quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Os genes egoístas de Trump

Trocar as lentes que utilizamos para interpretar fenômenos pode esclarecer muita coisa. Richard Dawkins promoveu uma pequena revolução conceitual na biologia ao destacar, em 1976, que são os genes, e não o indivíduo ou a espécie, a unidade fundamental sujeita à seleção natural. São os genes que buscam perpetuar-se e, ao contrário de indivíduos e espécies, que têm data mais ou menos marcada para morrer ou extinguir-se, podem perdurar pelo tempo em que existir vida na Terra.


A mudança de lentes explica o que antes parecia inexplicável. Um bom exemplo é a homossexualidade. Para o indivíduo que a pratica de forma exclusiva, é um beco sem saída reprodutivo. Mas, se pensarmos em termos de genes, tudo muda de figura. As mesmas sequências genéticas que levam uma pessoa gay a não ter filhos podem conferir vantagem reprodutiva a seus irmãos do sexo oposto. Com isso, esses genes se fixam no pool da humanidade mesmo que prejudiquem a reprodução de indivíduos específicos.

Stacie Goddard e Abraham Newman sugerem uma troca de óculos para entender Donald Trump. Para a dupla, ações e atitudes do presidente americano que aparentemente desafiam a lógica ficam menos malucas se as virmos como voltadas para beneficiar não os EUA nem grupos econômicos fortes do país, mas para satisfazer suas próprias necessidades egoicas, ajudar nos negócios da família e de seus colaboradores próximos.

O modelo não é Metternich nem Maquiavel, mas Henrique 8º ou os Borgias. A unidade de seleção é a corte trumpiana. Os autores chamam esse estilo de administração de neorrealista ("neoroyalist" em inglês, que é menos ambíguo).

O interessante nessa abordagem é que ela permite entender a facilidade com que Trump sacrifica interesses de longo prazo dos americanos e eventualmente até se alia a Putin ou Xi, tradicionalmente vistos como competidores dos EUA, se a parceria servir a seus interesses paroquiais.

A teoria tem corroboração empírica. Neste ano de Presidência, a família Trump já ficou US$ 1,4 bilhão mais rica.

O terremoto causado pela versão mais recente da IA

“Estamos enfrentando algo muito, muito maior do que a Covid”, alertou Matt Schumer esta semana. Este renomado programador, que trabalha com inteligência artificial (IA), acaba de publicar um artigo intitulado “Algo Grande Está Acontecendo”, no qual alerta sobre as ameaças que os novos modelos de IA representam para milhões de empregos de escritório em todo o mundo. Seu ensaio viralizou, acumulando mais de 80 milhões de visualizações desde terça-feira.

“O motivo pelo qual tantas pessoas no setor estão soando o alarme agora é porque isso já aconteceu conosco ”, explica Shumer, que relata como empresas de IA estão demitindo cientistas da computação e desenvolvedores porque as ferramentas que eles criaram agora estão se reprogramando para se tornarem mais inteligentes. “Não estamos fazendo previsões. Estamos contando a eles o que já aconteceu em nossos próprios trabalhos e os alertando de que serão os próximos”, destaca.


O artigo de Schumer coincide com uma semana turbulenta em Wall Street. Os investidores penalizaram as empresas que correm maior risco de serem afetadas pela ascensão dessa tecnologia. Empresas de software , desenvolvedoras de videogames e de computadores sofreram um revés significativo no mercado de ações, à medida que se espalham notícias sobre as capacidades avançadas dos novos modelos de IA e o risco que representam para milhões de empregos. Especialistas afirmam que uma criança poderá dar instruções para criar um videogame personalizado. E programas de linguagem criados por pessoas com conhecimentos limitados de informática estão se proliferando.

Mas os investidores também veem a automação prestes a se expandir para outros setores menos óbvios, como logística, seguros e consultoria. Com apenas alguns comandos, será possível criar um programa de planejamento tributário ou um chatbot de atendimento ao cliente que supere a interação humana.


