quarta-feira, 29 de abril de 2026

Pensamento do Dia

 


Desejo de país melhor é antídoto contra medo

A ciência política tem uma tese clássica sobre as oscilações da opinião pública: a do termóstato, cunhada assim por Christopher Wlezien em 1995. Se um governo põe a temperatura demasiado quente, o ciclo seguinte da opinião pública baixa a temperatura.

Na fase seguinte, acontece ao contrário, e a opinião pública age de novo, tendendo ao equilíbrio. É um modelo dos anos noventa, tempo de ingenuidade, e não chega para descrever o que estamos vivendo.

Uma outra proposta, de Pippa Norris e Ronald Inglehart, é a do ricochete cultural: cada ciclo não repõe a temperatura no equilíbrio, reage como corretivo em relação ao ciclo anterior. Nascendo da observação do choque de gerações dos anos 1960 e seguintes, está mais perto da nossa atualidade. Mas ainda não basta.


Proponho um terceiro modelo, que todos conhecemos bem: o da discussão doméstica. Um modelo da irritação doméstica como dinâmica política.

Neste modelo, ganhar a discussão não basta. Bem sabemos como é irritante se alguém pretende acabar a discussão dizendo "está bem, tens razão". Nós queremos ter razão, queremos que nos dêem razão, mas queremos mais: queremos que se calem para termos a última palavra explicando porque tivemos sempre razão, e queremos que o outro pague caro por ter achado antes que não tínhamos razão.

Aplicado à política, o modelo ajuda a explicar oscilações bruscas dos últimos anos. Em momentos em que uma esquerda sectária se perde no narcisismo das pequenas diferenças, as pessoas ficam frustradas e acabam votando em quem é mais vocal contra essa atitude (o "wokismo", o "politicamente correto"), independentemente de acreditar que aquele voto sirva para resolver o que quer que seja.

Nesse modelo, o voto não serve só para mudar o rumo das políticas e dos políticos. Serve para punir as pessoas que achamos que foram chatas conosco no ciclo anterior.

O problema é que o político que chega ao poder numa vaga de irritação com o campo contrário se sente imediatamente validado por aquele aparente mandato democrático e acaba governando com mais fanatismo do que os seus antecessores, preparando a reação epidérmica seguinte. Como num sismógrafo, cujas oscilações vão aumentando de passo a passo.

Como sair disto? Pode ser pela catástrofe, como no entreguerras. Por exaustão mútua. Por censura, quando uma das partes toma conta do Estado e acaba com a possibilidade da discussão. Pode ser por saturação: a opinião pública fica farta dos chatos dos dois lados e opta por políticos banais e aborrecidos.

Mas não podemos passar o tempo todo, ciclo após ciclo, colocando o medo perante a esperança. Quando elegemos um político da esperança, e a esperança não se concretiza, há um medo que se duplica: passo a ter medo de ser decepcionado e sou presa fácil de quem me disser que fui um otário por ter acreditado.

O antídoto do medo não é a esperança. É o desejo: o desejo de um país melhor, de uma sociedade mais feliz, de uma vida mais plena. É o desejo que dá motivação, que leva à mobilização, à luta pela mudança, e àquilo de que nem a psicanálise nem a historiografia se esquecem: a memória.
Rui Tavares

A urgência da memória

Há 50 anos, um golpe militar instaurou uma das ditaduras mais brutais da América Latina. Com o apoio tácito dos EUA, à semelhança do que tinha acontecido três anos antes no Chile, um grupo de oficiais derrubou o governo eleito democraticamente, sob o pretexto de pôr fim a uma era de instabilidade política na Argentina. Meio século depois, já poucos se recordam das peripécias que ocorreram naquele país da América do Sul durante a Presidência que Isabel Perón − eleita vice-presidente pelo voto popular − assumiu após a morte do marido. Mas durante todos os anos seguintes foi difícil esquecer as atrocidades cometidas pela ditadura militar que controlou a Argentina, de forma brutal, até 1983 – quando teve de se “retirar” na sequência da derrota na Guerra das Malvinas/Falklands, frente ao Reino Unido.

