sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A sociedade da dúvida permanente

Repete-se sempre da mesma maneira, confirmou a Polícia Judiciária à Lusa. Uma fotografia banal, tirada do Instagram. Uma representação sexual fabricada por uma das várias aplicações de “nudificação” que podem ser encontradas com facilidade. A imagem, manipulada mas com o rosto verdadeiro, entra num grupo de WhatsApp da escola. Em poucas horas, transforma-se em meme, ganha novas versões, passa de telemóvel em telemóvel e já não pode ser apagada de todos os dispositivos onde chegou. Em mais de nove em cada dez casos, é uma rapariga.

Os primeiros casos remontam a 2024. Hoje já chegam aos tribunais. A maioria é comunicada pelas próprias escolas e envolve sobretudo jovens entre os 12 e os 16 anos. Portugal, sem grande alarido, deixou de tratar isto como hipótese. Tornou-se rotina. É este o ponto de partida — e não a tecnologia em abstracto: uma sociedade em que já não se sabe se aquilo que se vê aconteceu e em que essa incerteza, por si só, já é suficiente para causar dano.

Durante décadas, falsificar exigiu talento. Uma fotografia adulterada, uma gravação cortada, uma citação inventada — tudo isso precisava de passar pelo crivo de um olhar desconfiado. Havia uma linha, ainda que ténue, entre o acontecimento e a sua representação. Essa linha está agora a dissolver-se e, com ela, desaparece algo mais silencioso: a convicção de que uma imagem constitui evidência.


A União Europeia começou a responder com normas específicas. Desde 2 de Agosto de 2026, entram em aplicação as obrigações de transparência previstas no artigo 50.º do Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, destinadas, entre outras coisas, a tornar identificáveis determinados conteúdos gerados ou manipulados artificialmente.

É uma medida necessária. Mas resolve apenas metade do problema, porque assinala o que foi produzido ou alterado por uma máquina sem devolver, por si só, credibilidade ao que é genuíno. É exactamente aí que a manipulação encontra o seu espaço mais fértil: já não precisa de convencer; basta lançar a dúvida sobre aquilo que aconteceu.

O Brasil oferece, neste preciso momento, um laboratório dessa mutação. O uso de um avatar do ex-presidente Jair Bolsonaro, gerado por inteligência artificial numa convenção partidária, levou o Tribunal Superior Eleitoral a convocar uma reunião extraordinária para discutir o tema. O detalhe mais revelador não é o avatar em si — é a dificuldade crescente em separar, com nitidez, o que foi encenado do que foi fabricado.

Portugal partilha o mesmo ecossistema informativo, mas enfrenta o problema a partir de uma realidade própria. A Comissão Nacional de Eleições promoveu, no âmbito dos seus 50 anos, uma conferência dedicada exactamente a este cruzamento — inteligência artificial, democracia e eleições — reunindo juristas e membros do Tribunal Constitucional para discutir onde termina a inovação e começa a manipulação do processo eleitoral.

A questão portuguesa, portanto, não é saber se esta tecnologia chegará à política. Já chegou. É perceber se as instituições, os jornalistas e os cidadãos estarão preparados quando uma imagem inventada puder ser suficientemente convincente para produzir uma dúvida com consequências reais.

Porque é aqui que a lógica se torna verdadeiramente perigosa. Até agora, a manipulação procurava levar alguém a aceitar uma versão distorcida dos factos. Esta nova forma de interferência tem uma ambição mais modesta e mais devastadora: não precisa sequer de persuadir. Basta retirar às pessoas a certeza sobre aquilo que aconteceu.

Um documento incómodo pode ser desqualificado como manipulação sem que seja preciso demonstrá-lo. Uma gravação genuína pode ser posta em causa apenas porque, em teoria, também poderia ter sido criada por uma máquina. Nem sempre quem lança a suspeita terá razão. Mas deixou de precisar de a ter — basta-lhe semeá-la e esperar que faça o resto do trabalho.

É aqui que a transformação revela a sua verdadeira dimensão. O futuro da desinformação não passa necessariamente por fazer-nos aceitar o inventado como realidade. Pode ser muito mais simples — e muito mais eficaz: fazer-nos desistir de procurar a realidade.

Chegados aqui, torna-se claro que o verdadeiro alvo desta transformação não é a verdade. É a prova — e a diferença entre as duas coisas é politicamente decisiva. Uma sociedade sem factos partilhados pode conservar opiniões divergentes, debate e até democracia, embora sob condições mais difíceis e instáveis. Mas, quando a evidência deixa de ser credível, perde-se algo anterior a tudo isso: a capacidade de um jornalista confirmar um facto, de um tribunal fundamentar uma sentença, de um cidadão responsabilizar um poder. Não se trata apenas de fabricar melhor. Trata-se de retirar à sociedade o instrumento com que se protege de quem procura manipulá-la.

A Unesco tem alertado para os efeitos da inteligência artificial sobre a liberdade de expressão e os processos eleitorais, descrevendo os deepfakes como falsificações capazes de imitar de forma convincente a voz e o rosto de uma pessoa real. O risco maior, porém, talvez não seja sermos enganados por essas imitações. É deixarmos de acreditar que ainda vale a pena separar o original da cópia — entregando essa distinção a quem tiver mais poder para a impor.

Portugal tem discutido a inteligência artificial sobretudo pelo lado da produtividade, da inovação e da competitividade. São dimensões importantes, mas não esgotam o problema. Há uma pergunta mais incómoda: quem garante a autenticidade daquilo que os portugueses verão, ouvirão e lerão quando a manipulação digital se tornar indistinguível do que realmente aconteceu?

Essa pergunta não se resolve com tecnologia. Exige uma resposta institucional, jornalística e cultural — e começa por recusar duas tentações simétricas: a aceitação acrítica do que circula e a desconfiança sistemática perante aquilo que nos é apresentado. Ambas, por caminhos opostos, entregam o mesmo poder a quem manipula.

O perigo maior começa quando a dúvida deixa de ser uma etapa da procura pela verdade e passa a ser o destino. Porque, nesse momento, já não é preciso apagar os factos. Basta tornar impossível provar que aconteceram.

Quando já não é possível distinguir o que aconteceu daquilo que pode ser negado, a dúvida deixa de ser uma virtude democrática. Torna-se poder.

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