sexta-feira, 6 de novembro de 2026
A democracia recupera esperança. Mas recupera força?
O mundo acorda com sinais de esperança. Nos Estados Unidos, os democratas recuperam terreno e, no Brasil, uma alternativa conquista as eleições. Parece que a democracia volta a respirar. Mas será que estamos a recuperar a força democrática ou apenas a escolher o mal menor?
Há uma diferença entre votar em alguém em cujo projeto nos revemos e votar porque sentimos que o outro lado representa algo que não podemos aceitar. Quando a rejeição do adversário se torna mais mobilizadora do que a capacidade de apresentar um novo projeto de sociedade, alguma coisa se perde. A democracia não pode viver permanentemente da repulsa. Precisa de alternativas, de ideias e de projetos capazes de responder à complexidade dos desafios que a Humanidade enfrenta.
E é aqui que a esperança eleitoral se cruza com uma inquietação maior. Temos um Estado Social fragilizado, um tecido social desgastado e uma crescente dificuldade em garantir que os direitos se concretizam. Sabemos quem elegemos, mas sabemos quem condiciona as decisões? Terão os políticos força para enfrentar interesses económicos instalados, que não conhecemos nem elegemos, mas que determinam muito do panorama mundial?
Não basta conquistar o poder. É preciso ter capacidade para o exercer. Porque uma democracia que vive apenas da rejeição corre o risco de perder a capacidade de construir, enquanto os poderes que não respondem perante os cidadãos continuam a ganhar influência.
A democracia não se fortalece apenas quando impedimos que vença quem rejeitamos. Fortalece-se quando somos capazes de construir alternativas, recuperar a confiança e garantir que o poder permanece ao serviço do bem comum.
É aqui que precisamos de recuperar a grandeza da pessoa humana. Não como uma expressão abstrata, mas como fundamento das decisões políticas, económicas e sociais. A pessoa não pode ser reduzida à sua produtividade, ao seu mérito individual ou à sua capacidade de competir num mundo profundamente desigual.
O verdadeiro desafio não é apenas saber quem ganha eleições. É saber se continuamos a ter força coletiva para decidir o nosso futuro e garantir que o Estado existe para servir a pessoa humana, e não interesses que se sobrepõem à democracia.
Há uma diferença entre votar em alguém em cujo projeto nos revemos e votar porque sentimos que o outro lado representa algo que não podemos aceitar. Quando a rejeição do adversário se torna mais mobilizadora do que a capacidade de apresentar um novo projeto de sociedade, alguma coisa se perde. A democracia não pode viver permanentemente da repulsa. Precisa de alternativas, de ideias e de projetos capazes de responder à complexidade dos desafios que a Humanidade enfrenta.
E é aqui que a esperança eleitoral se cruza com uma inquietação maior. Temos um Estado Social fragilizado, um tecido social desgastado e uma crescente dificuldade em garantir que os direitos se concretizam. Sabemos quem elegemos, mas sabemos quem condiciona as decisões? Terão os políticos força para enfrentar interesses económicos instalados, que não conhecemos nem elegemos, mas que determinam muito do panorama mundial?
Não basta conquistar o poder. É preciso ter capacidade para o exercer. Porque uma democracia que vive apenas da rejeição corre o risco de perder a capacidade de construir, enquanto os poderes que não respondem perante os cidadãos continuam a ganhar influência.
A democracia não se fortalece apenas quando impedimos que vença quem rejeitamos. Fortalece-se quando somos capazes de construir alternativas, recuperar a confiança e garantir que o poder permanece ao serviço do bem comum.
É aqui que precisamos de recuperar a grandeza da pessoa humana. Não como uma expressão abstrata, mas como fundamento das decisões políticas, económicas e sociais. A pessoa não pode ser reduzida à sua produtividade, ao seu mérito individual ou à sua capacidade de competir num mundo profundamente desigual.
O verdadeiro desafio não é apenas saber quem ganha eleições. É saber se continuamos a ter força coletiva para decidir o nosso futuro e garantir que o Estado existe para servir a pessoa humana, e não interesses que se sobrepõem à democracia.
Baile de máscaras
Não sei os motivos profundos do fenômeno, mas este existe e se faz cada vez mais forte e espalhado: hoje, no Brasil, é comum o profissional que desconhece da sua profissão as regrinhas mais banais, as habilidades mais elementares à prática desse ofício ou dessa arte. E não é só isso, não; já é bastante chique praticar uma profissão sem saber praticá-la. As qualidades negativas, por um imponderabilíssimo segredo, passaram a ser mais recomendáveis que as qualidades positivas.
Por que não dizer mais? Direi mais: houve em nossa terra nestes últimos anos uma sutil e vitoriosa conspiração em favor da burrice, da ignorância e da incompetência. E da desonestidade, poderia acrescentar, não fosse mudar de área. É o que sempre se chamou “inversão de valores”; isso antigamente não passava de figura de retórica; tornou-se realidade.
Imaginemos um santo sacerdote que não soubesse o catecismo, que ficasse embatucado se lhe perguntássemos de repente qual é o sinal do cristão ou que começasse a contar nos dedos as pessoas da Santíssima Trindade. Não, esse padre ainda não existe, mas a analogia nos serve: há muitos sujeitos por aí que, dentro das ciências que professam, ignoram qual o sinal do cristão ou que fazem demorado esforço de memória para dizer quais as pessoas da Trindade.
