sexta-feira, 29 de maio de 2026
Chanchada de Flávio com Trump pode acabar em duplo naufrágio
A chanchada diversionista encenada pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro nos EUA, onde conseguiu aparecer numa foto com Donald Trump tem, como se sabe, o intuito de desviar a atenção dos rolos do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, peça central do escândalo do Banco Master.
Flávio já havia demonstrado sua sabujice antipatriótica ao prometer, caso eleito, contemplar as ambições americanas de controlar reservas estratégicas de terras raras – as do Brasil.
Agora, escoltado por Eduardo, seu brother desertor, resolveu também reforçar a proposta de a potência estrangeira classificar as facções criminosas e mafiosas brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas. Foi o que fez em encontro com Marco Rubio, o secretário de Estado ora empenhado em invadir Cuba, de onde veio sua família.
Aliás, considerando-se o histórico de proximidade do clã Bolsonaro com figuras do mundo crime, não deixa de ser ousada a animação do filhão com a referida proposta.
Flávio demonstrou o que já se sabia: ele, seus parentes e Paulo Figueiredo, neto do ditador que disse preferir cheiro de cavalo a cheiro do povo, têm trânsito nos círculos trumpistas. Natural. Há tempos, desde a época em que Olavo de Carvalho e o tradicionalista fascistoide Steve Bannon pontificavam, são conhecidas as relações da ultradireita bolsonarista com os soldados ideológicos de Trump e seus amigos antiliberais.
Enquanto o servilismo da direita tapada brasileira se exibe em Washington e vira meme, o líder americano perde prestígio e apoio em seu país.
A revista The Economist revelou nesta semana que ele se tornou o presidente mais impopular desde que a pesquisa realizada pela publicação começou, em 2009. A façanha é fruto de um leque de erros cometidos em diversas frentes, da política externa à econômica.
Uma parcela de 58% dos americanos desaprova a atuação do governante, contra 34% que aprovam e 6% que dizem não saber.
O principal motivo de insatisfação é a economia, que está longe de apresentar o desempenho prometido durante a campanha. O aumento dos preços dos combustíveis, provocado pela estúpida guerra movida em parceria com Israel contra o Irã, é um aspecto relevante na percepção de que as finanças pessoais e familiares estão piorando.
Cerca de dois terços dos eleitores consideram que foi um erro entrar nesse conflito e 53% afirmam que a imagem e a posição dos EUA no mundo pioraram desde que ele reassumiu o cargo. Não é demais lembrar que um dos pontos martelados na disputa eleitoral foi a condenação ao envolvimento do país em guerras longínquas e sem motivo claro.
Essa promessa era um dos pilares do slogan "América em primeiro lugar", bandeira de Trump e seus aliados nacionalistas de extrema direita. Não por acaso, a pesquisa aponta para uma sensível perda de apoio do republicano numa base que se mostrava bastante fiel, formada por americanos brancos sem ensino superior.
O modelo de previsão da revista, em parceria com a empresa de pesquisas YouGov, indica que os democratas têm 90% de chance de conquistar o controle da Câmara nas eleições de meio de mandato, em novembro.
Ainda faltam uns bons meses para o pleito tanto lá como cá. No momento, porém, os ventos prenunciam um duplo naufrágio.
Flávio já havia demonstrado sua sabujice antipatriótica ao prometer, caso eleito, contemplar as ambições americanas de controlar reservas estratégicas de terras raras – as do Brasil.
Agora, escoltado por Eduardo, seu brother desertor, resolveu também reforçar a proposta de a potência estrangeira classificar as facções criminosas e mafiosas brasileiras (PCC e Comando Vermelho) como organizações terroristas. Foi o que fez em encontro com Marco Rubio, o secretário de Estado ora empenhado em invadir Cuba, de onde veio sua família.
Aliás, considerando-se o histórico de proximidade do clã Bolsonaro com figuras do mundo crime, não deixa de ser ousada a animação do filhão com a referida proposta.
Flávio demonstrou o que já se sabia: ele, seus parentes e Paulo Figueiredo, neto do ditador que disse preferir cheiro de cavalo a cheiro do povo, têm trânsito nos círculos trumpistas. Natural. Há tempos, desde a época em que Olavo de Carvalho e o tradicionalista fascistoide Steve Bannon pontificavam, são conhecidas as relações da ultradireita bolsonarista com os soldados ideológicos de Trump e seus amigos antiliberais.
Enquanto o servilismo da direita tapada brasileira se exibe em Washington e vira meme, o líder americano perde prestígio e apoio em seu país.
