domingo, 17 de maio de 2026
Um dia, a verdade da guerra aparece
O New York Times não é um grande jornal qualquer. Ainda hoje, aos 175 anos bem vividos, continua sendo leitura obrigatória pelo alcance global do que publica. Nicholas Kristof tampouco é um colunista qualquer. Sua carreira de mais de quatro décadas no jornalão já lhe valeu dois prêmios Pulitzer e reconhecida credibilidade mundo afora. Daí a reação do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ao longo artigo de Kristof publicado no domingo passado sob o título “O silêncio acompanha o estupro de palestinos”. Diante do que chamou de “uma das mentiras mais hediondas e distorcidas já publicadas contra Israel na imprensa moderna”, Netanyahu anunciou que processará o jornal por difamação.
Caso a ação judicial venha de fato a ser apresentada (poucos consideram provável), teremos um embate histórico pela verdade. As consequências de uma investigação judicial podem mudar a imagem que Israel tem de si, e a imagem que o mundo do pós-Segunda Guerra tinha de Israel. Isso porque, para rebater as alegações contidas no artigo, o país teria de abrir suas prisões, seus porões, suas práticas prisionais a inspetores independentes.
Na outra ponta do embate, estaria em jogo a credibilidade do New York Times, a biografia de Kristof e, de certa forma, o já tão vilipendiado exercício do jornalismo.
O colunista conta ter entrevistado 14 ex-detentos palestinos (homens e mulheres) que relataram ter sido submetidos a violências sexuais generalizadas por soldados, guardas prisionais, interrogadores ou colonos israelenses. Kristof diz não haver “evidência de que autoridades israelenses ordenassem estupros”, mas soma sua voz à de um relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre Gaza, segundo o qual autoridades israelenses montaram um “aparelho de segurança em que a violência sexual se tornou um dos procedimentos operacionais padrão”.
Anteriormente, entidades como Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Save the Children, B’Tselem, Breaking the Silence (que há 21 anos agrupa denunciantes das próprias Forças de Defesa de Israel ) e Euro-Med Human Rights Monitor têm documentado alegações de humilhações sexuais e torturas de amplo espectro. Rebatidos pela eficiente máquina de propaganda do Estado judeu por disseminar antissemitismo e ódio a Israel, esses relatórios costumavam ser minimizados. Da mesma forma que os dados sobre a dizimação da população palestina de Gaza produzidos pelo Ministério da Saúde sob controle do Hamas foram longamente tachados de fantasiosos por Israel.
Desta vez, a operação abafa colocada em marcha procurou desacreditar o valor dos testemunhos por se originarem de militantes palestinos interessados em difamar Israel. O primeiro erro dessa linha de acusação é factual: no artigo de Kristof, parte das testemunhas levava uma vida de palestino comum, não militante. O segundo erro é de natureza moral: sendo filiados ao Hamas ou militantes a favor da Palestina, merecem então qualquer tratamento ignóbil?
Tome-se o exemplo do jornalista freelancer Sami al-Sai, de Gaza, que relatou ter sido imobilizado, despido, vendado, algemado e filmado enquanto era “montado” por um cão adestrado. O fato de al-Sai ter festejado como triunfo palestino o massacre de israelenses por terroristas do Hamas no infame 7 de Outubro de 2023 justifica ele ser sexualmente humilhado por um cão, quando sob custódia do Estado?
No dia seguinte à publicação do artigo de Kristof, Israel divulgou o aguardado relatório sobre a violência sexual cometida pelos terroristas durante o 7 de Outubro. A Comissão Civil sobre os Crimes do Hamas contra Mulheres e Crianças trabalhou nele por dois anos e concluiu que atos de estupro e humilhação sexual de todo tipo ocorreram naquele dia, com prolongamento no período de cativeiro dos reféns. São centenas de depoimentos, vídeos e fotos que descrevem brutalidades infinitas, mas omitem identificações e limitam a transparência, em parte para resguardar as vítimas.
Há uma diferença crucial entre os dois levantamentos: o relatório da Comissão trata de crimes sexuais cometidos por uma organização terrorista (Hamas) que praticou crimes horrendos contra civis; a apuração de Kristof, somada à das entidades citadas, trata de denúncias de tortura sistemática praticada por agentes do Estado ou acobertados pelo Estado de Israel. Dois meses atrás, quando a atenção mundial se situava na guerra contra o Irã, o Tribunal Militar israelense rejeitou as acusações contra os cinco últimos soldados que respondiam por uma selvagem agressão sexual que se tornou notória em 2024. Dez soldados e um cão haviam participado da violência contra um detento, que sofreu laceração no reto, e foi captada parcialmente por uma câmera interna.
À época, 67% dos israelenses se declararam contrários ao julgamento dos acusados. Yoel Donchin, anestesista do hospital adjacente à prisão de Sde Teiman, onde teria ocorrido o crime, teve a humanidade de relatar o que viu. Coragem é a resistência ao medo, não ausência de medo.
Dorrit Harazim
Caso a ação judicial venha de fato a ser apresentada (poucos consideram provável), teremos um embate histórico pela verdade. As consequências de uma investigação judicial podem mudar a imagem que Israel tem de si, e a imagem que o mundo do pós-Segunda Guerra tinha de Israel. Isso porque, para rebater as alegações contidas no artigo, o país teria de abrir suas prisões, seus porões, suas práticas prisionais a inspetores independentes.
Na outra ponta do embate, estaria em jogo a credibilidade do New York Times, a biografia de Kristof e, de certa forma, o já tão vilipendiado exercício do jornalismo.
