Num ano que tem tudo para bater o novo recorde de temperatura e após o mês de agosto mais quente da história, as eleições de outubro para presidente passam longe do debate sobre clima. Embora a expressão "meio ambiente" apareça nos planos de governo dos candidatos mais bem colocados nas pesquisas, as propostas não estão à altura da emergência.
Em busca do seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o único que apresenta estratégias mais claras para o enfrentamento da crise. A atual gestão assumiu a presidência em 2023 após anos de alta do desmatamento e abandono de políticas socioambientais por Jair Bolsonaro.
"E agora, em campanha, Lula é o único que apresenta um plano mais consistente em clima. Ele reflete um pouco o que está acontecendo em termos de política climática e ambiental de uma forma mais ampla", analisa Suely de Araujo, do Observatório do Clima.
A rede da qual Araujo faz parte, formada por mais de 170 organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais, analisou os planos dos presidenciáveis e levou em consideração o histórico de atuação dos candidatos.
Entre as propostas, os especialistas identificaram pontos de alerta de Lula, inconsistências de Flávio Bolsonaro e falta de estrutura nas propostas de Augusto Cury, terceiro colocado nas intenções de voto.
"A agenda socioambiental está longe de ser prioritária para todos os candidatos. Em verdade, a maioria dos presidenciáveis ignora a necessidade de enfrentar a crise climática, mesmo que ela já seja uma realidade e se manifeste no país por meio de secas rigorosas, queimadas e enchentes com grande potencial destrutivo", avalia o Greenpeace.
O programa proposto pelo governo que busca a reeleição, segundo a análise técnica, aponta boas pautas socioambientais e de combate às mudanças climáticas. Segundo o levantamento, as propostas acabam se destacando em relação aos demais concorrentes principalmente pela reconstrução da governança ambiental e o combate à destruição das florestas.
Mas há ressalvas. A principal crítica está voltada para o setor de energia: apesar de as fontes renováveis aparecerem como estratégicas, Lula aposta na produção de combustíveis fósseis, os maiores responsáveis pelas mudanças climáticas. "Essa expansão de petróleo é uma contradição no governo Lula e é uma preocupação. Mas isso está presente desde o início do governo", pontua Araújo.
Lula tem defendido a busca por petróleo na bacia marítima da Foz do Amazonas, projeto atualmente em curso pela Petrobras. Depois de um longo e conturbado processo de licenciamento, a empresa obteve em outubro de 2025 a autorização para perfurar o poço FZA-M-59 e afirmou, em agosto, ter identificado a presença do combustível no local.
Em suas 79 páginas, que listam os planos de governo de Flávio Bolsonaro, o candidato afirma que vai tratar o meio ambiente como um ativo estratégico, e não como um obstáculo ao desenvolvimento. E, para isso, diz que vai "eliminar superposições entre Ibama, Funai e ICMBio" para dar eficiência à fiscalização.
Esta formulação é avaliada como preocupante pelo Observatório do Clima. "Não existem essas superposições que ele fala. O que ele quer? Enfraquecer o poder dos órgãos ambientais?", comenta Araújo.
Em diversos momentos de sua trajetória parlamentar, Flávio demonstrou pouco apoio à atuação dessas entidades. Um dos exemplos mais recentes ocorreu durante a campanha, num evento em Manaus no qual o candidato chamou os órgãos ambientais de ideológicos e de esquerda. Na ocasião, o presidenciável defendia a conclusão do asfaltamento da rodovia BR-319, que liga a capital do Amazonas a Porto Velho, em Rondônia.
Flávio também defende a expansão do petróleo e gás natural, além de promover a liberação do fracking. Essa técnica de extração de combustível fóssil pelo fraturamento hidráulico injeta água e outros produtos no subsolo sob alta pressão, quebra as rochas e libera o material de interesse. Mas seu potencial de impacto ambiental é altíssimo.
Como parlamentar, Flávio Bolsonaro é notório por votar contra as causas ambientais. Ele sequer reconhece a existência da crise climática em curso e a atividade humana como causadora dela, aponta o Greenpeace.
