Fato patibular não é só que os colombianos tenham elegido um presidente de extrema direita, mas que Abelardo de la Espriella seja um outsider da política e da realidade do país, terceira economia sul-americana, fornecedor de dois terços da cocaína consumida no mundo. Advogado, empresário, milionário, com dupla nacionalidade (colombiana e americana), residente entre Florença e Miami, em meio a rumores de ligação com a CIA, ele atraiu multidões a seus comícios com camisa amarela da seleção, rugindo como um tigre. Citando Trump, Bukele e Milei para garantir que pode administrar o Estado como uma empresa, diz que, em seu governo, "bandido que não se submeter será abatido".
De empresa e bandidagem, "O Tigre", como se intitula, sabe muito. Defendendo com sucesso nos tribunais astros de futebol paramilitares, narcotraficantes e políticos corruptos, ele acumulou fortuna suficiente para abrir a loja "De la Espriella Style", onde comercializa marcas próprias, desde rum e vinho até camisas e lenços de seda para "defensores da pátria". Aos criminosos comuns, acena com medidas duríssimas: prisioneiros confinados em megapresídios de dez andares abaixo da terra e alimentados "a pão e água". Antes, tinha prometido "estripar a esquerda".
Venceu por um ponto de diferença. Para entender o fenômeno, é preciso considerar o cansaço dos colombianos com a progressão da violência e do crime organizado. Levaram a sério o rugido de Espriella, enquanto outros ouviam apenas miado de gato. Daí a oportuna distinção entre povo republicano e massa, numa escala de conscientização civil que pode decrescer até a estupidez terminal. Índice máximo da pior forma de iletramento, segundo Bertolt Brecht: o analfabetismo político. E, no entanto, são bons, comparados à média sul-americana, os índices de leitura livresca na Colômbia.
Mas não tem a ver com leitura. Há elementos no avanço internacional da ultradireita que reescrevem o mito fascista do "homem novo" na forma do outsider da política, assim como o estupor estático diante de líderes carismáticos por admiração a personagens com discursos esdrúxulos. Não mais ritos de união mística do chefe com a multidão nem dramatizações simbólicas de unidade nacional por meio da liderança. O mote direitista de regeneração da política não resiste à degeneração de caráter dos militantes.
A nova massa se reconhece na videogenia de aplicativos como Instagram e TikTok, adequada a caricatos fac-símiles humanos tipo Trump, Milei, Bukele, Bolsonaro. Um reencena Nero como imperador do mundo; outro é cantor de rock, assessorado por cachorros mortos; outro, presidente de presídios, após acordos secretos com as facções; aquele outro, já encarcerado, era bufão do golpismo permanente. Na Colômbia, um showman no papel de tigre.
Para desgraça dos tempos, eles são caricaturas vivas do poder de Estado. Paus-mandados das plutocracias, do patriarcado branco, das tecnoburocracias e do Pentágono, são ventríloquos do neoliberalismo, novo tipo de religião política. Obtêm, entretanto, a atenção paradoxal de suas vítimas: gente comum, as massas. Esse, o calcanhar de Aquiles da democracia.
domingo, 12 de julho de 2026
Influência
- A sua influência é, realmente, tão má como diz Basílio, Lorde Henry?
- Não existe influência boa, Sr. Gray. Toda influência é imoral…imoral do ponto de vista científico.
- Por quê?
- Porque influenciar uma pessoa é transmitir-lhe a nossa própria alma. Ela já não pensa com seus pensamentos naturais, nem arde com suas paixões naturais. As suas virtudes não são reais para ela. Os seus pecados, se é que existem, são emprestados. Ela se converte em eco de uma música alheia, em ator de um papel que não foi escrito para ela. A finalidade da vida é o desenvolvimento próprio. Realizar completamente a própria natureza, é o que devemos buscar. O mal é que, hoje em dia, as pessoas têm medo de si mesmas. Esqueceram-se do mais elevado de todos os deveres, o dever para consigo mesmas. Alimentam o faminto e vestem o andrajoso. Deixam, contudo, que suas almas morram de fome e andem nuas. O valor nos abandonou. Talvez nunca o tenhamos tido, realmente. O temor da sociedade, que é a base da moral; o temor de Deus, que é 0 segredo da religião…são os dois princípios que nos regem. E, no entanto…
Oscar Wilde, "O retrato de Dorian Gray"
- Não existe influência boa, Sr. Gray. Toda influência é imoral…imoral do ponto de vista científico.
