sábado, 24 de outubro de 2026

Cada dia é uma vida

Por que o tempo parece passar cada vez mais rápido à medida que vamos envelhecendo? Lembra de quando você era criança e uma tarde parecia levar vários dias para passar, as férias pareciam durar uma eternidade, o Natal demorava para chegar e um ano era quase uma vida inteira? Depois de adultos, parece que piscamos e já estamos em outubro de novo. Para a criança, tudo é novidade — aos 5 anos, um ano representa 20% de toda a vida que ela já viveu. Para alguém de 50 anos, representa apenas 2%. Na vida adulta e nas rotinas diárias, como percebemos menos novidades, os dias parecem que passaram num instante. E assim por diante. O tempo adiante era infinito. E vai ficando cada vez mais curto. O cérebro está ocupado por registros de memórias e experiências, com cada vez menos espaço para novidades. Por isso cada ano novo traz a sensação de ter passado mais rápido que o anterior.

Passeata dos Cem Mil (1968)

Penso muito nisso e, quando fiz 80 anos, tatuei no braço “Cada dia é uma vida”, um mantra que sigo há bastante tempo, sintetizando minha experiência de todas essas vivências da passagem do tempo e como uma metáfora de viver intensamente cada dia, não como uma história em progresso, mas uma com começo, meio e fim. Até começar a próxima. Como dizem nos Alcoólicos Anônimos, é um dia de cada vez.

E para quem tem vivido cada dia como uma vida, a última semana pareceu levar uma década de tão exaustiva, memorável e privilegiada, por testemunhar e viver tantas emoções e sentimentos conflitantes, de tantos interesses individuais e coletivos em jogo, da importância do Brasil para o mundo.

Várias vezes contei para minhas filhas o que foi participar da Passeata dos Cem Mil, em 1968, que elas viam como gesto romântico da série “Anos rebeldes”, mas acabou tendo consequências desastrosas com aumento da repressão, prisões e tortura, desembocando no AI-5. Agora tenho a felicidade de vê-las participando das marchas históricas pela democracia em Copacabana, com muitas vezes cem mil, milhões de pessoas tomando as ruas do país como nunca se viu. E, assim como em 1968, comandadas pelos estudantes, a juventude rebelde e justiceira, e não por partidos, sindicatos e campanhas. Ouvi de várias pessoas que participaram em Porto Alegre, Salvador e São Paulo a mesma coisa, que foi uma emoção tão grande para contar aos seus netos, como um momento decisivo na História do Brasil.

Tudo pode mudar, tudo está mudando a cada momento, as emoções estão à flor da pele, com paralelo só nos comícios das Diretas Já, com todas as forças democráticas unidas contra a ditadura. Hoje cada voto vale, e vale tudo para conquistá-lo. Seja pelo terror, seja pelo humor. A quantidade e a qualidade dos memes e dos deboches não têm paralelo na nossa história e certamente têm um papel decisivo na campanha. Assim como os gritos e missões do Janones comandando seus milhões de “soldados do Lula”. Tudo isso parece ficção, supera as ficções mais delirantes, ora em ritmo de drama, ora de comédia ou de farsa, ora de tragédia iminente.

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