O colunista conta ter entrevistado 14 ex-detentos palestinos (homens e mulheres) que relataram ter sido submetidos a violências sexuais generalizadas por soldados, guardas prisionais, interrogadores ou colonos israelenses. Kristof diz não haver “evidência de que autoridades israelenses ordenassem estupros”, mas soma sua voz à de um relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre Gaza, segundo o qual autoridades israelenses montaram um “aparelho de segurança em que a violência sexual se tornou um dos procedimentos operacionais padrão”.
Anteriormente, entidades como Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Save the Children, B’Tselem, Breaking the Silence (que há 21 anos agrupa denunciantes das próprias Forças de Defesa de Israel ) e Euro-Med Human Rights Monitor têm documentado alegações de humilhações sexuais e torturas de amplo espectro. Rebatidos pela eficiente máquina de propaganda do Estado judeu por disseminar antissemitismo e ódio a Israel, esses relatórios costumavam ser minimizados. Da mesma forma que os dados sobre a dizimação da população palestina de Gaza produzidos pelo Ministério da Saúde sob controle do Hamas foram longamente tachados de fantasiosos por Israel.
Desta vez, a operação abafa colocada em marcha procurou desacreditar o valor dos testemunhos por se originarem de militantes palestinos interessados em difamar Israel. O primeiro erro dessa linha de acusação é factual: no artigo de Kristof, parte das testemunhas levava uma vida de palestino comum, não militante. O segundo erro é de natureza moral: sendo filiados ao Hamas ou militantes a favor da Palestina, merecem então qualquer tratamento ignóbil?
Tome-se o exemplo do jornalista freelancer Sami al-Sai, de Gaza, que relatou ter sido imobilizado, despido, vendado, algemado e filmado enquanto era “montado” por um cão adestrado. O fato de al-Sai ter festejado como triunfo palestino o massacre de israelenses por terroristas do Hamas no infame 7 de Outubro de 2023 justifica ele ser sexualmente humilhado por um cão, quando sob custódia do Estado?
No dia seguinte à publicação do artigo de Kristof, Israel divulgou o aguardado relatório sobre a violência sexual cometida pelos terroristas durante o 7 de Outubro. A Comissão Civil sobre os Crimes do Hamas contra Mulheres e Crianças trabalhou nele por dois anos e concluiu que atos de estupro e humilhação sexual de todo tipo ocorreram naquele dia, com prolongamento no período de cativeiro dos reféns. São centenas de depoimentos, vídeos e fotos que descrevem brutalidades infinitas, mas omitem identificações e limitam a transparência, em parte para resguardar as vítimas.
Há uma diferença crucial entre os dois levantamentos: o relatório da Comissão trata de crimes sexuais cometidos por uma organização terrorista (Hamas) que praticou crimes horrendos contra civis; a apuração de Kristof, somada à das entidades citadas, trata de denúncias de tortura sistemática praticada por agentes do Estado ou acobertados pelo Estado de Israel. Dois meses atrás, quando a atenção mundial se situava na guerra contra o Irã, o Tribunal Militar israelense rejeitou as acusações contra os cinco últimos soldados que respondiam por uma selvagem agressão sexual que se tornou notória em 2024. Dez soldados e um cão haviam participado da violência contra um detento, que sofreu laceração no reto, e foi captada parcialmente por uma câmera interna.
À época, 67% dos israelenses se declararam contrários ao julgamento dos acusados. Yoel Donchin, anestesista do hospital adjacente à prisão de Sde Teiman, onde teria ocorrido o crime, teve a humanidade de relatar o que viu. Coragem é a resistência ao medo, não ausência de medo.
Dorrit Harazim
Flávio Bolsonaro apela à Bíblia e insiste que sonho presidencial não acabou
Não teve dancinha, mas teve citação bíblica, pregação patriótica e exaltação à figura do pai. Na noite de sexta-feira, Flávio Bolsonaro fez o primeiro discurso após a revelação de seus negócios com Daniel Vorcaro. Cercado de aliados, tentou passar a mensagem de que o sonho presidencial não acabou.
“Vocês não fazem ideia da minha alegria de estar aqui hoje”, iniciou o Zero Um. “Acordei com um versículo da Bíblia: quem é fraco numa dificuldade é realmente fraco. Nessas veias aqui, tem sangue de Bolsonaro. E eu estou mais motivado do que nunca”, emendou, apontando para o braço direito e segurando uma bandeira do Brasil.
Flávio estava em Campinas, cidade do interior paulista que deu 56% dos votos ao capitão em 2022. Participava do lançamento da candidatura ao Senado de Guilherme Derrite, prócer da bancada da bala que conseguiu ser expulso da Rota por excesso de violência.
“Quando a verdade está do nosso lado, quando a gente sabe que fez a coisa certa, isso nos motiva”, discursou Flávio. Foi a senha para entrar no assunto da semana: seu pedido de R$ 135 milhões a Vorcaro, a pretexto de financiar um longa-metragem sobre o Jair Bolsonaro. “Fazer filme tá na moda, gente”, disse o senador, sem corar. “O Bolsonaro merece ou não merece um filme? Merece. E a gente vai fazer”, finalizou.
Os diálogos publicados pelo Intercept Brasil podem ter sido apenas o início dos problemas do pré-candidato do PL. Antes de chegar a Campinas, Flávio admitiu à CNN Brasil que novos registros de sua relação com o banqueiro devem vir à tona. “Pode vazar um videozinho, algum encontro que eu possa ter tido com ele... foi tudo para tratar sobre o filme”, defendeu-se.
Até aqui, as explicações só convencem quem quer ser convencido. A produtora americana do longa afirmou não ter recebido um “único centavo” de Vorcaro. O deputado Mário Frias usou a mesma expressão, mas voltou atrás ao ser cobrado pelo grupo de Flávio. “Não há contradição material entre os posicionamentos”, desconversou o ex-galã de “Malhação” e “Floribella”.
