Anunciaram e garantiram que na sexta-feira o mundo ia se acabar, um ciclone de não sei quantas intensidades de pavor ia derrubar as palmeiras imperiais do Jardim Botânico, levantar a ressaca que afogaria Copacabana, e por causa disso a prefeitura soltou alertas desesperados pelos celulares para que todos corressem para casa, o fim estava próximo, pegassem os filhos na escola pois nenhuma álgebra seria mais necessária, puxassem os terços de 59 contas e pedissem com fervor o perdão divino. Já surgia nos computadores da meteorologia municipal a ventania definitiva, aquela que releria o apocalipse, traria de volta a besta de sete cabeças, agora em modo mais radical.
Em 1938 foi a mesma coisa. Os nazistas invadiram a Áustria, a previsão de choque de planetas estava na primeira página dos jornais, Orson Welles irradiava em Nova York a invasão de alienígenas, e todo esse quadro de destruição, a batalha do Armagedon finalmente em cartaz, fez com que o anúncio do fim do mundo – o sol ia nascer antes da madrugada – soasse natural. Todos já ouviam as trombetas dos últimos dias tocando por todos os lados, a um ponto tal de alucinação que Carmen Miranda aproveitou o que seriam esses últimos momentos de vida, o fim dos falsos pudores, e saiu beijando na boca de quem não devia, pegou na mão de quem não conhecia, tudo isso conforme relatou na letra do samba que gravou naquele mesmo tresloucado 1938, também anunciando e garantindo que agora era para valer, os gafanhotos chegaram, o mundo ia se acabar.
O alerta extremo de vento forte na sexta-feira me abriu na memória as páginas de Incidente em Antares, mais exatamente aquelas em que os sete mortos criados por Érico Veríssimo, impedidos pela greve dos coveiros de descer à terra, permanecem insepultos no coreto da praça, espalhando pela cidade o mau cheiro da morte e, pior que ele, o cheiro daquilo que os vivos gostariam de esconder, as traições conjugais, as corrupções dos poderosos, a pouca vergonha da burguesia que fedia mais do que eles. De repente, o minuano sopra furioso e, varrendo o ar empestado, leva embora a fedentina dos cadáveres moralizadores e permite que a cidade respire de novo as suas hipocrisias, recomponha as aparências de falsa normalidade e todos – os homens de bem, as mulheres recatadas do lar, os políticos que não se emendam – finjam nada ter acontecido naqueles dias de dezembro de 1963.
Depois de 1938 e de 1963, eis que na sexta-feira os sete anjos das sete trombetas voltam a tocar o terror, e quando isso acontece é preciso ter pressa, é preciso botar o texto para correr, economizar na abertura de parágrafos, maneirar nos pontos, todas essas boas regras que deixam o leitor respirar feliz. Num momento desses, a ventania anunciada para daqui a pouco, esses bons modos de pontuação só serviriam para atravancar o último desejo do cronista, que – assim como Carmen Miranda beijou na boca de quem não devia – queria aproveitar as linhas da última crônica para escrever do jeito que não podia, desrespeitando o manual de redação – e agora não sabe mais o que fazer porque o mundo mais uma vez não se acabou.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Os anti-antifa - os fascistas voltam e revoltam
Dizem que o regime que o Brasil viveu sob Getúlio Vargas não pode ser chamado de fascista. Afinal, os pontos que caracterizam o fascismo seriam um ditador ((√)), uma autocracia (√), o militarismo (√), a supressão da oposição (√), crença numa hierarquia social (√), nacionalismo (√), desprezo pela democracia eleitoral (√) e pela liberdade política e econômica (√). É verdade que o Pai dos Pobres não teve um partido político central — até, durante o Estado Novo, pleiteava o contato direto com o povo —, como fizeram Stalin, Hitler e Mussolini, mas Franco só manteve a Falange ativa episodicamente, a União Nacional de Salazar era discreta (vivi em Lisboa durante o salazarismo e testemunhei) etc. É verdade também que ele tinha grande desprezo por tudo que não era poder pessoal, e, na undécima hora de 1945, foi capaz de fazer o grande acordo queremista com Prestes.