- Por quê?
- Porque influenciar uma pessoa é transmitir-lhe a nossa própria alma. Ela já não pensa com seus pensamentos naturais, nem arde com suas paixões naturais. As suas virtudes não são reais para ela. Os seus pecados, se é que existem, são emprestados. Ela se converte em eco de uma música alheia, em ator de um papel que não foi escrito para ela. A finalidade da vida é o desenvolvimento próprio. Realizar completamente a própria natureza, é o que devemos buscar. O mal é que, hoje em dia, as pessoas têm medo de si mesmas. Esqueceram-se do mais elevado de todos os deveres, o dever para consigo mesmas. Alimentam o faminto e vestem o andrajoso. Deixam, contudo, que suas almas morram de fome e andem nuas. O valor nos abandonou. Talvez nunca o tenhamos tido, realmente. O temor da sociedade, que é a base da moral; o temor de Deus, que é 0 segredo da religião…são os dois princípios que nos regem. E, no entanto…
Oscar Wilde, "O retrato de Dorian Gray"
Honra ao mérito dos filhos prodígios de ministros do STF
Kevin Marques é prodígio congênito do direito, alguém cujas vocação causídica de berço e atividade advocatícia bem-sucedida não podem ser duvidadas por lhe ser o pai membro do STF. O talento, associado ao trabalho, cedo ou tarde – cedíssimo, aqui – resulta. Resultou em que, com dois anos de carreira, o filho de Nunes Marques tivesse acumulado quase R$ 28 milhões. Cumpre jornada referencial também a banca do filho de Luiz Fux.
O filho de Gilmar Mendes, a partir do negócio da família, o IDP, associou-se ao braço da CBF que vende cursos, parceria desde a qual, na prática, administraria a entidade. Esforço de profissionalização que logo impedirá que o samir-da-vez custeie viagens de moças com dinheiros da confederação.
O contrato é de 2023. E não haveria mesmo motivo para que o ministro se considerasse suspeito em 2024, ante ação relativa à CBF. Preferiu determinar que fosse suspensa a decisão que destituíra do cargo o então presidente da entidade. Uma coisa é a sociedade comercial do empreendimento familiar com a CBF; outra, o fundador do empreendimento julgar matéria sobre o presidente da entidade com que o negócio da família tem sociedade.
Diga-se, de volta a Kevin, que ele, aos 25 anos, tem cuidados que faltam a parentes de outros ministros. Não atua no STF. Prioriza o TRF-1, onde Nunes Marques teve toga até 2020, e a Justiça do Piauí, Estado de origem da família. Será maledicência supor que o pai, juiz no Supremo, mantenha influência sobre tribunal sediado em Brasília, ou sobre o Judiciário da terra da qual ascendeu.
Registre-se que o STF autoriza que parentes de ministros advoguem no STF, inclusive para empresas com processos sob os cuidados do ministro parente, desde que o processo em que atuem não esteja sob os cuidados do ministro parente. Foi assim que Dias Toffoli pôde tomar providências sobre a J&F, ainda que sua esposa fosse advogada do grupo. Suspendeu-lhe multa de R$ 10,3 bilhões.
Exalte-se a força da inspiração de – o valor da convivência com – um Alexandre de Moraes como agente impulsionador de portentos do direito, ainda que sem vínculos sanguíneos. Não haverá quem feche contrato de R$ 130 milhões com alguém porque casada com o juiz capaz de tirar o Twitter do ar.
