quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Recuperando sanidade e verdade na democracia digital

A esfera pública está em crise, física e digital, e expõe um mal-estar civilizatório: relações humanas e democracia definham, não por falta de tecnologia, mas por exaustão psíquica, conformismo criativo e comunicação abusiva, atravessando o indivíduo, sociedade, organizações, famílias e os sistemas coletivos.

O debate cresceu em volume e alcance, mas encolheu em qualidade e tolerância. A pergunta “o que as plataformas fizeram com a política?” é tímida: o que fizeram com a vida mental, o repertório cívico e a imaginação coletiva responsável? Por que tantas lideranças, políticas, organizacionais e familiares, parecem “surtar” aos olhos dos cidadãos, alimentando insegurança cívica?

Voltar à praça pública, à ágora de Atenas antiga, ajuda como laboratório de virtudes públicas, cívicas e políticas nas relações humanas. Ágora, “lugar de encontro”, era onde a população se reunia para ver e ser vista, falar e ouvir, concordar e divergir: a política na potência da palavra como arte do mundo comum. Quando esse lugar de encontro se perde – ou se torna instável, insano, opaco e reativo – o político transborda.

A questão contemporânea é que a infraestrutura do mundo migrou da presença – praça, sala de estar, clube e roda de conversa – para as telas. A ágora física foi substituída pela digital, mediada por algoritmos e incentivos de engajamento, a engenharia da visibilidade. O elemento decisivo também mudou: o discurso público depende menos de presença e virtudes e mais da captura da atenção e de recompensas rápidas. O algoritmo se aperfeiçoa, manipula mentes despreparadas e instrumentaliza lideranças que “escorregam” no limite entre a insanidade e “sua” interpretação de realidade, favorecendo o adoecimento coletivo.

Sem espaços públicos de deliberação, o “político” migra para onde há convivência real: casa, trabalho, escola, lazer, sem mediação ou treino. O que antes era metabolizado por instituições e rituais públicos recai sobre pais, líderes, educadores e cidadãos, sobrecarregando relações e desgastando confiança. Microambientes que deveriam ser mais assépticos em humores e mais harmônicos por função, viram arenas permanentes. O resultado: a esfera pública é empurrada para dentro dos espaços privados e organizacionais.


Aqui Atenas volta como laboratório: precisamos recuperar dois pilares do ideal da ágora democrática: isegoria e parresía.

Isegoria (isos, igual/ agoreuein, falar na ágora) é a igualdade no direito à fala pública: voz ouvida como condição de participação, não como favor e nem silenciada por hierarquia ou intimidação. Parresía (pan, tudo/rhema, dizer) é a honestidade pública: coragem ética de dizer o que precisa ser dito, assumindo riscos com compromisso com o verdadeiro e responsabilidade pelo que se, accountability.

Quando esses dois eixos se degradam, perdemos civilidade (do latim civis/civitas, cidadão e corpo cívico): o tecido de convivência pública que permite desacordos e evolução sem barbárie. Por isso, a crise do debate aproximou-se da clínica: ela impacta o que chamamos de sanidade (do latim sanus/sanitas): a integridade e o que salva a vida, nossa saúde. Sem um mundo comum praticável, a mente coletiva perde repouso, horizonte e imaginação, emergem ideologias e ficções e advém a crise mental e de identidade do mundo atual. The Acropolis in Athens, Greece.

E qual a justa medida do falar público? Em Ética a Nicômaco o filósofo grego Aristóteles, descreve dois desvios: a submedida (eiron), quando se dissimula e se diz “pela metade” e a sobremedida (alazon), quando se exagera, fanfarreia e dramatiza. Nem adulação ou desabafo, nem “sincericídio” nem verborragia. A virtude está no meio: a veracidade (aletheia), regulada pela prudência (phronesis): saber quando, como e quanto dizer a verdade ao outro e sustentá-la em público com franqueza responsável, a parresía. E estamos carentes dela: evitamos fricções, debates e quando surgem, não sabemos lidar, adoecemos, deprimimos e culpas são expiadas “no outro”.

E quando a isegoria adoece? Pelo excesso e seu efeito colateral. A visibilidade virou recurso escasso, distribuído por arquiteturas que maximizam engajamento e premiam reatividade emocional, simplificação e polarização. Se antes a democracia na ágora era presença, reciprocidade e deliberação, hoje se diz que a isegoria está “garantida” porque todos podem postar. Mas postar não é participar e participar não é ser considerado. Sobra solidão, a outra crise na saúde.