A Polícia Federal apura se o filme dos Bolsonaros foi usado para lavar dinheiro. Só a bolada pedida ao banqueiro pagaria três vezes “Ainda estou aqui”, vencedor do Oscar em 2025. Quem enfrentou o trailer de “Dark horse” sabe que a única semelhança entre as produções é a presença de atores diante de uma câmera.
Nem o roteirista mais criativo poderia imaginar uma semana tão amarga para o filho de Jair. Na terça-feira, a Polícia Federal fez operação contra o “vice dos sonhos” Ciro Nogueira, suspeito de receber mesada de R$ 500 mil de Vorcaro. A ação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, indicado pelo capitão ao Supremo. Na quarta, o país conheceu a fraternidade de Flávio com o banqueiro preso. Na sexta, a PF bateu à porta de Cláudio Castro, o ex-governador bolsonarista do Rio.
No ato de Campinas, o Zero Um se mostrou confiante de que nada disso abalará o projeto do clã. “Essa bandeira jamais será vermelha”, discursou.
“Vocês não fazem ideia da minha alegria de estar aqui hoje”, iniciou o Zero Um. “Acordei com um versículo da Bíblia: quem é fraco numa dificuldade é realmente fraco. Nessas veias aqui, tem sangue de Bolsonaro. E eu estou mais motivado do que nunca”, emendou, apontando para o braço direito e segurando uma bandeira do Brasil.
“Quando a verdade está do nosso lado, quando a gente sabe que fez a coisa certa, isso nos motiva”, discursou Flávio. Foi a senha para entrar no assunto da semana: seu pedido de R$ 135 milhões a Vorcaro, a pretexto de financiar um longa-metragem sobre o Jair Bolsonaro. “Fazer filme tá na moda, gente”, disse o senador, sem corar. “O Bolsonaro merece ou não merece um filme? Merece. E a gente vai fazer”, finalizou.
Os diálogos publicados pelo Intercept Brasil podem ter sido apenas o início dos problemas do pré-candidato do PL. Antes de chegar a Campinas, Flávio admitiu à CNN Brasil que novos registros de sua relação com o banqueiro devem vir à tona. “Pode vazar um videozinho, algum encontro que eu possa ter tido com ele... foi tudo para tratar sobre o filme”, defendeu-se.
Até aqui, as explicações só convencem quem quer ser convencido. A produtora americana do longa afirmou não ter recebido um “único centavo” de Vorcaro. O deputado Mário Frias usou a mesma expressão, mas voltou atrás ao ser cobrado pelo grupo de Flávio. “Não há contradição material entre os posicionamentos”, desconversou o ex-galã de “Malhação” e “Floribella”.
A Polícia Federal apura se o filme dos Bolsonaros foi usado para lavar dinheiro. Só a bolada pedida ao banqueiro pagaria três vezes “Ainda estou aqui”, vencedor do Oscar em 2025. Quem enfrentou o trailer de “Dark horse” sabe que a única semelhança entre as produções é a presença de atores diante de uma câmera.
Nem o roteirista mais criativo poderia imaginar uma semana tão amarga para o filho de Jair. Na terça-feira, a Polícia Federal fez operação contra o “vice dos sonhos” Ciro Nogueira, suspeito de receber mesada de R$ 500 mil de Vorcaro. A ação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, indicado pelo capitão ao Supremo. Na quarta, o país conheceu a fraternidade de Flávio com o banqueiro preso. Na sexta, a PF bateu à porta de Cláudio Castro, o ex-governador bolsonarista do Rio.
No ato de Campinas, o Zero Um se mostrou confiante de que nada disso abalará o projeto do clã. “Essa bandeira jamais será vermelha”, discursou.
A gargalhada de Flávio eleva a mentira a um novo patamar de cinismo
A gargalhada que Flávio Bolsonaro deu diante da pergunta do repórter do site Intercept Brasil é daquelas cenas destinadas aos anais da política — evidentemente, não por engrandecê-la.
— Mentira. De onde você tirou isso? — disse o senador quando confrontado pelo jornalista com a informação de que o filme sobre Jair Bolsonaro havia sido financiado por Daniel Vorcaro.
Nas imagens, à disposição na internet, Flávio lança uma rápida olhada para as câmeras simulando incredulidade, então solta a risada de ator canastrão.
— Pelo amor de Deus — desdenha, virando as costas.
Quando, pouco mais tarde, teve de divulgar uma gravação desmentindo a si próprio, e à sua gargalhada, não se viu em seu rosto sinal de rubor nem se ouviu em sua fala menção à negativa de momentos antes:
— O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai — disse, agora consternado e cândido.
A negativa de Flávio, e sua gargalhada cenográfica, levaram a mentira a um novo patamar de cinismo —mas isso parece importar cada vez menos no Brasil.
Na reunião de emergência com sua equipe de campanha após o episódio, o pré-candidato à Presidência pelo PL jurou que nada mais aparecerá contra ele — no que, obviamente, ninguém acreditou. Os R$ 61 milhões que recebeu de Vorcaro, segundo Flávio para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, nunca chegaram à empresa responsável pelo longa, a Go Up, dizem os responsáveis. E o fato de ao menos parte desse dinheiro ter ido parar num fundo nos Estados Unidos, gerido pelo advogado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, tampouco ajuda a dirimir as suspeitas de que Flávio fingiu pedir dinheiro para fazer um filme sobre o pai, e Vorcaro fingiu acreditar que o desembolso era para isso mesmo.