Durante anos, foi lembrada a resistência das mães que, todas as quintas-feiras, se concentravam na Praça de Maio, em Buenos Aires, a reclamar pelo paradeiro dos seus filhos desaparecidos. Ao fim de várias investigações e inquéritos, com muitos sobressaltos pelo meio, foi possível chegar ao consenso de que a “guerra suja” da ditadura argentina provocou cerca de dois mil mortos e, oficialmente, 8 690 desaparecidos – embora diversas organizações de direitos humanos calculem que o número verdadeiro de desaparecidos chegue aos 30 000. Sabe-se também que milhares desses desaparecidos foram atirados para o mar, ainda vivos, de aviões, nos chamados “voos da morte”. Também ficou fundamentada a morte e o sequestro de bebés, das famílias vítimas da repressão, com alguns a serem adotados pelos militares.

Logo em 1985, com a restauração da democracia, iniciou-se o julgamento dos diversos integrantes das juntas militares, levando à condenação de muitos deles, num processo que foi considerado exemplar pela comunidade internacional – o ditador Jorge Videla seria mesmo condenado a prisão perpétua, morrendo na sua cela em 2013, depois de reconhecer muitos dos seus crimes, mas sem demonstrar qualquer arrependimento.


Desde que Javier Milei chegou ao poder, em 2023, essa narrativa oficial, até então consensual, começou a alterar-se. Nas suas intervenções públicas duvidou abertamente do número de desaparecidos e, aos poucos, começou a tentar impor a versão de que todos os assassínios e raptos tinham uma justificação: a “guerra” contra a guerrilha esquerdista. Ao mesmo tempo, retirou importância à Secretaria de Estado de Direitos Humanos, cortou apoios aos grupos da sociedade civil que se dedicavam à preservação da memória daqueles tempos e tornou inoperacional a comissão que ainda procurava localizar as crianças raptadas durante a ditadura.

Em Portugal, felizmente, ainda não atingimos este nível de reescrita da História. Mas vemos acumularem-se, todos os dias, diversos sinais no mesmo sentido e várias tentativas para procurar impor uma nova narrativa em relação ao 25 de Abril e a tudo o que esse dia significou para o País.

Num tempo de indignações à pressão, em que podem soltar-se números sem contraditório ou fazer afirmações sem o mínimo de sustentabilidade histórica, a tática é a de sempre: procurar desfazer o grito unido de “liberdade” que em 1974 ecoou por todo o País – fazendo, por isso, cair uma ditadura esclerosa – e impor uma narrativa de confronto, destinada a criar confusão e a aumentar a divisão.

Nestes tempos em que tantos procuram reescrever a História, é cada vez mais importante conservar os mecanismos que nos permitem manter a memória preservada. É para isso que são fundamentais os museus, as bibliotecas, mas também tudo o que seja arquivo físico, com os documentos e testemunhos que marcaram cada época. Tudo aquilo que, no fundo, possa servir de prova para desmentir aqueles que tentam impor uma narrativa “alternativa”, destruir consensos estabelecidos e, na verdade, atacar a liberdade e a democracia.

É por isso que a batalha pela preservação da memória do 25 de Abril não é um sintoma de saudosismo, mas sim um plano para salvaguardar o futuro. Mais urgente do que nunca. Em nome da democracia, mas também da verdade histórica.

Lembrete para que não enxerga

 


Mais de 3.000 crianças palestinas sofreram graves lesões oculares em Gaza, resultando em cegueira generalizada e deficiência visual devido à guerra  

Em busca de novos mapas

Se o Brasil já foi definido como o país onde até o passado soa incerto, dá para imaginar o desalento dos eleitores com a falta de mapas para navegar os tempos exigentes que nos aguardam neste início turbulento do século 21.

Até aqui, brasileiras e brasileiros têm sido convidados a subir escadas escuras onde ecoam antigos slogans, até que, na hora certa, cheguem ao trampolim de onde poderão saltar para uma piscina cheia de promessas vencidas.