Conheci Luís Carlos Prestes, o Cavalheiro da Esperança, quando ele voltou ao Brasil no final da década de 70. Os oitenta anos lhe davam talvez uma certa lentidão, mas parecia uma rocha. Não tinha o olhar que marcava em Giocondo Dias a sensibilidade pelo outro, pelos outros, mas olhava de frente o futuro. Prestes voltava para participar da vida política seguindo a maré, evitando conflitos.
Mas, em março de 1936, Prestes fora preso, na grande rede que se lançara sobre o País desde a Intentona, enchendo as prisões. Sua mulher, Olga Benário, grávida, foi entregue à câmara de gás dos nazistas — nada mais trágico que o nascimento de Anita Leocádia em Barnimstrasse, a prisão da Gestapo. Para prender não era preciso razão e nem sempre havia processo judicial. Graciliano Ramos, preso e um ano depois libertado sem acusação ou julgamento, deixou o testemunho impactante das Memórias do Cárcere. Para Harry Berger, barbaramente torturado, Sobral Pinto pediu a aplicação da Lei de Proteção aos Animais; Berger (Arthur Ernest Ewert) enlouqueceu na prisão. Eles tiveram 35 mil companheiros. Afinal, não tinham nada que ser antifascistas, como os clandestinos da FUA – Frente Única Antifascista, depois reunidos na ANL – Aliança Nacional Libertadora.
O passado e a imitação sempre voltam a cavalo. As tendências fascistas de Trump resultaram na reaparição dos antifa americanos, logo considerados terroristas — no ano passado o Orange King os declarou “oficialmente” terroristas — e combatidos com força. O governo genocida não poderia deixar de seguir o mesmo caminho. Uma Secretaria de Operações Integradas – Seopi foi criada por Sérgio Moro e mantida por André Mendonça. Seus operadores foram os policiais Gilson Libório de Oliveira Mendes e Thiago Marcantonio Ferreira. Centenas de pessoas — algumas tão ilustres como Paulo Sérgio Pinheiro — foram relacionadas como antifascistas. Era um rótulo de decência, mas acompanhado da invasão de suas privacidades e da evidência de que a lista se destinava à perseguição política.
Os ministros da Justiça do regime fascista em formação formam uma quadrilha (3 pessoas, diz a lei) de depravados. Sérgio Moro fora o chefe da organização criminosa (4 ou mais, diz a lei) da Lava-Jato, podre e ignorante até à medula. O Advogado-Geral da União terrivelmente evangélico André Mendonça o substituiu para colocar a Polícia Federal sob os caprichos do “profeta” — assim chamou Bolsonaro ao afirmar devoção por seus “ideais” sobre segurança pública — e está na categoria dos retardados que acreditam em criacionismo, o que devia ser desqualificante para função pública. Finalmente foi a vez do foragido Anderson Torres, preso em flagrante delito de golpe de Estado. Os três continuam soltos: Moro é senador (!) e candidato a governador do Pará e, depois de demitido como vagabundo pelo cara que ajudara a eleger, voltou a lamber a cria; Anderson Torres, de seu refúgio na Disney, está pendurado em Dudu Bananinha; André Mendonça, ministro “do Bem”, depois de participar de ato eleitoral disfarçado com o pedinte do Master, não se considera impedido de julgá-lo.
A aprovação de sua indicação ao Supremo pelo Senado é, aliás, espantosa. Era chefe da AGU quando Bolsonaro disse que não acataria mais decisões do STF; quando disse que usaria o 142 para intervir no Estado; era ministro da Justiça quando Bozo usou um helicóptero para apoiar manifestantes contra o STF; quando repetia que as urnas eram fraudadas. Aceitar qualquer dessas declarações, evidentemente, torna a pessoa inidônea para ser ministro da Corte (e/ou do TSE).