Estamos vivendo uma divertida comédia social, mas ainda não chegamos à apoteose, isto é, ao momento da guerra de pastelões. Por enquanto, o baile de máscaras continua muito a sério, fingindo todos que estão a acreditar nos personagens travestidos. Aqui do nosso canto, podemos apreciar a grande festa.
Olha ali um pintor, calça de veludo, blusa manchada de óleo, um copo de bebida forte na mão, a dar gargalhadas aprendidas em Paris, dizendo palavrões às damas e demonstrando através de todos os seus gestos que a vida fora da arte não tem o menor sentido. Evidentemente, trata-se dum artista genial. Por isso mesmo, não lhe peça nunca para pintar uma banana, que ele é capaz de fechar o baile. Quem sabe pintar banana (a expressão é dele) é uma besta quadrada. Para não ser besta quadrada, o nosso artista comprou um bonito compasso e pinta círculos pretos sobre fundo branco, semicírculos cinzentos, formas inatacáveis e eternas em sua pureza absoluta.
Perto do pintor há um belo rapaz, alto, robusto, corado, um poeta, naturalmente. Erramos. Pois a crítica mais avançada afirma que esse formidável miúra não é um poeta, mas o poeta, autor aliás dum arquipoema famoso, que só posso citar integralmente: “V”. É isso mesmo, leitor distraído, o poema é “V”. Os melhores espíritos do país sabem que, nessa consoante labiodental fricativa sonora, o poeta resumiu plasticamente todo o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. É o máximo em poesia.
Mas passemos rapidamente a vista por mais alguns fantasiados. Nem todas as fantasias são igualmente sublimes. Vai ali, por exemplo, uma cozinheira que nunca fez um bife com sinceridade, mas todos reconhecem que seria capaz de fazer grandes papéis secundários no teatro.
Conversando com aquela bonita senhora fantasiada de elegante, vemos um colunista célebre, respeitado e bem pago. Descobriram a sua esmagadora vocação jornalística no dia em que escreveu “sociedade” com Ç. Riram-se dele os colegas. O moço corrigiu logo, trocando o Ç por um S cedilhado. Aí não se riram mais. Um homem capaz de inventar um S cedilhado tem garantido um feérico futuro no colunismo social. Coisa muito séria.
Máscara que dá muito em nosso baile é a de político. Debaixo dessas fisionomias cívicas de papelão pintado existem contrabandistas, cangaceiros, mascates, ex-vereadores etc. Mas não vamos estragar a festa; façamos de conta que eles estão mesmo a salvar o nosso Brasil.
Há mais. Naquele canto, um “médico” diz a uma jovem que o “complexo B” foi uma das grandes descobertas de Freud. O cômico a contar anedotas nunca fez rir a ninguém: bossa nova. Em matéria de ponte, aquele engenheiro só conhece a ponte aérea, mas de avião é que ele não viaja, pois, diz ele, o homem não foi feito para voar. O rapaz falando fino e fanhoso é cantor. O cara de boné de coach de baseball pensa que é técnico de futebol. O imponente cavalheiro a medir ângulos com as mãos já convenceu a todos de que é o maior cineasta do mês. No mês que vem, demitido pela opinião pública; outro tomará o seu lugar.
Sem falar, porque não há espaço, nos fabulosos técnicos eletrônicos, nos advogados, que Deus me perdoe, nas paralíticas vestidas de bailarina, nas respeitáveis vovozinhas brincando de vedetes, nos humanistas que de latim conhecem mal e mal as páginas cor-de-rosa do Larousse, nos sambistas duros de orelhas, nos milionários do papagaio, nos public-relations detestados pela cidade inteira etc. etc.
Atrás daquele jarrão, mascarado de cronista, está este seu criado, mas, por favor, não espalhe, não espalhe.
Paulo Mendes Campos, "O homem que odiava ilhas"
Por que não dizer mais? Direi mais: houve em nossa terra nestes últimos anos uma sutil e vitoriosa conspiração em favor da burrice, da ignorância e da incompetência. E da desonestidade, poderia acrescentar, não fosse mudar de área. É o que sempre se chamou “inversão de valores”; isso antigamente não passava de figura de retórica; tornou-se realidade.
Imaginemos um santo sacerdote que não soubesse o catecismo, que ficasse embatucado se lhe perguntássemos de repente qual é o sinal do cristão ou que começasse a contar nos dedos as pessoas da Santíssima Trindade. Não, esse padre ainda não existe, mas a analogia nos serve: há muitos sujeitos por aí que, dentro das ciências que professam, ignoram qual o sinal do cristão ou que fazem demorado esforço de memória para dizer quais as pessoas da Trindade.
Estamos vivendo uma divertida comédia social, mas ainda não chegamos à apoteose, isto é, ao momento da guerra de pastelões. Por enquanto, o baile de máscaras continua muito a sério, fingindo todos que estão a acreditar nos personagens travestidos. Aqui do nosso canto, podemos apreciar a grande festa.
Olha ali um pintor, calça de veludo, blusa manchada de óleo, um copo de bebida forte na mão, a dar gargalhadas aprendidas em Paris, dizendo palavrões às damas e demonstrando através de todos os seus gestos que a vida fora da arte não tem o menor sentido. Evidentemente, trata-se dum artista genial. Por isso mesmo, não lhe peça nunca para pintar uma banana, que ele é capaz de fechar o baile. Quem sabe pintar banana (a expressão é dele) é uma besta quadrada. Para não ser besta quadrada, o nosso artista comprou um bonito compasso e pinta círculos pretos sobre fundo branco, semicírculos cinzentos, formas inatacáveis e eternas em sua pureza absoluta.