“O rápido progresso das ferramentas de IA está alimentando temores generalizados de disrupção em setores mais expostos à difusão dessa tecnologia na economia do conhecimento, particularmente em modelos de negócios que não exigem uso intensivo de capital, com as empresas de software na vanguarda”, explica Yves Bonzon, chefe de investimentos do banco suíço Julius Baer. “As preocupações dos investidores com o impacto disruptivo da IA continuam a pesar sobre as ações americanas, desde corretoras de seguros e serviços imobiliários até logística”, explica o banco de investimentos suíço UBS, que, no entanto, adota um tom otimista para os investidores : “Embora o impacto geral nesses setores e empresas individuais ainda esteja por ser visto, consideramos [esse processo] uma validação do potencial de monetização da IA. Os avanços reforçam sua natureza transformadora.”

“Esta onda de automação é diferente de qualquer outra anterior, e preciso que vocês entendam o porquê”, começa Shumer, apresentando um relato inquietante que repercutiu entre diversos executivos do setor. “A IA não substitui uma habilidade específica. Ela é um substituto geral para o trabalho cognitivo. Ela aprimora tudo simultaneamente. Quando as fábricas foram automatizadas, um trabalhador demitido podia se requalificar para trabalhar como auxiliar de escritório. Quando a internet revolucionou o varejo, os trabalhadores migraram para a logística ou para os serviços. Mas a IA não deixa uma lacuna fácil de preencher. Seja qual for a habilidade, ela também está se aprimorando nela”, acrescenta.

Os alarmes estão soando à medida que as principais empresas de tecnologia intensificam seus investimentos em tecnologias disruptivas. Somente em 2026, as quatro maiores gigantes globais da tecnologia — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — planejam investir mais de US$ 650 bilhões em inteligência artificial . Este é o maior valor já investido em um único ano em qualquer outro desenvolvimento tecnológico; nem mesmo a expansão das ferrovias no final do século XIX, os programas espaciais da NASA ou a bolha da internet no início do século XXI consumiram tantos recursos em tão pouco tempo.

Essas gigantes da tecnologia, com orçamentos maiores que os de alguns países, estão envolvidas em uma corrida frenética para desenvolver IA . Elas precisam treinar seus modelos computacionais em milhares de computadores equipados com a última geração de microprocessadores. Esses computadores são armazenados em gigantescos armazéns — centros de dados — com centenas de servidores para que o sistema possa continuar aprendendo. E elas precisam de usinas de energia especiais para suprir seu enorme consumo energético.

Schumer pinta um quadro assustador. Ele explica como, nos últimos anos, as melhorias nos modelos cognitivos criados por algoritmos alcançaram um progresso exponencial. Mas as versões mais recentes da OpenAI, criadora do popular ChatGPT, ou da Anthopic, que desenvolve o modelo Claude , “não são melhorias incrementais. É algo completamente diferente”, alerta ele.

“A IA não substitui empregos humanos específicos, mas sim o trabalho humano em geral”, argumenta Dario Amodei, CEO da Anthropic, empresa fundada por ex-pesquisadores da OpenAI. Há algumas semanas, Amodei publicou um artigo instigante, “ A Adolescência da Tecnologia: Como Confrontar e Superar os Riscos da IA Poderosa”, sobre os riscos que uma tecnologia dessa magnitude, ou IA Geral (IAG) — capaz de pensar por si mesma — trará. O executivo estima que metade de todos os empregos de escritório no mundo desaparecerá dentro de um a cinco anos. Após analisar as consequências dessa revolução no artigo, ele conclui: “O choque a curto prazo será de magnitude sem precedentes”.

Esta semana, a empresa atingiu uma avaliação de US$ 380 bilhões após sua última rodada de financiamento, na qual arrecadou US$ 30 bilhões. A Anthropic se posiciona como uma das empresas de tecnologia mais preocupadas com a segurança. Ela afirma que seu modelo é treinado seguindo princípios éticos para prevenir manipulação e engano.

Esta semana, a Public First anunciou a criação de um SPAC (Special Purpose Acquisition Company), uma ferramenta de abertura de capital na bolsa de valores, com um aporte de US$ 20 milhões, para promover a transparência e a segurança em modelos de inteligência artificial. A empresa busca influenciar legisladores para que estabeleçam regulamentações e salvaguardas para a IA que previnam abusos. Na realidade, sua estratégia é direcionada contra sua concorrente OpenAI, que utiliza táticas mais agressivas.

O ensaio de Schumer também coincide com a renúncia de dois executivos da OpenAI e da Anthropic, alertando para as profundas mudanças que o mundo enfrenta, não apenas no ambiente de trabalho. “O mundo está em perigo. E não apenas por causa da IA ou das armas biológicas, mas por causa de toda uma série de crises interconectadas que estão se desenrolando neste momento”, escreveu Mrinank Sharma, pesquisador de segurança de IA que deixou a Anthropic para se mudar para o Reino Unido, escrever poesia e “tornar-se invisível”.