Voltando à investigação sobre antifascistas, o Supremo de então, 2020, quase por unanimidade — divergiu Marco Aurélio — aprovou o relatório da ministra Carmem Lúcia afirmando que “a coleta de informações para mapear as posições políticas de determinado grupo ou identificar opositores ao governo configura desvio de finalidade das atividades de inteligência”. Pito que Mendonça não levou em conta: convocado pelo Senado, a requerimento de Randolfe Rodrigues e — olha que coincidência — Jacques Wagner, disse que o assunto era sigiloso e não poderia ser compartilhado com os senadores.
A gracinha é agora o Thiago Anti-Antifa ser o chefe da Polícia Extrajudicial do Mendonça e por acaso o gabinete do ministro o maior plantador de notícias contra pessoas ligadas ao governo antifascista — especialmente o Lulinha —, enquanto toma todo o cuidado para não sair uma linha do que fez o Flavorcaro. Em suas novas funções, o chefão da Extrajudicial está comandando uma investigação sobre o chefe da Federal. Sabe aquela coisinha que está na Constituição: “art. 5º. XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção”? Já era, não vale quando se trata do ministro “do Bem”.
E o evangélico Messias, hem?! Foi ao ministro da Justiça para bancar o amigo do peito terrivelmente evangélico, que história é essa de defender a Polícia Federal e o Estado de Direito?
Pedro Costa
Conheci Luís Carlos Prestes, o Cavalheiro da Esperança, quando ele voltou ao Brasil no final da década de 70. Os oitenta anos lhe davam talvez uma certa lentidão, mas parecia uma rocha. Não tinha o olhar que marcava em Giocondo Dias a sensibilidade pelo outro, pelos outros, mas olhava de frente o futuro. Prestes voltava para participar da vida política seguindo a maré, evitando conflitos.
Mas, em março de 1936, Prestes fora preso, na grande rede que se lançara sobre o País desde a Intentona, enchendo as prisões. Sua mulher, Olga Benário, grávida, foi entregue à câmara de gás dos nazistas — nada mais trágico que o nascimento de Anita Leocádia em Barnimstrasse, a prisão da Gestapo. Para prender não era preciso razão e nem sempre havia processo judicial. Graciliano Ramos, preso e um ano depois libertado sem acusação ou julgamento, deixou o testemunho impactante das Memórias do Cárcere. Para Harry Berger, barbaramente torturado, Sobral Pinto pediu a aplicação da Lei de Proteção aos Animais; Berger (Arthur Ernest Ewert) enlouqueceu na prisão. Eles tiveram 35 mil companheiros. Afinal, não tinham nada que ser antifascistas, como os clandestinos da FUA – Frente Única Antifascista, depois reunidos na ANL – Aliança Nacional Libertadora.
O passado e a imitação sempre voltam a cavalo. As tendências fascistas de Trump resultaram na reaparição dos antifa americanos, logo considerados terroristas — no ano passado o Orange King os declarou “oficialmente” terroristas — e combatidos com força. O governo genocida não poderia deixar de seguir o mesmo caminho. Uma Secretaria de Operações Integradas – Seopi foi criada por Sérgio Moro e mantida por André Mendonça. Seus operadores foram os policiais Gilson Libório de Oliveira Mendes e Thiago Marcantonio Ferreira. Centenas de pessoas — algumas tão ilustres como Paulo Sérgio Pinheiro — foram relacionadas como antifascistas. Era um rótulo de decência, mas acompanhado da invasão de suas privacidades e da evidência de que a lista se destinava à perseguição política.