A promessa de acabar com o desmatamento ilegal até 2029 apresentada no plano também destoa da postura parlamentar de Flávio. Em 2019, ele foi o autor do PL nº 2362/2019, que tentava acabar com a obrigatoriedade da reserva legal – área de vegetação nativa que deve ser mantida em toda propriedade rural, segundo a lei.
Sem qualquer atuação na vida política, o estreante Augusto Cury é psiquiatra e escritor. Apesar de trazer em seu plano de governo propostas para o combate às mudanças climáticas e prevenção de desastres, seu plano liga as pautas ambientais a projetos de modernização econômica, desenvolvimento tecnológico e expansão produtiva.
"É um plano muito ruim. É difícil até contextualizar com a atuação pregressa porque ele não tem. O plano do Cury fala em renováveis, prevenção de incêndios, mas não detalha como que isso vai ser feito", detalha Araujo.
Renan Santos, que também nunca teve um mandato político, apresenta poucas propostas. As que aparecem no papel, analisa o Observatório do Clima, pioram o quadro de proteção ambiental e de atuação do país na agenda climática.
Quem governa
O candidato vitorioso que assumir o posto em 2027 vai lidar com um Congresso consideravelmente renovado. Junto com o presidente, serão eleitos todos os 513 assentos disponíveis para deputados federais e 54 das 81 cadeiras para senadores serão renovadas.
A atual legislatura é marcada por aprovações de projetos polêmicos que causaram diversos retrocessos ambientais, apontam especialistas. Entre eles está o novo licenciamento ambiental (PL nº 15.190/2025), que flexibilizou regras e dispensou alguns projetos da obrigatoriedade de apresentarem estudos de impacto.
A plataforma digital Congresso Anti-Indígena, alimentada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), mostra que 88% das votações de projetos que atingem indígenas tiveram resultados desfavoráveis para os povos originários. Esse dado, diz o Cimi, mostra o controle expressivo da pauta por setores contrários aos direitos indígenas.
"Uma bancada muito alinhada ao agronegócio predatório e à extrema direita que, como mostra a análise dos programas dos presidenciáveis, nega a existência de uma crise climática e, na prática, impõe retrocessos ambientais, significaria abrir as portas para a destruição", alerta o Greenpeace.
Nádia Pontes
sábado, 3 de outubro de 2026
Datafolha em SP, MG, RJ, PE e DF: margem de Lula supera 2 milhões de votos
O Datafolha divulgou nesta sexta os números da pesquisa presidencial em cinco unidades da Federação: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e Distrito Federal. Destaco no quadro que ilustra este texto os dados colhidos nos seguintes estados, com suas respectivas margens de erro e os percentuais de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL):
São Paulo (de 29 a 30) – 2 pontos – Lula: 38%; Flávio: 39%;
Minas Gerais (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 42%; Flávio: 36%;
Rio de Janeiro (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 38%; Flávio: 45%;
Pernambuco (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 61%; Flávio: 25%;
Distrito Federal (de 28 a 30) – 3 pontos – Lula: 35%; Flávio: 44%.
Aí decidi operar o que para todos poderia ser óbvio, mas fui eu a fazer: submeti os respectivos percentuais ao eleitorado de cada um desses estados, segundo os dados disponíveis do TSE para 2026. No quadro que acompanha este texto, vocês encontram os totais de cada unidade da Federação e também o total geral.
Num eleitorado de 72.818.361 — 45,9% do total do país —, Flávio somaria 27.780.333 votos, e Lula, 29.920.393, com uma vantagem para o petista de 2.140.060 votos.
Sim, caras e caros, há várias condicionantes aqui:
Existe a margem de erro. Ocorre que, para ser ruim para o petista, ela teria de estar sempre contra o petista;
Existe a abstenção, que, objetivamente, tende a prejudicar mais o presidente porque é maior entre os mais pobres, mas teria de colher quase que exclusivamente o eleitorado do presidente;
Existem os movimentos de última hora, mas a metafísica influente não é exatamente favorável a Flávio.
Não estou fazendo predição nenhuma. Sei que o Flávio, dado o total desses estados, adoraria trocar de lugar com o Lula.
