rejeição social e familiar que uma mulher pode sofrer ao ousar denunciar décadas de violência doméstica. Muitas vítimas não denunciam porque sabem de antemão o calvário que as aguarda: tanto a polícia quanto o sistema judiciário oferecem ferramentas limitadas para protegê-las. Há lacunas particularmente difíceis de preencher, como os recursos financeiros das mulheres para reconstruir suas vidas, ou a lentidão e ineficácia dos intermináveis protocolos judiciais que obrigam a vítima a reviver seu trauma repetidamente perante autoridades, peritos e juízes. Frequentemente, os homens acusados encontram maneiras de se esquivar das obrigações financeiras e das penas criminais, enquanto o processo se arrasta por anos e a mulher permanece presa em um limbo jurídico que a mantém, de fato, vinculada ao seu agressor.
O caso de Laura Cruz é mais uma ilustração trágica dessa longa jornada, e também das limitações das instituições que deveriam proteger as vítimas. Ela tentou ativamente escapar, passo a passo, utilizando as ferramentas e os recursos que o sistema vigente lhe disponibilizava, sempre vigilante, fazendo tudo ao seu alcance para sair da situação em que estava presa. O pior é que o caso dela não é isolado: muitas mulheres que ousam denunciar o abuso acabam presas em um pesadelo sem fim, incapazes de se libertar completamente da experiência de maus-tratos.
Muitas mulheres que conseguem escapar de seus agressores ainda são obrigadas a manter contato com eles se compartilharem a guarda dos filhos. E mesmo sem filhos envolvidos, muitas vítimas continuam a viver em constante medo muito tempo depois de escaparem de uma situação de abuso, especialmente quando o processo legal termina com a prisão do agressor. Nesses casos, as idas e vindas da casa da vítima se tornam particularmente perigosas.
Tudo isso deveria nos levar a repensar a natureza complexa da violência de gênero. Embora ocorra na esfera privada e familiar, ela tem consequências muito graves para a saúde pública de milhões de pessoas em todo o mundo. Não é apenas um problema de Laura; ela teve o azar de escolher o parceiro errado. Se aconteceu com ela, pode acontecer com qualquer uma de nós. Tratá-la como uma série de tragédias individuais e distantes é justamente o que permitiu que a violência masculina permanecesse, ano após ano, uma das principais causas de morte violenta entre mulheres em todo o mundo.
Há quase três anos, a irmã de outra vítima de feminicídio, a estudante universitária italiana Giulia Cecchettin, assassinada pelo ex-companheiro, expressou sua dor com uma mensagem poderosa, com aquela clareza que só a dor às vezes proporciona. Elena Cecchettin lembrou a todos que seu luto não era privado, mas público e político, e que o assassino de sua irmã não era um “monstro” ou uma pessoa “depravada”, mas um indivíduo “monstruosamente normal”. As mulheres que tomaram as ruas de diversas cidades italianas naquela onda de manifestações carregavam as chaves de casa nas mãos, bem visíveis: uma forma de dizer que a violência de gênero não é algo que acontece apenas com outras mulheres. Esses homens comuns vivem em nossas casas, sentam-se às nossas mesas e, muitas vezes, nem sequer se dão conta de que estão reproduzindo um padrão que a sociedade os ensinou a confundir com amor. Reconhecer isso não é um exercício de culpa coletiva, mas o primeiro passo necessário para desmantelá-la.
O recente assassinato de Laura Cruz pelas mãos de seu ex-companheiro ilustra de forma contundente o mecanismo que perpetua essa violência em todos os cantos do mundo. A jovem indiana casada prematuramente; a sul-africana agredida na rua; a dona de casa abusada durante décadas pelo marido; ou, neste caso, uma agente da Guarda Civil assassinada por seu ex-companheiro, também agente da Guarda Civil. Todas compartilham a mesma perda fundamental vivenciada por todas as vítimas de violência de gênero: a perda do controle sobre suas próprias vidas.
A violência de gênero é diferente de qualquer outro crime violento. Ela ocorre dentro da família, justamente o lugar onde todos deveríamos nos sentir seguros. A violência é perpetrada por alguém não apenas conhecido da vítima, mas com quem ela compartilha afeto, intimidade, planos de vida e até mesmo filhos. Alguém que alega amar sua vítima. Esse tipo de violência é corrosivo e insidioso: muitas vezes permanece oculto até mesmo dos parentes mais próximos, porque as lesões físicas mais visíveis são frequentemente precedidas por feridas igualmente devastadoras: o abuso verbal e emocional.
Essa violência se alastra por meio de mecanismos psicológicos tóxicos baseados no controle obsessivo do agressor, que emprega uma ampla gama de estratégias para limitar, monitorar e dirigir a vida da mulher que afirma amar, minando progressivamente sua capacidade de tomar decisões e sua independência. Um argumento recorrente entre os agressores é que o amor intenso que sentem por suas parceiras domina completamente sua vontade, a ponto de levá-los a cometer atos de violência e crueldade inaceitáveis. A ideia de que amor e violência têm a mesma origem não é apenas enganosa: é aterradora. E é também uma ideia que nossa cultura tem alimentado por gerações por meio de narrativas românticas onde o ciúme é disfarçado de paixão e o controle é confundido com cuidado.
