Querer pensar que um cidadão tem que cumprir uma lei injusta, ou que deve comer e calar, ou reduzir-se à sua insignificância mesmo em situações de gritante insensibilidade social, incompetência governativa e desprezo pelos mais vulneráveis, é tolice
Os governantes em geral não estão sensibilizados para as necessidades dos governados, em especial dos mais fracos, pobres e vulneráveis, porque costumam viver numa bolha. Não sentem as suas necessidades e dores nem são sensíveis aos seus sacrifícios, que muitas vezes desconhecem.
Por isso, é melhor esperar sentado que as elites desçam à terra para acudir às populações, ainda que no caso das democracias tenham sempre algum cuidado em falar uma linguagem de simpatia e compreensão, fazendo promessas eleitorais com vista a obter o voto.
A história comprova à saciedade que todas as mudanças estruturais resultaram de movimentos sociais, durante os quais os cidadãos se manifestaram frequentemente contra leis injustas.
Aconteceu assim nos Estados Unidos com a luta pelos direitos civis, com Rosa Park, que desobedeceu a uma lei racista, e tantos outros como Martin Luther King que acabou assassinado.
Aconteceu assim na África do Sul, em pleno aparthaid, um regime racista e ignóbil que matou indiscriminadamente, encarcerando Nelson Mandela durante 27 anos.
Aconteceu assim com as sufragistas inglesas no início do século XX, que reivindicavam o direito democrático das mulheres ao voto.
Aconteceu assim com a luta pelos direitos do trabalho, em Chicago, que ficou conhecida como Massacre de Haymarket, em 1886, quando milhares de operários exigiram a redução da jornada de trabalho de até 18 horas para oito horas diárias, tendo a polícia disparado então contra os grevistas na fábrica McCormick, matando vários trabalhadores. Deu-se então origem ao Dia Internacional dos Trabalhadores, celebrado a 1 de maio de cada ano.
Outro caso dramático foi o do incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, ocorrido a 25 de março de 1911, em Nova Iorque, onde proprietários inescrupulosos obrigavam as operárias a condições desumanas de trabalho, o que contribuiu para uma tragédia. Os patrões cometeram o crime de mandar trancar as portas, de modo que quando o fogo deflagrou, as operárias ficaram encurraladas. Morreram 146, das quais 123 eram jovens mulheres imigrantes.
Aconteceu assim com a luta pacifista da Índia britânica pela independência, sob inspiração de Mahatma Gandhi, que dizia: “A alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita.”
Aconteceu assim com a queda das ditaduras fascistas e comunistas, com o sacrifício de tantas vidas.
Querer pensar que um cidadão tem que cumprir uma lei injusta, ou que deve comer e calar, ou reduzir-se à sua insignificância mesmo em situações de gritante insensibilidade social, incompetência governativa e desprezo pelos mais vulneráveis, é tolice.
Milan Kundera lembra ainda que “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. Ou seja, o poder, normalmente, tem memória fraca e precisa sempre de ser lembrado por alguém.
Confrontado com a luta, quem está no poder tentará sempre desacreditar os que lutam a fim de os deslegitimar. Caso não consiga tentará a ameaça e a intimidação. Se isso ainda não chegar para fazer calar os que lutam, partirá para a repressão com base numa qualquer lei injusta ou mesmo sem o respaldo da lei e da constituição.
Restará então aos que lutam por uma causa justa assumir a divisa de Santo Agostinho: “Enquanto houver vontade de lutar haverá esperança de vencer.”

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