São Paulo (de 29 a 30) – 2 pontos – Lula: 38%; Flávio: 39%;
Minas Gerais (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 42%; Flávio: 36%;
Rio de Janeiro (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 38%; Flávio: 45%;
Pernambuco (de 28 a 1º) – 3 pontos – Lula: 61%; Flávio: 25%;
Distrito Federal (de 28 a 30) – 3 pontos – Lula: 35%; Flávio: 44%.
Aí decidi operar o que para todos poderia ser óbvio, mas fui eu a fazer: submeti os respectivos percentuais ao eleitorado de cada um desses estados, segundo os dados disponíveis do TSE para 2026. No quadro que acompanha este texto, vocês encontram os totais de cada unidade da Federação e também o total geral.
Num eleitorado de 72.818.361 — 45,9% do total do país —, Flávio somaria 27.780.333 votos, e Lula, 29.920.393, com uma vantagem para o petista de 2.140.060 votos.
Sim, caras e caros, há várias condicionantes aqui:
Existe a margem de erro. Ocorre que, para ser ruim para o petista, ela teria de estar sempre contra o petista;
Existe a abstenção, que, objetivamente, tende a prejudicar mais o presidente porque é maior entre os mais pobres, mas teria de colher quase que exclusivamente o eleitorado do presidente;
Existem os movimentos de última hora, mas a metafísica influente não é exatamente favorável a Flávio.
Não estou fazendo predição nenhuma. Sei que o Flávio, dado o total desses estados, adoraria trocar de lugar com o Lula.
Falso brilhante
Seu principal ponto fraco é a falta de conteúdo político de qualquer natureza. Ele é vazio, não tem nada, a não ser intenções meritórias. Parece um ator que decorou sua fala e interpreta o papel que lhe deram — ou que escolheu — de maneira convincente.
Não tem biografia, e não é a idade que justifica essa lacuna; é porque nada fez de relevante até aqui. Não tem compromisso com coisa alguma, a não ser com aquilo que a retórica da oportunidade lhe aconselha a dizer que tem.
O êxito de sua candidatura se ampara, no mínimo, em bases duvidosas. Apresenta-se como um “não político”, mas nasceu em berço político tradicional. É alguém capaz de fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa — para alcançar seus objetivos. Pode até conseguir se eleger presidente da República assim. Mas que tipo de presidente será?
Avancemos trinta e poucos anos.
Nos parágrafos acima, publicados originalmente no Jornal do Brasil em 21 de maio de 1989, eu desenhava o perfil de Fernando Collor de Mello. Então candidato à presidência, o ex-governador de Alagoas surfava na onda de partidos de aluguel como o Social Cristão, o Social Trabalhista e o Trabalhista Renovador.
Não tem biografia, e não é a idade que justifica essa lacuna; é porque nada fez de relevante até aqui. Não tem compromisso com coisa alguma, a não ser com aquilo que a retórica da oportunidade lhe aconselha a dizer que tem.
O êxito de sua candidatura se ampara, no mínimo, em bases duvidosas. Apresenta-se como um “não político”, mas nasceu em berço político tradicional. É alguém capaz de fazer qualquer coisa — absolutamente qualquer coisa — para alcançar seus objetivos. Pode até conseguir se eleger presidente da República assim. Mas que tipo de presidente será?
Avancemos trinta e poucos anos.
Nos parágrafos acima, publicados originalmente no Jornal do Brasil em 21 de maio de 1989, eu desenhava o perfil de Fernando Collor de Mello. Então candidato à presidência, o ex-governador de Alagoas surfava na onda de partidos de aluguel como o Social Cristão, o Social Trabalhista e o Trabalhista Renovador.
Aquele pleito, o primeiro pelo voto popular desde o fim da ditadura, foi pulverizado por 22 candidatos. Entre as lideranças históricas, figuravam Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Lula, Mário Covas, Paulo Maluf e Aureliano Chaves. Collor venceu Lula no segundo turno, mas ruiu em 1992, escorraçado pelo Congresso sob o peso de denúncias de corrupção.