O paradoxo é simples: é fácil falar, mas difícil ser ouvido. A visibilidade é filtrada por sistemas que premiam choque e reatividade e punem ponderação. O direito à palavra vira disputa por alcance; debate vira desempenho; esfera pública vira excitação. Assim, a isegoria – que deveria proteger a pluralidade – vira “tirania da visibilidade”: todos falam, se expõem e ninguém sustenta escuta real. O efeito é ruído, desgaste mental, erosão de confiança e fadiga cívica.

Para um debate fértil e saudável, a esfera pública precisa funcionar como um espaço onde ideias são testadas sem medo de aniquilação simbólica e/ou real. D.W. Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, chamou isso de “espaço potencial”: zona que o sujeito pode brincar, testar, criar e revisar, sustentado por um “ambiente suficientemente bom”, favorecendo a saúde mental e a criatividade. Escolas, clubes, praças e vizinhanças, que antes ofereciam este amparo, tornaram-se “ambientes suficientemente hostis”.

Quando o ambiente é persecutório, brincar vira defesa; a criatividade se retrai e falar vira máscara. Se o digital gera medo de humilhação, linchamento ou cancelamento, muitos recuam para bolhas, personas/avatares e autocensura: perde-se empatia coletiva e ganha-se identitarismo; participar deixa de ser ato cívico e vira hostilidade predatória e risco reputacional. Quando este risco sobe, o debate empobrece: menos nuances, imaginação, coragem de revisar e maturidade para suportar tensão. No fim, sofremos, adoecemos e, pior, nos calamos, omissos.

O hiper estímulo e a exposição digital geram cansaço. O filósofo coreano-alemão Byung-Chul Han, descreve como regime por desempenho produz sociedade superficial e fadigada, exposta a “vírus digitais” como intolerância, preconceito, infodemia e desinformação. Nas redes, o cidadão cansado fala para “existir” e reage para não desaparecer: compreende e decide menos e desaprende a relacionar-se. A isegoria vira exaustão: respostas automáticas, burnout cívico e corrosão da saúde mental coletiva. Sem pausa, escuta e regras de dissenso, a política perde a capacidade de transformar conflito em elaboração e a democracia passa a ser vivida como ameaça constante, não como construção comum.

É aqui que a parresía reaparece como antídoto, não somente como liberdade de expressão e direito passivo contra coerção, mas como virtude cívica: falar consequente, responsável, vinculada ao cidadão. Em A Coragem da Verdade, o filósofo francês Michel Foucault, interpreta a parresía como prática ética e de vida: o sujeito recusa duplicidade e faz da fala um compromisso com sua própria integridade. Em tempos de discursos calculados para agradar, de máscaras algorítmicas, perfis performáticos, isso ganha peso civilizatório e clínico.

Também a saúde mental depende da coerência entre pensar, sentir e comunicar. Quando a vida pública incentiva a encenação permanente, cresce a fragmentação psíquica e a incoerência: diz-se uma coisa, pensa-se outra, sente-se uma terceira. Predominam ressentimento e tendência ao adoecimento, o inverso do que A.Antonovsky, pesquisador israelense, descreveu ao estudar sobre a resiliência humana e a salutogênese, o que gera saúde e nos faz sobreviventes. Aqui a parresía nos aponta para a alteridade: uma imunidade social, afetiva e ética.

Todos dizem querer ordem, respeito e verdade. O problema é que, sem treino de fala e escuta, liberdade vira ruído que gera guerra moralista. Recuperar isegoria e parresía exige mais método e menos pressa, justamente o que a economia da atenção tenta eliminar. Aqui cinco propostas práticas para treinar isegoria e parresía nas nossas ágoras diárias e virtuais: Domine a reatividade (prudência): antes de reagir, pare e pergunte: “Entendi ou me ofendi?”. Garanta escuta (justiça): antes de discordar, resuma o que entendeu e peça confirmação: “É isso?” e só então responda. Separe pessoa de ideia (civilidade): discuta o ponto, a evidência e as consequências; envergonhe-se de xingamentos, insultos e humilhação. Fale sua verdade com responsabilidade (parresía): diga com clareza e segurança o que ocorreu, por que importa e o que propõe. Direito à retratação (força moral): crie espaços “suficientemente bons” para duvidar, revisar, desculpar e mudar de ideia, sem linchamento.

Treinar maturidade cívica é uma urgência sanitária. Evoluir ideias com base em fatos é sinal de caráter saudável. Sem isso, honestidade vira performance e participação, medo – e nada evolui. Se quisermos que a democracia sobreviva no século XXI, precisaremos formar cidadãos capazes de falar com clareza, ouvir com coerência, protegendo as condições psíquicas e educacionais que tornam isso possível, sobretudo para nossas crianças. Este é um outro movimento a ser definido na nova paideia.

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