A vista era deslumbrante. Areia branca, água azul-turquesa, silêncio, palmeiras movidas lentamente pelo vento. Havia naquele lugar uma beleza tão absoluta que quase parecia excessiva. O proprietário encontrava-se ali. Ao perceber que eu era português, convidou-me para uma bebida. Conversámos, de forma tranquila e circunstancial, até que lhe perguntei algo que me parecia inevitável:
— Como é viver no paraíso?
Sorriu, olhou para o mar e respondeu com uma serenidade inesperada:
— Depois de algum tempo a olhar para a mesma vista todos os dias, já não é paraíso nenhum.
Nunca esqueci aquela frase.
Talvez porque nela exista uma verdade profundamente humana: habituamo-nos a tudo. Até à beleza. Até ao privilégio. Até à felicidade.
Vivemos frequentemente convencidos de que existe algures uma fórmula definitiva para a realização humana — um lugar ideal, um sistema perfeito, uma organização social capaz de satisfazer todos de forma duradoura. Mas a experiência humana raramente confirma essa ilusão. O que entusiasma uns, deixa outros indiferentes. O que hoje nos deslumbra torna-se amanhã rotina. O que para uma pessoa representa liberdade, para outra pode significar solidão. Nem sequer o paraíso parece resistir à repetição.
Talvez por isso me intrigue a tendência recorrente das sociedades modernas para procurarem soluções uniformes para realidades profundamente diferentes. Em nome da eficiência, da racionalidade ou da simplificação, multiplicam-se modelos únicos, métricas universais, padrões globais e formas cada vez mais homogéneas de avaliar pessoas, instituições e até modos de vida.
As cidades começam a parecer-se entre si. Os centros comerciais repetem-se em continentes diferentes. Os algoritmos sugerem os mesmos gostos, as mesmas músicas, os mesmos destinos, os mesmos comportamentos. As redes sociais criam uma estranha ilusão de individualidade dentro de uma crescente uniformização coletiva.
Também no ensino superior essa tendência se manifesta. Instituições com histórias, missões, culturas e contextos distintos são frequentemente pressionadas a convergir para modelos semelhantes, avaliadas através de indicadores padronizados que nem sempre compreendem a diversidade humana, territorial ou institucional que deveriam servir.
Porventura o problema esteja precisamente aí: na dificuldade em aceitar que os seres humanos não foram feitos para caber integralmente em modelos únicos.
A diversidade não é uma imperfeição dos sistemas. É uma consequência natural da condição humana. As pessoas procuram coisas diferentes, vivem de formas diferentes e realizam-se através de caminhos diferentes. A tentativa de transformar essa complexidade em estruturas totalmente uniformes pode produzir eficiência administrativa — mas raramente produz verdadeira riqueza humana.
Talvez seja isso que o homem de Zanzibar compreendeu. O paraíso absoluto, permanente e imutável é provável que não exista porque os próprios seres humanos também não foram feitos para a permanência absoluta. Precisam de descoberta, de mudança, de contraste, de diferença. Precisam até da imperfeição.
E talvez as sociedades mais inteligentes não sejam aquelas que procuram tornar todos iguais, mas aquelas que conseguem criar espaço para que as diferenças possam coexistir livremente.
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