segunda-feira, 8 de junho de 2026
As interferências na luta eleitoral
Começou a temporada do uso político de Deus, uma manipulação permitida e incentivada por líderes evangélicos. A declaração de Flávio Bolsonaro de que é uma “guerra espiritual” e “uma luta contra o mal”, se referindo à eleição deste ano, no qual ele é um dos pré-candidatos, repete o roteiro de abuso do poder religioso. Pastores, por serem líderes seguidos pela congregação, restringem a liberdade de escolha dos fiéis ao se posicionarem tão explicitamente em uma questão que deveria estar restrita ao campo cívico. O político que se utiliza disso está tendo uma atitude farisaica.
Flávio Bolsonaro não tem qualquer intimidade com a pauta evangélica e faz isso exclusivamente por oportunismo eleitoral. A democracia fica vulnerável quando isso acontece, porque as igrejas se tornam currais eleitorais e a Justiça Eleitoral pouco pode fazer contra essa distorção, sem ser acusada de ferir a liberdade de culto. O direito de professar a fé nada tem a ver com uso político dos púlpitos e sua transformação em palanques. A fronteira difusa que pastores criaram nos cultos e nos atos públicos como a “Marcha para Jesus” nunca foi demarcada pela legislação eleitoral.
O que aconteceu na “Marcha para Jesus” de São Paulo este ano é lamentável sob todos os pontos de vista. A presença de Flávio Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas é campanha antecipada, é uso da religião como estratégia política num país laico, e é mentira. O que está acontecendo este ano no país não é uma guerra espiritual e sim uma disputa de projetos políticos em que cada cidadão e cada cidadã deveria ter o direito de escolher livremente. O constrangimento que muitas denominações evangélicas impõem sobre os seus membros é um ato político-eleitoral. Não deveria ocorrer, não é aceitável, porém não se sabe como neutralizar.
A luta eleitoral por si só é intensa e há muito espaço para a comparação de ideias e projetos. Deveria ficar restrita a este lugar. Mas a direita nos últimos tempos tem imposto a interferência de outros campos na arena política. O conceito de pátria que pertence a todos tem sido apropriado por eles através do sequestro da bandeira e do hino nacional.
Na época da ditadura, os militares se colocavam como detentores do monopólio dos símbolos da pátria. Da mesma forma fez a extrema direita atual. Os manifestantes bolsonaristas abraçavam a bandeira e entoavam o hino enquanto preparavam um golpe de Estado, como se viu no 8 de janeiro. Até o plano de assassinatos de adversários foi definido pelos golpistas como “punhal verde e amarelo”. Este ano em que todos estaremos juntos torcendo pela seleção, eles vestirão a camisa amarela como se ela fosse só deles.
Esse suposto entusiasmo com as cores nacionais ficou comprometido diante do que os líderes bolsonaristas têm feito ao estimular o ataque à economia brasileira. Ao pedir novas tarifas sobre produtos brasileiros, na verdade, trabalham para o enfraquecimento do país.
O ex-presidente Jair Bolsonaro usou as igrejas evangélicas em favor de sua candidatura nas duas disputas presidenciais das quais participou. Foi bem-sucedido na trama. Esse segmento eleitoral, instrumentalizado pelos pastores, votou maciçamente no candidato da extrema direita. Houve até pastores em marchas cristãs fazendo arminha com a mão. Agora seu filho, Flávio Bolsonaro, tem a mesma desfaçatez do pai e tenta usar Deus como parte do seu arsenal de campanha. Ao subir no palanque no dia de Corpus Christi, ele disse que não estava ali como candidato, mas como cristão. Era mentira. As afirmações que fez no mesmo dia mostraram isso. “Vamos orar pelo nosso Brasil, essa guerra é espiritual. E hoje a maior resposta que podemos dar ao mal, que vai ser expulso do governo do Brasil esse ano”, disse ele, claramente manipulando a fé.