Os ministros da Justiça do regime fascista em formação formam uma quadrilha (3 pessoas, diz a lei) de depravados. Sérgio Moro fora o chefe da organização criminosa (4 ou mais, diz a lei) da Lava-Jato, podre e ignorante até à medula. O Advogado-Geral da União terrivelmente evangélico André Mendonça o substituiu para colocar a Polícia Federal sob os caprichos do “profeta” — assim chamou Bolsonaro ao afirmar devoção por seus “ideais” sobre segurança pública — e está na categoria dos retardados que acreditam em criacionismo, o que devia ser desqualificante para função pública. Finalmente foi a vez do foragido Anderson Torres, preso em flagrante delito de golpe de Estado. Os três continuam soltos: Moro é senador (!) e candidato a governador do Pará e, depois de demitido como vagabundo pelo cara que ajudara a eleger, voltou a lamber a cria; Anderson Torres, de seu refúgio na Disney, está pendurado em Dudu Bananinha; André Mendonça, ministro “do Bem”, depois de participar de ato eleitoral disfarçado com o pedinte do Master, não se considera impedido de julgá-lo.
A aprovação de sua indicação ao Supremo pelo Senado é, aliás, espantosa. Era chefe da AGU quando Bolsonaro disse que não acataria mais decisões do STF; quando disse que usaria o 142 para intervir no Estado; era ministro da Justiça quando Bozo usou um helicóptero para apoiar manifestantes contra o STF; quando repetia que as urnas eram fraudadas. Aceitar qualquer dessas declarações, evidentemente, torna a pessoa inidônea para ser ministro da Corte (e/ou do TSE).
Voltando à investigação sobre antifascistas, o Supremo de então, 2020, quase por unanimidade — divergiu Marco Aurélio — aprovou o relatório da ministra Carmem Lúcia afirmando que “a coleta de informações para mapear as posições políticas de determinado grupo ou identificar opositores ao governo configura desvio de finalidade das atividades de inteligência”. Pito que Mendonça não levou em conta: convocado pelo Senado, a requerimento de Randolfe Rodrigues e — olha que coincidência — Jacques Wagner, disse que o assunto era sigiloso e não poderia ser compartilhado com os senadores.
A gracinha é agora o Thiago Anti-Antifa ser o chefe da Polícia Extrajudicial do Mendonça e por acaso o gabinete do ministro o maior plantador de notícias contra pessoas ligadas ao governo antifascista — especialmente o Lulinha —, enquanto toma todo o cuidado para não sair uma linha do que fez o Flavorcaro. Em suas novas funções, o chefão da Extrajudicial está comandando uma investigação sobre o chefe da Federal. Sabe aquela coisinha que está na Constituição: “art. 5º. XXXVII – não haverá juízo ou tribunal de exceção”? Já era, não vale quando se trata do ministro “do Bem”.
E o evangélico Messias, hem?! Foi ao ministro da Justiça para bancar o amigo do peito terrivelmente evangélico, que história é essa de defender a Polícia Federal e o Estado de Direito?
Pedro Costa
A política de Trump veio para ficar? Protecionismo pode resistir à troca de governo
O presidente Trump vai produzindo uma reviravolta na ordem econômica mundial. Jogou o livre comércio no lixo e decretou o intervencionismo do Estado.
Segue-se a pergunta da hora: até que ponto esse rodopio é coisa exclusiva do presidente Trump e do Partido Republicano, que poderia ser revertida com mudança de governo, a partir do dia em que o Partido Democrata recuperasse a presidência dos Estados Unidos?
Os analistas políticos já levam em conta a possibilidade de que o presidente Trump perca a maioria nas duas casas do Congresso nas eleições de novembro. A forte queda da popularidade de Trump parece fortalecer esse resultado.
Mas, atenção, a resposta à pergunta acima é complexa. Já foi lembrado em outra edição desta Coluna que, embora seja forte adversário eleitoral de Trump e dos políticos do Partido Republicano e combata a atual política contra a imigração, o Partido Democrata não apresentou até agora projeto ou o equivalente, que pudesse se contrapor ao MAGA, ao Make America Great Again.
Não está claro se, de volta ao poder, o Partido Democrata seja capaz de reverter a política de Trump. A administração Joe Biden, que sucedeu em 2021 ao primeiro mandato de Trump, manteve muitas das políticas e determinações de Trump, como se vê a seguir.