Na época, a direita que se pretendia civilizada não escolheu Collor por engano. Sabia perfeitamente quem ele era, mas preferiu abraçá-lo diante da ausência de outro nome capaz de deter a marcha da esquerda rumo ao poder. Para viabilizar o projeto, acionou-se a engrenagem de sempre: fartos recursos financeiros, pressão sobre o eleitorado, manipulação de debates e a embrionária disseminação de notícias falsas.
Diferente de hoje, a economia sangrava em crise crônica. Com o voto impresso em cédulas de papel, a apuração nos grotões do país corria sem fiscalização efetiva, abrindo margem para a manipulação de atas e urnas. A máquina publicitária manufaturou o “caçador de marajás” — o paladino implacável contra os supersalários —, prometendo um salvador da pátria. O desfecho a história registrou.
A grande diferença para quem ruma às urnas amanhã é o excesso de luz. A trajetória dos dois candidatos com chances reais de vitória já foi escrutinada à exaustão. Desta vez, ninguém terá o direito de alegar, no futuro, que foi ludibriado por um falso brilhante.
Na época, a direita que se pretendia civilizada não escolheu Collor por engano. Sabia perfeitamente quem ele era, mas preferiu abraçá-lo diante da ausência de outro nome capaz de deter a marcha da esquerda rumo ao poder. Para viabilizar o projeto, acionou-se a engrenagem de sempre: fartos recursos financeiros, pressão sobre o eleitorado, manipulação de debates e a embrionária disseminação de notícias falsas.
Diferente de hoje, a economia sangrava em crise crônica. Com o voto impresso em cédulas de papel, a apuração nos grotões do país corria sem fiscalização efetiva, abrindo margem para a manipulação de atas e urnas. A máquina publicitária manufaturou o “caçador de marajás” — o paladino implacável contra os supersalários —, prometendo um salvador da pátria. O desfecho a história registrou.
A grande diferença para quem ruma às urnas amanhã é o excesso de luz. A trajetória dos dois candidatos com chances reais de vitória já foi escrutinada à exaustão. Desta vez, ninguém terá o direito de alegar, no futuro, que foi ludibriado por um falso brilhante.
Entre biografias e folhas corridas
Nestes dias o eleitorado se defrontará, com razoável consciência, com o dilema de decidir em quem votar. Não será o de decidir entre candidatos de esquerda ou de direita. Aqui essas designações são em boa parte rótulos. Para saber se alguém é de direita ou de esquerda é preciso muito mais competência do que é próprio do nosso pobre senso comum.
O dilema será o de decidir qual é a fonte legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.
Outros, porém, se notabilizam por terem a biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus titulares ao exercício de poder em nome da democracia.
Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de votar.
Um desses instrumentos foi a adoção do nome de urna em conexão com a adoção da urna eletrônica. Um incitamento do eleitor a se enganar na escolha que faz. A pretexto de permitir que o eleitor supostamente conheça face a face os candidatos, em vez de uma República representativa, criamos uma república de bairro, cuja sociabilidade é a de feira livre e de negociantes, de paroquialismo pentecostal, até de enterros e cemitérios.
Tornaram-nos um povo que se acha devedor de favor político ao padeiro, ao açougueiro, ao pastor de igreja, ao verdureiro, ao dono do botequim da esquina, ao artista de circo, ao agente funerário, ao coveiro do cemitério. Em número descabido e não raro a qualificação “profissional” do candidato agregada ao seu nome de urna. Toda uma teia de relações não políticas redutivas da sociabilidade ao mais superficial do cotidiano.
Apesar dos recursos modernos de verificação eletrônica de histórias de vida, essa cultura pseudopolítica inviabiliza a consciência crítica, sem a qual a representação política não é possível.
É claro que os portadores de apelidos podem acrescentá-los ao nome civil, como fez Luiz Inácio da Silva, que acrescentou judicialmente ao seu nome o apelido pelo qual era conhecido, “Lula”.
O presidente Fernando Henrique Cardoso baixou ato que proíbe aos cartórios e juízes de paz fazerem registros de nascimento com nomes ridículos, que possam acarretar humilhação a seus portadores, na escola, no emprego, na igreja. Somos propensos a atribuir aos filhos nomes esdrúxulos.