Perto do pintor há um belo rapaz, alto, robusto, corado, um poeta, naturalmente. Erramos. Pois a crítica mais avançada afirma que esse formidável miúra não é um poeta, mas o poeta, autor aliás dum arquipoema famoso, que só posso citar integralmente: “V”. É isso mesmo, leitor distraído, o poema é “V”. Os melhores espíritos do país sabem que, nessa consoante labiodental fricativa sonora, o poeta resumiu plasticamente todo o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. É o máximo em poesia.
Mas passemos rapidamente a vista por mais alguns fantasiados. Nem todas as fantasias são igualmente sublimes. Vai ali, por exemplo, uma cozinheira que nunca fez um bife com sinceridade, mas todos reconhecem que seria capaz de fazer grandes papéis secundários no teatro.
Conversando com aquela bonita senhora fantasiada de elegante, vemos um colunista célebre, respeitado e bem pago. Descobriram a sua esmagadora vocação jornalística no dia em que escreveu “sociedade” com Ç. Riram-se dele os colegas. O moço corrigiu logo, trocando o Ç por um S cedilhado. Aí não se riram mais. Um homem capaz de inventar um S cedilhado tem garantido um feérico futuro no colunismo social. Coisa muito séria.
Máscara que dá muito em nosso baile é a de político. Debaixo dessas fisionomias cívicas de papelão pintado existem contrabandistas, cangaceiros, mascates, ex-vereadores etc. Mas não vamos estragar a festa; façamos de conta que eles estão mesmo a salvar o nosso Brasil.
Há mais. Naquele canto, um “médico” diz a uma jovem que o “complexo B” foi uma das grandes descobertas de Freud. O cômico a contar anedotas nunca fez rir a ninguém: bossa nova. Em matéria de ponte, aquele engenheiro só conhece a ponte aérea, mas de avião é que ele não viaja, pois, diz ele, o homem não foi feito para voar. O rapaz falando fino e fanhoso é cantor. O cara de boné de coach de baseball pensa que é técnico de futebol. O imponente cavalheiro a medir ângulos com as mãos já convenceu a todos de que é o maior cineasta do mês. No mês que vem, demitido pela opinião pública; outro tomará o seu lugar.
Sem falar, porque não há espaço, nos fabulosos técnicos eletrônicos, nos advogados, que Deus me perdoe, nas paralíticas vestidas de bailarina, nas respeitáveis vovozinhas brincando de vedetes, nos humanistas que de latim conhecem mal e mal as páginas cor-de-rosa do Larousse, nos sambistas duros de orelhas, nos milionários do papagaio, nos public-relations detestados pela cidade inteira etc. etc.
Atrás daquele jarrão, mascarado de cronista, está este seu criado, mas, por favor, não espalhe, não espalhe.
Paulo Mendes Campos, "O homem que odiava ilhas"
A armadilha da autocrítica: por que só o PT deve confessar seus pecados?
Tem sido assim desde que o partido foi criado: entra eleição e sai eleição — ganhe ou perca o Partido dos Trabalhadores (PT) —, e seus críticos mais duros cobram da legenda a conversão à autocrítica. Exigem que ela seja feita em público para que, só assim, o partido possa ser perdoado por seus muitos erros, sendo cobrado mais tarde caso os repita. Igual tratamento, contudo, não se aplica às demais agremiações. Por que será?
Ora, responderão alguns: porque desde a redemocratização do país, com a posse do presidente José Sarney em 15 de março de 1985, se passaram exatamente 41 anos, 7 meses e 22 dias até a data de hoje. Desse total, o PT governou o Brasil por 16 anos, 10 meses e 5 dias. Já o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) governou por 8 anos, enquanto o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) ocupou a liderança recentemente por pouco mais de dois anos com Michel Temer.
Embora o ato individual de avaliar as próprias ações exista desde a filosofia antiga, a transformação da autocrítica em uma ferramenta política coletiva e institucional ocorreu de forma bastante específica na história. O termo e a prática ganharam força logo após a Revolução Russa de 1917, consolidando-se como doutrina partidária oficial entre 1921 e 1924, por obra e graça do ditador Joseph Stalin.
Lavar roupa suja em público não é algo que se peça a um partido político, a não ser que o objetivo seja, de fato, enfraquecê-lo — algo de que, naturalmente, se aproveitariam seus adversários. A Igreja Católica, por exemplo, recomenda aos seus fiéis que confessem seus pecados como sinal de arrependimento; em troca, porém, garante não os revelar em nenhuma hipótese, salvaguardados pelo segredo de confissão.
O antigo Partido Social Democrático (PSD), criado pelo então presidente Getúlio Vargas em julho de 1945, no contexto do fim do Estado Novo, tinha por hábito só se reunir publicamente depois que suas divergências internas tivessem sido devidamente aplacadas. A estratégia servia para que a sigla se mostrasse como um bloco unido, sólido e confiável. O segredo era a alma do negócio, pois a exposição de fraturas não beneficia vencedores nem vencidos.
De volta ao PT: quantos ajustamentos ou revisões na sua forma de pensar as coisas e de atuar o partido já não promoveu ao longo de sua história? É por isso que tem se dado bem, pelo menos até aqui, obtendo resultados melhores do que os de seus oponentes. A conjuntura não pode ser desconsiderada por nenhum governo que mire o sucesso. Quando o é, por erro de análise ou de soberba, o resultado deságua no cenário que estamos testemunhando hoje nos Estados Unidos de Donald Trump.