A revista The Economist revelou nesta semana que ele se tornou o presidente mais impopular desde que a pesquisa realizada pela publicação começou, em 2009. A façanha é fruto de um leque de erros cometidos em diversas frentes, da política externa à econômica.
Uma parcela de 58% dos americanos desaprova a atuação do governante, contra 34% que aprovam e 6% que dizem não saber.
O principal motivo de insatisfação é a economia, que está longe de apresentar o desempenho prometido durante a campanha. O aumento dos preços dos combustíveis, provocado pela estúpida guerra movida em parceria com Israel contra o Irã, é um aspecto relevante na percepção de que as finanças pessoais e familiares estão piorando.
Cerca de dois terços dos eleitores consideram que foi um erro entrar nesse conflito e 53% afirmam que a imagem e a posição dos EUA no mundo pioraram desde que ele reassumiu o cargo. Não é demais lembrar que um dos pontos martelados na disputa eleitoral foi a condenação ao envolvimento do país em guerras longínquas e sem motivo claro.
Essa promessa era um dos pilares do slogan "América em primeiro lugar", bandeira de Trump e seus aliados nacionalistas de extrema direita. Não por acaso, a pesquisa aponta para uma sensível perda de apoio do republicano numa base que se mostrava bastante fiel, formada por americanos brancos sem ensino superior.
O modelo de previsão da revista, em parceria com a empresa de pesquisas YouGov, indica que os democratas têm 90% de chance de conquistar o controle da Câmara nas eleições de meio de mandato, em novembro.
Ainda faltam uns bons meses para o pleito tanto lá como cá. No momento, porém, os ventos prenunciam um duplo naufrágio.
Pensamento de manada
O pensamento coletivo é estúpido porque é coletivo: nada passa as barreiras do coletivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"
Foto com três radicais é o inverso da moderação pretendida por Flávio Bolsonaro
A construção da imagem de moderado de Flávio Bolsonaro (PL) acaba de levar um desmentido. A foto ao lado do presidente Donald Trump, do irmão Eduardo e do neto do último ditador do regime militar apaga o verniz de sensatez no figurino que o senador andou querendo vestir para se apresentar ao eleitorado.
Trump é um radical orgulhoso do próprio extremismo. O deputado cassado e filho 03 do clã já defendeu punições ao Brasil e, lá atrás, em devaneio autoritário, considerou suficiente a força de um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. O herdeiro de João Figueiredo foi dos incitadores mais ativos ao golpe militar em 2022, detrator dos generais legalistas.
Não são companhias que se possa chamar de moderadas, mas foi com elas que o pretendente a presidente posou no salão oval da Casa Branca, apostando com isso dar por encerrado o assunto dos rolos com Daniel Vorcaro. No relato lido na tela do celular após o encontro, pôs o tema da segurança na pauta, defendendo a inclusão de facções criminosas na categoria de terroristas. Apresentou-se como defensor da libertação dos moradores de áreas controladas pelo crime. Territórios de traficantes e de milicianos aos quais o hoje senador prestou homenagens quando deputado estadual.
São muitas as pontas soltas nessa trajetória eleitoral abalada pelas mentiras e versões desencontradas na história mal contada das relações do candidato com o ex-banqueiro preso. Na mais recente, pediu um mês para que se apresentassem as contas do filme "Dark Horse". Tanto tempo sugere que os comprovantes de despesas não existem e precisam ser fabricados.
Não se sabe qual foi o assunto que fez o senador ir ao encontro do "irmão" atado a uma tornozeleira. Falta explicar também a razão de o dinheiro da filmagem ter passeado por fundo no exterior para pagar a produtora brasileira.
São muitas as dúvidas permeadas pela certeza de que quem gerencia mal uma crise de campanha não dá conta de presidir um país. Isso uma foto na parede não resolve.
Trump é um radical orgulhoso do próprio extremismo. O deputado cassado e filho 03 do clã já defendeu punições ao Brasil e, lá atrás, em devaneio autoritário, considerou suficiente a força de um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal. O herdeiro de João Figueiredo foi dos incitadores mais ativos ao golpe militar em 2022, detrator dos generais legalistas.
Não são companhias que se possa chamar de moderadas, mas foi com elas que o pretendente a presidente posou no salão oval da Casa Branca, apostando com isso dar por encerrado o assunto dos rolos com Daniel Vorcaro. No relato lido na tela do celular após o encontro, pôs o tema da segurança na pauta, defendendo a inclusão de facções criminosas na categoria de terroristas. Apresentou-se como defensor da libertação dos moradores de áreas controladas pelo crime. Territórios de traficantes e de milicianos aos quais o hoje senador prestou homenagens quando deputado estadual.