Diante de tantos e escrachados descalabros, a candidatura de Flávio ainda não caiu. Integrantes da campanha dizem que a ideia é reavaliá-la na hipótese de um “evento catastrófico”, como se refere um deles à possibilidade de novas e graves revelações. Por via das dúvidas, Michelle Bolsonaro vem sendo testada em monitoramentos internos do PL como vice da senadora Tereza Cristina (PP) e aparecerá em pelo menos uma pesquisa pública na semana que vem como alternativa a Flávio. O plano B do PL, ainda que costurado com outros partidos, depende das duas opiniões que de fato contam: a de Jair Bolsonaro e a de Valdemar Costa Neto.
Sobre o primeiro, um político próximo diz que Jair não tem “condições nem psicológicas” de, preso, suportar a ideia de ver a mulher candidata — ao menos como titular da chapa. Valdemar se guia por um critério único e bem menos sentimental: vale o candidato, ou candidata, capaz de levar mais deputados ao partido (cem cadeiras na Câmara, sua meta, equivalem a R$ 1 bilhão em fundo partidário). Ele trabalhará para substituir Flávio apenas se a hipótese do “evento catastrófico” tornar o filho de Jair um elemento radioativo em vez de puxador de bancada.
Na mesma linha, especialistas em pesquisas de opinião avaliam que, nada mais acontecendo por ora, os próximos levantamentos não mostrarão uma queda de Flávio capaz de sepultar sua candidatura. Uma parcela do voto antipetista pode migrar para os pré-candidatos Romeu Zema, Ronaldo Caiado ou Renan Santos, mas, no curto prazo, os bolsonaristas tendem a engolir o que Flávio disser, e os indecisos continuarão preocupados mais com as contas por vencer que com corrupções e lorotas de políticos. É prova de que a mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade. A gargalhada de Flávio Bolsonaro mostra que ele sabe disso.
— Mentira. De onde você tirou isso? — disse o senador quando confrontado pelo jornalista com a informação de que o filme sobre Jair Bolsonaro havia sido financiado por Daniel Vorcaro.
Nas imagens, à disposição na internet, Flávio lança uma rápida olhada para as câmeras simulando incredulidade, então solta a risada de ator canastrão.
— Pelo amor de Deus — desdenha, virando as costas.
Quando, pouco mais tarde, teve de divulgar uma gravação desmentindo a si próprio, e à sua gargalhada, não se viu em seu rosto sinal de rubor nem se ouviu em sua fala menção à negativa de momentos antes:
— O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai — disse, agora consternado e cândido.
A negativa de Flávio, e sua gargalhada cenográfica, levaram a mentira a um novo patamar de cinismo —mas isso parece importar cada vez menos no Brasil.
Na reunião de emergência com sua equipe de campanha após o episódio, o pré-candidato à Presidência pelo PL jurou que nada mais aparecerá contra ele — no que, obviamente, ninguém acreditou. Os R$ 61 milhões que recebeu de Vorcaro, segundo Flávio para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, nunca chegaram à empresa responsável pelo longa, a Go Up, dizem os responsáveis. E o fato de ao menos parte desse dinheiro ter ido parar num fundo nos Estados Unidos, gerido pelo advogado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, tampouco ajuda a dirimir as suspeitas de que Flávio fingiu pedir dinheiro para fazer um filme sobre o pai, e Vorcaro fingiu acreditar que o desembolso era para isso mesmo.
Diante de tantos e escrachados descalabros, a candidatura de Flávio ainda não caiu. Integrantes da campanha dizem que a ideia é reavaliá-la na hipótese de um “evento catastrófico”, como se refere um deles à possibilidade de novas e graves revelações. Por via das dúvidas, Michelle Bolsonaro vem sendo testada em monitoramentos internos do PL como vice da senadora Tereza Cristina (PP) e aparecerá em pelo menos uma pesquisa pública na semana que vem como alternativa a Flávio. O plano B do PL, ainda que costurado com outros partidos, depende das duas opiniões que de fato contam: a de Jair Bolsonaro e a de Valdemar Costa Neto.
Sobre o primeiro, um político próximo diz que Jair não tem “condições nem psicológicas” de, preso, suportar a ideia de ver a mulher candidata — ao menos como titular da chapa. Valdemar se guia por um critério único e bem menos sentimental: vale o candidato, ou candidata, capaz de levar mais deputados ao partido (cem cadeiras na Câmara, sua meta, equivalem a R$ 1 bilhão em fundo partidário). Ele trabalhará para substituir Flávio apenas se a hipótese do “evento catastrófico” tornar o filho de Jair um elemento radioativo em vez de puxador de bancada.
Na mesma linha, especialistas em pesquisas de opinião avaliam que, nada mais acontecendo por ora, os próximos levantamentos não mostrarão uma queda de Flávio capaz de sepultar sua candidatura. Uma parcela do voto antipetista pode migrar para os pré-candidatos Romeu Zema, Ronaldo Caiado ou Renan Santos, mas, no curto prazo, os bolsonaristas tendem a engolir o que Flávio disser, e os indecisos continuarão preocupados mais com as contas por vencer que com corrupções e lorotas de políticos. É prova de que a mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade. A gargalhada de Flávio Bolsonaro mostra que ele sabe disso.
Lima Barreto e a corrupção sistêmica
"Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na Presidência da República, se alicerça no crime. Que acha você?".
A afirmação é do protagonista de "O Único Assassinato de Cazuza" (1922), um dos últimos textos de Lima Barreto. A questão da corrupção sistêmica no país já se colocava há mais de um século. Os tribunais superiores, no entanto, não figuravam na lista. Sim, Lima não apelou para a explicação superficial, culturalista (herança lusitana).