Lula é frequentemente criticado por ter dito, um dia, que é uma “metamorfose ambulante”. No fundo, a frase define alguém que sabe adaptar-se a um mundo em constante transformação. Na eleição concluída em 25 de outubro último, o candidato da mudança foi ele, e não Flávio Bolsonaro, que acenava com uma volta ao passado. Resta alguma dúvida sobre isso?
Ora, responderão alguns: porque desde a redemocratização do país, com a posse do presidente José Sarney em 15 de março de 1985, se passaram exatamente 41 anos, 7 meses e 22 dias até a data de hoje. Desse total, o PT governou o Brasil por 16 anos, 10 meses e 5 dias. Já o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) governou por 8 anos, enquanto o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) ocupou a liderança recentemente por pouco mais de dois anos com Michel Temer.
Embora o ato individual de avaliar as próprias ações exista desde a filosofia antiga, a transformação da autocrítica em uma ferramenta política coletiva e institucional ocorreu de forma bastante específica na história. O termo e a prática ganharam força logo após a Revolução Russa de 1917, consolidando-se como doutrina partidária oficial entre 1921 e 1924, por obra e graça do ditador Joseph Stalin.
Lavar roupa suja em público não é algo que se peça a um partido político, a não ser que o objetivo seja, de fato, enfraquecê-lo — algo de que, naturalmente, se aproveitariam seus adversários. A Igreja Católica, por exemplo, recomenda aos seus fiéis que confessem seus pecados como sinal de arrependimento; em troca, porém, garante não os revelar em nenhuma hipótese, salvaguardados pelo segredo de confissão.
O antigo Partido Social Democrático (PSD), criado pelo então presidente Getúlio Vargas em julho de 1945, no contexto do fim do Estado Novo, tinha por hábito só se reunir publicamente depois que suas divergências internas tivessem sido devidamente aplacadas. A estratégia servia para que a sigla se mostrasse como um bloco unido, sólido e confiável. O segredo era a alma do negócio, pois a exposição de fraturas não beneficia vencedores nem vencidos.
De volta ao PT: quantos ajustamentos ou revisões na sua forma de pensar as coisas e de atuar o partido já não promoveu ao longo de sua história? É por isso que tem se dado bem, pelo menos até aqui, obtendo resultados melhores do que os de seus oponentes. A conjuntura não pode ser desconsiderada por nenhum governo que mire o sucesso. Quando o é, por erro de análise ou de soberba, o resultado deságua no cenário que estamos testemunhando hoje nos Estados Unidos de Donald Trump.
Lula é frequentemente criticado por ter dito, um dia, que é uma “metamorfose ambulante”. No fundo, a frase define alguém que sabe adaptar-se a um mundo em constante transformação. Na eleição concluída em 25 de outubro último, o candidato da mudança foi ele, e não Flávio Bolsonaro, que acenava com uma volta ao passado. Resta alguma dúvida sobre isso?
'Dark Horse', só na nuvem; se não chover
Que pena, estamos ameaçados de nunca ver a obra-prima "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro, numa tela de cinema! Obra-prima é como o filme foi classificado por seu produtor-associado, levantador de dinheiro, filho do personagem e talvez receptador de parte do orçamento, Flávio Bolsonaro. Não sei das credenciais do ex-futuro presidente da República como crítico de cinema, mas sua insistência em dizer que "Dark Horse" é uma obra-prima nos faria ir correndo conferir. Obras-primas do cinema —algumas— são "Em Busca do Ouro" (1925), de Chaplin, "Ladrões de Bicicletas" (1948), de Vittorio de Sica, "Um Corpo que Cai" (1958), de Hitchcock. Estaria "Dark Horse" nesse time?
A chamada Sétima Arte está cheia de possíveis obras-primas que seus diretores levaram anos tentando filmar e, por vários motivos — um deles, falta de dinheiro—, nunca conseguiram terminar ou mesmo começar. Exemplos são "Que Viva México!", de Eisenstein, "Dom Quixote", de Orson Welles, "Napoleão", de Stanley Kubrick. Dinheiro não foi problema para "Dark Horse" — Daniel Vorcaro prometeu a Flávio R$ 134 milhões dos bilhões que desviou de aposentados e mandou-lhe R$ 61 milhões, quase metade da bufunfa.
Mas, se você pensa que isso é suficiente para realizar uma obra-prima, é porque não entende nada de cinema. Imagine o custo da peruca usada pelo subastro Jim Caviezel para interpretar o velho Bolsonaro — tanto que Flávio, numa famosa mensagem gravada, arrastou-se pedindo a Vorcaro que lhe mandasse mais. Como parte do dinheiro já recebido tinha ido para os EUA a fim de ser lavado por uma firma no Texas e nunca voltou, faltou aqui para os sanduíches da equipe.
E, agora, o problema. Surrado no segundo turno da eleição e investigado exatamente por lavar dinheiro, Flávio foi para os EUA com a família, sem data para voltar. O salário de senador que receberá até janeiro sem trabalhar não bastará para se manter. Precisará sacar da verba de "Dark Horse" depositada lá.
E, com isso, só teremos o filme na nuvem — se não chover.
A chamada Sétima Arte está cheia de possíveis obras-primas que seus diretores levaram anos tentando filmar e, por vários motivos — um deles, falta de dinheiro—, nunca conseguiram terminar ou mesmo começar. Exemplos são "Que Viva México!", de Eisenstein, "Dom Quixote", de Orson Welles, "Napoleão", de Stanley Kubrick. Dinheiro não foi problema para "Dark Horse" — Daniel Vorcaro prometeu a Flávio R$ 134 milhões dos bilhões que desviou de aposentados e mandou-lhe R$ 61 milhões, quase metade da bufunfa.