Com escritório fundado em 2024, pouco depois de aprovado na OAB, Kevin não tardaria a representar clientes do tamanho da Refit, para quem, em 2025, conseguiu – no TRF-1 – liminar suspendendo a interdição da refinaria. Tampouco demoraria a ingressar no ramo da prestação de consultoria a consultorias, graças ao quê, entre 2024 e 2025, recebeu cerca de R$ 282 mil da consultoria do pai de seu sócio, a Consult – que, no mesmo período, recebera R$ 6,6 milhões do Master e R$11,3 milhões da JBS.
Naquela altura, os donos da JBS – tendo como advogada, aliás, a esposa de Dias Toffoli – eram parte em disputa bilionária, no STF, pela propriedade da Eldorado Celulose. Relator: Nunes Marques.
O filho de Gilmar Mendes, a partir do negócio da família, o IDP, associou-se ao braço da CBF que vende cursos, parceria desde a qual, na prática, administraria a entidade. Esforço de profissionalização que logo impedirá que o samir-da-vez custeie viagens de moças com dinheiros da confederação.
O contrato é de 2023. E não haveria mesmo motivo para que o ministro se considerasse suspeito em 2024, ante ação relativa à CBF. Preferiu determinar que fosse suspensa a decisão que destituíra do cargo o então presidente da entidade. Uma coisa é a sociedade comercial do empreendimento familiar com a CBF; outra, o fundador do empreendimento julgar matéria sobre o presidente da entidade com que o negócio da família tem sociedade.
Diga-se, de volta a Kevin, que ele, aos 25 anos, tem cuidados que faltam a parentes de outros ministros. Não atua no STF. Prioriza o TRF-1, onde Nunes Marques teve toga até 2020, e a Justiça do Piauí, Estado de origem da família. Será maledicência supor que o pai, juiz no Supremo, mantenha influência sobre tribunal sediado em Brasília, ou sobre o Judiciário da terra da qual ascendeu.
Registre-se que o STF autoriza que parentes de ministros advoguem no STF, inclusive para empresas com processos sob os cuidados do ministro parente, desde que o processo em que atuem não esteja sob os cuidados do ministro parente. Foi assim que Dias Toffoli pôde tomar providências sobre a J&F, ainda que sua esposa fosse advogada do grupo. Suspendeu-lhe multa de R$ 10,3 bilhões.
Exalte-se a força da inspiração de – o valor da convivência com – um Alexandre de Moraes como agente impulsionador de portentos do direito, ainda que sem vínculos sanguíneos. Não haverá quem feche contrato de R$ 130 milhões com alguém porque casada com o juiz capaz de tirar o Twitter do ar.
Com escritório fundado em 2024, pouco depois de aprovado na OAB, Kevin não tardaria a representar clientes do tamanho da Refit, para quem, em 2025, conseguiu – no TRF-1 – liminar suspendendo a interdição da refinaria. Tampouco demoraria a ingressar no ramo da prestação de consultoria a consultorias, graças ao quê, entre 2024 e 2025, recebeu cerca de R$ 282 mil da consultoria do pai de seu sócio, a Consult – que, no mesmo período, recebera R$ 6,6 milhões do Master e R$11,3 milhões da JBS.
Naquela altura, os donos da JBS – tendo como advogada, aliás, a esposa de Dias Toffoli – eram parte em disputa bilionária, no STF, pela propriedade da Eldorado Celulose. Relator: Nunes Marques.
Brasil é território hostil a menores
O Brasil precisou de uma lei para punir o castigo físico a crianças e, mais de uma década depois, ainda convive com a chaga que atravessa séculos e gerações. Causou indignação nesta semana a agressão de um pai contra a filha, de 3 aninhos, em via pública no Paraná. Tudo registrado por uma câmera de segurança. A menininha vinha com o (ir)responsável e o irmão. Chorava. Em reprimenda, recebeu no rosto o chute que a levou ao chão. Um morador, testemunha da brutalidade, correu para repreender o criminoso; foi repelido. A mãe da pequena procurou a polícia, ao assistir à cena numa rede social. O genitor está preso agora, sob suspeita de também ter atacado o enteado, de 5 anos. No Rio Grande do Sul, um missionário americano, há nove anos no país, espancou até a morte o filho, também de 3 anos, como castigo por não ter recebido um bom-dia.