São muitas as pontas soltas nessa trajetória eleitoral abalada pelas mentiras e versões desencontradas na história mal contada das relações do candidato com o ex-banqueiro preso. Na mais recente, pediu um mês para que se apresentassem as contas do filme "Dark Horse". Tanto tempo sugere que os comprovantes de despesas não existem e precisam ser fabricados.
Não se sabe qual foi o assunto que fez o senador ir ao encontro do "irmão" atado a uma tornozeleira. Falta explicar também a razão de o dinheiro da filmagem ter passeado por fundo no exterior para pagar a produtora brasileira.
São muitas as dúvidas permeadas pela certeza de que quem gerencia mal uma crise de campanha não dá conta de presidir um país. Isso uma foto na parede não resolve.
É preciso parar de rir e começar a falar a sério
“Você é de direita ou de esquerda?”, pergunta o rapaz num vídeo no Instagram. “Eu sou da direita, porque eu odeio o Lula”, responde a mulher, chapéu, cabelo e t-shirt vermelhos, tudo vermelho, atirando para trás o rosto, de mão na ilharga, enquanto responde ao porquê. “Porque ele é ladrão.” “O que é que ele roubou?”, quer saber o rapaz. “É só você saber lá… Até hoje, ele não deu conta do que ele roubou.” A resposta tem tanto de indefinido como de convicto. “Com o que é que você não concorda do governo da esquerda?”, insiste o entrevistador. “Não concordo. Eu sou da direita e vou ser da direita até morrer.” “Mas o quê?” “Ai, meu Deus do céu! Tanta coisa que eu não concordo da esquerda… Das mentiras, do que eles estão fazendo para o Bolsonaro. Não concordo.” “Porque é que prefere o Bolsonaro?” “Porque não é ladrão.” “E é socialista ou capitalista?” “Eu sou socialista.” “Porquê?” “Porque sou.” “Se fosse Presidente, qual seria a sua primeira mudança?” “O sistema.”
Este pequeno vídeo parece uma piada. Tem uma música de filme de comédia como banda sonora e está ilustrado com os memes da moda, que pretendem sublinhar a ignorância da entrevistada. Quase todos os comentários são a apontar o dedo à estupidez da senhora. Ela parece uma piada. Mas o que ela diz é muito sério. E está na altura de começarmos a perceber porquê.
Este vídeo não é uma bizarria. É um sintoma. Há milhares de vídeos idênticos a circular pelas redes sociais. Muitos são pequenas entrevistas a bolsonaristas assumidos e pobres e o Brasil já inventou um hashtag para eles: pobre de direita. Mas também há brasileiros que se dizem “do centro” e têm um discurso aparentemente irracional de ódio às políticas de redistribuição de riqueza do governo Lula, como o “bolsa família” – que dá acesso a alimentos aos mais pobres –, o programa “Minha Casa, Minha Vida” – com apoios à habitação – ou a intenção de eliminar a escala 6×1, que consiste em acabar com o trabalho com apenas uma folga semanal sem perda de salário. Os entrevistados falam de forma vaga em indicadores económicos que pioraram, sem conseguirem nomear um, e ignorando o facto de o Brasil ter voltado a sair do Mapa da Fome, em 2025, depois de ter regressado a essa lista negra em 2022.
Mas há mais vídeos desses. Há argentinos trabalhadores, que se debatem com problemas de sobrevivência graças aos cortes da política anarcocapitalista em vigor, que vão justificando o voto em Milei com uma vontade de “mudança”, que não sabem como explicar. Há apoiantes de Trump a criticar a corrupção, a pedofilia e o desrespeito por imagens religiosas sem perceberem que estão a atacar o próprio movimento MAGA. Há entrevistas a britânicos votantes no Reform que repudiam, uma a uma, medidas propostas por Nigel Farage, sem perceberem que essas são as políticas do partido em que votam. E tenho a certeza de que noutras latitudes se encontrarão fenómenos semelhantes.