Em seu livro *Marcas Invisíveis *, a jornalista Sandra Susany retrata agressores marcados por um narcisismo exacerbado, propensos ao engano e à duplicidade, com vícios (principalmente álcool) que são mais ou menos visíveis e tolerados. Estudos acadêmicos acrescentam outros fatores associados a esse perfil: exposição à violência na infância, falta de apoio social, pobreza ou abuso de substâncias. Mas essas evidências provêm principalmente da análise de casos de violência que terminam em feminicídio, e o feminicídio é apenas o desfecho final de uma longa trajetória de abuso e agressão que muitas vezes permanece silenciada pelos inúmeros obstáculos que as vítimas enfrentam ao tentar denunciá-la.
A produção cultural dos últimos anos nos aproxima desse caminho, povoado por fantasmas, silêncios, medos e desolação absoluta. Séries como Querer retratam a rejeição social e familiar que uma mulher pode sofrer ao ousar denunciar décadas de violência doméstica. Muitas vítimas não denunciam porque sabem de antemão o calvário que as aguarda: tanto a polícia quanto o sistema judiciário oferecem ferramentas limitadas para protegê-las. Há lacunas particularmente difíceis de preencher, como os recursos financeiros das mulheres para reconstruir suas vidas, ou a lentidão e ineficácia dos intermináveis protocolos judiciais que obrigam a vítima a reviver seu trauma repetidamente perante autoridades, peritos e juízes. Frequentemente, os homens acusados encontram maneiras de se esquivar das obrigações financeiras e das penas criminais, enquanto o processo se arrasta por anos e a mulher permanece presa em um limbo jurídico que a mantém, de fato, vinculada ao seu agressor.
O caso de Laura Cruz é mais uma ilustração trágica dessa longa jornada, e também das limitações das instituições que deveriam proteger as vítimas. Ela tentou ativamente escapar, passo a passo, utilizando as ferramentas e os recursos que o sistema vigente lhe disponibilizava, sempre vigilante, fazendo tudo ao seu alcance para sair da situação em que estava presa. O pior é que o caso dela não é isolado: muitas mulheres que ousam denunciar o abuso acabam presas em um pesadelo sem fim, incapazes de se libertar completamente da experiência de maus-tratos.
Muitas mulheres que conseguem escapar de seus agressores ainda são obrigadas a manter contato com eles se compartilharem a guarda dos filhos. E mesmo sem filhos envolvidos, muitas vítimas continuam a viver em constante medo muito tempo depois de escaparem de uma situação de abuso, especialmente quando o processo legal termina com a prisão do agressor. Nesses casos, as idas e vindas da casa da vítima se tornam particularmente perigosas.
Tudo isso deveria nos levar a repensar a natureza complexa da violência de gênero. Embora ocorra na esfera privada e familiar, ela tem consequências muito graves para a saúde pública de milhões de pessoas em todo o mundo. Não é apenas um problema de Laura; ela teve o azar de escolher o parceiro errado. Se aconteceu com ela, pode acontecer com qualquer uma de nós. Tratá-la como uma série de tragédias individuais e distantes é justamente o que permitiu que a violência masculina permanecesse, ano após ano, uma das principais causas de morte violenta entre mulheres em todo o mundo.
Há quase três anos, a irmã de outra vítima de feminicídio, a estudante universitária italiana Giulia Cecchettin, assassinada pelo ex-companheiro, expressou sua dor com uma mensagem poderosa, com aquela clareza que só a dor às vezes proporciona. Elena Cecchettin lembrou a todos que seu luto não era privado, mas público e político, e que o assassino de sua irmã não era um “monstro” ou uma pessoa “depravada”, mas um indivíduo “monstruosamente normal”. As mulheres que tomaram as ruas de diversas cidades italianas naquela onda de manifestações carregavam as chaves de casa nas mãos, bem visíveis: uma forma de dizer que a violência de gênero não é algo que acontece apenas com outras mulheres. Esses homens comuns vivem em nossas casas, sentam-se às nossas mesas e, muitas vezes, nem sequer se dão conta de que estão reproduzindo um padrão que a sociedade os ensinou a confundir com amor. Reconhecer isso não é um exercício de culpa coletiva, mas o primeiro passo necessário para desmantelá-la.
