Existe alguma coisa de demais em Rosângela Lula da Silva, a Janja, primeira-dama do Brasil, postar de vez em quando vídeos que mostram o marido fazendo exercícios físicos de domingo a domingo? Ah, mas isso é porque os adversários de Lula o acusam de ser velho e incapaz de governar, e Janja quer provar que ele está em boa forma. Deus do céu. Que logo chegue agosto para que tenha início o período oficial de campanha e se possa debater os principais problemas do país, com cada candidato oferecendo soluções para eles. Ou isso de fato não nos interessa? O que nos interessa é pancadaria?
Entra eleição, sai eleição, e as pesquisas de opinião pública apontam que os eleitores, quando perguntados, dizem não à pancadaria e pedem a exposição de ideias que possam melhorar suas vidas. Na teoria, é o que parecem desejar. Na verdade, eles amam conflitos e se sentem atraídos pela troca de desaforos. A emoção é o que define o voto; a razão fica em segundo plano. A imagem vale mais do que mil palavras, embora uma palavra fora do lugar ou uma sentença tirada de contexto possa causar estragos severos.
Em maio de 1998, durante seu primeiro mandato, o presidente Fernando Henrique Cardoso criticou os privilégios do sistema previdenciário e declarou que aqueles que se aposentavam com menos de 50 anos de idade eram “vagabundos”. A frase exata dita por ele foi: “Fiz a reforma da Previdência para que aqueles que se locupletam da Previdência não se locupletem mais, não se aposentem com menos de 50 anos, não sejam vagabundos em um país de pobres e miseráveis”.
Na época, o governo federal tentava aprovar uma reforma da Previdência Social para instituir uma idade mínima para as aposentadorias. O argumento central do presidente era o de que o sistema permitia que pessoas relativamente jovens, muitas vezes com altos salários, se aposentassem cedo demais, gerando um forte déficit financeiro e injustiça social em relação à população mais pobre. Fernando Henrique passou anos explicando o que verdadeiramente quis dizer. Não adiantou.
Histórias semelhantes vêm de longe. O brigadeiro Eduardo Gomes nunca usou a palavra “marmiteiros” em seu discurso. A associação de seu nome a esse termo foi o resultado de uma das primeiras e mais eficazes estratégias de distorção política (ou fake news) da história eleitoral brasileira, ocorrida durante a campanha presidencial de 1945. No dia 19 de novembro daquele ano, em um discurso para as elites cariocas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ele criticou os apoiadores remanescentes do ditador Getúlio Vargas. Ao responder sobre o alinhamento com esses grupos, ele afirmou textualmente que “dispensava o voto da malta de desocupados”.
O que fez o empresário e político Hugo Borghi, que era um forte aliado de Getúlio Vargas e coordenava a propaganda do candidato concorrente, o general Eurico Gaspar Dutra? Buscou o termo “malta” no dicionário e encontrou definições que incluíam tanto “bando de desocupados” quanto “grupo de operários itinerantes que viajavam carregando suas próprias marmitas”. Então, usou sua rede de rádio para desconstruir o favoritismo do brigadeiro. Deu certo.
Diz-se que a disseminação de notícias falsas por meios eletrônicos foi o ponto forte da campanha de 2018, que elegeu Jair Bolsonaro presidente — e foi, sem desprezo à facada que ele levou em Juiz de Fora. Pois bem: em tempos de redes sociais e de Inteligência Artificial, preparem-se para saber diferenciar entre fato, distorção e mentira. Não será fácil. E muitos crimes serão cometidos.
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