O ano de 2026 não é como outro ano qualquer. O mundo convive com pelo menos duas guerras de grandes dimensões – na Ucrânia e no Irã. Vê derreterem antigas alianças políticas, militares e econômicas. E tropeça em incertezas quando ensaia projetar o futuro – ainda que próximo.


Os solavancos da administração de Donald Trump ajudam a semear dúvidas. Onde antes havia regras comerciais, ainda que imperfeitas, agora há tarifas calculadas segundo o momento. Antigos aliados recalculam rotas depois de erráticas mudanças de rumo na política externa dos Estados Unidos.

E, ao longo dos próximos quatro ou cinco anos, a adoção de um novo modelo econômico, baseado na inteligência artificial e na adaptação à crise climática, vai requerer um olhar estratégico pouco cultivado no Ocidente nas últimas décadas.

O que fazer? Apesar dos reiterados apelos de forças neoconservadoras em busca da desmontagem de instituições públicas voltadas ao planejamento, parece destinado a voltar ao cenário o papel do Estado. Não necessariamente como proprietário de empresas, mas, principalmente, como desenhista de novas rotas.

Um exemplo eloquente vem do outro lado do mundo. A China já coloca em prática o seu 15º Plano Quinquenal, que pretende preparar o país para um dos cenários mais incertos em nível global desde que o primeiro plano foi lançado, em 1953.

Naquele momento, o novo governo de Pequim dava seus primeiros passos em direção ao desenvolvimento após a Revolução de 1949. Enquanto isso, o Ocidente era só otimismo com o crescimento econômico após a Segunda Guerra Mundial.

Pois o Ocidente de 2025 esperava do 15º Plano grandes metas de expansão da economia. Em vez disso, o governo chinês optou pela resiliência. Traçou planos para navegar tempos de crise com cautela e busca de autossuficiência.

Entre as novas prioridades estão a aceleração da pesquisa científica, capaz de levar o país a competir de igual para igual em setores como o de semicondutores, e a redução da dependência de importações consideradas estratégicas.

Também devem receber estímulos o consumo interno, como motor de crescimento, e a construção do que Pequim chama de “civilização ecológica”, por meio de investimentos em energias renováveis.

Permanecem ainda no radar apostas no desenvolvimento social, com foco na chamada “felicidade interna bruta”, e a busca de redução de grandes riscos internos e externos ao crescimento do país.

Essas grandes linhas estão detalhadas em centenas de páginas e detalhadas em milhares de documentos que guiarão o país de agora até o final de 2030.

Pois 2030 também será o ano final do próximo governo brasileiro, a ser eleito em outubro. Governo que será responsável pela elaboração de um Plano Plurianual a ser colocado em prática nos quatro anos seguintes ao de sua posse.

Ninguém espera que o próximo presidente brasileiro aposte em diretrizes tão detalhadas como as expostas nos planos adotados pela China. Mas os próximos anos prometem ser ariscos para países que não se prepararem para o futuro.

O atual governo brasileiro adotou a Estratégia Brasil 2050, um esforço quase inédito de planejamento para adaptar os sonhos nacionais a tempos exigentes. A próxima administração deverá ir além e detalhar o novo plano de voo.

Se a opção dos eleitores for por um governo mais à direita, é menos provável que o Brasil aposte no planejamento para crescer em ambiente hostil.

Se a escolha recair pela garantia de mais um mandato ao atual presidente, já estarão disponíveis para sua nova administração dados e projeções colhidos pelo atual esforço de planejamento.

A China tem demonstrado seu grande empenho em desenhar o próprio futuro. Em tempos turbulentos como os que nos esperam, o próximo governo brasileiro já sabe onde pode vir a buscar inspiração.

O grande engano

O grande engano da mediocridade! Este é um alerta para os nossos dias. O fácil, o imediato, o que dá para todos, o que passa por democrático, o que está ‘benzinho’ e mediano, parece, tantas vezes, a solução. Não fazer ondas, ceder, ir pelo mais ou menos, vale tudo desde que não chegue cá o incómodo: este é o retrato dos desiludidos! Nivelar por baixo não é caminho, é engano.