A Justiça Eleitoral precisa encontrar uma forma de deter esse uso de símbolos religiosos. O ministro Luiz Edson Fachin tentou tipificar o abuso do poder religioso como um ilícito eleitoral específico que poderia levar à perda do mandato. A maioria do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou a proposta. O tema, contudo, permanecerá na agenda. Cada período eleitoral será temporada da demagogia religiosa em que aparecem os fariseus, os falsos profetas e os vendilhões do templo. Isso restringe a liberdade do voto, por isso é uma questão a ser enfrentada pela Justiça.Isso restringe a liberdade do voto, por isso é uma questão a ser enfrentada pela Justiça.
Míriam Leitão
Nasce um otário por segundo
Não faltou quem me instruísse. Um influencer é alguém que usa instagrams, youtubes, tiktoks e que tais para produzir vídeos, fotos e textos sobre si mesmo e atrair seguidores que se deixam "impactar por suas opiniões, sugestões, rotinas, atitudes e opções de consumo". E que, devidamente impactados, passam a regular por ele suas preferências. Em quê? "Em tudo: moda, games, viagens, gastronomia, até aplicações financeiras". "Sério?", perguntei. E o que o influencer ganha com isso? "Fábulas —é pago pelos serviços e marcas que ‘recomenda’. Descubra quantos o seguem e calcule a grana que isso rende."
No Brasil, me disseram, um influencer que se preze tem de 1 milhão a 100 milhões de seguidores. Quis saber quais eram os principais e ouvi nomes como Neymar, Ronaldinho Gaúcho, Anitta, Vinicius Jr., Ivete Sangalo. Até aí tudo bem —são famosos, com profissão definida, não falta quem queira ser como eles.
Mas quem é Virginia Fonseca, com 56 milhões de seguidores? O que ela faz? E Camila Pudim, Açucena Guerra, Gustavo Tubarão, Pamela Fuego, Andressa Suíta? E sumidades com nomes como Hytalo, Thallysson, Sunaika, Pkllipe, Wueverton e Leuriscleia? Mais importante ainda: quem são os milhões de brasileiros que os seguem?
P.T. Barnum (1810-91), inventor do mafuá de horrores, deixou uma frase que parecia imortal: "Nasce um otário por minuto". Isso já era. Hoje é por segundo.
Engrenagem da distorção política: da Marmita à Inteligência Artificial
Entra eleição, sai eleição, e as pesquisas de opinião pública apontam que os eleitores, quando perguntados, dizem não à pancadaria e pedem a exposição de ideias que possam melhorar suas vidas. Na teoria, é o que parecem desejar. Na verdade, eles amam conflitos e se sentem atraídos pela troca de desaforos. A emoção é o que define o voto; a razão fica em segundo plano. A imagem vale mais do que mil palavras, embora uma palavra fora do lugar ou uma sentença tirada de contexto possa causar estragos severos.
Em maio de 1998, durante seu primeiro mandato, o presidente Fernando Henrique Cardoso criticou os privilégios do sistema previdenciário e declarou que aqueles que se aposentavam com menos de 50 anos de idade eram “vagabundos”. A frase exata dita por ele foi: “Fiz a reforma da Previdência para que aqueles que se locupletam da Previdência não se locupletem mais, não se aposentem com menos de 50 anos, não sejam vagabundos em um país de pobres e miseráveis”.
Na época, o governo federal tentava aprovar uma reforma da Previdência Social para instituir uma idade mínima para as aposentadorias. O argumento central do presidente era o de que o sistema permitia que pessoas relativamente jovens, muitas vezes com altos salários, se aposentassem cedo demais, gerando um forte déficit financeiro e injustiça social em relação à população mais pobre. Fernando Henrique passou anos explicando o que verdadeiramente quis dizer. Não adiantou.
Histórias semelhantes vêm de longe. O brigadeiro Eduardo Gomes nunca usou a palavra “marmiteiros” em seu discurso. A associação de seu nome a esse termo foi o resultado de uma das primeiras e mais eficazes estratégias de distorção política (ou fake news) da história eleitoral brasileira, ocorrida durante a campanha presidencial de 1945. No dia 19 de novembro daquele ano, em um discurso para as elites cariocas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ele criticou os apoiadores remanescentes do ditador Getúlio Vargas. Ao responder sobre o alinhamento com esses grupos, ele afirmou textualmente que “dispensava o voto da malta de desocupados”.