Uma amiga, no consultório dentário, enquanto esperava sua vez, ouviu com espanto a dentista chamar a cliente seguinte: Madeinusa. E lhe explicou, o pai da cliente lera o nome num fundo de garrafa: “made in USA”. Achara-o lindo e o colocou na filha.
A mesma mentalidade tosca se manifestou na eleição municipal de 1959, em São Paulo, quando a rinoceronte Cacareco, do zoológico municipal, foi “eleita” vereadora com mais de 100 mil votos, mais do que o maior número de votos do partido mais votado. Quando o voto ainda era escrito, os eleitores que queriam protestar escreviam gracinhas como essa na cédula, o que anulava o voto.
A eleição frequente de suspeitos de atos graves contra o regime democrático e contra a autenticidade da representação política amplia o uso da cultura da folha corrida com a equivocada concepção de que nela estar é um atributo próprio da política. Os antigos se lembrarão do mote informal das candidaturas de Adhemar de Barros, que foi governador e prefeito de São Paulo e foi candidato a presidente da República: “Rouba, mas faz”.
A disputa entre biografia e folha corrida não é disputa entre esquerda e direita, como tampouco conservadores são necessariamente de direita. Há conservadores autênticos formados na cultura das tradições conservadoras que de modo algum são de direita e tampouco fascistas. Os que fazem propositalmente essas confusões são antes de tudo ignorantes e por ignorância não sabem ser, politicamente, mais do que bajuladores de espertalhões e enganadores.
Arremetidas recentes para “aperfeiçoar” com o abrandamento, da sua necessária severidade, a lei da ficha-limpa, tornarão o país oficialmente o país da ficha suja. O propósito prático acabará sendo valorizar como limpo o que é sujo. Isto é minimizar a importância política das biografias honradas. A ficha suja desonrará os que honram a pátria por não serem cúmplices dos que dela se servem.
O dilema será o de decidir qual é a fonte legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.
Outros, porém, se notabilizam por terem a biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus titulares ao exercício de poder em nome da democracia.
Um desses instrumentos foi a adoção do nome de urna em conexão com a adoção da urna eletrônica. Um incitamento do eleitor a se enganar na escolha que faz. A pretexto de permitir que o eleitor supostamente conheça face a face os candidatos, em vez de uma República representativa, criamos uma república de bairro, cuja sociabilidade é a de feira livre e de negociantes, de paroquialismo pentecostal, até de enterros e cemitérios.
Tornaram-nos um povo que se acha devedor de favor político ao padeiro, ao açougueiro, ao pastor de igreja, ao verdureiro, ao dono do botequim da esquina, ao artista de circo, ao agente funerário, ao coveiro do cemitério. Em número descabido e não raro a qualificação “profissional” do candidato agregada ao seu nome de urna. Toda uma teia de relações não políticas redutivas da sociabilidade ao mais superficial do cotidiano.
Apesar dos recursos modernos de verificação eletrônica de histórias de vida, essa cultura pseudopolítica inviabiliza a consciência crítica, sem a qual a representação política não é possível.
É claro que os portadores de apelidos podem acrescentá-los ao nome civil, como fez Luiz Inácio da Silva, que acrescentou judicialmente ao seu nome o apelido pelo qual era conhecido, “Lula”.
O presidente Fernando Henrique Cardoso baixou ato que proíbe aos cartórios e juízes de paz fazerem registros de nascimento com nomes ridículos, que possam acarretar humilhação a seus portadores, na escola, no emprego, na igreja. Somos propensos a atribuir aos filhos nomes esdrúxulos.
Uma amiga, no consultório dentário, enquanto esperava sua vez, ouviu com espanto a dentista chamar a cliente seguinte: Madeinusa. E lhe explicou, o pai da cliente lera o nome num fundo de garrafa: “made in USA”. Achara-o lindo e o colocou na filha.