Programa Bolsonaro: extermínio, entrega de minerais críticos e respeito a todos os arranjos familiares
O programa de Flávio Bolsonaro apresentado ao TSE, Para o Brasil vencer o atraso, registra formalmente um conjunto de moderações que o candidato já anunciava. Traz uma frase impensável no bolsonarismo de 2018 – “Este Plano respeita todos os arranjos familiares” – e uma série de acenos: manter os programas sociais (“nenhum brasileiro fica para trás”); tratar o meio ambiente como “ativo”; zerar o desmatamento ilegal; dar “autonomia” a povos indígenas e quilombolas (que já não são medidos em arrobas, como fez seu pai); proteger as mulheres com o que anuncia como o maior programa da história. E não fala em armamento: o marcador identitário central de anos atrás sai da vitrine.
Aliás, nos quatro planos de governo da direita registrados no TSE, os termos que definiram o ciclo anterior – “globalismo”, “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, “kit gay” – praticamente desapareceram. Em seu lugar, uma gramática punitivista-gerencial: “narcoterrorismo”, “terrorismo doméstico”, “Direito Penal do Inimigo”, “implacável”, “tesouraço”.
O desaparecimento desse léxico não significa que a guerra cultural acabou – significa que seus fronts se decidiram de forma desigual: na agenda de diversidade e ambiental, a direita e suas variantes extremas recuaram no vocabulário para não perder o centro; na punição, a extrema direita tem conseguido impor seu repertório.
Então uma pergunta se impõe: ainda estamos diante de um candidato de extrema direita?

A literatura internacional chama de normalização um traço definidor da onda contemporânea da extrema direita, e que significa duas coisas. Na Europa, o fato de os partidos criados à margem serem aos poucos incorporados na arena eleitoral ordinária. No campo das ideias, mais difusamente, o processo pelo qual suas bandeiras migram das margens para o centro do debate.
Há também um outro tipo de normalização dessa extrema direita, que é a incorporação de uma face moderna a líderes que defendem expressamente ou que já defenderam pautas contra legados básicos do iluminismo.
O caso clássico é a dédiabolisation, de Marine Le Pen: expulsar o pai, abandonar o antissemitismo explícito, profissionalizar o discurso, tudo sem alterar o núcleo do programa. Meloni governa dentro das metas fiscais da União Europeia; Bardella é o rosto palatável do lepenismo; Kast suavizou o tom no Chile. O programa de Flávio Bolsonaro é a tradução brasileira dessa gramática.
Se a desdiabolização é justamente a arte de mudar o que se diz e como se diz, o critério para classificar a extrema direita não pode estar apenas no vocabulário.
A posição dos atores no sistema político não se define apenas por ideias professadas – menos ainda pelas adotadas por conveniência. O lugar de extrema direita no espectro político é ocupado pela relação efetiva dos atores com a democracia constitucional: sua disposição de aceitar, justificar ou promover a sua interrupção. É o que eu, Isabela Kalil e Letícia Cesarino defendemos em livro sobre o conceito de extrema direita, que está prestes a ser lançado pela Editora Contracorrente.
Flávio silencia sobre o 8 de janeiro e sobre a anistia – e não precisa defendê-la expressamente, como faz Ronaldo Caiado. Ele é filho de Jair Bolsonaro: o preso, o pivô, o inelegível cuja absolvição é a razão de ser da própria candidatura. O sobrenome carrega o compromisso que o texto cala.
A relação com a democracia define a fronteira do campo. Mas o campo tem também um conteúdo.
O campo da direita brasileira se organiza em torno de três eixos de longa duração – o privatismo patrimonial e religioso, o patriotismo subalterno e o punitivismo seletivo –, atravessados por um quarto elemento, o antipluralismo, todos contra o programa da Constituição de 1988. A gradação política que vai da direita, passa pela extrema direita e chega à direita ultrarradical é a gradação da menor ou maior radicalização desses elementos. Este também é arranjo conceitual que propomos no livro que mencionei.
Estão todos esses elementos no programa de Flávio Bolsonaro.
Não é à toa: a demanda por segurança é imensa e totalmente legítima – provavelmente a mais legítima e popular das demandas brasileiras hoje. A extrema direita captura esse problema com o espetáculo punitivo, que não é uma política de segurança, antes é a sua canibalização.
Redução da maioridade penal, bandido que “vai virar pó”, cinco novos presídios de segurança máxima, batizados de TREVA, que seguirão, nas palavras do próprio texto, “o modelo adotado por El Salvador” – um país de cerca de 6 milhões de habitantes. Transpor esse arranjo para 213 milhões de brasileiros, em dimensão continental e com facções nacionalizadas há décadas, não é política pública: é fantasia de escala com custo constitucional – e de classe e raça – embutido.