O que fez o empresário e político Hugo Borghi, que era um forte aliado de Getúlio Vargas e coordenava a propaganda do candidato concorrente, o general Eurico Gaspar Dutra? Buscou o termo “malta” no dicionário e encontrou definições que incluíam tanto “bando de desocupados” quanto “grupo de operários itinerantes que viajavam carregando suas próprias marmitas”. Então, usou sua rede de rádio para desconstruir o favoritismo do brigadeiro. Deu certo.
Diz-se que a disseminação de notícias falsas por meios eletrônicos foi o ponto forte da campanha de 2018, que elegeu Jair Bolsonaro presidente — e foi, sem desprezo à facada que ele levou em Juiz de Fora. Pois bem: em tempos de redes sociais e de Inteligência Artificial, preparem-se para saber diferenciar entre fato, distorção e mentira. Não será fácil. E muitos crimes serão cometidos.
Vivemos numa sociedade que testa todos os dias a nossa sanidade
Escrevo inspirada pela peça “O motociclista no globo da morte”, uma combinação de acertos entre Leonardo Netto (texto), Du Moscovis (ator) e Rodrigo Portella (direção). Em tempos difíceis de se colocar um espetáculo em pé, só mesmo tendo uma boa história para contar, de um jeito envolvente e por um ator/atriz que convença a plateia de que é outra pessoa. E como fiquei convencida de estar diante do perplexo Antônio, que viveu o que viveu no Bar do Zeca. Por favor, não perca. “O motociclista” está em turnê pelo país e deve ficar um longo período em carta
O texto é tão rico, com tantas nuances reveladoras sobre o ser humano, que poderia render uma tese, um ensaio, mas tentarei resumir neste restinho de página: trata-se de um combate entre culturas. Por cerca de uma hora, assistimos a luta entre quem tem embasamento civilizatório, através da leitura e da ética, e quem não tem. Mas quem não tem, não está vazio, ao contrário. Está impregnado de machismo, de ignorância e de brutalidade, a única via de ascensão que dispõe. A violência é uma cultura também, que tentamos combater promovendo a paz e a sabedoria. O problema é quando, no limite da exaustão, adotamos o método dela para enfrentá-la. Nossa espinha dorsal, solidamente construída com valores dignos, desaba.
“Nada mais humano do que ser desumano”, reflete o contador dessa história, magnificamente interpretado por Moscovis, que nos faz ver, ouvir, sentir, se horrorizar e ser vingados por tudo o que ele narra diante da plateia, sentado em uma cadeira. Horrorizamo-nos, por sermos pessoas decentes, e ao mesmo tempo nos sentimos vingados porque somos selvagens corteses, que não extravasam a própria animalidade, mas que secretamente se regozijam quando alguém que é boa gente se perde de si mesmo e vai às últimas consequências, caindo no abismo em nosso lugar.
É perturbador viver em uma sociedade doente, que testa, todos os dias, a nossa sanidade. Adoro as saborosas comédias brasileiras, que nos fazem refletir sobre a vida sem sentir dor, mas congratulo a coragem de autores que chamam a nossa dor para conversar bem de perto.
Traidores à vista!
Inaugurada em maio, ela andava em bom ritmo. A 15 de julho José Bonifácio deixou o comando do governo, na sequência da intriga que já o fizera pedir demissão uma vez. Sentia-se cansado. A 1º de setembro foi apresentado o projeto de Constituição, redigido pela comissão de que ele fazia parte e de que seu irmão Antônio Carlos era o principal redator. A 5 o jornal O Tamoio publicou uma conversa em que falava em se retirar para descansar — quatro anos antes ele pedira demissão de seu cargo de Secretário Perpétuo da Academia de Ciências de Lisboa com este mesmo objetivo: ir para casa, gozar de seus livros e suas coleções mineralógicas. A tarefa constitucional está terminada, nada tem a acrescentar ao projeto apresentado. Pede que um intermediário leve ao Imperador a sugestão de que seja aprovado por aclamação; D. Pedro recusa a proposta.