Se todos acreditam que a corrupção é a regra do jogo, ficamos presos a uma armadilha clássica. Se, ao contrário, prevalece a crença de que transações honestas são a norma, obedecer à lei torna-se a estratégia dominante. Quando práticas escusas são percebidas como regra, o ator que decide jogar limpo tende a ser o perdedor —e, no limite, não sobrevive. O incentivo, nessa situação, é jogar sujo, apostando que os demais farão o mesmo.
Se um cidadão ou empresário paga propina a um agente público — seja um fiscal, seja um parlamentar— esperando que a oferta seja aceita, o sistema se mantém em equilíbrio. A punição ocasional de alguns transgressores pode produzir mudanças parciais — em um setor, um ministério ou uma prefeitura. Mas, na ausência de um efeito manada, isto é, de um ponto de inflexão capaz de alterar expectativas de forma radical, o equilíbrio global tende a ser restaurado.
As evidências empíricas que sustentam a tese de que "a corrupção corrompe" (Shaul Shalvi) são numerosas e consistentes. Dados do Lapop/Vanderbilt mostram forte correlação entre a crença de que "a corrupção é generalizada" e a probabilidade de se considerar que "pagar propina é justificável". Daniel Gingerich e coautores demonstraram que a exposição à informação sobre o aumento da corrupção em um país elevou em 28% a propensão a pagar propina, em comparação com um grupo de controle não exposto a essa informação.
Não são "pecadillos" individuais que produzem a corrupção sistêmica. A causalidade opera no sentido oposto: a corrupção corrompe. Gächter e Schulz, em artigo publicado na Nature, encontram evidências, com base em uma amostra de 23 países, do impacto da grande corrupção sobre a pequena. Participantes oriundos de países com altos escores no Índice de Prevalência de Violação de Regras (PRV) —medida que captura grande corrupção, fraude política e evasão tributária— apresentaram maior propensão a se engajar em atos corruptos em experimentos de laboratório.
Fisman e Miguel, por sua vez, examinaram milhares de multas de estacionamento cometidas por funcionários de missões diplomáticas em Nova York — que gozavam de imunidade até 2002 — e encontraram forte correlação entre estacionamento ilegal e indicadores de corrupção nos países de origem dos diplomatas. Mesmo na ausência de qualquer punição, as normas sociais forjadas nos países de origem mostraram-se determinantes.
A lição a extrair para o Brasil é clara: é a grande corrupção que molda nossa sociabilidade e estimula as microtransgressões —não o contrário. "Se aqueles no andar de cima fazem, por que eu não posso fazer?" deixa de ser apenas uma pergunta retórica e passa a funcionar como máxima orientadora do comportamento social.
A afirmação é do protagonista de "O Único Assassinato de Cazuza" (1922), um dos últimos textos de Lima Barreto. A questão da corrupção sistêmica no país já se colocava há mais de um século. Os tribunais superiores, no entanto, não figuravam na lista. Sim, Lima não apelou para a explicação superficial, culturalista (herança lusitana).
Se todos acreditam que a corrupção é a regra do jogo, ficamos presos a uma armadilha clássica. Se, ao contrário, prevalece a crença de que transações honestas são a norma, obedecer à lei torna-se a estratégia dominante. Quando práticas escusas são percebidas como regra, o ator que decide jogar limpo tende a ser o perdedor —e, no limite, não sobrevive. O incentivo, nessa situação, é jogar sujo, apostando que os demais farão o mesmo.
Se um cidadão ou empresário paga propina a um agente público — seja um fiscal, seja um parlamentar— esperando que a oferta seja aceita, o sistema se mantém em equilíbrio. A punição ocasional de alguns transgressores pode produzir mudanças parciais — em um setor, um ministério ou uma prefeitura. Mas, na ausência de um efeito manada, isto é, de um ponto de inflexão capaz de alterar expectativas de forma radical, o equilíbrio global tende a ser restaurado.
As evidências empíricas que sustentam a tese de que "a corrupção corrompe" (Shaul Shalvi) são numerosas e consistentes. Dados do Lapop/Vanderbilt mostram forte correlação entre a crença de que "a corrupção é generalizada" e a probabilidade de se considerar que "pagar propina é justificável". Daniel Gingerich e coautores demonstraram que a exposição à informação sobre o aumento da corrupção em um país elevou em 28% a propensão a pagar propina, em comparação com um grupo de controle não exposto a essa informação.
Não são "pecadillos" individuais que produzem a corrupção sistêmica. A causalidade opera no sentido oposto: a corrupção corrompe. Gächter e Schulz, em artigo publicado na Nature, encontram evidências, com base em uma amostra de 23 países, do impacto da grande corrupção sobre a pequena. Participantes oriundos de países com altos escores no Índice de Prevalência de Violação de Regras (PRV) —medida que captura grande corrupção, fraude política e evasão tributária— apresentaram maior propensão a se engajar em atos corruptos em experimentos de laboratório.
Fisman e Miguel, por sua vez, examinaram milhares de multas de estacionamento cometidas por funcionários de missões diplomáticas em Nova York — que gozavam de imunidade até 2002 — e encontraram forte correlação entre estacionamento ilegal e indicadores de corrupção nos países de origem dos diplomatas. Mesmo na ausência de qualquer punição, as normas sociais forjadas nos países de origem mostraram-se determinantes.
A lição a extrair para o Brasil é clara: é a grande corrupção que molda nossa sociabilidade e estimula as microtransgressões —não o contrário. "Se aqueles no andar de cima fazem, por que eu não posso fazer?" deixa de ser apenas uma pergunta retórica e passa a funcionar como máxima orientadora do comportamento social.