As tarifas de importação, de 25%, impostas por Trump à China, em 2018, correspondentes a US$ 50 bilhões anuais, tiveram continuidade com Biden; mais do que isso, foram aumentadas para setores estratégicos, como veículos elétricos, semicondutores, painéis para energia solar, aço e alumínio.
Biden reforçou as restrições às importações pela China de chips de última geração e de máquinas para produção de semicondutores. Com isso, pretendeu bloquear o acesso da China à tecnologia de ponta.
Biden tampouco tentou voltar ao Nafta, o acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México, que Trump substituiu pelo USMCA, que aumentou as exigências de conteúdo local na produção de veículos. Biden também manteve as negociações dos Acordos de Abraão destinados a restabelecer os canais diplomáticos entre Israel e países árabes.
Por aí se vê que a política protecionista não é prerrogativa dos redutos trumpistas. É pleito mais amplo e mais arraigado nos Estados Unidos.
Trump operou uma reviravolta tributária. Transformou o Imposto de Importação (tarifa alfandegária), cuja natureza é regulatória, em taxa arrecadatória. A receita extra obtida com os tarifaços pode ficar muito aquém do pretendido por Trump, mas será agora mais difícil que, nesta secura do Tesouro dos Estados Unidos, um governo que o suceda seja capaz de abrir mão desses recursos.
Isso sugere que a atual política, tão nefasta para os interesses do resto do mundo, só será corrigida se produzir grandes estragos para a própria economia dos Estados Unidos.
Segue-se a pergunta da hora: até que ponto esse rodopio é coisa exclusiva do presidente Trump e do Partido Republicano, que poderia ser revertida com mudança de governo, a partir do dia em que o Partido Democrata recuperasse a presidência dos Estados Unidos?
Os analistas políticos já levam em conta a possibilidade de que o presidente Trump perca a maioria nas duas casas do Congresso nas eleições de novembro. A forte queda da popularidade de Trump parece fortalecer esse resultado.
Mas, atenção, a resposta à pergunta acima é complexa. Já foi lembrado em outra edição desta Coluna que, embora seja forte adversário eleitoral de Trump e dos políticos do Partido Republicano e combata a atual política contra a imigração, o Partido Democrata não apresentou até agora projeto ou o equivalente, que pudesse se contrapor ao MAGA, ao Make America Great Again.
Não está claro se, de volta ao poder, o Partido Democrata seja capaz de reverter a política de Trump. A administração Joe Biden, que sucedeu em 2021 ao primeiro mandato de Trump, manteve muitas das políticas e determinações de Trump, como se vê a seguir.
As tarifas de importação, de 25%, impostas por Trump à China, em 2018, correspondentes a US$ 50 bilhões anuais, tiveram continuidade com Biden; mais do que isso, foram aumentadas para setores estratégicos, como veículos elétricos, semicondutores, painéis para energia solar, aço e alumínio.
Biden reforçou as restrições às importações pela China de chips de última geração e de máquinas para produção de semicondutores. Com isso, pretendeu bloquear o acesso da China à tecnologia de ponta.
Biden tampouco tentou voltar ao Nafta, o acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México, que Trump substituiu pelo USMCA, que aumentou as exigências de conteúdo local na produção de veículos. Biden também manteve as negociações dos Acordos de Abraão destinados a restabelecer os canais diplomáticos entre Israel e países árabes.
Por aí se vê que a política protecionista não é prerrogativa dos redutos trumpistas. É pleito mais amplo e mais arraigado nos Estados Unidos.
Trump operou uma reviravolta tributária. Transformou o Imposto de Importação (tarifa alfandegária), cuja natureza é regulatória, em taxa arrecadatória. A receita extra obtida com os tarifaços pode ficar muito aquém do pretendido por Trump, mas será agora mais difícil que, nesta secura do Tesouro dos Estados Unidos, um governo que o suceda seja capaz de abrir mão desses recursos.