Parece haver cada vez mais pessoas que expressam adesão a movimentos políticos que vão contra os seus interesses e valores. E importa saber porquê. Podemos rotulá-los de ignorantes e arrumar aí a questão. Mas os vídeos mostram que, quando confrontados com as suas contradições ou com dados que comprovam a falsidade do que acabaram de afirmar, estes apoiantes de políticos da extrema-direita não recuam. A reação é mesmo a inversa: insistem na defesa dessas políticas e atacam quem lhes apresenta factos. O entrevistado passa a ser um “esquerdalha” – a mais desqualificante das classificações – ou os institutos citados são instituições vendidas ao poder e sem qualquer tipo de crédito. Eles estão certos, a realidade não.
Este tipo de reação não pode ser apenas fruto da ignorância. A ignorância é uma coisa que se cura com conhecimento. E também não será apenas a reação do orgulho ferido de quem se confronta com as mentiras em que acredita. Se assim fosse, uma vez desligada a câmara e afastado o entrevistador, o entrevistado podia – mesmo sem o assumir publicamente – refletir sobre o erro e mudar de opinião. E as urnas mostram que não é isso que está a acontecer.
O que parece estar a acontecer está mais próximo do domínio da fé. E esse é um terreno em que a racionalidade não consegue lançar raízes. Esse é o terreno das emoções. Podemos dizer que as redes sociais e o ambiente de indignação rápida, atenção curta e saberes superficiais ajudam a que a política resvale para esse terreno. E é verdade. Mas também isso não conta a história toda.
É preciso assumir que os partidos democráticos do sistema andam há décadas a sustentar-se na sua quota-parte de mentiras. É a mentira do mérito, sentida na pele por quem não é herdeiro. É a mentira da lei igual para todos, sentida na pele pelos mais vulneráveis. É a mentira da liberdade de expressão, sentida na pele pelos que ousam ir contra a corrente e (de uma forma ou de outra) sofrem as consequências. É a mentira da representatividade, sentida na pele pelos que veem os partidos em que votaram fazer o que não tinham anunciado. É a mentira de um Estado social, que é cada vez mais desmantelado, com uns a achar que pagam demais pelo que não existe e outros a saber que recebem de menos em relação ao que lhes foi prometido. Enquanto não assumirmos estas mentiras, não conseguimos entrar na discussão. E é muito doloroso assumir mentiras. Até porque muitas vezes acreditamos nelas com o mesmo grau de fé irracional que apontamos aos nossos adversários políticos.
Mas não é só necessário assumir as mentiras. Também é preciso começar a dizer umas verdades. Não as “verdades” do ódio que se cospe à mesa do café e só é capaz de fazer peito feito aos mais fracos. As verdades que doem aos mais poderosos. As verdades que precisam de coragem para ser ditas. As verdades que alguns dirão, de dedo em riste, que são “populismo”. E são. O populismo não é uma ideologia. É um método. E pode ser usado apenas para mostrar que os muitos podem mais do que os poucos, em vez de ser um artifício para recuar a uma época sem direitos, fingindo que se recupera uma “dignidade” que é apenas simbólica, nunca material, e só para uns poucos à custa de todos os outros.
Podem rir-se à vontade da senhora bolsonarista de cabelo vermelho e ar pobre, que diz que é socialista e de direita, sem saber explicar porquê. Ela não precisa de explicar porquê. E enquanto se riem dela, a extrema-direita ri-se de vocês, dos vossos factos, das vossas proclamações, da vossa defesa abstrata da igualdade. É preciso deixar de rir. É preciso olhá-la nos olhos, não para a entender com condescendência, mas para lhe falar de coisas reais que possam empolgá-la com a mesma fé que agora a faz aderir a políticas que a prejudicam. É preciso voltar a falar com energia e emoção de coisas simples, que têm de deixar de ser bandeiras vazias.
A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Não é uma cantiga do passado que prometia o que nunca chegou. Tem de ser um futuro que se constrói hoje, com propostas claras, simples, tão concretas como o tijolo que se encaixa para erguer uma parede, mas com a força do sonho e a energia da promessa. Sem medo de afrontar os poderosos, sem concessões aos que querem fingir que mudam para deixar tudo na mesma. Com verdade e com alegria, reclamando aquilo que nos dizem que é impossível. Não basta ser contra o mal e desmontar mentiras. É preciso mostrar um caminho e oferecer soluções.
Este pequeno vídeo parece uma piada. Tem uma música de filme de comédia como banda sonora e está ilustrado com os memes da moda, que pretendem sublinhar a ignorância da entrevistada. Quase todos os comentários são a apontar o dedo à estupidez da senhora. Ela parece uma piada. Mas o que ela diz é muito sério. E está na altura de começarmos a perceber porquê.