O paraíso não é para os humanos
Há alguns anos, no norte da ilha de Zanzibar, caminhava ao final da tarde por uma praia deserta quando deparei com um pequeno lodge construído em madeira, ligeiramente elevado sobre o mar. A arquitetura colonial, simples e elegante, parecia saída de outra época. A curiosidade levou-me a aproximar-me.
A vista era deslumbrante. Areia branca, água azul-turquesa, silêncio, palmeiras movidas lentamente pelo vento. Havia naquele lugar uma beleza tão absoluta que quase parecia excessiva. O proprietário encontrava-se ali. Ao perceber que eu era português, convidou-me para uma bebida. Conversámos, de forma tranquila e circunstancial, até que lhe perguntei algo que me parecia inevitável:
— Como é viver no paraíso?
Sorriu, olhou para o mar e respondeu com uma serenidade inesperada:
— Depois de algum tempo a olhar para a mesma vista todos os dias, já não é paraíso nenhum.
Nunca esqueci aquela frase.
Talvez porque nela exista uma verdade profundamente humana: habituamo-nos a tudo. Até à beleza. Até ao privilégio. Até à felicidade.
Vivemos frequentemente convencidos de que existe algures uma fórmula definitiva para a realização humana — um lugar ideal, um sistema perfeito, uma organização social capaz de satisfazer todos de forma duradoura. Mas a experiência humana raramente confirma essa ilusão. O que entusiasma uns, deixa outros indiferentes. O que hoje nos deslumbra torna-se amanhã rotina. O que para uma pessoa representa liberdade, para outra pode significar solidão. Nem sequer o paraíso parece resistir à repetição.
Talvez por isso me intrigue a tendência recorrente das sociedades modernas para procurarem soluções uniformes para realidades profundamente diferentes. Em nome da eficiência, da racionalidade ou da simplificação, multiplicam-se modelos únicos, métricas universais, padrões globais e formas cada vez mais homogéneas de avaliar pessoas, instituições e até modos de vida.
As cidades começam a parecer-se entre si. Os centros comerciais repetem-se em continentes diferentes. Os algoritmos sugerem os mesmos gostos, as mesmas músicas, os mesmos destinos, os mesmos comportamentos. As redes sociais criam uma estranha ilusão de individualidade dentro de uma crescente uniformização coletiva.
Também no ensino superior essa tendência se manifesta. Instituições com histórias, missões, culturas e contextos distintos são frequentemente pressionadas a convergir para modelos semelhantes, avaliadas através de indicadores padronizados que nem sempre compreendem a diversidade humana, territorial ou institucional que deveriam servir.
Porventura o problema esteja precisamente aí: na dificuldade em aceitar que os seres humanos não foram feitos para caber integralmente em modelos únicos.
A diversidade não é uma imperfeição dos sistemas. É uma consequência natural da condição humana. As pessoas procuram coisas diferentes, vivem de formas diferentes e realizam-se através de caminhos diferentes. A tentativa de transformar essa complexidade em estruturas totalmente uniformes pode produzir eficiência administrativa — mas raramente produz verdadeira riqueza humana.
Talvez seja isso que o homem de Zanzibar compreendeu. O paraíso absoluto, permanente e imutável é provável que não exista porque os próprios seres humanos também não foram feitos para a permanência absoluta. Precisam de descoberta, de mudança, de contraste, de diferença. Precisam até da imperfeição.
E talvez as sociedades mais inteligentes não sejam aquelas que procuram tornar todos iguais, mas aquelas que conseguem criar espaço para que as diferenças possam coexistir livremente.
A vista era deslumbrante. Areia branca, água azul-turquesa, silêncio, palmeiras movidas lentamente pelo vento. Havia naquele lugar uma beleza tão absoluta que quase parecia excessiva. O proprietário encontrava-se ali. Ao perceber que eu era português, convidou-me para uma bebida. Conversámos, de forma tranquila e circunstancial, até que lhe perguntei algo que me parecia inevitável:
— Como é viver no paraíso?
Sorriu, olhou para o mar e respondeu com uma serenidade inesperada:
— Depois de algum tempo a olhar para a mesma vista todos os dias, já não é paraíso nenhum.
Nunca esqueci aquela frase.
Talvez porque nela exista uma verdade profundamente humana: habituamo-nos a tudo. Até à beleza. Até ao privilégio. Até à felicidade.
Vivemos frequentemente convencidos de que existe algures uma fórmula definitiva para a realização humana — um lugar ideal, um sistema perfeito, uma organização social capaz de satisfazer todos de forma duradoura. Mas a experiência humana raramente confirma essa ilusão. O que entusiasma uns, deixa outros indiferentes. O que hoje nos deslumbra torna-se amanhã rotina. O que para uma pessoa representa liberdade, para outra pode significar solidão. Nem sequer o paraíso parece resistir à repetição.
Talvez por isso me intrigue a tendência recorrente das sociedades modernas para procurarem soluções uniformes para realidades profundamente diferentes. Em nome da eficiência, da racionalidade ou da simplificação, multiplicam-se modelos únicos, métricas universais, padrões globais e formas cada vez mais homogéneas de avaliar pessoas, instituições e até modos de vida.
As cidades começam a parecer-se entre si. Os centros comerciais repetem-se em continentes diferentes. Os algoritmos sugerem os mesmos gostos, as mesmas músicas, os mesmos destinos, os mesmos comportamentos. As redes sociais criam uma estranha ilusão de individualidade dentro de uma crescente uniformização coletiva.
Também no ensino superior essa tendência se manifesta. Instituições com histórias, missões, culturas e contextos distintos são frequentemente pressionadas a convergir para modelos semelhantes, avaliadas através de indicadores padronizados que nem sempre compreendem a diversidade humana, territorial ou institucional que deveriam servir.
