A partir de quinta-feira, quando começarem os jogos, as imagens serão replicadas mundo afora: multidões reunidas, cenas de delírio ou decepção. As pessoas amam a Copa do Mundo. Pena que estamos às vésperas de uma Copa do Mundo que não ama as pessoas. Após a teocracia catari, a falsa democracia russa e antes do encontro marcado para 2034 com a sanguinária ditadura saudita, a Fifa cumprirá nos Estados Unidos mais uma etapa de seu flerte com o autoritarismo. Já se foi o tempo em que nos chocávamos com a falta de pudor com que a dona do futebol mundial impunha suas regras a quem era agraciado com a chance de receber a Copa. Desta vez, vemos como nunca antes a Fifa curvada a um governo. A Copa acontece sob as regras de Trump, ainda que o preço seja todo tipo de constrangimento possível imposto ao que orgulhosamente a entidade chama de “família do futebol”.
Não é preciso fechar os olhos à tirania do regime iraniano para se estarrecer com o fato de que, pela primeira vez, um país vai sediar um Mundial enquanto bombardeia uma nação visitante. É verdade que a agressão ao Irã foi posterior ao infame Prêmio da Paz criado por Infantino para bajular Trump. Mas, àquela altura, o regime americano já bombardeava embarcações no Caribe, ameaçava anexar a Groenlândia, prometia ações militares em diversos pontos das Américas e espalhava focos de tensão onde quer que visse seus interesses contrariados. O sorteio dos grupos da Copa fez o futebol servir de palco à constrangedora cerimônia em que Infantino deu um troféu de consolação ao presidente que falhara em sua campanha de autopromoção ao Prêmio Nobel da Paz.
Agora, a contagem regressiva para a Copa vê o futebol refém da política de Trump. A Fifa se vê incapaz de proteger seu torneio, a isonomia esportiva ou a dignidade dos participantes para conservar laços políticos e econômicos com Trump. A única condição para que a seleção iraniana dispute o torneio é uma aberração esportiva: o time ficará concentrado no México, jogará suas partidas nos Estados Unidos, mas não poderá pernoitar no país. Ou seja, terá que viajar e regressar à sua base no mesmo dia dos jogos. Enquanto isso, um jogador iraquiano passou sete horas retido na imigração ao desembarcar para a Copa. Jornalistas do Irã e de diversos países da África, embora credenciados pela Fifa, tiveram vistos negados.
Recente reportagem do site The Athletic apontou a decepção do setor hoteleiro americano com a demanda por quartos. A vilã é a política migratória de Trump e a sensação, corroborada por organismos como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch, de que esta pode não ser uma Copa segura para visitantes. Na quinta-feira, o Mundial começa num país que impôs o banimento de entrada a cidadãos de quatro países que disputam o torneio: Irã, Senegal, Haiti e Costa do Marfim. Além disso, torcedores que quisessem sair de Argélia, Cabo Verde ou Tunísia enfrentavam exigências como o pagamento de cauções que podiam chegar a US$ 15 mil por pessoa.
Infantino e a Fifa silenciaram diante das políticas divisivas, das extradições e da violência contra imigrantes, das ameaças de intervenções militares e demais atrocidades do governo americano. E repetem o gesto enquanto obstáculos são impostos para que torcedores assistam ao maior evento de futebol do planeta, ou enquanto o Irã adiava seu embarque durante a interminável espera por um visto: sinal de uma entidade acuada em seus agrados a um chefe de estado imprevisível, como cartada para evitar ainda mais danos à Copa. Há um ano, Trump dividiu o pódio com os jogadores do Chelsea na mais embaraçosa cena do Mundial de Clubes. Na Copa do Mundo, a sensação é que o espaço dado a Trump será aquele que ele decidir ocupar.
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