Durante semanas, grandes investidores se posicionaram para a vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Lula (PT) foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21%, e a fatura apareceu antes mesmo da abertura da B3. Na noite de domingo, o EWZ, fundo de ações brasileiras negociado em Nova York, chegou a cair 18,29% no pregão noturno. Em Chicago, o real recuou mais de 11% no mercado futuro, com dólar implícito perto de R$ 5,50. Como o EWZ é cotado em dólar, a queda dele soma o tombo das ações e o da moeda.
O próprio mercado batizou o movimento de trade eleitoral, nome dado às estratégias de curto prazo montadas em cima do cenário político. Ele ganhou força em setembro, quando as pesquisas passaram a mostrar empate técnico, e deixou rastro nos números. Os contratos de opção que ganham com o Ibovespa a 200 mil pontos depois do segundo turno aumentaram em 4,5 milhões num único dia e chegaram a 5,6 milhões em aberto. Naquele momento, o índice ainda rondava os 175 mil. Segundo a B3, o volume médio diário das opções semanais mais que dobrou, de R$ 50 milhões em 2025 para R$ 106 milhões neste ano.
Quem operava não escondia a natureza do jogo. Ao comentar a entrada de estrangeiros de olho numa troca de governo, o chefe da corretora de um banco estrangeiro no Brasil admitiu publicamente que se tratava de uma aposta.
Flávio terminou o primeiro turno, em 4 de outubro, à frente de Lula, com 47,03% contra 45,16%. No pregão seguinte, o Ibovespa disparou 7,70% e passou pela primeira vez dos 200 mil pontos, enquanto o dólar caiu 4,12%. Os estrangeiros colocaram R$ 10 bilhões na bolsa naquele dia, o maior aporte diário desde o início da série, em 2012. J.P. Morgan e Morgan Stanley elevaram a recomendação para o Brasil, o Citi aumentou sua exposição e o Morgan Stanley chegou a projetar o Ibovespa em 250 mil pontos. Ao mesmo tempo, investidores desmontaram as proteções em dólar e reforçaram as apostas na alta depois do segundo turno.
Entre os dois turnos, o Ibovespa subiu 6,9% e bateu recorde de 209 mil pontos, e o dólar caiu 4,4%, para R$ 4,98. Tudo isso com as pesquisas apontando uma disputa de cara ou coroa. O último Datafolha mostrava empate em 50% dos votos válidos. Mesmo assim, boa parte do dinheiro foi para um lado só.
A bet tinha como premissa que Flávio faria um ajuste fiscal. O candidato, porém, passou a reta final prometendo gastar. No debate da Globo, na sexta-feira (23), declarou apoio à tarifa zero nos ônibus aos fins de semana, bandeira lançada por Lula e que ele próprio havia ironizado oito dias antes. Não disse de onde sairia o dinheiro. A NTU, que reúne as empresas de ônibus, estima o custo de uma tarifa zero nacional aos sábados, domingos e feriados em R$ 20,8 bilhões por ano. Flávio também prometeu reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação, inclusive os benefícios rurais. Auxiliares da campanha, porém, tinham discutido limitar esses reajustes à inflação.
A lista seguia com outros compromissos. Flávio garantiu o piso de R$ 600 do Bolsa Família e uma transição para quem conseguisse emprego formal. Prometeu ainda um voucher para creches privadas, sem valor definido, e o Vira Pix, que devolveria a todos os brasileiros parte do que pagam via Pix em contas de luz, prestações e taxas. A campanha não informou percentual nem custo do Vira Pix, que nem constava do plano de governo registrado no TSE. Havia também a retomada do Perse, programa de socorro ao setor de eventos, a promessa de comprar dívidas de endividados e o pedágio zero para motociclistas nas rodovias concedidas.
Flávio falava em cortes amplos de gastos sem dizer onde, enquanto propunha pensões maiores, isenções tributárias e reembolsos ao consumidor. Na reta final, os dois candidatos defendiam as mesmas bandeiras caras, mas só um deles virou bet na bolsa.
Com a reeleição confirmada, a conta chegou. Operadores preveem circuit breaker logo na abertura, com queda acima de 10% do Ibovespa, e estouro dos limites de oscilação no dólar e nos juros futuros.
Ninguém foi pego de surpresa. Numa pesquisa do Citi, 79,5% dos investidores esperavam queda de mais de 5% do Ibovespa em caso de vitória de Lula. As casas de análise chamavam a segunda-feira de binária, com rali para um resultado e devolução para o outro. O mercado sabia que estava escolhendo um lado.
O que muda de sexta para segunda é o preço de posições que só faziam sentido com outro presidente. Operadores ligam o risco de circuit breaker à alavancagem montada na própria sexta, quando o dólar caiu e a bolsa subiu na véspera da votação. Quem estava comprado em Flávio precisa sair ao mesmo tempo e pela mesma porta, e é isso que amplia a queda.
Parte do movimento é apenas volta ao ponto de partida. Em 2 de outubro, antes do primeiro turno, o Ibovespa estava em 192 mil pontos e o dólar em R$ 5,22. Citi e Goldman Sachs já previam a reversão do rali se Lula fosse reeleito. Os preços no exterior vão além disso, como costuma acontecer quando apostas alavancadas são desfeitas às pressas. A perda existe, mas é de quem fez a bet.

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