A mesma mentalidade tosca se manifestou na eleição municipal de 1959, em São Paulo, quando a rinoceronte Cacareco, do zoológico municipal, foi “eleita” vereadora com mais de 100 mil votos, mais do que o maior número de votos do partido mais votado. Quando o voto ainda era escrito, os eleitores que queriam protestar escreviam gracinhas como essa na cédula, o que anulava o voto.
A eleição frequente de suspeitos de atos graves contra o regime democrático e contra a autenticidade da representação política amplia o uso da cultura da folha corrida com a equivocada concepção de que nela estar é um atributo próprio da política. Os antigos se lembrarão do mote informal das candidaturas de Adhemar de Barros, que foi governador e prefeito de São Paulo e foi candidato a presidente da República: “Rouba, mas faz”.
A disputa entre biografia e folha corrida não é disputa entre esquerda e direita, como tampouco conservadores são necessariamente de direita. Há conservadores autênticos formados na cultura das tradições conservadoras que de modo algum são de direita e tampouco fascistas. Os que fazem propositalmente essas confusões são antes de tudo ignorantes e por ignorância não sabem ser, politicamente, mais do que bajuladores de espertalhões e enganadores.
Arremetidas recentes para “aperfeiçoar” com o abrandamento, da sua necessária severidade, a lei da ficha-limpa, tornarão o país oficialmente o país da ficha suja. O propósito prático acabará sendo valorizar como limpo o que é sujo. Isto é minimizar a importância política das biografias honradas. A ficha suja desonrará os que honram a pátria por não serem cúmplices dos que dela se servem.
O currículo de Flávio Bolsonaro
O ponto forte da democracia é assegurar que governantes reprovados nas urnas entreguem o poder pacificamente, não favorecer a escolha de bons líderes — o que, infelizmente, ela não faz. A melhor prova disso é a possibilidade muito real de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente da República.
O currículo do senador e candidato é uma longa sucessão de suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao famigerado Daniel Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.
E quanto ao risco institucional? Um princípio elementar do Estado de Direito é o de que a culpa de um criminoso não se transfere para seus familiares. É Jair e não Flávio que foi, com seus corréus, condenado por tentativa de golpe. E é por isso que o senador está em pleno gozo de seus direitos políticos e pode concorrer à Presidência. Isso dito, é preocupante a ameaça de Flávio de subir a rampa ao lado do pai. Um indulto presidencial aos golpistas reverteria o que talvez seja o único avanço institucional que obtivemos na história no que diz respeito ao controle do Estado sobre militares.
O adversário de Flávio Bolsonaro, Lula, tem é claro sua própria lista de pecados, ainda que de outra ordem. Aludi a alguns deles numa coluna publicada poucos dias atrás. Nem deveria ser necessário dizê-lo, mas a tarefa do jornalismo de opinião é criticar, de preferência com propriedade, tudo o que pode ser criticado em qualquer campo político. Cabe ao jornalismo informar e subsidiar argumentações, não substituir a faculdade de julgar do eleitor, por mais imperfeita que seja.
O currículo do senador e candidato é uma longa sucessão de suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao famigerado Daniel Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.
E quanto ao risco institucional? Um princípio elementar do Estado de Direito é o de que a culpa de um criminoso não se transfere para seus familiares. É Jair e não Flávio que foi, com seus corréus, condenado por tentativa de golpe. E é por isso que o senador está em pleno gozo de seus direitos políticos e pode concorrer à Presidência. Isso dito, é preocupante a ameaça de Flávio de subir a rampa ao lado do pai. Um indulto presidencial aos golpistas reverteria o que talvez seja o único avanço institucional que obtivemos na história no que diz respeito ao controle do Estado sobre militares.
O adversário de Flávio Bolsonaro, Lula, tem é claro sua própria lista de pecados, ainda que de outra ordem. Aludi a alguns deles numa coluna publicada poucos dias atrás. Nem deveria ser necessário dizê-lo, mas a tarefa do jornalismo de opinião é criticar, de preferência com propriedade, tudo o que pode ser criticado em qualquer campo político. Cabe ao jornalismo informar e subsidiar argumentações, não substituir a faculdade de julgar do eleitor, por mais imperfeita que seja.
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