O neoliberalismo distingue a extrema direita da América Latina de seus pares do norte global. O programa de Flávio é coerente com isso. Fala em retomada das desestatizações, corte de dez ministérios, vouchers para creche e escola, negociado sobre o legislado, cruzada contra a “República Sindical” e o “Tesouraço” como bandeira-síntese. O vocabulário da “prosperidade” – a CAIXA rebatizada de “Banco da Prosperidade” – dá nome à subjetividade que esse projeto fabrica: o indivíduo como empresa de si, responsável exclusivo pelo próprio êxito e pelo próprio fracasso. O capítulo “Brasil que Prospera” formula com clareza rara a individualização do risco social: a jornada é a que o cidadão “percorre pelas próprias pernas”. Até o que soa como aceno tem tradução privatista: o meio ambiente vira “ativo”, e a “autonomia” prometida a indígenas e quilombolas é a de “decidir sobre atividades produtivas em suas terras” – a abertura econômica dos territórios com vocabulário de autodeterminação.
Mas o programa faz com um giro notável também alinhado ao movimento transnacional. O trumpismo é inspirado pela corrente paleoconservadora da direita norte-americana, especialmente por Pat Buchanan, que propunha tarifas, protecionismo e nacionalismo econômico para proteger os “americanos esquecidos”. No programa de Flávio, não há protecionismo – há, sim, a linhagem do “privatizar tudo que for possível”. Mas existe uma inspiração retórica.
O texto promete que “nenhum brasileiro fica para trás”, fala ao povo “humilhado ao frequentar os supermercados” e invoca a gramática dos esquecidos que o MAGA de 2016 consagrou. A coesão que, lá, cabe ao nacionalismo econômico ou ao chauvinismo de bem-estar – o que aproxima o trumpismo da extrema direita europeia – coube, aqui, como sempre, à moral e à segurança.
Os mimetismos com a esquerda são uma tônica da extrema direita contemporânea, que copia dos adversários métodos e linguagens para pô-los a serviço de fins opostos. Este é mais um: falar aos “deixados para trás” é uma linguagem de proteção da classe trabalhadora que não existiria sem a esquerda que a criou. O programa a mimetiza sem os instrumentos – sem protecionismo, sem política social como direito e com o entreguismo como política externa.
O programa dedica seções inteiras à soberania, mas a define assim: “a soberania começa na porta da sua casa”. Esvaziada de conteúdo econômico e geopolítico – a família Bolsonaro insiste em subordinar o Brasil aos EUA –, a soberania vira sinônimo de segurança pública – e o que sobra da política externa é o alinhamento. O texto lamenta que as relações com Estados Unidos e Israel tenham sido “levadas ao limite do rompimento”, promete entregar minerais críticos e terras raras ao “capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo” e, diante das sanções norte-americanas a produtos brasileiros, oferece apenas “soluções diplomáticas eficazes”.
Ali se promete declarar PCC, CV e milícias “organizações narcoterroristas”. A categoria não é neutra. O “narcoterrorismo” é uma fórmula que circula pelo repertório transnacional da extrema direita das Américas – de Donald Trump a Nayib Bukele e Javier Milei – e cumpre dupla função: funde o crime organizado à esquerda política e, ao enquadrar facções brasileiras na moldura do terrorismo internacional, abre caminho para atuação norte-americana em território nacional, de sanções a pressões militares, e vem constituindo uma verdadeira estratégia de lawfare. Um programa que dedica um capítulo inteiro à palavra “soberania” adota, na sua primeira página programática, a categoria que mais a fragiliza.
O quarto elemento atravessa o documento em doses medidas. A escola será “livre de doutrinação político-partidária”, os professores formados “para ensinar bem, e não para militar em sala de aula”, as escolas cívico-militares ampliadas. A contradição merece ser dita: condena-se a suposta doutrinação ideológica e propõe-se a doutrinação literal – fardada, hierárquica, institucionalizada.
E o “Tesouraço na Censura”, contra o suposto “Ministério da Verdade” do governo atual – referência à Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD) –, mostra o mimetismo que marca o campo: a captura do vocabulário da liberdade de expressão, historicamente caro à esquerda e ao liberalismo político, como arma de guerra cultural.
O privatismo religioso e societal, por sua vez, comparece sem disfarce: o documento põe a “vida desde a concepção” entre os valores inegociáveis e define que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”. E nenhuma palavra sobre direitos reprodutivos, em um programa que se anuncia feito para as mulheres. A autoridade do pai sobre a família como espelho da autoridade do mercado sobre a sociedade.
A extrema direita é, por definição, a força que avança sobre os princípios básicos do liberalismo político – direitos universais, contrapesos, pluralismo – mesmo quando adota a sua língua. O vocabulário está lá; o conteúdo igualitário, não.
Deixaria de ser extrema direita o programa que abandonasse a fabricação do inimigo interno; que desradicalizasse os eixos que estruturam o campo; e que parasse de tensionar a democracia constitucional. Este documento não passa em nenhum dos três testes.
Mantém todos os inimigos: a “República Sindical”, as ONGs de “dinheiro estrangeiro”, os professores “militantes”, as facções fundidas à esquerda pelo “narcoterrorismo”. Definir-se pelo combate a adversários não é um monopólio da extrema direita: o campo progressista também se organiza contra algo – a concentração de renda, a exploração do trabalho, a dominação de gênero. A diferença está no estatuto do antagonista. Os alvos da esquerda são estruturas; os inimigos da extrema direita são particularizados. E é justamente essa inexistência que o torna indestrutível: cada desmentido é lido como prova de que o complô funciona.