Sharma trabalhou em uma área focada em garantir a segurança da IA para combater os riscos do bioterrorismo assistido por IA e investigar “como os assistentes de IA poderiam nos tornar menos humanos”. Ele diz que está saindo com um certo sentimento de resignação.

Na quarta-feira, Zoe Hitzig, pesquisadora da OpenAI, criadora do popular ChatGPT, publicou um artigo no The New York Times expressando suas preocupações sobre a nova prática de empresas de IA de oferecer publicidade. Hitzig, que possui doutorado em Economia por Harvard, escreveu: “Tenho sérias reservas sobre a estratégia da OpenAI”. No dia seguinte, ela renunciou ao cargo. No artigo, ela explica como muitas pessoas usam ferramentas de IA como terapeutas, para compartilhar suas emoções ou simplesmente para conversar. O sistema obtém vantagem ao oferecer publicidade, e Hitzig levanta questões éticas.

Existem também riscos de segurança. Amodei dá o exemplo de um novo país composto pelas 50 milhões de mentes mais brilhantes do mundo. Elas pensam de 10 a 100 vezes mais rápido do que qualquer ser humano. Nunca dormem. Podem usar a internet, controlar robôs, realizar experimentos e operar qualquer coisa com uma interface digital. O especialista alerta que isso representaria “a ameaça à segurança nacional mais séria que enfrentamos em um século, possivelmente em toda a nossa história”.

Recuperando sanidade e verdade na democracia digital

A esfera pública está em crise, física e digital, e expõe um mal-estar civilizatório: relações humanas e democracia definham, não por falta de tecnologia, mas por exaustão psíquica, conformismo criativo e comunicação abusiva, atravessando o indivíduo, sociedade, organizações, famílias e os sistemas coletivos.

O debate cresceu em volume e alcance, mas encolheu em qualidade e tolerância. A pergunta “o que as plataformas fizeram com a política?” é tímida: o que fizeram com a vida mental, o repertório cívico e a imaginação coletiva responsável? Por que tantas lideranças, políticas, organizacionais e familiares, parecem “surtar” aos olhos dos cidadãos, alimentando insegurança cívica?

Voltar à praça pública, à ágora de Atenas antiga, ajuda como laboratório de virtudes públicas, cívicas e políticas nas relações humanas. Ágora, “lugar de encontro”, era onde a população se reunia para ver e ser vista, falar e ouvir, concordar e divergir: a política na potência da palavra como arte do mundo comum. Quando esse lugar de encontro se perde – ou se torna instável, insano, opaco e reativo – o político transborda.

A questão contemporânea é que a infraestrutura do mundo migrou da presença – praça, sala de estar, clube e roda de conversa – para as telas. A ágora física foi substituída pela digital, mediada por algoritmos e incentivos de engajamento, a engenharia da visibilidade. O elemento decisivo também mudou: o discurso público depende menos de presença e virtudes e mais da captura da atenção e de recompensas rápidas. O algoritmo se aperfeiçoa, manipula mentes despreparadas e instrumentaliza lideranças que “escorregam” no limite entre a insanidade e “sua” interpretação de realidade, favorecendo o adoecimento coletivo.

Sem espaços públicos de deliberação, o “político” migra para onde há convivência real: casa, trabalho, escola, lazer, sem mediação ou treino. O que antes era metabolizado por instituições e rituais públicos recai sobre pais, líderes, educadores e cidadãos, sobrecarregando relações e desgastando confiança. Microambientes que deveriam ser mais assépticos em humores e mais harmônicos por função, viram arenas permanentes. O resultado: a esfera pública é empurrada para dentro dos espaços privados e organizacionais.


Aqui Atenas volta como laboratório: precisamos recuperar dois pilares do ideal da ágora democrática: isegoria e parresía.

Isegoria (isos, igual/ agoreuein, falar na ágora) é a igualdade no direito à fala pública: voz ouvida como condição de participação, não como favor e nem silenciada por hierarquia ou intimidação. Parresía (pan, tudo/rhema, dizer) é a honestidade pública: coragem ética de dizer o que precisa ser dito, assumindo riscos com compromisso com o verdadeiro e responsabilidade pelo que se, accountability.