Este vídeo não é uma bizarria. É um sintoma. Há milhares de vídeos idênticos a circular pelas redes sociais. Muitos são pequenas entrevistas a bolsonaristas assumidos e pobres e o Brasil já inventou um hashtag para eles: pobre de direita. Mas também há brasileiros que se dizem “do centro” e têm um discurso aparentemente irracional de ódio às políticas de redistribuição de riqueza do governo Lula, como o “bolsa família” – que dá acesso a alimentos aos mais pobres –, o programa “Minha Casa, Minha Vida” – com apoios à habitação – ou a intenção de eliminar a escala 6×1, que consiste em acabar com o trabalho com apenas uma folga semanal sem perda de salário. Os entrevistados falam de forma vaga em indicadores económicos que pioraram, sem conseguirem nomear um, e ignorando o facto de o Brasil ter voltado a sair do Mapa da Fome, em 2025, depois de ter regressado a essa lista negra em 2022.
Mas há mais vídeos desses. Há argentinos trabalhadores, que se debatem com problemas de sobrevivência graças aos cortes da política anarcocapitalista em vigor, que vão justificando o voto em Milei com uma vontade de “mudança”, que não sabem como explicar. Há apoiantes de Trump a criticar a corrupção, a pedofilia e o desrespeito por imagens religiosas sem perceberem que estão a atacar o próprio movimento MAGA. Há entrevistas a britânicos votantes no Reform que repudiam, uma a uma, medidas propostas por Nigel Farage, sem perceberem que essas são as políticas do partido em que votam. E tenho a certeza de que noutras latitudes se encontrarão fenómenos semelhantes.
Parece haver cada vez mais pessoas que expressam adesão a movimentos políticos que vão contra os seus interesses e valores. E importa saber porquê. Podemos rotulá-los de ignorantes e arrumar aí a questão. Mas os vídeos mostram que, quando confrontados com as suas contradições ou com dados que comprovam a falsidade do que acabaram de afirmar, estes apoiantes de políticos da extrema-direita não recuam. A reação é mesmo a inversa: insistem na defesa dessas políticas e atacam quem lhes apresenta factos. O entrevistado passa a ser um “esquerdalha” – a mais desqualificante das classificações – ou os institutos citados são instituições vendidas ao poder e sem qualquer tipo de crédito. Eles estão certos, a realidade não.
Este tipo de reação não pode ser apenas fruto da ignorância. A ignorância é uma coisa que se cura com conhecimento. E também não será apenas a reação do orgulho ferido de quem se confronta com as mentiras em que acredita. Se assim fosse, uma vez desligada a câmara e afastado o entrevistador, o entrevistado podia – mesmo sem o assumir publicamente – refletir sobre o erro e mudar de opinião. E as urnas mostram que não é isso que está a acontecer.
O que parece estar a acontecer está mais próximo do domínio da fé. E esse é um terreno em que a racionalidade não consegue lançar raízes. Esse é o terreno das emoções. Podemos dizer que as redes sociais e o ambiente de indignação rápida, atenção curta e saberes superficiais ajudam a que a política resvale para esse terreno. E é verdade. Mas também isso não conta a história toda.
É preciso assumir que os partidos democráticos do sistema andam há décadas a sustentar-se na sua quota-parte de mentiras. É a mentira do mérito, sentida na pele por quem não é herdeiro. É a mentira da lei igual para todos, sentida na pele pelos mais vulneráveis. É a mentira da liberdade de expressão, sentida na pele pelos que ousam ir contra a corrente e (de uma forma ou de outra) sofrem as consequências. É a mentira da representatividade, sentida na pele pelos que veem os partidos em que votaram fazer o que não tinham anunciado. É a mentira de um Estado social, que é cada vez mais desmantelado, com uns a achar que pagam demais pelo que não existe e outros a saber que recebem de menos em relação ao que lhes foi prometido. Enquanto não assumirmos estas mentiras, não conseguimos entrar na discussão. E é muito doloroso assumir mentiras. Até porque muitas vezes acreditamos nelas com o mesmo grau de fé irracional que apontamos aos nossos adversários políticos.
Mas não é só necessário assumir as mentiras. Também é preciso começar a dizer umas verdades. Não as “verdades” do ódio que se cospe à mesa do café e só é capaz de fazer peito feito aos mais fracos. As verdades que doem aos mais poderosos. As verdades que precisam de coragem para ser ditas. As verdades que alguns dirão, de dedo em riste, que são “populismo”. E são. O populismo não é uma ideologia. É um método. E pode ser usado apenas para mostrar que os muitos podem mais do que os poucos, em vez de ser um artifício para recuar a uma época sem direitos, fingindo que se recupera uma “dignidade” que é apenas simbólica, nunca material, e só para uns poucos à custa de todos os outros.