José Bonifácio tem pronta para apresentar uma Representação sobre a Escravatura. Suas ideias são conhecidas. Diz que o Brasil é a última nação “de sangue europeu” a permitir o tráfico. Propõe emancipação gradual, não abolição imediata. Mas também coisas revolucionárias: que os libertos recebam sesmarias para cultivar, seja corrigida a distribuição de terras; que as mulheres não possam ser separadas dos maridos e dos filhos; que elas tenham um mês de descanso depois do parto; que os senhores sejam responsáveis pelo sustento dos libertos velhos…
Dizia: “Comecemos desde já esta grande obra pela expiação de nossos crimes e pecados velhos.” “Sem a abolição total do infame tráfico da escravatura africana e sem a emancipação sucessiva dos atuais cativos nunca o Brasil firmará sua independência nacional.” “Nossas preciosas matas vão desaparecendo, vítimas do fogo e do machado destruidor, da ignorância e do egoísmo; nossos montes e encostas vão-se escalvando diariamente e com o andar do tempo faltarão as chuvas fecundantes que favoreçam a vegetação e alimentem nossas fontes e rios, sem o que o nosso belo Brasil em menos de dois séculos ficará reduzido aos páramos e desertos áridos da Líbia. Virá então esse dia terrível e fatal em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos.”
Como consequência da Vilafrancada, golpe de Estado absolutista dado por D. Miguel, em junho, D. João VI é novamente aclamado rei. De Lisboa vem um canto de sedução pelo desfazimento da Independência. Há uma natural reação nativista, de que tomam parte os Andrada. Ao mesmo tempo vários inimigos políticos de José Bonifácio se movimentam. Na madrugada de 12 de novembro de 1823 a Assembleia, que está em sessão permanente em razão dos boatos que varrem a cidade, é cercada por soldados e recebe um decreto de dissolução.
Joaquim Nabuco levantou a tese de que a causa real da dissolução da Constituinte foi a ameaça que constituía à escravidão. Não há dúvida que uma pessoa teve participação decisiva no golpe: a amante do Imperador, a quem José Bonifácio só se referia como michela, que enriqueceu intermediando favores imperiais. Se houve uma ou várias conspirações coincidentes não se sabe. O certo é que por seis anos os Andradas e seus colaboradores mais próximos foram afastados da política brasileira e que D. Pedro I, tendo outorgado uma Constituição que previa um parlamento representativo, governou como monarca absoluto. A escravidão sobreviveu quase 65 anos, a reforma agrária demorou mais de 160, a natureza…
Quando há uma busca exacerbada do poder há um maior apelo à traição. Um caso paradigmático é o de Louis Napoleón. Sobrinho do primeiro imperador, participa do exílio da família. Passa a infância na Suíça, sem receber qualquer educação, desfrutando de grande fortuna. A queda de Charles X e a ascensão de Louis-Phillipe não o livra do exílio. Ele e o irmão se metem num golpe contra o Papa, fogem, pegam sarampo — o irmão morre — e ele é resgatado pela mãe. Recebe formação militar e passa a conspirar contra a França. Em 1836 tenta levantar Strasbourg, é rapidamente preso e novamente exilado. Adota um lema: “nação, povo, autoridade”. Sua intensa propaganda faz com que a França exija sua expulsão da Suíça e mantenha grande tropa na fronteira. Vai para Londres. Tenta imitar o tio e desembarca em Boulogne-sur-Mer para marchar para Paris. É novamente preso. Sua “cadeia” é extremamente confortável. Foge. Com a República de 1848 se apresenta como candidato a deputado e é eleito. Lamartine tenta manter seu exílio, mas é derrotado. Pego em nova conspiração, renuncia. Novamente candidato, novamente eleito deputado. Se candidata a presidente da República. É eleito. Passa a usar as insígnias imperiais. Governa em conflito constante com a Assembleia. Em dezembro de 1851 dá um golpe de Estado. Há muitos mortos. Faz um plebiscito: é vitorioso sob um regime de terror. Diz que a “França sai da legalidade para entrar no Direito”, isto é, lhe ser submissa. A nova Constituição lhe dá um mandato de dez anos. Em novembro de 1852 é imperador! Durante 18 anos pensa que é um grande homem. É um asno. Termina prisioneiro dos alemães, a quem entrega um país enfraquecido.