Vasco Pinto de Magalhães

Quando as vozes de exílio e sobrevivência nos alcançam

Na Poética, de Aristóteles, somos ensinados que quanto mais intensos são os sentimentos inspirados por uma tragédia – medo, horror, revolta, compaixão –, maior é a catarse do público. Uma história bem contada, em que as tensões presentes na peça permitem à audiência identificar-se com as emoções das personagens, conduz à resolução do conflito e ao desfazer de tensões, atingindo-se então a catarse.

Se para Aristóteles a catarse era sobretudo experienciada pela audiência, hoje em dia é comum referirmo-nos à escrita como processo terapêutico – catártico – do próprio autor ou da autora. Afinal, é preciso um especial tipo de coragem para decidir enfrentar o abismo que devolve a nossa reflexão ao espelho. Sem coragem, como seríamos capazes de pôr fim às trevas e preenchê-las de luz?

Vem isto a propósito de uma conversa em que participei, a convite do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e do coletivo feminista Insurgentes, com a participação de várias autoras com obras sobre migração, cultura e desenraizamento, e que me fez regressar a esta ideia aristotélica de catarse.


Fiquei a conhecer a história de Margarita Sharapova que vivera toda a vida na Rússia e, durante o regime de Putin, começou a ser perseguida por ser uma autora lésbica e que escrevera sobre temáticas LGBT. No livro Três Histórias de Mulheres Refugiadas (Edições Insurgentes), partilha a sua história e revela como foi constantemente perseguida em Moscovo devido à sua escrita, insultada e espancada pela polícia e por neonazis russos. Não adiantava recorrer às autoridades porque estavam em conluio com o regime. Sharapova não queria abandonar a sua terra natal, mas após a morte trágica da sua companheira, vítima de violência policial, a vida tornou-se impossível na Rússia. Fugiu para Portugal sem conhecer a língua nem o país, e pediu asilo político.

Quando falamos de violência e perseguição política, de refugiados e guerras, quando falamos de descolonização, deslocamento forçado e outros processos de enorme violência, esquecemo-nos com frequência de que cada história tem um rosto e um nome. Há todo um passado que fica para trás, e a pessoa que éramos ontem já não é a pessoa que somos hoje. O que seria dos escritores se não fosse a força de vontade para detalhar em papel essas vivências, numa tentativa de sensibilizar os leitores para a indignidade e a crueldade crescente dos nossos tempos?

Recordo-me de ter ficado profundamente impressionada com O Fim do Homem Soviético, de Svetlana Aleksievitch, permitindo-me uma compreensão das circunstâncias históricas esmagadoras, antes e depois do regime soviético, e as promessas que foram feitas e a seguir estilhaçadas.

Recordo-me do álbum autobiográfico de banda desenhada Assombrada, da iraniana Shaghayegh Moazzami. Imigrou para o Canadá, numa tentativa de fugir à vida opressiva sob o regime iraniano, mas não consegue desligar-se do seu país de origem. Essa ligação transforma-se na figura de uma mulher iraniana conservadora, vestida com um chador preto, que a assombra e a acusa de ter abandonado os costumes e a religião. Moazzami está de tal forma atormentada pela culpa que só através do processo catártico da sua arte consegue finalmente deixar para trás os seus fantasmas.

Recordo-me também da banda desenhada autobiográfica da libanesa Zeina Abirached, que conta em A Dança das Andorinhas a história da sua infância durante a guerra civil libanesa, e de como os vizinhos formaram uma comunidade que lhes permitiu ultrapassar a vida absurda numa cidade dividida por campos de batalha e sob a constante ameaça dos mísseis. No meio da devastação em redor, os vizinhos procuram manter a normalidade, e enquanto uns ponderam o exílio, outros sabem que jamais irão partir.

Tantas histórias de violência que foram transformadas em literatura em vez de ficarem guardadas numa gaveta profunda de memória. Tantas autoras a passarem pelos seus processos de catarse. Talvez seja nesse gesto de escrita que reside não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a de partilha. E talvez seja aí, nesse encontro entre quem escreve e quem lê, que começamos a compreender melhor aquilo que, de outra forma, permaneceria distante.