O par de crimes produziu comoção, como se casos isolados fossem. Não são. O Brasil é um território hostil aos menores. Uma evidência está na quantidade de leis destinadas a assegurar direitos e proteção aos miúdos. Neste julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 36 anos. No início da semana, no Senado, uma audiência pública organizada pela Comissão de Direitos Humanos constatou que o desafio que se apresenta às autoridades, mais que elaborar, é fazer valer a legislação.
Avolumam-se os casos de violência, a despeito de o arcabouço legal ter evoluído, tanto em prol de crianças quanto de mulheres, caso das leis Maria da Penha, da importunação sexual e do feminicídio. Além do ECA, hoje também em recém-sancionada versão para coibir violações por meio digital, a Lei Menino Bernardo, de 2014, qualificou e agravou penas para castigos físicos, tratamento cruel e degradante na educação de meninos e meninas. Bernardo Boldrini, órfão de mãe, negligenciado pelo pai, chegou a pedir a um juiz para mudar de família. Acabou assassinado pela madrasta, numa trama nefasta que envolveu o próprio irmão, uma amiga e o pai do menino. O crime apressou a aprovação do texto, originalmente batizado de Lei da Palmada.
Até hoje, não é incomum ouvir em conversa de bar, almoços de família e na babel das redes sociais muxoxos dos que naturalizam tapas, surras, bofetões de caráter pedagógico. Muita gente por estas bandas cresceu — e sobreviveu — apanhando. Assim sedimenta-se a cultura de, como diz o ditado, “o que não mata fortalece”. E as ocorrências, em vez de arrefecerem, recrudescem.
A edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com estatísticas consolidadas de 2024, apurou aumento nos registros de maus-tratos, lesão corporal dolosa em ambiente doméstico e até de morte violenta na faixa etária de zero a 17 anos. Naquele ano, foram 2.356 assassinados, crescimento de 3,7% sobre 2023. Pouco mais de 10% das vítimas (253) tinha até 11 anos. Entre crianças de zero a 4 anos, os pesquisadores contaram 8.055 casos de maus-tratos, alta de 6,8%, e 2.204 de agressões físicas (+7,9%). No universo de menores de idade, houve, respectivamente, 33.269 e 20.575 ocorrências. É como, pelo Censo 2022, molestar toda a população de Novo Progresso (PA) e espancar Caravelas (BA) inteirinha.
A naturalização da violência física como método de correção e disciplina, especialmente na primeira infância, explica a escalada de casos, escreveu o pesquisador Cauê Martins, doutor em sociologia pela USP. As situações de maus-tratos predominam nas (supostas) relações de cuidado e disciplinas de crianças; as lesões corporais se acentuam na adolescência. Até os 9 anos, meninos apanham mais; a partir dos 10, as meninas. Os agressores são pessoas da família em 93% dos casos. Há concentração de ocorrências nos dias úteis, compatível com castigos aplicados no ambiente doméstico e associados às rotinas escolar e laboral. O perigo, tal qual nos registros de abuso sexual e estupro de vulneráveis, não mora ao lado, mas dentro de casa.