O programa radicaliza os eixos: promete extermínio, exceção salvadorenha, entrega de minerais críticos e Estado mínimo. É a marca da direita radical: não rompe com a democracia constitucional; tensiona-a por dentro. E não é textual sobre a vertente ultrarradical – a que promove a abolição do Estado de direito – porque o filho de Bolsonaro não precisa dizê-lo.
A moderação é sinal de que o eleitorado radical é insuficiente e já está integralmente capturado e que é preciso novamente acenar a algum centro. É sinal, também, de que as pautas dos movimentos feminista, LGBTQIA+ e ambiental se tornaram majoritárias demais para serem confrontadas de frente.
A moderação, portanto, não revela uma extrema direita que mudou. A ambiguidade é calculada: incorporar o vocabulário liberal para esvaziar a esquerda, não para adotar sua agenda.
Aliás, nos quatro planos de governo da direita registrados no TSE, os termos que definiram o ciclo anterior – “globalismo”, “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, “kit gay” – praticamente desapareceram. Em seu lugar, uma gramática punitivista-gerencial: “narcoterrorismo”, “terrorismo doméstico”, “Direito Penal do Inimigo”, “implacável”, “tesouraço”.
O desaparecimento desse léxico não significa que a guerra cultural acabou – significa que seus fronts se decidiram de forma desigual: na agenda de diversidade e ambiental, a direita e suas variantes extremas recuaram no vocabulário para não perder o centro; na punição, a extrema direita tem conseguido impor seu repertório.
Então uma pergunta se impõe: ainda estamos diante de um candidato de extrema direita?
A literatura internacional chama de normalização um traço definidor da onda contemporânea da extrema direita, e que significa duas coisas. Na Europa, o fato de os partidos criados à margem serem aos poucos incorporados na arena eleitoral ordinária. No campo das ideias, mais difusamente, o processo pelo qual suas bandeiras migram das margens para o centro do debate.
Há também um outro tipo de normalização dessa extrema direita, que é a incorporação de uma face moderna a líderes que defendem expressamente ou que já defenderam pautas contra legados básicos do iluminismo.
O caso clássico é a dédiabolisation, de Marine Le Pen: expulsar o pai, abandonar o antissemitismo explícito, profissionalizar o discurso, tudo sem alterar o núcleo do programa. Meloni governa dentro das metas fiscais da União Europeia; Bardella é o rosto palatável do lepenismo; Kast suavizou o tom no Chile. O programa de Flávio Bolsonaro é a tradução brasileira dessa gramática.
Se a desdiabolização é justamente a arte de mudar o que se diz e como se diz, o critério para classificar a extrema direita não pode estar apenas no vocabulário.
A posição dos atores no sistema político não se define apenas por ideias professadas – menos ainda pelas adotadas por conveniência. O lugar de extrema direita no espectro político é ocupado pela relação efetiva dos atores com a democracia constitucional: sua disposição de aceitar, justificar ou promover a sua interrupção. É o que eu, Isabela Kalil e Letícia Cesarino defendemos em livro sobre o conceito de extrema direita, que está prestes a ser lançado pela Editora Contracorrente.
Flávio silencia sobre o 8 de janeiro e sobre a anistia – e não precisa defendê-la expressamente, como faz Ronaldo Caiado. Ele é filho de Jair Bolsonaro: o preso, o pivô, o inelegível cuja absolvição é a razão de ser da própria candidatura. O sobrenome carrega o compromisso que o texto cala.
A relação com a democracia define a fronteira do campo. Mas o campo tem também um conteúdo.
O campo da direita brasileira se organiza em torno de três eixos de longa duração – o privatismo patrimonial e religioso, o patriotismo subalterno e o punitivismo seletivo –, atravessados por um quarto elemento, o antipluralismo, todos contra o programa da Constituição de 1988. A gradação política que vai da direita, passa pela extrema direita e chega à direita ultrarradical é a gradação da menor ou maior radicalização desses elementos. Este também é arranjo conceitual que propomos no livro que mencionei.
Estão todos esses elementos no programa de Flávio Bolsonaro.
Não é à toa: a demanda por segurança é imensa e totalmente legítima – provavelmente a mais legítima e popular das demandas brasileiras hoje. A extrema direita captura esse problema com o espetáculo punitivo, que não é uma política de segurança, antes é a sua canibalização.
Redução da maioridade penal, bandido que “vai virar pó”, cinco novos presídios de segurança máxima, batizados de TREVA, que seguirão, nas palavras do próprio texto, “o modelo adotado por El Salvador” – um país de cerca de 6 milhões de habitantes. Transpor esse arranjo para 213 milhões de brasileiros, em dimensão continental e com facções nacionalizadas há décadas, não é política pública: é fantasia de escala com custo constitucional – e de classe e raça – embutido.