Mas, se você pensa que isso é suficiente para realizar uma obra-prima, é porque não entende nada de cinema. Imagine o custo da peruca usada pelo subastro Jim Caviezel para interpretar o velho Bolsonaro — tanto que Flávio, numa famosa mensagem gravada, arrastou-se pedindo a Vorcaro que lhe mandasse mais. Como parte do dinheiro já recebido tinha ido para os EUA a fim de ser lavado por uma firma no Texas e nunca voltou, faltou aqui para os sanduíches da equipe.
E, agora, o problema. Surrado no segundo turno da eleição e investigado exatamente por lavar dinheiro, Flávio foi para os EUA com a família, sem data para voltar. O salário de senador que receberá até janeiro sem trabalhar não bastará para se manter. Precisará sacar da verba de "Dark Horse" depositada lá.
E, com isso, só teremos o filme na nuvem — se não chover.
A luta
Querer pensar que um cidadão tem que cumprir uma lei injusta, ou que deve comer e calar, ou reduzir-se à sua insignificância mesmo em situações de gritante insensibilidade social, incompetência governativa e desprezo pelos mais vulneráveis, é tolice
Os governantes em geral não estão sensibilizados para as necessidades dos governados, em especial dos mais fracos, pobres e vulneráveis, porque costumam viver numa bolha. Não sentem as suas necessidades e dores nem são sensíveis aos seus sacrifícios, que muitas vezes desconhecem.
Por isso, é melhor esperar sentado que as elites desçam à terra para acudir às populações, ainda que no caso das democracias tenham sempre algum cuidado em falar uma linguagem de simpatia e compreensão, fazendo promessas eleitorais com vista a obter o voto.
A história comprova à saciedade que todas as mudanças estruturais resultaram de movimentos sociais, durante os quais os cidadãos se manifestaram frequentemente contra leis injustas.
Aconteceu assim nos Estados Unidos com a luta pelos direitos civis, com Rosa Park, que desobedeceu a uma lei racista, e tantos outros como Martin Luther King que acabou assassinado.
Aconteceu assim na África do Sul, em pleno aparthaid, um regime racista e ignóbil que matou indiscriminadamente, encarcerando Nelson Mandela durante 27 anos.
Aconteceu assim com as sufragistas inglesas no início do século XX, que reivindicavam o direito democrático das mulheres ao voto.
Aconteceu assim com a luta pelos direitos do trabalho, em Chicago, que ficou conhecida como Massacre de Haymarket, em 1886, quando milhares de operários exigiram a redução da jornada de trabalho de até 18 horas para oito horas diárias, tendo a polícia disparado então contra os grevistas na fábrica McCormick, matando vários trabalhadores. Deu-se então origem ao Dia Internacional dos Trabalhadores, celebrado a 1 de maio de cada ano.
Outro caso dramático foi o do incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, ocorrido a 25 de março de 1911, em Nova Iorque, onde proprietários inescrupulosos obrigavam as operárias a condições desumanas de trabalho, o que contribuiu para uma tragédia. Os patrões cometeram o crime de mandar trancar as portas, de modo que quando o fogo deflagrou, as operárias ficaram encurraladas. Morreram 146, das quais 123 eram jovens mulheres imigrantes.
Aconteceu assim com a luta pacifista da Índia britânica pela independência, sob inspiração de Mahatma Gandhi, que dizia: “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita.”
Aconteceu assim com a queda das ditaduras fascistas e comunistas, com o sacrifício de tantas vidas.
Querer pensar que um cidadão tem que cumprir uma lei injusta, ou que deve comer e calar, ou reduzir-se à sua insignificância mesmo em situações de gritante insensibilidade social, incompetência governativa e desprezo pelos mais vulneráveis, é tolice.
Milan Kundera lembra ainda que “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. Ou seja, o poder, normalmente, tem memória fraca e precisa sempre de ser lembrado por alguém.
Confrontado com a luta, quem está no poder tentará sempre desacreditar os que lutam a fim de os deslegitimar. Caso não consiga tentará a ameaça e a intimidação. Se isso ainda não chegar para fazer calar os que lutam, partirá para a repressão com base numa qualquer lei injusta ou mesmo sem o respaldo da lei e da constituição.
Restará então aos que lutam por uma causa justa assumir a divisa de Santo Agostinho: “Enquanto houver vontade de lutar haverá esperança de vencer.”
As dúvidas que as urnas deixaram
O Brasil saiu das eleições presidenciais tão dividido quanto nelas entrou. Assim continuará? Depende muito do que acontecer com a extrema-direita e do que o governo e as forças democráticas fizerem para garantir a normalidade política.
É cedo para dizer o que será do extremismo depois de sua segunda derrota. Muito menos o que será de sua liderança, com Bolsonaro-pai na cadeia e o filho-herdeiro acoitado por Trump. O bolsonarismo continuará sendo seu sinônimo ou outros líderes lhe darão novo nome e sobrevida? Neste caso, manterão os ultra a capacidade de aglutinar o vasto campo das direitas nas disputas pelo Palácio do Planalto?
A formidável vitória do presidente Lula não apaga o fato de que cerca de 60 milhões de eleitores preferiram um candidato de retórica extremista, cujas ideias eram tão desconhecidas quanto sabidas eram suas relações com o mundo do crime carioca e com o afamado Daniel Vorcaro — já não bastasse a forma pouco ortodoxa mediante a qual ele fez fortuna e acumulou patrimônio.