A violência sexual bateu recorde em 2024, com 87.545 vítimas. Praticamente oito em dez tinham menos de 14 anos, e dois terços dos casos aconteceram em casa. Também crescem no país as violações cometidas ou tramadas via internet — sobretudo contra meninas, com agressores igualmente menores de idade. Os crimes vão de injúria e difamação a submissão, constrangimento ou estupro coletivo. Na Zona Sudoeste do Rio, estudantes do Colégio Cruzeiro, com mensalidade de R$ 3 mil a R$ 5 mil, são investigados por catalogar numa plataforma digital por categorias sexuais 65 alunas de 14 e 15 anos. Três anos atrás, um grupo do Colégio Santo Agostinho, na Barra da Tijuca, foi acusado de usar um programa de inteligência artificial para criar, depois espalhar, imagens íntimas de duas dezenas de adolescentes. Infância e adolescência brasileiras estão feridas em corpo e alma.
O par de crimes produziu comoção, como se casos isolados fossem. Não são. O Brasil é um território hostil aos menores. Uma evidência está na quantidade de leis destinadas a assegurar direitos e proteção aos miúdos. Neste julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 36 anos. No início da semana, no Senado, uma audiência pública organizada pela Comissão de Direitos Humanos constatou que o desafio que se apresenta às autoridades, mais que elaborar, é fazer valer a legislação.
Avolumam-se os casos de violência, a despeito de o arcabouço legal ter evoluído, tanto em prol de crianças quanto de mulheres, caso das leis Maria da Penha, da importunação sexual e do feminicídio. Além do ECA, hoje também em recém-sancionada versão para coibir violações por meio digital, a Lei Menino Bernardo, de 2014, qualificou e agravou penas para castigos físicos, tratamento cruel e degradante na educação de meninos e meninas. Bernardo Boldrini, órfão de mãe, negligenciado pelo pai, chegou a pedir a um juiz para mudar de família. Acabou assassinado pela madrasta, numa trama nefasta que envolveu o próprio irmão, uma amiga e o pai do menino. O crime apressou a aprovação do texto, originalmente batizado de Lei da Palmada.
Até hoje, não é incomum ouvir em conversa de bar, almoços de família e na babel das redes sociais muxoxos dos que naturalizam tapas, surras, bofetões de caráter pedagógico. Muita gente por estas bandas cresceu — e sobreviveu — apanhando. Assim sedimenta-se a cultura de, como diz o ditado, “o que não mata fortalece”. E as ocorrências, em vez de arrefecerem, recrudescem.
A edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com estatísticas consolidadas de 2024, apurou aumento nos registros de maus-tratos, lesão corporal dolosa em ambiente doméstico e até de morte violenta na faixa etária de zero a 17 anos. Naquele ano, foram 2.356 assassinados, crescimento de 3,7% sobre 2023. Pouco mais de 10% das vítimas (253) tinha até 11 anos. Entre crianças de zero a 4 anos, os pesquisadores contaram 8.055 casos de maus-tratos, alta de 6,8%, e 2.204 de agressões físicas (+7,9%). No universo de menores de idade, houve, respectivamente, 33.269 e 20.575 ocorrências. É como, pelo Censo 2022, molestar toda a população de Novo Progresso (PA) e espancar Caravelas (BA) inteirinha.
A naturalização da violência física como método de correção e disciplina, especialmente na primeira infância, explica a escalada de casos, escreveu o pesquisador Cauê Martins, doutor em sociologia pela USP. As situações de maus-tratos predominam nas (supostas) relações de cuidado e disciplinas de crianças; as lesões corporais se acentuam na adolescência. Até os 9 anos, meninos apanham mais; a partir dos 10, as meninas. Os agressores são pessoas da família em 93% dos casos. Há concentração de ocorrências nos dias úteis, compatível com castigos aplicados no ambiente doméstico e associados às rotinas escolar e laboral. O perigo, tal qual nos registros de abuso sexual e estupro de vulneráveis, não mora ao lado, mas dentro de casa.