Porventura o problema esteja precisamente aí: na dificuldade em aceitar que os seres humanos não foram feitos para caber integralmente em modelos únicos.
A diversidade não é uma imperfeição dos sistemas. É uma consequência natural da condição humana. As pessoas procuram coisas diferentes, vivem de formas diferentes e realizam-se através de caminhos diferentes. A tentativa de transformar essa complexidade em estruturas totalmente uniformes pode produzir eficiência administrativa — mas raramente produz verdadeira riqueza humana.
Talvez seja isso que o homem de Zanzibar compreendeu. O paraíso absoluto, permanente e imutável é provável que não exista porque os próprios seres humanos também não foram feitos para a permanência absoluta. Precisam de descoberta, de mudança, de contraste, de diferença. Precisam até da imperfeição.
E talvez as sociedades mais inteligentes não sejam aquelas que procuram tornar todos iguais, mas aquelas que conseguem criar espaço para que as diferenças possam coexistir livremente.
Direita quer distância do thriller bolsonarista
Poucas horas depois de vir à tona a troca de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, nas quais eles revelam ser amigos para o que der e vier, parcela do mundo político iniciou o enterro da candidatura do filho Zero Um. Lula, safo, preferiu não comentar o escândalo, dizendo que se tratava de “coisa de polícia”. Mas apoiadores do senador rapidamente começaram a elencar eventuais substitutos – a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro e a senadora Tereza Cristina (PP-MS) à frente -, escancarando o que Flávio realmente é: nada mais do que um sobrenome.
Substituir candidaturas majoritárias não é tarefa fácil. Nem para políticos que têm aura, história e liderança. Impedido de disputar as eleições de 2018, Lula lançou Fernando Haddad 20 dias antes do pleito. Até conseguiu que o indicado chegasse ao segundo turno, mas ele foi derrotado por Jair Bolsonaro por 55% a 44%.
Tanto àquela época quanto hoje, Lula é quem impulsiona o PT e boa parte da esquerda, e se tornou praticamente insubstituível. Quando falou, em abril, que ainda não tinha decidido ser ou não candidato, houve até quem considerasse as alternativas Haddad ou o ex-ministro da Educação Camilo Santana. Pura especulação que não chegou a ser levada a sério.
Inelegível por oito anos, Bolsonaro contrariou um número expressivo de apoiadores ao apostar todas as suas fichas na força do sobrenome. Rapidamente, seu ungido galgou pontos nas pesquisas, encostou e até chegou a ultrapassar Lula. Isso abriu caminho para o endosso dos que preferiam ver o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) como candidato, de gente do Centrão e de outros expoentes à direita que torciam o nariz para o rebento sem luz própria. Incluem-se aqui líderes evangélicos de peso, como Silas Malafaia, e a turma da Faria Lima. A lambança com o “irmão” Vorcaro pode pôr tudo a perder.
Na direita e até no bolsonarismo o clima foi – e ainda é – de barata voa.
Perplexo, o dono do PL, legenda de Flávio e do pai preso, Valdemar da Costa Neto preferiu nada falar. Nas redes sociais, bolsonaristas soltavam dardos sem direção. Influenciadores de peso, como o deputado mineiro Nikolas Ferreira (PL), com seus 38,8 milhões de seguidores, escolheram atitude protocolar.
Interessados em cooptar o eleitor anti-Lula que embarcou na canoa Flávio, os demais postulantes à direita reagiram logo que os áudios com o ex-banqueiro vazaram. Romeu Zema (Novo) disse ser “imperdoável, um tapa na cara” e Ronaldo Caiado (PSD), mais ameno, exigiu esclarecimentos e total transparência. Renan Santos (Missão), que deseja se firmar como o candidato contra tudo e todos, foi mais longe: pediu a cassação do senador.
O quadro de desconfiança se agravou com as quatro versões de Flávio, somadas às duas do seu irmão Eduardo.
Com as críticas a ele se ampliando, Flávio disse na sexta-feira que não iria mais falar sobre Vorcaro, que não devia explicações a ninguém. Talvez para ele seja melhor assim, visto que cada vez que fala ele piora tudo ao seu redor. Mas como na verdade ele deve explicações – e muitas -, a mudez em meio à crise prejudica a sua candidatura e dificulta a manutenção de aliados. Afinal, muitos prefeririam não ter tido de engoli-lo. Engoliram pelo sobrenome. Depois dos áudios, estão custando a digerir a traição – antes o senador garantia, de pés juntos, desconhecer e ter “relação zero” com Vorcaro. Quem gostou foi o senador Ciro Nogueira (PP-PI), também enrolado com o ex-banqueiro, que, graças a Flávio, saiu dos holofotes.
Da boca para fora ainda falam que manterão o apoio, mas já discutem outros nomes. Na quinta-feira, Michelle subiu ao topo. Na sexta foi a vez de Tereza Cristina, mais palatável ao centro. Mas ambas têm possibilidades quase nulas de conseguir o aval do ex. O desespero é de tal monta que houve quem sugerisse a chapa Tereza-Michelle. Gilberto Kassab, dono do PSD, passou a enxergar chances para Caiado, candidato de seu partido, iniciando conversações com próceres do Centrão.
Embora se movimentem, os oposicionistas a Lula sabem que substituir Flávio não é tarefa simples. Dificilmente o ex-presidente condenado conseguiria apontar um outro candidato. De antemão, o eleitor veria um eventual indicado como plano B e não como o favorito – e ele ainda teria de explicar a substituição. Chance zero. Talvez, na sua cabeça, seja melhor perder com o sobrenome do que ter chances de vencer com outro qualquer.