Podem rir-se à vontade da senhora bolsonarista de cabelo vermelho e ar pobre, que diz que é socialista e de direita, sem saber explicar porquê. Ela não precisa de explicar porquê. E enquanto se riem dela, a extrema-direita ri-se de vocês, dos vossos factos, das vossas proclamações, da vossa defesa abstrata da igualdade. É preciso deixar de rir. É preciso olhá-la nos olhos, não para a entender com condescendência, mas para lhe falar de coisas reais que possam empolgá-la com a mesma fé que agora a faz aderir a políticas que a prejudicam. É preciso voltar a falar com energia e emoção de coisas simples, que têm de deixar de ser bandeiras vazias.
A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Não é uma cantiga do passado que prometia o que nunca chegou. Tem de ser um futuro que se constrói hoje, com propostas claras, simples, tão concretas como o tijolo que se encaixa para erguer uma parede, mas com a força do sonho e a energia da promessa. Sem medo de afrontar os poderosos, sem concessões aos que querem fingir que mudam para deixar tudo na mesma. Com verdade e com alegria, reclamando aquilo que nos dizem que é impossível. Não basta ser contra o mal e desmontar mentiras. É preciso mostrar um caminho e oferecer soluções.
Flávio Bolsonaro atenta contra a soberania do Brasil para se eleger
Flávio Bolsonaro, a versão moderada do pai “que o país tanto esperava ver”, morreu ontem quando o governo de Donald Trump classificou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, intervindo assim diretamente em assuntos internos do Brasil. A partir de agora, no limite, os Estados Unidos podem fazer operações militares na Amazônia à revelia do governo brasileiro e bombardear áreas sob o controle do crime organizado. Tudo a pretexto do combate ao terror.
“Grande dia”, celebrou Flávio. “O povo brasileiro de bem agradece a atenção e o compromisso de Donald Trump. Essa luta é de todos nós. Vamos dar um basta nesses grupos!”. Os demais pré-candidatos da direita à Presidência, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (NOVO), aproveitaram a ocasião para reforçar suas críticas a Lula. Zema afirmou que Flávio “foi capaz” de fazer aquilo que Lula “deveria ter feito há muito tempo”. Rogério Marinho, líder do PL no Senado, previu que a partir de 2027 “bandido voltará a temer a lei”.
Lembra-se de que Flávio, em outubro do ano passado, ao ver um vídeo de uma embarcação sendo bombardeada pelos Estados Unidos no Oceano Pacífico, declarou sentir “inveja” da ação? Ele questionou se as autoridades americanas não gostariam de passar alguns meses no Rio combatendo os barcos que, segundo ele, inundam a Baía de Guanabara com drogas. Convocado pela Casa Branca para um encontro com Trump, Flávio passou dois dias em Washington batendo às portas de autoridades, pedindo que os Estados Unidos combatam o crime organizado no Brasil. Pediu ao próprio Trump nos poucos minutos em que esteve com ele para tirar uma selfie.
Flávio não passa de um peão de Trump. Ou dá para acreditar que o governo americano, em menos de 48 horas, atendeu ao pedido dele de intervir em assuntos internos do Brasil? O mais provável é que a decisão de intervir já estivesse tomada, e que Flávio, às voltas com o escândalo do Banco Master — a quem pediu dinheiro para financiar um filme sobre seu pai —, tenha sido chamado para extrair vantagens dela. Com seu gesto, Trump escolheu de que lado ficará nas eleições de outubro próximo; o mesmo lado que o levou a coagir a Justiça brasileira em 2025 para que não condenasse Jair Bolsonaro.
Soberania é a expressão máxima do poder e da independência de um Estado, que garante o direito exclusivo de legislar, administrar a Justiça e conduzir seus assuntos internos e externos sem interferência estrangeira. Lacaio designa uma pessoa que se submete à vontade de outra de forma servil ou bajuladora para obter favores ou vantagens. Sinônimos de lacaio: capacho, sabujo e puxa-saco. Flávio rifou a soberania do Brasil em troca do apoio americano, sem o qual não se elegerá. Comportou-se como um lacaio exemplar.
No último dia 21, em evento no Espírito Santo, Lula profetizou: “Depois que o Trump disse que a Groenlândia é dele, que o Canadá é dele, que o Canal do Panamá é dele, quem garante que ele não vai dizer que a Amazônia é dele?”.
