segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Do outro lado do Atlântico, um cravo pela democracia brasileira

Um acontecimento histórico surpreendente marcou a segunda volta das eleições presidenciais brasileiras: a vitória popular perante os grandes conglomerados de comunicação social, as big techs, a elite empresarial da Avenida Faria Lima, os setores evangélicos neopentecostais e a extrema-direita, representada pelo bolsonarismo. E importa acrescentar: foi também uma vitória contra a interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral, numa tentativa de pôr em causa a soberania nacional, e contra a parcialidade da Presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em favor de um dos candidatos.

O dia das eleições ficou marcado pelo boicote aos transportes públicos em algumas cidades do país, numa clara tentativa de golpe contra a democracia, destinada a impedir os brasileiros de exercerem o seu direito de cidadania. Felizmente, os responsáveis por essa iniciativa não conseguiram travar a força da população. Assistiu-se, em vários pontos do país, a uma comovente união de gerações contra as forças obscurantistas da extrema-direita.


Os jovens e os estudantes mobilizaram-se nas ruas e nas redes sociais, enquanto os mais velhos se deslocaram às urnas, acompanhados pelos mais novos. Que imagens emocionantes as dos filhos e netos a levarem ao colo os pais e avós, muitos deles debilitados pela idade avançada ou por doenças crónicas.

Esta foi a resposta das urnas às provocações do então candidato Flávio Bolsonaro, que troçou da idade de Lula da Silva, pôs em causa a sua lucidez e fez comentários sobre a sua voz rouca, alterada pelo cancro da laringe que o tinha afetado. Quando, durante o debate eleitoral, fez uma observação infeliz sobre os nove dedos de Lula, atingiu também as pessoas com deficiência e os trabalhadores que sofreram amputações em acidentes de trabalho. A resposta ao preconceito chegou pelas urnas, com uma diferença superior a quatro milhões de votos a favor de Lula.

Foi uma vitória que ficará na memória! Uma verdadeira celebração da cidadania, expressa também na diminuição da abstenção e dos votos brancos e nulos. A maioria dos eleitores quis demonstrar, através do voto, a sua oposição a qualquer tentativa de golpe e a sua disposição para defender a Constituição e o Estado de Direito democrático.

É inegável que André Janones, deputado federal pelo estado de Minas Gerais, teve um papel determinante nas redes sociais e nas plataformas digitais, ao mobilizar uma comunidade virtual de mais de dez milhões de pessoas para contornar os mecanismos de distribuição de conteúdos da Meta. Mas esta vitória pertence a todos os que acreditam que ainda é possível construir um país mais justo e menos desigual. Foi uma vitória sem precedentes na história republicana do país.

O dia 25 de outubro de 2026 evoca a Revolução dos Cravos, ocorrida a 25 de abril de 1974, quando o povo português, em adesão ao Movimento das Forças Armadas (MFA), saiu à rua e contribuiu decisivamente para derrubar uma das mais longas ditaduras da história europeia.

Lembrei-me de Chico Buarque e da sua canção Tanto Mar, na qual celebra essa revolução em Portugal: “Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente, ainda guardo renitente, um cravo para mim…”. O cravo vermelho tornou-se, assim, o símbolo da vitória.

Viva a democracia e a soberania nacional! E, como historiador, termino este texto evocando a bela letra do Hino da Independência do Brasil (1824), que proclama: “Brava gente brasileira, longe vá temor servil, ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil!”

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