Quando esses dois eixos se degradam, perdemos civilidade (do latim civis/civitas, cidadão e corpo cívico): o tecido de convivência pública que permite desacordos e evolução sem barbárie. Por isso, a crise do debate aproximou-se da clínica: ela impacta o que chamamos de sanidade (do latim sanus/sanitas): a integridade e o que salva a vida, nossa saúde. Sem um mundo comum praticável, a mente coletiva perde repouso, horizonte e imaginação, emergem ideologias e ficções e advém a crise mental e de identidade do mundo atual. The Acropolis in Athens, Greece.

E qual a justa medida do falar público? Em Ética a Nicômaco o filósofo grego Aristóteles, descreve dois desvios: a submedida (eiron), quando se dissimula e se diz “pela metade” e a sobremedida (alazon), quando se exagera, fanfarreia e dramatiza. Nem adulação ou desabafo, nem “sincericídio” nem verborragia. A virtude está no meio: a veracidade (aletheia), regulada pela prudência (phronesis): saber quando, como e quanto dizer a verdade ao outro e sustentá-la em público com franqueza responsável, a parresía. E estamos carentes dela: evitamos fricções, debates e quando surgem, não sabemos lidar, adoecemos, deprimimos e culpas são expiadas “no outro”.

E quando a isegoria adoece? Pelo excesso e seu efeito colateral. A visibilidade virou recurso escasso, distribuído por arquiteturas que maximizam engajamento e premiam reatividade emocional, simplificação e polarização. Se antes a democracia na ágora era presença, reciprocidade e deliberação, hoje se diz que a isegoria está “garantida” porque todos podem postar. Mas postar não é participar e participar não é ser considerado. Sobra solidão, a outra crise na saúde.

O paradoxo é simples: é fácil falar, mas difícil ser ouvido. A visibilidade é filtrada por sistemas que premiam choque e reatividade e punem ponderação. O direito à palavra vira disputa por alcance; debate vira desempenho; esfera pública vira excitação. Assim, a isegoria – que deveria proteger a pluralidade – vira “tirania da visibilidade”: todos falam, se expõem e ninguém sustenta escuta real. O efeito é ruído, desgaste mental, erosão de confiança e fadiga cívica.

Para um debate fértil e saudável, a esfera pública precisa funcionar como um espaço onde ideias são testadas sem medo de aniquilação simbólica e/ou real. D.W. Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, chamou isso de “espaço potencial”: zona que o sujeito pode brincar, testar, criar e revisar, sustentado por um “ambiente suficientemente bom”, favorecendo a saúde mental e a criatividade. Escolas, clubes, praças e vizinhanças, que antes ofereciam este amparo, tornaram-se “ambientes suficientemente hostis”.

Quando o ambiente é persecutório, brincar vira defesa; a criatividade se retrai e falar vira máscara. Se o digital gera medo de humilhação, linchamento ou cancelamento, muitos recuam para bolhas, personas/avatares e autocensura: perde-se empatia coletiva e ganha-se identitarismo; participar deixa de ser ato cívico e vira hostilidade predatória e risco reputacional. Quando este risco sobe, o debate empobrece: menos nuances, imaginação, coragem de revisar e maturidade para suportar tensão. No fim, sofremos, adoecemos e, pior, nos calamos, omissos.

O hiper estímulo e a exposição digital geram cansaço. O filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han, descreve como regime por desempenho produz sociedade superficial e fadigada, exposta a “vírus digitais” como intolerância, preconceito, infodemia e desinformação. Nas redes, o cidadão cansado fala para “existir” e reage para não desaparecer: compreende e decide menos e desaprende a relacionar-se. A isegoria vira exaustão: respostas automáticas, burnout cívico e corrosão da saúde mental coletiva. Sem pausa, escuta e regras de dissenso, a política perde a capacidade de transformar conflito em elaboração e a democracia passa a ser vivida como ameaça constante, não como construção comum.

É aqui que a parresía reaparece como antídoto, não somente como liberdade de expressão e direito passivo contra coerção, mas como virtude cívica: falar consequente, responsável, vinculada ao cidadão. Em A Coragem da Verdade, o filósofo francês Michel Foucault, interpreta a parresía como prática ética e de vida: o sujeito recusa duplicidade e faz da fala um compromisso com sua própria integridade. Em tempos de discursos calculados para agradar, de máscaras algorítmicas, perfis performáticos, isso ganha peso civilizatório e clínico.

