sexta-feira, 29 de maio de 2026

É preciso parar de rir e começar a falar a sério

“Você é de direita ou de esquerda?”, pergunta o rapaz num vídeo no Instagram. “Eu sou da direita, porque eu odeio o Lula”, responde a mulher, chapéu, cabelo e t-shirt vermelhos, tudo vermelho, atirando para trás o rosto, de mão na ilharga, enquanto responde ao porquê. “Porque ele é ladrão.” “O que é que ele roubou?”, quer saber o rapaz. “É só você saber lá… Até hoje, ele não deu conta do que ele roubou.” A resposta tem tanto de indefinido como de convicto. “Com o que é que você não concorda do governo da esquerda?”, insiste o entrevistador. “Não concordo. Eu sou da direita e vou ser da direita até morrer.” “Mas o quê?” “Ai, meu Deus do céu! Tanta coisa que eu não concordo da esquerda… Das mentiras, do que eles estão fazendo para o Bolsonaro. Não concordo.” “Porque é que prefere o Bolsonaro?” “Porque não é ladrão.” “E é socialista ou capitalista?” “Eu sou socialista.” “Porquê?” “Porque sou.” “Se fosse Presidente, qual seria a sua primeira mudança?” “O sistema.”


Este pequeno vídeo parece uma piada. Tem uma música de filme de comédia como banda sonora e está ilustrado com os memes da moda, que pretendem sublinhar a ignorância da entrevistada. Quase todos os comentários são a apontar o dedo à estupidez da senhora. Ela parece uma piada. Mas o que ela diz é muito sério. E está na altura de começarmos a perceber porquê.

Este vídeo não é uma bizarria. É um sintoma. Há milhares de vídeos idênticos a circular pelas redes sociais. Muitos são pequenas entrevistas a bolsonaristas assumidos e pobres e o Brasil já inventou um hashtag para eles: pobre de direita. Mas também há brasileiros que se dizem “do centro” e têm um discurso aparentemente irracional de ódio às políticas de redistribuição de riqueza do governo Lula, como o “bolsa família” – que dá acesso a alimentos aos mais pobres –, o programa “Minha Casa, Minha Vida” – com apoios à habitação – ou a intenção de eliminar a escala 6×1, que consiste em acabar com o trabalho com apenas uma folga semanal sem perda de salário. Os entrevistados falam de forma vaga em indicadores económicos que pioraram, sem conseguirem nomear um, e ignorando o facto de o Brasil ter voltado a sair do Mapa da Fome, em 2025, depois de ter regressado a essa lista negra em 2022.

Mas há mais vídeos desses. Há argentinos trabalhadores, que se debatem com problemas de sobrevivência graças aos cortes da política anarcocapitalista em vigor, que vão justificando o voto em Milei com uma vontade de “mudança”, que não sabem como explicar. Há apoiantes de Trump a criticar a corrupção, a pedofilia e o desrespeito por imagens religiosas sem perceberem que estão a atacar o próprio movimento MAGA. Há entrevistas a britânicos votantes no Reform que repudiam, uma a uma, medidas propostas por Nigel Farage, sem perceberem que essas são as políticas do partido em que votam. E tenho a certeza de que noutras latitudes se encontrarão fenómenos semelhantes.

Parece haver cada vez mais pessoas que expressam adesão a movimentos políticos que vão contra os seus interesses e valores. E importa saber porquê. Podemos rotulá-los de ignorantes e arrumar aí a questão. Mas os vídeos mostram que, quando confrontados com as suas contradições ou com dados que comprovam a falsidade do que acabaram de afirmar, estes apoiantes de políticos da extrema-direita não recuam. A reação é mesmo a inversa: insistem na defesa dessas políticas e atacam quem lhes apresenta factos. O entrevistado passa a ser um “esquerdalha” – a mais desqualificante das classificações – ou os institutos citados são instituições vendidas ao poder e sem qualquer tipo de crédito. Eles estão certos, a realidade não.

Este tipo de reação não pode ser apenas fruto da ignorância. A ignorância é uma coisa que se cura com conhecimento. E também não será apenas a reação do orgulho ferido de quem se confronta com as mentiras em que acredita. Se assim fosse, uma vez desligada a câmara e afastado o entrevistador, o entrevistado podia – mesmo sem o assumir publicamente – refletir sobre o erro e mudar de opinião. E as urnas mostram que não é isso que está a acontecer.

O que parece estar a acontecer está mais próximo do domínio da fé. E esse é um terreno em que a racionalidade não consegue lançar raízes. Esse é o terreno das emoções. Podemos dizer que as redes sociais e o ambiente de indignação rápida, atenção curta e saberes superficiais ajudam a que a política resvale para esse terreno. E é verdade. Mas também isso não conta a história toda.

É preciso assumir que os partidos democráticos do sistema andam há décadas a sustentar-se na sua quota-parte de mentiras. É a mentira do mérito, sentida na pele por quem não é herdeiro. É a mentira da lei igual para todos, sentida na pele pelos mais vulneráveis. É a mentira da liberdade de expressão, sentida na pele pelos que ousam ir contra a corrente e (de uma forma ou de outra) sofrem as consequências. É a mentira da representatividade, sentida na pele pelos que veem os partidos em que votaram fazer o que não tinham anunciado. É a mentira de um Estado social, que é cada vez mais desmantelado, com uns a achar que pagam demais pelo que não existe e outros a saber que recebem de menos em relação ao que lhes foi prometido. Enquanto não assumirmos estas mentiras, não conseguimos entrar na discussão. E é muito doloroso assumir mentiras. Até porque muitas vezes acreditamos nelas com o mesmo grau de fé irracional que apontamos aos nossos adversários políticos.

Mas não é só necessário assumir as mentiras. Também é preciso começar a dizer umas verdades. Não as “verdades” do ódio que se cospe à mesa do café e só é capaz de fazer peito feito aos mais fracos. As verdades que doem aos mais poderosos. As verdades que precisam de coragem para ser ditas. As verdades que alguns dirão, de dedo em riste, que são “populismo”. E são. O populismo não é uma ideologia. É um método. E pode ser usado apenas para mostrar que os muitos podem mais do que os poucos, em vez de ser um artifício para recuar a uma época sem direitos, fingindo que se recupera uma “dignidade” que é apenas simbólica, nunca material, e só para uns poucos à custa de todos os outros.

Podem rir-se à vontade da senhora bolsonarista de cabelo vermelho e ar pobre, que diz que é socialista e de direita, sem saber explicar porquê. Ela não precisa de explicar porquê. E enquanto se riem dela, a extrema-direita ri-se de vocês, dos vossos factos, das vossas proclamações, da vossa defesa abstrata da igualdade. É preciso deixar de rir. É preciso olhá-la nos olhos, não para a entender com condescendência, mas para lhe falar de coisas reais que possam empolgá-la com a mesma fé que agora a faz aderir a políticas que a prejudicam. É preciso voltar a falar com energia e emoção de coisas simples, que têm de deixar de ser bandeiras vazias.

A paz, o pão, habitação, saúde, educação. Não é uma cantiga do passado que prometia o que nunca chegou. Tem de ser um futuro que se constrói hoje, com propostas claras, simples, tão concretas como o tijolo que se encaixa para erguer uma parede, mas com a força do sonho e a energia da promessa. Sem medo de afrontar os poderosos, sem concessões aos que querem fingir que mudam para deixar tudo na mesma. Com verdade e com alegria, reclamando aquilo que nos dizem que é impossível. Não basta ser contra o mal e desmontar mentiras. É preciso mostrar um caminho e oferecer soluções.

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