A violência sexual bateu recorde em 2024, com 87.545 vítimas. Praticamente oito em dez tinham menos de 14 anos, e dois terços dos casos aconteceram em casa. Também crescem no país as violações cometidas ou tramadas via internet — sobretudo contra meninas, com agressores igualmente menores de idade. Os crimes vão de injúria e difamação a submissão, constrangimento ou estupro coletivo. Na Zona Sudoeste do Rio, estudantes do Colégio Cruzeiro, com mensalidade de R$ 3 mil a R$ 5 mil, são investigados por catalogar numa plataforma digital por categorias sexuais 65 alunas de 14 e 15 anos. Três anos atrás, um grupo do Colégio Santo Agostinho, na Barra da Tijuca, foi acusado de usar um programa de inteligência artificial para criar, depois espalhar, imagens íntimas de duas dezenas de adolescentes. Infância e adolescência brasileiras estão feridas em corpo e alma.
A inteligência artificial polui mais do que se pensava
Os centros de dados, que estão se expandindo drasticamente devido ao avanço da Inteligência Artificial (IA), têm uma pegada de carbono muito maior do que a estimada anteriormente, de acordo com um estudo publicado pela Allianz Trade. Esses complexos extensos e com alto consumo de energia, usados para abrigar infraestrutura crítica de TI, como servidores, estão sendo construídos em todo o mundo com investimentos multimilionários, à medida que os aplicativos de IA consomem cada vez mais poder computacional.
Isso contribuiu para o aumento das emissões de gases de efeito estufa. O novo estudo da Allianz Trade estima que os data centers emitiram 286 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2025. Isso representa 57% a mais do que as estimativas da Agência Internacional de Energia, segundo a Allianz Trade, braço de seguros de crédito comercial da seguradora global Allianz, com sede em Munique. É também 51% a mais do que as estimativas do Instituto das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde.
A inteligência artificial já representa de 15% a 20% do consumo de eletricidade dos data centers, e essa proporção pode subir para 40% até 2030, observa o relatório. "Os data centers estão deixando de ser um fator marginal para se tornarem um motor estrutural da demanda de eletricidade em muitas regiões", disse Patrick Hoffmann, economista sênior de clima da Allianz.
Sem medidas para descarbonizar as redes elétricas, as emissões dos centros de dados mais que dobrarão até 2030, causando um prejuízo climático estimado em US$ 154 bilhões anuais, em comparação com os US$ 68 bilhões atuais, segundo o relatório. Os danos climáticos relacionados às cargas de trabalho de IA podem ultrapassar US$ 50 bilhões até 2030, acrescenta o documento.
O estudo também destaca a ineficiência de sistemas elétricos como os do Brasil, Índia e México, mas também do Reino Unido, o que aumentaria a necessidade de um fornecimento de eletricidade eficiente em 10% ou 15%, enquanto em países como Singapura ou Coreia do Sul, as perdas de transmissão e distribuição permanecem abaixo de 3%.
Os centros de dados também exercem uma enorme pressão sobre os recursos naturais: eles podem exigir entre 1,3 e 1,8 trilhão de litros de água até 2030, uma quantidade comparável ao consumo anual da Suíça, segundo o relatório. Embora a descarbonização do setor elétrico possa ajudar a moderar a demanda futura por água, os riscos relacionados à água estão cada vez mais concentrados em regiões com escassez hídrica, como a Coreia do Sul, que revelou um plano ambicioso para promover a inteligência artificial e a construção de centros de dados, a Índia, o México e partes da China.
Deutsche Welle
Isso contribuiu para o aumento das emissões de gases de efeito estufa. O novo estudo da Allianz Trade estima que os data centers emitiram 286 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2025. Isso representa 57% a mais do que as estimativas da Agência Internacional de Energia, segundo a Allianz Trade, braço de seguros de crédito comercial da seguradora global Allianz, com sede em Munique. É também 51% a mais do que as estimativas do Instituto das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde.
A inteligência artificial já representa de 15% a 20% do consumo de eletricidade dos data centers, e essa proporção pode subir para 40% até 2030, observa o relatório. "Os data centers estão deixando de ser um fator marginal para se tornarem um motor estrutural da demanda de eletricidade em muitas regiões", disse Patrick Hoffmann, economista sênior de clima da Allianz.