Também a saúde mental depende da coerência entre pensar, sentir e comunicar. Quando a vida pública incentiva a encenação permanente, cresce a fragmentação psíquica e a incoerência: diz-se uma coisa, pensa-se outra, sente-se uma terceira. Predominam ressentimento e tendência ao adoecimento, o inverso do que A.Antonovsky, pesquisador israelense, descreveu ao estudar sobre a resiliência humana e a salutogênese, o que gera saúde e nos faz sobreviventes. Aqui a parresía nos aponta para a alteridade: uma imunidade social, afetiva e ética.

Todos dizem querer ordem, respeito e verdade. O problema é que, sem treino de fala e escuta, liberdade vira ruído que gera guerra moralista. Recuperar isegoria e parresía exige mais método e menos pressa, justamente o que a economia da atenção tenta eliminar. Aqui cinco propostas práticas para treinar isegoria e parresía nas nossas ágoras diárias e virtuais: Domine a reatividade (prudência): antes de reagir, pare e pergunte: “Entendi ou me ofendi?”. Garanta escuta (justiça): antes de discordar, resuma o que entendeu e peça confirmação: “É isso?” e só então responda. Separe pessoa de ideia (civilidade): discuta o ponto, a evidência e as consequências; envergonhe-se de xingamentos, insultos e humilhação. Fale sua verdade com responsabilidade (parresía): diga com clareza e segurança o que ocorreu, por que importa e o que propõe. Direito à retratação (força moral): crie espaços “suficientemente bons” para duvidar, revisar, desculpar e mudar de ideia, sem linchamento.

Treinar maturidade cívica é uma urgência sanitária. Evoluir ideias com base em fatos é sinal de caráter saudável. Sem isso, honestidade vira performance e participação, medo – e nada evolui. Se quisermos que a democracia sobreviva no século XXI, precisaremos formar cidadãos capazes de falar com clareza, ouvir com coerência, protegendo as condições psíquicas e educacionais que tornam isso possível, sobretudo para nossas crianças. Este é um outro movimento a ser definido na nova paideia.

O jornalismo que ignora ou distorce os fatos é tudo, menos jornalismo

Há quase 60 anos no batente, aprendi que o editorial expressa a posição oficial de um veículo de comunicação sobre temas relevantes e atuais, sem assinatura individual.

Caracteriza-se por argumentação consistente, linguagem formal e impessoal, servindo para influenciar o público e definir a linha editorial da instituição.

A página dos editoriais abria espaço para artigos de opinião assinados por nomes de peso nas letras e no espectro político, desde que não radicalmente discrepantes das do jornal.

Aos poucos, no embalo das idas e vindas da democracia, a página dos editoriais passou a abrigar artigos que contradiziam em muitos aspectos a opinião do próprio jornal. Foi um avanço.


Aprendi com o tempo que não era, e que não é bem assim. A opinião do dono do veículo se impõe também na hora de se escolher o que se publica, e no destaque que se dá aos fatos.

A grande mídia, por exemplo, não gosta de Lula, jamais gostou ou gostará faça ele o que for. Mas gosta de Tarcísio de Freitas e não disfarça sua irritação por vê-lo fora da sucessão presidencial.

Então, protege Tarcísio na medida do possível, e hostiliza Lula com assiduidade.

Leio em títulos: “Desfile sobre Lula abre brecha para condenação por ilícito eleitoral, dizem especialistas”. Ao ler a notícia, vejo que os ditos especialistas se dividem quanto ao assunto.

Como os leitores, cada vez mais, se limitam a ler títulos, e nas redes sociais só se interessam por vídeos curtos, o que está no título vira verdade. Desenforma-se a pretexto de informar.

A chacina de 122 pessoas no Complexo do Alemão, no Rio, foi tratada pela mídia como uma “megaoperação” policial contra o crime organizado, e não como chacina ou massacre, o que é crime.

Por que foi assim? Para não se indispor com a opinião pública que apoiou a matança por achar que bandido bom é bandido morto? Ou por que compartilha da mesma opinião?

Antigamente, os jornalistas detestavam a interferência dos leitores no seu ofício, um erro. Hoje, a valorizam em excesso. Querem likes. Renderam-se à ditadura dos algoritmos. É mais cômodo.