Como em 2022, a polarização política não resultou só da regra eleitoral que no segundo turno força o eleitor a optar entre dois concorrentes. Então, como agora, já na primeira volta as preferências dos cidadãos se concentraram em dois polos situados a grande distância ideológica e programática —um deles nas mãos da ultra, o outro ocupado pela esquerda democrática e moderada.
A competição eleitoral naturalmente radicaliza as diferenças entre os contendores. Ainda mais quando um deles, seguindo o roteiro da extrema destra, ativa medos e ressentimentos nas ruas e nas redes, estimulando o oponente a fazer o mesmo. Difícil imaginar que o "Exército do Lula" pudesse ter a mesma força, não tivesse mobilizado o temor real de milhões de pessoas ao retorno do bolsonarismo à Presidência.
Ainda assim, pesquisas dos institutos Quaest e Ideia, feitas antes das eleições, mostraram que só uma minoria se identificava com o bolsonarismo: 12% dos entrevistados. Já entre 21% e 26%, conforme cada instituto, se declararam de direita não bolsonarista. Parcela significativa se definia como independente: 32% (Quaest) e 28% (Ideia). Um em cada três eleitores se considerava parte da esquerda petista ou não-petista.
Da mesma forma, outros levantamentos, comentados pelo jornalista Pedro Doria no Canal Meio na terça-feira indicam que o apoio a alguns temas, como o fim da jornada 6x1, é de tal ordem que necessariamente reúne cidadãos de diferentes campos políticos. Ou seja: há, sim, questões aptas a produzir consensos, rompendo a polarização construída no campo eleitoral.
O encarcerado Jair e o fugitivo Flávio podem engendrar o encolhimento do movimento que leva seus sobrenomes a seu efetivo tamanho na preferência dos brasileiros. Pode, mas não é certo. Terão grande importância as escolhas das lideranças direitistas e sua disposição de não apostar de novo em quem é desafeto da democracia. Pesarão também as decisões do presidente reeleito; sua capacidade de conceber políticas que beneficiem as maiorias e caibam no orçamento; a prontidão para falar com os que nele não votaram e entender suas aspirações — além do permanente exercício da sua comprovada capacidade de negociação.
É cedo para dizer o que será do extremismo depois de sua segunda derrota. Muito menos o que será de sua liderança, com Bolsonaro-pai na cadeia e o filho-herdeiro acoitado por Trump. O bolsonarismo continuará sendo seu sinônimo ou outros líderes lhe darão novo nome e sobrevida? Neste caso, manterão os ultra a capacidade de aglutinar o vasto campo das direitas nas disputas pelo Palácio do Planalto?
A formidável vitória do presidente Lula não apaga o fato de que cerca de 60 milhões de eleitores preferiram um candidato de retórica extremista, cujas ideias eram tão desconhecidas quanto sabidas eram suas relações com o mundo do crime carioca e com o afamado Daniel Vorcaro — já não bastasse a forma pouco ortodoxa mediante a qual ele fez fortuna e acumulou patrimônio.
Como em 2022, a polarização política não resultou só da regra eleitoral que no segundo turno força o eleitor a optar entre dois concorrentes. Então, como agora, já na primeira volta as preferências dos cidadãos se concentraram em dois polos situados a grande distância ideológica e programática —um deles nas mãos da ultra, o outro ocupado pela esquerda democrática e moderada.
A competição eleitoral naturalmente radicaliza as diferenças entre os contendores. Ainda mais quando um deles, seguindo o roteiro da extrema destra, ativa medos e ressentimentos nas ruas e nas redes, estimulando o oponente a fazer o mesmo. Difícil imaginar que o "Exército do Lula" pudesse ter a mesma força, não tivesse mobilizado o temor real de milhões de pessoas ao retorno do bolsonarismo à Presidência.
Ainda assim, pesquisas dos institutos Quaest e Ideia, feitas antes das eleições, mostraram que só uma minoria se identificava com o bolsonarismo: 12% dos entrevistados. Já entre 21% e 26%, conforme cada instituto, se declararam de direita não bolsonarista. Parcela significativa se definia como independente: 32% (Quaest) e 28% (Ideia). Um em cada três eleitores se considerava parte da esquerda petista ou não-petista.
Da mesma forma, outros levantamentos, comentados pelo jornalista Pedro Doria no Canal Meio na terça-feira indicam que o apoio a alguns temas, como o fim da jornada 6x1, é de tal ordem que necessariamente reúne cidadãos de diferentes campos políticos. Ou seja: há, sim, questões aptas a produzir consensos, rompendo a polarização construída no campo eleitoral.
O encarcerado Jair e o fugitivo Flávio podem engendrar o encolhimento do movimento que leva seus sobrenomes a seu efetivo tamanho na preferência dos brasileiros. Pode, mas não é certo. Terão grande importância as escolhas das lideranças direitistas e sua disposição de não apostar de novo em quem é desafeto da democracia. Pesarão também as decisões do presidente reeleito; sua capacidade de conceber políticas que beneficiem as maiorias e caibam no orçamento; a prontidão para falar com os que nele não votaram e entender suas aspirações — além do permanente exercício da sua comprovada capacidade de negociação.
A força e a fraqueza da direita
A direita saiu das urnas com um capital político nada desprezível. Mesmo derrotado por mais de quatro milhões de votos no segundo turno, seu candidato à Presidência amealhou cerca de 60 milhões de votos. No Parlamento, houve crescimento expressivo, particularmente do PL. A legenda comandada por Valdemar Costa Neto elegeu 121 deputados e terá 28 senadores, aproximadamente um terço da Casa. Essa é sua força. Sua fraqueza está na dificuldade de transformar esse patrimônio em um projeto nacional que ultrapasse o bolsonarismo.