O neoliberalismo distingue a extrema direita da América Latina de seus pares do norte global. O programa de Flávio é coerente com isso. Fala em retomada das desestatizações, corte de dez ministérios, vouchers para creche e escola, negociado sobre o legislado, cruzada contra a “República Sindical” e o “Tesouraço” como bandeira-síntese. O vocabulário da “prosperidade” – a CAIXA rebatizada de “Banco da Prosperidade” – dá nome à subjetividade que esse projeto fabrica: o indivíduo como empresa de si, responsável exclusivo pelo próprio êxito e pelo próprio fracasso. O capítulo “Brasil que Prospera” formula com clareza rara a individualização do risco social: a jornada é a que o cidadão “percorre pelas próprias pernas”. Até o que soa como aceno tem tradução privatista: o meio ambiente vira “ativo”, e a “autonomia” prometida a indígenas e quilombolas é a de “decidir sobre atividades produtivas em suas terras” – a abertura econômica dos territórios com vocabulário de autodeterminação.
Mas o programa faz com um giro notável também alinhado ao movimento transnacional. O trumpismo é inspirado pela corrente paleoconservadora da direita norte-americana, especialmente por Pat Buchanan, que propunha tarifas, protecionismo e nacionalismo econômico para proteger os “americanos esquecidos”. No programa de Flávio, não há protecionismo – há, sim, a linhagem do “privatizar tudo que for possível”. Mas existe uma inspiração retórica.
O texto promete que “nenhum brasileiro fica para trás”, fala ao povo “humilhado ao frequentar os supermercados” e invoca a gramática dos esquecidos que o MAGA de 2016 consagrou. A coesão que, lá, cabe ao nacionalismo econômico ou ao chauvinismo de bem-estar – o que aproxima o trumpismo da extrema direita europeia – coube, aqui, como sempre, à moral e à segurança.
Os mimetismos com a esquerda são uma tônica da extrema direita contemporânea, que copia dos adversários métodos e linguagens para pô-los a serviço de fins opostos. Este é mais um: falar aos “deixados para trás” é uma linguagem de proteção da classe trabalhadora que não existiria sem a esquerda que a criou. O programa a mimetiza sem os instrumentos – sem protecionismo, sem política social como direito e com o entreguismo como política externa.
O programa dedica seções inteiras à soberania, mas a define assim: “a soberania começa na porta da sua casa”. Esvaziada de conteúdo econômico e geopolítico – a família Bolsonaro insiste em subordinar o Brasil aos EUA –, a soberania vira sinônimo de segurança pública – e o que sobra da política externa é o alinhamento. O texto lamenta que as relações com Estados Unidos e Israel tenham sido “levadas ao limite do rompimento”, promete entregar minerais críticos e terras raras ao “capital estrangeiro e a tecnologia que já existem no mundo” e, diante das sanções norte-americanas a produtos brasileiros, oferece apenas “soluções diplomáticas eficazes”.
Ali se promete declarar PCC, CV e milícias “organizações narcoterroristas”. A categoria não é neutra. O “narcoterrorismo” é uma fórmula que circula pelo repertório transnacional da extrema direita das Américas – de Donald Trump a Nayib Bukele e Javier Milei – e cumpre dupla função: funde o crime organizado à esquerda política e, ao enquadrar facções brasileiras na moldura do terrorismo internacional, abre caminho para atuação norte-americana em território nacional, de sanções a pressões militares, e vem constituindo uma verdadeira estratégia de lawfare. Um programa que dedica um capítulo inteiro à palavra “soberania” adota, na sua primeira página programática, a categoria que mais a fragiliza.
O quarto elemento atravessa o documento em doses medidas. A escola será “livre de doutrinação político-partidária”, os professores formados “para ensinar bem, e não para militar em sala de aula”, as escolas cívico-militares ampliadas. A contradição merece ser dita: condena-se a suposta doutrinação ideológica e propõe-se a doutrinação literal – fardada, hierárquica, institucionalizada.
E o “Tesouraço na Censura”, contra o suposto “Ministério da Verdade” do governo atual – referência à Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia (PNDD) –, mostra o mimetismo que marca o campo: a captura do vocabulário da liberdade de expressão, historicamente caro à esquerda e ao liberalismo político, como arma de guerra cultural.
O privatismo religioso e societal, por sua vez, comparece sem disfarce: o documento põe a “vida desde a concepção” entre os valores inegociáveis e define que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”. E nenhuma palavra sobre direitos reprodutivos, em um programa que se anuncia feito para as mulheres. A autoridade do pai sobre a família como espelho da autoridade do mercado sobre a sociedade.
A extrema direita é, por definição, a força que avança sobre os princípios básicos do liberalismo político – direitos universais, contrapesos, pluralismo – mesmo quando adota a sua língua. O vocabulário está lá; o conteúdo igualitário, não.
