sexta-feira, 6 de novembro de 2026

A democracia recupera esperança. Mas recupera força?

O mundo acorda com sinais de esperança. Nos Estados Unidos, os democratas recuperam terreno e, no Brasil, uma alternativa conquista as eleições. Parece que a democracia volta a respirar. Mas será que estamos a recuperar a força democrática ou apenas a escolher o mal menor?

Há uma diferença entre votar em alguém em cujo projeto nos revemos e votar porque sentimos que o outro lado representa algo que não podemos aceitar. Quando a rejeição do adversário se torna mais mobilizadora do que a capacidade de apresentar um novo projeto de sociedade, alguma coisa se perde. A democracia não pode viver permanentemente da repulsa. Precisa de alternativas, de ideias e de projetos capazes de responder à complexidade dos desafios que a Humanidade enfrenta.


E é aqui que a esperança eleitoral se cruza com uma inquietação maior. Temos um Estado Social fragilizado, um tecido social desgastado e uma crescente dificuldade em garantir que os direitos se concretizam. Sabemos quem elegemos, mas sabemos quem condiciona as decisões? Terão os políticos força para enfrentar interesses económicos instalados, que não conhecemos nem elegemos, mas que determinam muito do panorama mundial?

Não basta conquistar o poder. É preciso ter capacidade para o exercer. Porque uma democracia que vive apenas da rejeição corre o risco de perder a capacidade de construir, enquanto os poderes que não respondem perante os cidadãos continuam a ganhar influência.

A democracia não se fortalece apenas quando impedimos que vença quem rejeitamos. Fortalece-se quando somos capazes de construir alternativas, recuperar a confiança e garantir que o poder permanece ao serviço do bem comum.

É aqui que precisamos de recuperar a grandeza da pessoa humana. Não como uma expressão abstrata, mas como fundamento das decisões políticas, económicas e sociais. A pessoa não pode ser reduzida à sua produtividade, ao seu mérito individual ou à sua capacidade de competir num mundo profundamente desigual.

O verdadeiro desafio não é apenas saber quem ganha eleições. É saber se continuamos a ter força coletiva para decidir o nosso futuro e garantir que o Estado existe para servir a pessoa humana, e não interesses que se sobrepõem à democracia.

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