Ricardo Noblat
“Grande dia”, celebrou Flávio. “O povo brasileiro de bem agradece a atenção e o compromisso de Donald Trump. Essa luta é de todos nós. Vamos dar um basta nesses grupos!”. Os demais pré-candidatos da direita à Presidência, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (NOVO), aproveitaram a ocasião para reforçar suas críticas a Lula. Zema afirmou que Flávio “foi capaz” de fazer aquilo que Lula “deveria ter feito há muito tempo”. Rogério Marinho, líder do PL no Senado, previu que a partir de 2027 “bandido voltará a temer a lei”.
Lembra-se de que Flávio, em outubro do ano passado, ao ver um vídeo de uma embarcação sendo bombardeada pelos Estados Unidos no Oceano Pacífico, declarou sentir “inveja” da ação? Ele questionou se as autoridades americanas não gostariam de passar alguns meses no Rio combatendo os barcos que, segundo ele, inundam a Baía de Guanabara com drogas. Convocado pela Casa Branca para um encontro com Trump, Flávio passou dois dias em Washington batendo às portas de autoridades, pedindo que os Estados Unidos combatam o crime organizado no Brasil. Pediu ao próprio Trump nos poucos minutos em que esteve com ele para tirar uma selfie.
Flávio não passa de um peão de Trump. Ou dá para acreditar que o governo americano, em menos de 48 horas, atendeu ao pedido dele de intervir em assuntos internos do Brasil? O mais provável é que a decisão de intervir já estivesse tomada, e que Flávio, às voltas com o escândalo do Banco Master — a quem pediu dinheiro para financiar um filme sobre seu pai —, tenha sido chamado para extrair vantagens dela. Com seu gesto, Trump escolheu de que lado ficará nas eleições de outubro próximo; o mesmo lado que o levou a coagir a Justiça brasileira em 2025 para que não condenasse Jair Bolsonaro.
Soberania é a expressão máxima do poder e da independência de um Estado, que garante o direito exclusivo de legislar, administrar a Justiça e conduzir seus assuntos internos e externos sem interferência estrangeira. Lacaio designa uma pessoa que se submete à vontade de outra de forma servil ou bajuladora para obter favores ou vantagens. Sinônimos de lacaio: capacho, sabujo e puxa-saco. Flávio rifou a soberania do Brasil em troca do apoio americano, sem o qual não se elegerá. Comportou-se como um lacaio exemplar.
No último dia 21, em evento no Espírito Santo, Lula profetizou: “Depois que o Trump disse que a Groenlândia é dele, que o Canadá é dele, que o Canal do Panamá é dele, quem garante que ele não vai dizer que a Amazônia é dele?”.
Ricardo Noblat
Leão XIV com um olho na missa e outro na IA
Os Engenheiros do Hawaii tinham razão: “o Papa é pop”. Como bom conterrâneo das big techs, o Santo Padre anunciou sua Encíclica no melhor estilo geração Z. Usou tecnologia de ponta para ler a “Magnifica Humanitas” na TV e nas redes sociais, e aproveitou o embalo para prevenir ao vivo seu um bilhão e meio de seguidores sobre o Armagedom digital.
Ao mesmo tempo, Sua Santidade teve o cuidado de lembrar que esse papo de conspiração das máquinas só engaja em Hollywood. Conhecedor tanto das Escrituras como do Vale do Silício, optou por não julgar a Inteligência Artificial como cavaleiro do apocalipse. Afinal, a IA não é portadora de livre arbítrio que possa selar o futuro da humanidade. Em Roma, o alto clero prefere concordar com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Relatório PNUD 2025, “Pessoas e Possibilidades na Era da IA”).
Na vida real, quem conspira contra a humanidade somos nós mesmos, os humanos. Sabendo disso, o Papa e o PNUD concordam que os impactos produzidos pela IA dependem das escolhas feitas pelas pessoas que projetam e controlam seus algoritmos. Informação é como culinária – quanto melhores os ingredientes, melhor o pudim. Acontece que a IA tem um potencial disruptivo semelhante ao de outras invenções que transformaram a sociedade para sempre, seja a roda ou a fissão nuclear. Por isso, causa tanta insegurança e fantasias.
Sejamos francos, a preocupação do Vaticano, assim como a da ONU, não é satanizar a IA, mas, sim, mostrar que a Inteligência Artificial é um acelerador tão poderoso da produção científica que, mesmo podendo aprofundar algumas crises da humanidade (desigualdade, conflitos e mudança climática), pode servir para a eliminação ou a contenção desses mesmos descaminhos históricos crescentes. Tudo depende das decisões e propósitos dos donos das IAs.