Deixaria de ser extrema direita o programa que abandonasse a fabricação do inimigo interno; que desradicalizasse os eixos que estruturam o campo; e que parasse de tensionar a democracia constitucional. Este documento não passa em nenhum dos três testes.
Mantém todos os inimigos: a “República Sindical”, as ONGs de “dinheiro estrangeiro”, os professores “militantes”, as facções fundidas à esquerda pelo “narcoterrorismo”. Definir-se pelo combate a adversários não é um monopólio da extrema direita: o campo progressista também se organiza contra algo – a concentração de renda, a exploração do trabalho, a dominação de gênero. A diferença está no estatuto do antagonista. Os alvos da esquerda são estruturas; os inimigos da extrema direita são particularizados. E é justamente essa inexistência que o torna indestrutível: cada desmentido é lido como prova de que o complô funciona.
O programa radicaliza os eixos: promete extermínio, exceção salvadorenha, entrega de minerais críticos e Estado mínimo. É a marca da direita radical: não rompe com a democracia constitucional; tensiona-a por dentro. E não é textual sobre a vertente ultrarradical – a que promove a abolição do Estado de direito – porque o filho de Bolsonaro não precisa dizê-lo.
A moderação é sinal de que o eleitorado radical é insuficiente e já está integralmente capturado e que é preciso novamente acenar a algum centro. É sinal, também, de que as pautas dos movimentos feminista, LGBTQIA+ e ambiental se tornaram majoritárias demais para serem confrontadas de frente.
A moderação, portanto, não revela uma extrema direita que mudou. A ambiguidade é calculada: incorporar o vocabulário liberal para esvaziar a esquerda, não para adotar sua agenda.
Na estação das escolhas
Todos os políticos devem estar sob o mesmo escrutínio popular, eles representarão o país inteiro e, por isso, têm contas a prestar. Porém, não se pode tratar todo mundo com a mesma desconfiança. Há uma convicção disseminada de que eles e elas estão nesse caminho para ter vantagem pessoal. Esse sentimento difuso não surgiu à toa. Veio na esteira dos inúmeros escândalos políticos, das desculpas esfarrapadas dadas por muitos, e das imagens dos dinheiros em caixas, malas, bolsas, cofres, cuecas. No país das altas taxas de juros, nenhum dinheiro guardado em casa, em grande quantidade, parecerá inocente. No banco estaria rendendo.
Na semana passada, os candidatos tiveram que divulgar sua evolução patrimonial. Uma saudável rotina. Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, apresentou o valor de R$ 274.503 de patrimônio acumulado em 40 anos de vida pública. Alguns órgãos de imprensa destacaram no título que ela teve um aumento de 87%, descontada a inflação, nos seus bens. É justo escrever isso? Não é. Os números podem enganar, distorcer e alimentar o perigoso estigma que cerca a imagem dos políticos.
Perguntei à deputada e candidata ao Senado por São Paulo, como foi essa evolução. Marina Silva tem uma aposentadoria como professora em torno R$ 5 mil. Isso é respeito ao dinheiro público. Ela optou por se aposentar como professora. Se o fizesse como parlamentar ou ministra teria um benefício muito maior. Durante o período sem mandato, fez palestras, o que lhe dava renda em torno de R$ 10 mil por mês, em média.
— Quando passei a ser deputada minha renda aumentou para R$ 40 mil. Eu usei os recursos extras para ajudar minhas irmãs e guardei um pouco. Meu patrimônio então saiu de em torno de R$121 mil para R$ 274 mil. Poderia ser destacado que eu sou a mais pobre entre os candidatos a senador, ainda que não veja demérito em ter uma renda maior do que a minha, mas ao pegarem apenas o acréscimo percentual sem a explicação devida iniciaram um processo, no qual tenho recebido críticas.
A ex-ministra Simone Tebet saiu de R$ 2,3 milhões para R$ 10,6 milhões e também explicou, quando divulgou os números, o fato de ter triplicado seu patrimônio. Foi consequência de ter recebido de sua mãe uma herança antecipada. Isso é facilmente verificável.
É natural que o país se debruce sobre esses números em busca de alguma estranheza. Mas é bom lembrar que os que estão na vida pública com más intenções costumam esconder com fórmulas espúrias, contas em paraísos fiscais e outros estratagemas o que realmente amealharam. No tempo da informação rápida, o que ficou foi o número do aumento dos bens, em títulos que davam a falsa impressão.
A falha ao dar a notícia, desinforma. O perigo maior não é atingir uma pessoa com a desconfiança injusta. A questão que trato aqui não é individual, mas coletiva. Se prevalece a interpretação de que todos os políticos estão na política para enriquecer, a democracia vai sendo minada.
A democracia no Brasil atravessa mil riscos. Há os que a desmoralizam em transações ilegais, há os que a ameaçam porque não acreditam nela e preferem o modelo autocrata ou ditatorial que levam a caminhos nos quais a gente já se perdeu muitas vezes na História da República. Foram tantos os descaminhos que se pode dizer que há um veio de autoritarismo estrutural na política brasileira. A luta contra esse desvio tem que ser constante na nossa vida cívica.