Isso sugere que a atual política, tão nefasta para os interesses do resto do mundo, só será corrigida se produzir grandes estragos para a própria economia dos Estados Unidos.
Como o El Niño e as guerras podem agravar a fome global
Um fenômeno El Niño com potencial para quebrar recordes está se intensificando no Pacífico e pode causar secas e inundações em algumas das principais regiões agrícolas do mundo.
No início de julho, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) estimou uma probabilidade de 63% de que o fenômeno fosse "muito intenso". O JP Morgan também alertou que o El Niño, combinado com o petróleo a US$ 100 o barril, poderia elevar a inflação global de alimentos em até 1,5%.
A chegada do El Niño coincide com dois conflitos que já têm pressionado o sistema alimentar global: a guerra da Rússia na Ucrânia e o aumento das tensões entre os Estados Unidos e o Irã. Será que essa combinação poderia desencadear uma nova crise alimentar?

A guerra de agressão da Rússia na Ucrânia continua a afetar uma das maiores regiões exportadoras de grãos do mundo, enquanto as tensões com o Irã elevaram os preços da energia e dos fertilizantes, encarecendo a produção agrícola.
Ao mesmo tempo, o Banco Mundial alertou que um evento El Niño intenso poderia reduzir a produção de arroz em 20 a 50 por cento nas regiões mais afetadas.
Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), alerta para um "efeito composto" que poderá criar "uma situação muito complexa" no final do ano. "Estamos muito preocupados com o El Niño e o atraso das monções na Índia", explicou Torero.
A Índia produz cerca de um terço do arroz mundial, e uma monção mais fraca pode afetar as plantações. A FAO também identifica altos riscos no Sahel, no sul da África, no Sudeste Asiático e no Corredor Seco da América Central, onde algumas áreas enfrentam uma probabilidade superior a 50% de seca nos próximos meses.
Apesar das tensões geopolíticas, os preços internacionais dos alimentos permanecem cerca de 20% abaixo do pico atingido em 2022, de acordo com o índice da FAO.
O ano passado registrou a maior colheita de cereais da história, graças ao aumento da produtividade, à maior área cultivada e às condições climáticas favoráveis. Embora a produção deste ano seja ligeiramente menor, ainda se espera que seja a segunda maior já registrada.
"Estamos vendo melhorias na produtividade agrícola", diz Simone Bunse, pesquisadora do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI). "Isso ajudou a manter a produção de alimentos e a reduzir a desnutrição. E está compensando alguns dos impactos localizados do conflito", acrescenta.
A fome continua concentrada em zonas de guerra.
A ONU estima que 266 milhões de pessoas sofrem de fome aguda, e mais da metade delas vive em países afetados por conflitos.
"Produzimos calorias suficientes no mundo para alimentar toda a população", afirma Torero. "O problema é que essas calorias não são distribuídas igualmente pelo mundo, e esse é o desafio", enfatiza.
Em locais como o Sudão ou Gaza, a guerra destrói terras agrícolas, desloca milhões de pessoas e dificulta a entrega de ajuda humanitária.
"Grupos armados destroem deliberadamente terras agrícolas, rebanhos, sistemas de água, instalações de armazenamento de alimentos e rotas de transporte. Eles comprometem o acesso aos mercados e dificultam a assistência humanitária", lembra Bunse.
Outra área de preocupação são os fertilizantes, já que aproximadamente um terço do comércio global passa pelo Estreito de Ormuz, que é afetado pelas tensões entre os Estados Unidos e o Irã e pelos ataques a navios no Mar Vermelho.
O aumento de preços já está levando alguns agricultores a adiarem suas compras ou a reduzirem o uso de fertilizantes, o que pode afetar as próximas colheitas.