A direita não é um campo uniforme, embora tenha se subordinado à liderança da família Bolsonaro nos últimos oito anos. A derrota presidencial e a postura de Flávio diante do resultado expuseram os limites dessa submissão. Pela segunda eleição presidencial consecutiva, a família que lidera o movimento recusou-se a reconhecer a decisão dos brasileiros expressa por meio do voto.
Há diferenças importantes no campo conservador, e nem mesmo o PL terá atuação homogênea no Congresso. União Brasil, PP e setores do MDB que estiveram no palanque de Flávio já ensaiam aproximações com o quarto governo Lula, em troca, claro, de espaço no poder. O alinhamento na eleição não significou identidade política nem compromisso duradouro com o bolsonarismo.
É preciso, porém, distinguir movimentos de acomodação da construção de uma alternativa. Negociar cargos no governo demonstra pragmatismo, mas não constitui uma renovação da direita. Uma oposição com identidade própria exige projeto, organização e disposição para enfrentar também os setores autoritários de seu próprio campo.
O reconhecimento do resultado eleitoral por governadores que apoiaram Flávio é um sinal relevante. Segundo levantamento publicado por O Globo em 1º de novembro, 13 dos 15 governadores eleitos considerados na reportagem reconheceram expressamente a vitória de Lula. A necessidade de manter relações institucionais com a União certamente pesa nessa atitude. Ainda assim, ela estabelece uma diferença em relação à contestação promovida pelo candidato derrotado.
Nesse cenário, merece destaque a postura de Tarcísio de Freitas. Ao reconhecer o resultado eleitoral, o governador de São Paulo diferenciou-se da contestação promovida por Flávio e sinalizou que é possível exercer uma oposição firme sem desrespeitar a decisão das urnas. Por partir de uma liderança ligada à família Bolsonaro, o gesto tem significado político e abre espaço para uma atuação mais autônoma.
A crise de liderança abre uma disputa pela representação desse eleitorado. A radicalização, a hostilidade às instituições e a ideia de que só é legítimo o resultado eleitoral favorável fazem parte da identidade que o bolsonarismo construiu. Sua moderação encontra aí um obstáculo: não basta trocar o tom dos discursos ou substituir personagens sem enfrentar os fundamentos dessa prática política.
É nessa dificuldade que se abre uma oportunidade para o país: o fortalecimento de uma direita com projeto de governo e compromisso inequívoco com as regras do regime democrático. Parte expressiva dos eleitores de Flávio não é necessariamente bolsonarista, tampouco deseja uma ruptura institucional. Pode ter votado por conservadorismo, rejeição ao PT, insatisfação com o governo ou expectativas em relação à economia e à segurança.
Disputar esse eleitorado exige levar suas preocupações a sério. Uma liderança conservadora precisa mostrar que pode defender segurança pública, responsabilidade fiscal, liberdade econômica e valores de seus eleitores sem aceitar o autoritarismo como preço da unidade.
A existência dessa direita é uma necessidade para a democracia brasileira. Regimes sólidos precisam de forças capazes de disputar o poder, representar seu eleitorado e exercer a oposição sem ameaçar as instituições ou transformar adversários em inimigos. A alternância só é saudável quando todos aceitam que a vitória não confere propriedade permanente do Estado e que a derrota não autoriza o desrespeito às urnas.
Nos últimos oito anos, lideranças que poderiam representar essa alternativa atrelaram seu destino ao bolsonarismo. No primeiro turno, candidatos que se apresentavam como opções conservadoras adotaram discursos praticamente indistinguíveis do de Flávio, por vezes disputando quem era mais radical no antipetismo. Em vez de construir identidade própria, preferiram disputar a bênção da família.
A derrota presidencial não elimina esse mecanismo de submissão. O bolsonarismo conserva votos, mandatos, capacidade de mobilização e instrumentos de pressão sobre seus aliados. Romper sua hegemonia exigirá disputar a base social que o sustenta, enfrentar acusações de traição e oferecer resultados que deem credibilidade a outro caminho.
No Congresso, essa disputa terá consequências concretas. A bancada do PL é numerosa, mas não representa uma maioria ideológica coesa. Interesses partidários, prioridades regionais e diferentes lealdades políticas estarão em disputa no Legislativo. Lideranças de centro-direita com autonomia poderão construir maiorias para enfrentar os problemas do país e barrar propostas que ameacem as instituições. Na sociedade, empresários, lideranças religiosas e eleitores conservadores precisam encontrar representação sem se subordinar ao radicalismo.
Tarcísio, na opinião de muitos analistas, reúne condições para ocupar um papel importante nessa renovação e aparece como um dos possíveis candidatos à Presidência em 2030. O governo de São Paulo lhe oferece uma oportunidade de demonstrar capacidade administrativa, construir alianças e dar dimensão nacional a um projeto próprio. Seu desafio será ampliar sua autonomia e reunir conservadores e setores de centro em torno de uma alternativa comprometida com princípios democráticos.
A força desse campo está nos votos, nos governos estaduais e nas cadeiras conquistadas no Congresso. Sua fraqueza está em continuar dependente de uma liderança familiar que limita sua capacidade de ampliar alianças e governar o país. As urnas abriram uma oportunidade de mudança. Aproveitá-la exige das lideranças conservadoras a coragem de conquistar sua autonomia e disputar o futuro sem pedir licença ao bolsonarismo.