Sem medidas para descarbonizar as redes elétricas, as emissões dos centros de dados mais que dobrarão até 2030, causando um prejuízo climático estimado em US$ 154 bilhões anuais, em comparação com os US$ 68 bilhões atuais, segundo o relatório. Os danos climáticos relacionados às cargas de trabalho de IA podem ultrapassar US$ 50 bilhões até 2030, acrescenta o documento.
O estudo também destaca a ineficiência de sistemas elétricos como os do Brasil, Índia e México, mas também do Reino Unido, o que aumentaria a necessidade de um fornecimento de eletricidade eficiente em 10% ou 15%, enquanto em países como Singapura ou Coreia do Sul, as perdas de transmissão e distribuição permanecem abaixo de 3%.
Os centros de dados também exercem uma enorme pressão sobre os recursos naturais: eles podem exigir entre 1,3 e 1,8 trilhão de litros de água até 2030, uma quantidade comparável ao consumo anual da Suíça, segundo o relatório. Embora a descarbonização do setor elétrico possa ajudar a moderar a demanda futura por água, os riscos relacionados à água estão cada vez mais concentrados em regiões com escassez hídrica, como a Coreia do Sul, que revelou um plano ambicioso para promover a inteligência artificial e a construção de centros de dados, a Índia, o México e partes da China.
Deutsche Welle
Bola e petróleo
Enquanto mísseis cruzam o céu do Oriente Médio e o preço do petróleo dispara nos mercados internacionais, outro espetáculo mobiliza bilhões de pessoas diante das telas: a Copa do Mundo de 2026. À primeira vista, guerra e futebol parecem pertencer a universos completamente diferentes. Uma produz destruição, mortes e crises humanitárias. A outra reúne torcedores, movimenta paixões e celebra o esporte. Mas basta olhar para o dinheiro para perceber que esses dois mundos têm mais em comum do que imaginamos.
As guerras alteram o preço do petróleo, fortalecem a indústria de defesa, valorizam empresas de logística e reorganizam o comércio mundial. Já a Copa movimenta bilhões de dólares em turismo, publicidade, direitos de transmissão, tecnologia, patrocínios e marketing esportivo. São eventos diferentes, com consequências humanas incomparáveis, mas que compartilham uma característica: ambos reorganizam enormes fluxos de capital e ampliam o poder de grandes corporações.
Essa lógica não é nova. Os megaeventos esportivos deixaram de ser apenas competições para se transformar em grandes plataformas de negócios. Eles impulsionam o mercado imobiliário, aquecem o turismo, fortalecem marcas globais, atraem investimentos e redesenham cidades. Governos costumam justificar esses eventos prometendo empregos, desenvolvimento e legado urbano. Na prática, entretanto, boa parte da conta fica com o setor público.
O conflito entre Estados Unidos e Irã oferece um retrato semelhante, embora muito mais dramático. Durante os momentos de maior tensão, o barril do petróleo Brent aproximou-se dos US$ 120. O transporte marítimo ficou mais caro, os seguros dispararam e as refinarias ampliaram suas margens de lucro. Do outro lado, vieram as perdas. Companhias aéreas enfrentaram aumento nos custos de combustível. Países dependentes da importação de petróleo sofreram com a inflação. Consumidores passaram a pagar mais caro para abastecer seus veículos. E o próprio Irã viu sua capacidade de exportação ser severamente comprometida.
A guerra destrói. Mata civis, crianças, desumaniza povos. Mas também redistribui riqueza — quase sempre em favor de quem ocupa posições estratégicas na economia global. É justamente aí que a comparação com a Copa faz sentido.
Não porque futebol e guerra sejam equivalentes. Não são. A semelhança está na movimentação de enormes interesses econômicos que reforçam a influência de organizações capazes de transformar acontecimentos globais em oportunidades de negócios.