O foco agora não se limita à estratégia do bolsonarismo e da direita para alterar esse enredo, mas às relações espúrias com o dono do Master. Hoje, o que se quer é desvendar o thriller. Por que Vorcaro se comprometeu a liberar R$ 134 milhões para os Bolsonaro? Onde foram parar os R$ 61 milhões já pagos, supostamente para o filme Dark Horse (O Azarão)? Como o irmão Eduardo, deputado cassado e auto-exilado nos Estados Unidos, entra na história? Por quais motivos Flávio estabeleceu um pacto de lealdade com o ex-banqueiro – “irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”?
No mais, o desenrolar do filme que pode tirar o Zero Um do script eleitoral já é sucesso de bilheteria. Aplaudido por lulistas e até por centristas.
Substituir candidaturas majoritárias não é tarefa fácil. Nem para políticos que têm aura, história e liderança. Impedido de disputar as eleições de 2018, Lula lançou Fernando Haddad 20 dias antes do pleito. Até conseguiu que o indicado chegasse ao segundo turno, mas ele foi derrotado por Jair Bolsonaro por 55% a 44%.
Tanto àquela época quanto hoje, Lula é quem impulsiona o PT e boa parte da esquerda, e se tornou praticamente insubstituível. Quando falou, em abril, que ainda não tinha decidido ser ou não candidato, houve até quem considerasse as alternativas Haddad ou o ex-ministro da Educação Camilo Santana. Pura especulação que não chegou a ser levada a sério.
Inelegível por oito anos, Bolsonaro contrariou um número expressivo de apoiadores ao apostar todas as suas fichas na força do sobrenome. Rapidamente, seu ungido galgou pontos nas pesquisas, encostou e até chegou a ultrapassar Lula. Isso abriu caminho para o endosso dos que preferiam ver o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) como candidato, de gente do Centrão e de outros expoentes à direita que torciam o nariz para o rebento sem luz própria. Incluem-se aqui líderes evangélicos de peso, como Silas Malafaia, e a turma da Faria Lima. A lambança com o “irmão” Vorcaro pode pôr tudo a perder.
Na direita e até no bolsonarismo o clima foi – e ainda é – de barata voa.
Perplexo, o dono do PL, legenda de Flávio e do pai preso, Valdemar da Costa Neto preferiu nada falar. Nas redes sociais, bolsonaristas soltavam dardos sem direção. Influenciadores de peso, como o deputado mineiro Nikolas Ferreira (PL), com seus 38,8 milhões de seguidores, escolheram atitude protocolar.
Interessados em cooptar o eleitor anti-Lula que embarcou na canoa Flávio, os demais postulantes à direita reagiram logo que os áudios com o ex-banqueiro vazaram. Romeu Zema (Novo) disse ser “imperdoável, um tapa na cara” e Ronaldo Caiado (PSD), mais ameno, exigiu esclarecimentos e total transparência. Renan Santos (Missão), que deseja se firmar como o candidato contra tudo e todos, foi mais longe: pediu a cassação do senador.
O quadro de desconfiança se agravou com as quatro versões de Flávio, somadas às duas do seu irmão Eduardo.
Com as críticas a ele se ampliando, Flávio disse na sexta-feira que não iria mais falar sobre Vorcaro, que não devia explicações a ninguém. Talvez para ele seja melhor assim, visto que cada vez que fala ele piora tudo ao seu redor. Mas como na verdade ele deve explicações – e muitas -, a mudez em meio à crise prejudica a sua candidatura e dificulta a manutenção de aliados. Afinal, muitos prefeririam não ter tido de engoli-lo. Engoliram pelo sobrenome. Depois dos áudios, estão custando a digerir a traição – antes o senador garantia, de pés juntos, desconhecer e ter “relação zero” com Vorcaro. Quem gostou foi o senador Ciro Nogueira (PP-PI), também enrolado com o ex-banqueiro, que, graças a Flávio, saiu dos holofotes.
Da boca para fora ainda falam que manterão o apoio, mas já discutem outros nomes. Na quinta-feira, Michelle subiu ao topo. Na sexta foi a vez de Tereza Cristina, mais palatável ao centro. Mas ambas têm possibilidades quase nulas de conseguir o aval do ex. O desespero é de tal monta que houve quem sugerisse a chapa Tereza-Michelle. Gilberto Kassab, dono do PSD, passou a enxergar chances para Caiado, candidato de seu partido, iniciando conversações com próceres do Centrão.
Embora se movimentem, os oposicionistas a Lula sabem que substituir Flávio não é tarefa simples. Dificilmente o ex-presidente condenado conseguiria apontar um outro candidato. De antemão, o eleitor veria um eventual indicado como plano B e não como o favorito – e ele ainda teria de explicar a substituição. Chance zero. Talvez, na sua cabeça, seja melhor perder com o sobrenome do que ter chances de vencer com outro qualquer.
O foco agora não se limita à estratégia do bolsonarismo e da direita para alterar esse enredo, mas às relações espúrias com o dono do Master. Hoje, o que se quer é desvendar o thriller. Por que Vorcaro se comprometeu a liberar R$ 134 milhões para os Bolsonaro? Onde foram parar os R$ 61 milhões já pagos, supostamente para o filme Dark Horse (O Azarão)? Como o irmão Eduardo, deputado cassado e auto-exilado nos Estados Unidos, entra na história? Por quais motivos Flávio estabeleceu um pacto de lealdade com o ex-banqueiro – “irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”?
No mais, o desenrolar do filme que pode tirar o Zero Um do script eleitoral já é sucesso de bilheteria. Aplaudido por lulistas e até por centristas.
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