Citei dois casos muito diferentes, poderia citar muitos outros. A lição da História não pode ser mais clara: a traição não faz parte do jogo democrático, ela age à margem e contra ele. Sem regras, ela se aproveita de todas as armas que encontra: vitimização, populismo, mentira, entrega a outros países, crueldade, corrupção, corrupção, corrupção, chantagem, demagogia, religiosidade, vaidade etc. e tal.
O exemplo americano, tão próximo e tão umbilicalmente ligado aos bolsonaro, não nos devia deixar ilusões: se os Estados Unidos, com sua história de democracia consolidada através de traumas terríveis — como a guerra dos escravocratas contra Lincoln, que terminou com a derrota do Mal e o martírio de um homem bom —, estão comendo o pão que o Diabo amassou, as desgraças que podemos sofrer são inimagináveis.
Com os traidores da Democracia é preciso usar todo o rigor da lei, sem clemência, sem pieguice e sem hesitação!
A Copa de Trump não ama as pessoas: Fifa cumprirá nos EUA mais uma etapa de flerte com autoritarismo
Não é preciso fechar os olhos à tirania do regime iraniano para se estarrecer com o fato de que, pela primeira vez, um país vai sediar um Mundial enquanto bombardeia uma nação visitante. É verdade que a agressão ao Irã foi posterior ao infame Prêmio da Paz criado por Infantino para bajular Trump. Mas, àquela altura, o regime americano já bombardeava embarcações no Caribe, ameaçava anexar a Groenlândia, prometia ações militares em diversos pontos das Américas e espalhava focos de tensão onde quer que visse seus interesses contrariados. O sorteio dos grupos da Copa fez o futebol servir de palco à constrangedora cerimônia em que Infantino deu um troféu de consolação ao presidente que falhara em sua campanha de autopromoção ao Prêmio Nobel da Paz.
Agora, a contagem regressiva para a Copa vê o futebol refém da política de Trump. A Fifa se vê incapaz de proteger seu torneio, a isonomia esportiva ou a dignidade dos participantes para conservar laços políticos e econômicos com Trump. A única condição para que a seleção iraniana dispute o torneio é uma aberração esportiva: o time ficará concentrado no México, jogará suas partidas nos Estados Unidos, mas não poderá pernoitar no país. Ou seja, terá que viajar e regressar à sua base no mesmo dia dos jogos. Enquanto isso, um jogador iraquiano passou sete horas retido na imigração ao desembarcar para a Copa. Jornalistas do Irã e de diversos países da África, embora credenciados pela Fifa, tiveram vistos negados.
Recente reportagem do site The Athletic apontou a decepção do setor hoteleiro americano com a demanda por quartos. A vilã é a política migratória de Trump e a sensação, corroborada por organismos como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch, de que esta pode não ser uma Copa segura para visitantes. Na quinta-feira, o Mundial começa num país que impôs o banimento de entrada a cidadãos de quatro países que disputam o torneio: Irã, Senegal, Haiti e Costa do Marfim. Além disso, torcedores que quisessem sair de Argélia, Cabo Verde ou Tunísia enfrentavam exigências como o pagamento de cauções que podiam chegar a US$ 15 mil por pessoa.
Infantino e a Fifa silenciaram diante das políticas divisivas, das extradições e da violência contra imigrantes, das ameaças de intervenções militares e demais atrocidades do governo americano. E repetem o gesto enquanto obstáculos são impostos para que torcedores assistam ao maior evento de futebol do planeta, ou enquanto o Irã adiava seu embarque durante a interminável espera por um visto: sinal de uma entidade acuada em seus agrados a um chefe de estado imprevisível, como cartada para evitar ainda mais danos à Copa. Há um ano, Trump dividiu o pódio com os jogadores do Chelsea na mais embaraçosa cena do Mundial de Clubes. Na Copa do Mundo, a sensação é que o espaço dado a Trump será aquele que ele decidir ocupar.