A edição de 2026 oferece um exemplo particularmente interessante. Pela primeira vez, a realização da Copa coincidiu com uma aproximação explícita entre a Casa Branca e a FIFA entre Donald Trump e Gianni Infantino. A abertura de um escritório da FIFA na Trump Tower e a presença frequente de ambos em eventos oficiais alimentaram debates sobre a independência política da entidade esportiva. A anulação da suspensão do atacante estadunidense Folarin Balogun, expulso na partida contra a Bósnia, é apenas a superfície dessa relação. Essa aproximação revela a forma como política, economia e esporte passaram a caminhar juntos. E remete a governos autoritários que se aproveitaram do esporte para se promoverem.
Talvez essa seja uma das principais marcas do século XXI: os acontecimentos que mais mobilizam emoções — sejam eles uma guerra ou uma final de Copa do Mundo — também costumam ser aqueles que mais movimentam dinheiro. E, como quase sempre acontece na economia global, entender quem comemora e quem paga a conta pode ser tão importante quanto acompanhar Mbappé, Messi, Kane ou Haaland.
As guerras alteram o preço do petróleo, fortalecem a indústria de defesa, valorizam empresas de logística e reorganizam o comércio mundial. Já a Copa movimenta bilhões de dólares em turismo, publicidade, direitos de transmissão, tecnologia, patrocínios e marketing esportivo. São eventos diferentes, com consequências humanas incomparáveis, mas que compartilham uma característica: ambos reorganizam enormes fluxos de capital e ampliam o poder de grandes corporações.
Essa lógica não é nova. Os megaeventos esportivos deixaram de ser apenas competições para se transformar em grandes plataformas de negócios. Eles impulsionam o mercado imobiliário, aquecem o turismo, fortalecem marcas globais, atraem investimentos e redesenham cidades. Governos costumam justificar esses eventos prometendo empregos, desenvolvimento e legado urbano. Na prática, entretanto, boa parte da conta fica com o setor público.
O conflito entre Estados Unidos e Irã oferece um retrato semelhante, embora muito mais dramático. Durante os momentos de maior tensão, o barril do petróleo Brent aproximou-se dos US$ 120. O transporte marítimo ficou mais caro, os seguros dispararam e as refinarias ampliaram suas margens de lucro. Do outro lado, vieram as perdas. Companhias aéreas enfrentaram aumento nos custos de combustível. Países dependentes da importação de petróleo sofreram com a inflação. Consumidores passaram a pagar mais caro para abastecer seus veículos. E o próprio Irã viu sua capacidade de exportação ser severamente comprometida.
A guerra destrói. Mata civis, crianças, desumaniza povos. Mas também redistribui riqueza — quase sempre em favor de quem ocupa posições estratégicas na economia global. É justamente aí que a comparação com a Copa faz sentido.
Não porque futebol e guerra sejam equivalentes. Não são. A semelhança está na movimentação de enormes interesses econômicos que reforçam a influência de organizações capazes de transformar acontecimentos globais em oportunidades de negócios.
A edição de 2026 oferece um exemplo particularmente interessante. Pela primeira vez, a realização da Copa coincidiu com uma aproximação explícita entre a Casa Branca e a FIFA entre Donald Trump e Gianni Infantino. A abertura de um escritório da FIFA na Trump Tower e a presença frequente de ambos em eventos oficiais alimentaram debates sobre a independência política da entidade esportiva. A anulação da suspensão do atacante estadunidense Folarin Balogun, expulso na partida contra a Bósnia, é apenas a superfície dessa relação. Essa aproximação revela a forma como política, economia e esporte passaram a caminhar juntos. E remete a governos autoritários que se aproveitaram do esporte para se promoverem.
Talvez essa seja uma das principais marcas do século XXI: os acontecimentos que mais mobilizam emoções — sejam eles uma guerra ou uma final de Copa do Mundo — também costumam ser aqueles que mais movimentam dinheiro. E, como quase sempre acontece na economia global, entender quem comemora e quem paga a conta pode ser tão importante quanto acompanhar Mbappé, Messi, Kane ou Haaland.
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