A direita não é um campo uniforme, embora tenha se subordinado à liderança da família Bolsonaro nos últimos oito anos. A derrota presidencial e a postura de Flávio diante do resultado expuseram os limites dessa submissão. Pela segunda eleição presidencial consecutiva, a família que lidera o movimento recusou-se a reconhecer a decisão dos brasileiros expressa por meio do voto.
Há diferenças importantes no campo conservador, e nem mesmo o PL terá atuação homogênea no Congresso. União Brasil, PP e setores do MDB que estiveram no palanque de Flávio já ensaiam aproximações com o quarto governo Lula, em troca, claro, de espaço no poder. O alinhamento na eleição não significou identidade política nem compromisso duradouro com o bolsonarismo.
É preciso, porém, distinguir movimentos de acomodação da construção de uma alternativa. Negociar cargos no governo demonstra pragmatismo, mas não constitui uma renovação da direita. Uma oposição com identidade própria exige projeto, organização e disposição para enfrentar também os setores autoritários de seu próprio campo.
O reconhecimento do resultado eleitoral por governadores que apoiaram Flávio é um sinal relevante. Segundo levantamento publicado por O Globo em 1º de novembro, 13 dos 15 governadores eleitos considerados na reportagem reconheceram expressamente a vitória de Lula. A necessidade de manter relações institucionais com a União certamente pesa nessa atitude. Ainda assim, ela estabelece uma diferença em relação à contestação promovida pelo candidato derrotado.
Nesse cenário, merece destaque a postura de Tarcísio de Freitas. Ao reconhecer o resultado eleitoral, o governador de São Paulo diferenciou-se da contestação promovida por Flávio e sinalizou que é possível exercer uma oposição firme sem desrespeitar a decisão das urnas. Por partir de uma liderança ligada à família Bolsonaro, o gesto tem significado político e abre espaço para uma atuação mais autônoma.
A crise de liderança abre uma disputa pela representação desse eleitorado. A radicalização, a hostilidade às instituições e a ideia de que só é legítimo o resultado eleitoral favorável fazem parte da identidade que o bolsonarismo construiu. Sua moderação encontra aí um obstáculo: não basta trocar o tom dos discursos ou substituir personagens sem enfrentar os fundamentos dessa prática política.
É nessa dificuldade que se abre uma oportunidade para o país: o fortalecimento de uma direita com projeto de governo e compromisso inequívoco com as regras do regime democrático. Parte expressiva dos eleitores de Flávio não é necessariamente bolsonarista, tampouco deseja uma ruptura institucional. Pode ter votado por conservadorismo, rejeição ao PT, insatisfação com o governo ou expectativas em relação à economia e à segurança.
Disputar esse eleitorado exige levar suas preocupações a sério. Uma liderança conservadora precisa mostrar que pode defender segurança pública, responsabilidade fiscal, liberdade econômica e valores de seus eleitores sem aceitar o autoritarismo como preço da unidade.
A existência dessa direita é uma necessidade para a democracia brasileira. Regimes sólidos precisam de forças capazes de disputar o poder, representar seu eleitorado e exercer a oposição sem ameaçar as instituições ou transformar adversários em inimigos. A alternância só é saudável quando todos aceitam que a vitória não confere propriedade permanente do Estado e que a derrota não autoriza o desrespeito às urnas.
Nos últimos oito anos, lideranças que poderiam representar essa alternativa atrelaram seu destino ao bolsonarismo. No primeiro turno, candidatos que se apresentavam como opções conservadoras adotaram discursos praticamente indistinguíveis do de Flávio, por vezes disputando quem era mais radical no antipetismo. Em vez de construir identidade própria, preferiram disputar a bênção da família.
A derrota presidencial não elimina esse mecanismo de submissão. O bolsonarismo conserva votos, mandatos, capacidade de mobilização e instrumentos de pressão sobre seus aliados. Romper sua hegemonia exigirá disputar a base social que o sustenta, enfrentar acusações de traição e oferecer resultados que deem credibilidade a outro caminho.
No Congresso, essa disputa terá consequências concretas. A bancada do PL é numerosa, mas não representa uma maioria ideológica coesa. Interesses partidários, prioridades regionais e diferentes lealdades políticas estarão em disputa no Legislativo. Lideranças de centro-direita com autonomia poderão construir maiorias para enfrentar os problemas do país e barrar propostas que ameacem as instituições. Na sociedade, empresários, lideranças religiosas e eleitores conservadores precisam encontrar representação sem se subordinar ao radicalismo.
Tarcísio, na opinião de muitos analistas, reúne condições para ocupar um papel importante nessa renovação e aparece como um dos possíveis candidatos à Presidência em 2030. O governo de São Paulo lhe oferece uma oportunidade de demonstrar capacidade administrativa, construir alianças e dar dimensão nacional a um projeto próprio. Seu desafio será ampliar sua autonomia e reunir conservadores e setores de centro em torno de uma alternativa comprometida com princípios democráticos.
A força desse campo está nos votos, nos governos estaduais e nas cadeiras conquistadas no Congresso. Sua fraqueza está em continuar dependente de uma liderança familiar que limita sua capacidade de ampliar alianças e governar o país. As urnas abriram uma oportunidade de mudança. Aproveitá-la exige das lideranças conservadoras a coragem de conquistar sua autonomia e disputar o futuro sem pedir licença ao bolsonarismo.
Assinar:
Postagens (Atom)