O Hamas, que governou Gaza e invadiu Israel, é chamado de grupo terrorista pela grande mídia. Mas o revide desproporcional de Israel nunca foi chamado de terrorismo de Estado, o que é.

Lula taxou de genocídio a morte em Gaza de mais de 70 mil palestinos, a maioria mulheres e crianças. Israel segue os matando por lá. Por aqui, o mundo desabou sobre a cabeça de Lula.

Se aqui o jornalismo não vive ameaçado por Lula, nos Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, ocorre justamente o oposto. No berço da democracia, ele está sendo sufocado.

Não foi por encomenda, não há provas, que a escola Acadêmico de Niterói exaltou Lula na avenida. Por mais que se busque provas com lupa, nenhuma foi encontrada de que Lula violou as leis.

Mas deseja-se condená-lo a qualquer preço para enfraquecê-lo e – quem sabe? – derrotá-lo nas próximas eleições.

Qualquer um de nós é livre, e deve ser, para ter sua opinião. Eu tenho as minhas e as exponho às críticas. Mas o jornalismo que ignora fatos ou que os distorce não é jornalismo digno desse nome.

É outra coisa. Um negócio como outro qualquer.

Trump preencheu o que faltava para ser considerado fascista

Uma coluna no jornal The New York Times, de autoria de Michelle Goldberg, faz uma admissão importante: a de que estiveram certos aqueles que durante todos estes anos defenderam a tese de que Donald Trump representa um tipo de fascismo do século 21.

O argumento, que pode ser estendido a muitos dos aliados e imitadores de Trump, repousa no fato de que os críticos da tese foram sempre argumentando que faltavam dois elementos essenciais para poder considerar Trump fascista: a existência de uma milícia violenta e a emergência de uma retórica internacional agressiva expansionista.


Com o ICE, corpo policial militarizado que persegue minorias e impõe o medo à oposição, matando e prendendo sem culpa formada, e com o seu ataque à Venezuela e os seus discursos sobre a anexação da Groenlândia e até do Canadá, Trump preencheu os requisitos que lhe faltavam para poder ser considerado fascista.

Na verdade, o debate já poderia ter ficado encerrado antes, quando os trumpistas tentaram invadir o Capitólio. Depois desses acontecimentos, o historiador Robert Paxton, um dos maiores especialistas mundiais na história do fascismo, e até então circunspecto na utilização do termo, mudou de ideia.

Para resumir, chegamos ao ponto em que negar que Trump seja fascista cria mais problemas do que resolve, e em que entender o que significa um fenômeno fascista de tipo novo no nosso século esclarece mais do que atrapalha a análise.

Mas se escrevo sobre esse assunto não é pelo prazer de resolver uma disputa intelectual. O que é uma raridade. Como dizia Zygmunt Baumann, normalmente os cientistas sociais não resolvem problemas: aborrecem-se e passam ao problema seguinte. Mais importante do que isso é olhar mais longe e ver a que pistas nos pode levar a realidade do segundo mandato de Donald Trump.

Como defensor há longa data da tese de que estamos perante um fascismo do século 21, pela primeira vez vejo-me a observar o trumpismo e a pensar que posso ter errado por defeito, não por excesso. A mutação tem sido demasiado rápida, demasiado brutal, demasiado bizarra. Por isso, recentemente, dei por mim a pensar: e se a pulsão de Trump for totalitária, não apenas autoritária?

Faz alguma diferença? Acho que sim, e que é enorme. Um modelo mental autoritário é repressivo e força a população à concordância ou pelo menos à obediência, mas é previsível e estável. Se a pulsão de Trump for totalitária, o que é verdade hoje de manhã pode ser mentira amanhã à noite, ou até mesmo hoje ao fim da manhã, e em cada vez tem de ser defendido com a mesma veemência. A experiência é muito mais desestruturante.

Pensemos assim. Para o autoritarismo, a verdade imposta pode ser que 2+2=5. Está errado, mas toda a gente sabe o que dizer em público para se conformar com o regime. Mas num modelo mental totalitário 2+2 pode 3 ou 5 ou 7. Ninguém sabe. A resposta pode variar de acordo com os humores do homem forte.

Os EUA ainda não são um regime totalitário. Mas a pulsão de Trump é totalitária. Se acham que isso não tem consequência para o mundo, perguntem aos groenlandeses.