Especialistas alertam que, se um forte evento El Niño, novas interrupções nas exportações agrícolas da Ucrânia e uma nova alta nos preços do petróleo ocorrerem simultaneamente, a fome global poderá piorar consideravelmente. Segundo o JP Morgan, a inflação de alimentos poderá ultrapassar 5% até 2027, sendo os mercados emergentes os mais afetados.
No início de julho, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) estimou uma probabilidade de 63% de que o fenômeno fosse "muito intenso". O JP Morgan também alertou que o El Niño, combinado com o petróleo a US$ 100 o barril, poderia elevar a inflação global de alimentos em até 1,5%.
A chegada do El Niño coincide com dois conflitos que já têm pressionado o sistema alimentar global: a guerra da Rússia na Ucrânia e o aumento das tensões entre os Estados Unidos e o Irã. Será que essa combinação poderia desencadear uma nova crise alimentar?
A guerra de agressão da Rússia na Ucrânia continua a afetar uma das maiores regiões exportadoras de grãos do mundo, enquanto as tensões com o Irã elevaram os preços da energia e dos fertilizantes, encarecendo a produção agrícola.
Ao mesmo tempo, o Banco Mundial alertou que um evento El Niño intenso poderia reduzir a produção de arroz em 20 a 50 por cento nas regiões mais afetadas.
Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), alerta para um "efeito composto" que poderá criar "uma situação muito complexa" no final do ano. "Estamos muito preocupados com o El Niño e o atraso das monções na Índia", explicou Torero.
A Índia produz cerca de um terço do arroz mundial, e uma monção mais fraca pode afetar as plantações. A FAO também identifica altos riscos no Sahel, no sul da África, no Sudeste Asiático e no Corredor Seco da América Central, onde algumas áreas enfrentam uma probabilidade superior a 50% de seca nos próximos meses.
Apesar das tensões geopolíticas, os preços internacionais dos alimentos permanecem cerca de 20% abaixo do pico atingido em 2022, de acordo com o índice da FAO.
O ano passado registrou a maior colheita de cereais da história, graças ao aumento da produtividade, à maior área cultivada e às condições climáticas favoráveis. Embora a produção deste ano seja ligeiramente menor, ainda se espera que seja a segunda maior já registrada.
"Estamos vendo melhorias na produtividade agrícola", diz Simone Bunse, pesquisadora do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI). "Isso ajudou a manter a produção de alimentos e a reduzir a desnutrição. E está compensando alguns dos impactos localizados do conflito", acrescenta.
A fome continua concentrada em zonas de guerra.
A ONU estima que 266 milhões de pessoas sofrem de fome aguda, e mais da metade delas vive em países afetados por conflitos.
"Produzimos calorias suficientes no mundo para alimentar toda a população", afirma Torero. "O problema é que essas calorias não são distribuídas igualmente pelo mundo, e esse é o desafio", enfatiza.
Em locais como o Sudão ou Gaza, a guerra destrói terras agrícolas, desloca milhões de pessoas e dificulta a entrega de ajuda humanitária.
"Grupos armados destroem deliberadamente terras agrícolas, rebanhos, sistemas de água, instalações de armazenamento de alimentos e rotas de transporte. Eles comprometem o acesso aos mercados e dificultam a assistência humanitária", lembra Bunse.
Outra área de preocupação são os fertilizantes, já que aproximadamente um terço do comércio global passa pelo Estreito de Ormuz, que é afetado pelas tensões entre os Estados Unidos e o Irã e pelos ataques a navios no Mar Vermelho.
O aumento de preços já está levando alguns agricultores a adiarem suas compras ou a reduzirem o uso de fertilizantes, o que pode afetar as próximas colheitas.
Especialistas alertam que, se um forte evento El Niño, novas interrupções nas exportações agrícolas da Ucrânia e uma nova alta nos preços do petróleo ocorrerem simultaneamente, a fome global poderá piorar consideravelmente. Segundo o JP Morgan, a inflação de alimentos poderá ultrapassar 5% até 2027, sendo os mercados emergentes os mais afetados.
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