O Relatório PNUD 2025 propõe um foco nas pessoas: “São as pessoas, não as máquinas, que determinam quais tecnologias prosperam e a quem elas servirão”. Na mesma linha, a Encíclica Magnifica Humanitas recomenda “Sejamos humanos”. Ou seja, é possível considerar que a Inteligência Artificial pode potencializar as capacidades criativas das pessoas, bem como facilitar atividades e aumentar a produtividade do trabalho. Até mesmo criar novas modalidades de empregos ou negócios, sem necessariamente provocar desemprego estrutural em larga escala. O uso positivo da IA para o bem-estar social pode se estender também para a formulação, a implantação e gestão de políticas públicas, melhorando seus resultados e transparência.
Por um lado, a publicação do PNUD/ONU exemplifica a concentração de qualificação e acesso à IA: “As respostas do ChatGPT estão mais próximas culturalmente dos países com IDH muito alto do que das pessoas de países com IDH baixo”. Enquanto isso, nas suas redes digitais a Igreja complementa que “é no coração deste território, marcado pelo lucro, competição geopolítica e ambição, que se sente a necessidade de uma voz capaz de resistir, de proferir palavras incômodas, de recordar aquilo que as máquinas jamais possuirão: consciência e senso moral”.
Ao mesmo tempo, Sua Santidade teve o cuidado de lembrar que esse papo de conspiração das máquinas só engaja em Hollywood. Conhecedor tanto das Escrituras como do Vale do Silício, optou por não julgar a Inteligência Artificial como cavaleiro do apocalipse. Afinal, a IA não é portadora de livre arbítrio que possa selar o futuro da humanidade. Em Roma, o alto clero prefere concordar com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Relatório PNUD 2025, “Pessoas e Possibilidades na Era da IA”).
Na vida real, quem conspira contra a humanidade somos nós mesmos, os humanos. Sabendo disso, o Papa e o PNUD concordam que os impactos produzidos pela IA dependem das escolhas feitas pelas pessoas que projetam e controlam seus algoritmos. Informação é como culinária – quanto melhores os ingredientes, melhor o pudim. Acontece que a IA tem um potencial disruptivo semelhante ao de outras invenções que transformaram a sociedade para sempre, seja a roda ou a fissão nuclear. Por isso, causa tanta insegurança e fantasias.
Sejamos francos, a preocupação do Vaticano, assim como a da ONU, não é satanizar a IA, mas, sim, mostrar que a Inteligência Artificial é um acelerador tão poderoso da produção científica que, mesmo podendo aprofundar algumas crises da humanidade (desigualdade, conflitos e mudança climática), pode servir para a eliminação ou a contenção desses mesmos descaminhos históricos crescentes. Tudo depende das decisões e propósitos dos donos das IAs.
O Relatório PNUD 2025 propõe um foco nas pessoas: “São as pessoas, não as máquinas, que determinam quais tecnologias prosperam e a quem elas servirão”. Na mesma linha, a Encíclica Magnifica Humanitas recomenda “Sejamos humanos”. Ou seja, é possível considerar que a Inteligência Artificial pode potencializar as capacidades criativas das pessoas, bem como facilitar atividades e aumentar a produtividade do trabalho. Até mesmo criar novas modalidades de empregos ou negócios, sem necessariamente provocar desemprego estrutural em larga escala. O uso positivo da IA para o bem-estar social pode se estender também para a formulação, a implantação e gestão de políticas públicas, melhorando seus resultados e transparência.
Por um lado, a publicação do PNUD/ONU exemplifica a concentração de qualificação e acesso à IA: “As respostas do ChatGPT estão mais próximas culturalmente dos países com IDH muito alto do que das pessoas de países com IDH baixo”. Enquanto isso, nas suas redes digitais a Igreja complementa que “é no coração deste território, marcado pelo lucro, competição geopolítica e ambição, que se sente a necessidade de uma voz capaz de resistir, de proferir palavras incômodas, de recordar aquilo que as máquinas jamais possuirão: consciência e senso moral”.
A ONU recomenda ainda que se invista em uma “inovação com propósito”, fortalecendo as capacidades humanas que fazem a diferença, para que a IA cumpra seu papel de catalizadora do bem estar social. Por sua vez, Leão XIV sabe que ser robô não é pecado.
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