Este autoritarismo de fundamentos é reativado a cada momento em que se espalha a ideia de que todos os políticos são iguais e corruptos. Assim nascem os salvadores autocratas. A antipolítica levou milhares às ruas em 2013 no Brasil. A raiva foi galvanizada pela extrema direita. Dez anos depois, o país viu a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. O movimento foi estimulado pelo governo que tentou um golpe de Estado.
Faltam 47 dias para as eleições e a última pesquisa Quaest mostrou que na espontânea da disputa presidencial, 51% ainda estão indecisos. Na estimulada do primeiro turno 30% dizem que podem mudar o voto atual.
Nas eleições para o Legislativo, a indefinição ainda é maior. Estamos, portanto, em plena estação das escolhas democráticas. A nossa sabedoria será testada. É agora que eleitoras e eleitores tomarão suas decisões. É fundamental lutar contra o desalento que nasce das generalizações indevidas. Há candidatos e candidatas que querem sinceramente servir ao país.
Na semana passada, os candidatos tiveram que divulgar sua evolução patrimonial. Uma saudável rotina. Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, apresentou o valor de R$ 274.503 de patrimônio acumulado em 40 anos de vida pública. Alguns órgãos de imprensa destacaram no título que ela teve um aumento de 87%, descontada a inflação, nos seus bens. É justo escrever isso? Não é. Os números podem enganar, distorcer e alimentar o perigoso estigma que cerca a imagem dos políticos.
Perguntei à deputada e candidata ao Senado por São Paulo, como foi essa evolução. Marina Silva tem uma aposentadoria como professora em torno R$ 5 mil. Isso é respeito ao dinheiro público. Ela optou por se aposentar como professora. Se o fizesse como parlamentar ou ministra teria um benefício muito maior. Durante o período sem mandato, fez palestras, o que lhe dava renda em torno de R$ 10 mil por mês, em média.
— Quando passei a ser deputada minha renda aumentou para R$ 40 mil. Eu usei os recursos extras para ajudar minhas irmãs e guardei um pouco. Meu patrimônio então saiu de em torno de R$121 mil para R$ 274 mil. Poderia ser destacado que eu sou a mais pobre entre os candidatos a senador, ainda que não veja demérito em ter uma renda maior do que a minha, mas ao pegarem apenas o acréscimo percentual sem a explicação devida iniciaram um processo, no qual tenho recebido críticas.
A ex-ministra Simone Tebet saiu de R$ 2,3 milhões para R$ 10,6 milhões e também explicou, quando divulgou os números, o fato de ter triplicado seu patrimônio. Foi consequência de ter recebido de sua mãe uma herança antecipada. Isso é facilmente verificável.
É natural que o país se debruce sobre esses números em busca de alguma estranheza. Mas é bom lembrar que os que estão na vida pública com más intenções costumam esconder com fórmulas espúrias, contas em paraísos fiscais e outros estratagemas o que realmente amealharam. No tempo da informação rápida, o que ficou foi o número do aumento dos bens, em títulos que davam a falsa impressão.
A falha ao dar a notícia, desinforma. O perigo maior não é atingir uma pessoa com a desconfiança injusta. A questão que trato aqui não é individual, mas coletiva. Se prevalece a interpretação de que todos os políticos estão na política para enriquecer, a democracia vai sendo minada.
A democracia no Brasil atravessa mil riscos. Há os que a desmoralizam em transações ilegais, há os que a ameaçam porque não acreditam nela e preferem o modelo autocrata ou ditatorial que levam a caminhos nos quais a gente já se perdeu muitas vezes na História da República. Foram tantos os descaminhos que se pode dizer que há um veio de autoritarismo estrutural na política brasileira. A luta contra esse desvio tem que ser constante na nossa vida cívica.
Este autoritarismo de fundamentos é reativado a cada momento em que se espalha a ideia de que todos os políticos são iguais e corruptos. Assim nascem os salvadores autocratas. A antipolítica levou milhares às ruas em 2013 no Brasil. A raiva foi galvanizada pela extrema direita. Dez anos depois, o país viu a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. O movimento foi estimulado pelo governo que tentou um golpe de Estado.
Faltam 47 dias para as eleições e a última pesquisa Quaest mostrou que na espontânea da disputa presidencial, 51% ainda estão indecisos. Na estimulada do primeiro turno 30% dizem que podem mudar o voto atual.
Nas eleições para o Legislativo, a indefinição ainda é maior. Estamos, portanto, em plena estação das escolhas democráticas. A nossa sabedoria será testada. É agora que eleitoras e eleitores tomarão suas decisões. É fundamental lutar contra o desalento que nasce das generalizações indevidas. Há candidatos e candidatas que querem sinceramente servir ao país.
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