Gostamos de heróis. Ou antes, precisamos de heróis – para nos inspirar e empolgar, mas também para nos reconfortar por fazerem o trabalho que nós não seríamos capazes. Da mesma maneira que precisamos de líderes que se afirmam pelo exemplo, que obtêm reconhecimento por terem alcançado o que nunca foi feito antes e transmitirem um legado que acaba por se transformar numa espécie de narrativa oficial.
O fascínio pelo indivíduo excecional é uma das marcas mais antigas e persistentes da cultura humana. Todas as nações têm os seus heróis, cujos nomes ouvimos em histórias… que nem sempre precisam de ser fiéis à História. Os mitos dos heróis são absolutamente essenciais para a criação das narrativas que sustentam as crenças e os pensamentos coletivos. Eles são aglutinadores e permitem, ainda por cima, dar rosto humano a grandes movimentos de massas ou ímpetos coletivos que moldaram nações, ganharam batalhas ou, mais recentemente, criaram e desenvolveram empresas de alcance global. A nossa imaginação coletiva está moldada, desde sempre, pela figura do líder solitário, que conseguiu alcançar a glória, mesmo quando todos os prognósticos estavam contra ele.
No entanto, é preciso ter noção da realidade. E não podemos deixar-nos seduzir pela convicção de que o curso da História, a inovação disruptiva e a salvação das crises civilizacionais dependem exclusivamente do génio e da vontade de uma única mente brilhante. Embora alguns tenham procurado cultivar essa imagem, os heróis não são uns eremitas, isolados do resto do mundo. Sabemos hoje, por diversos relatos, que alguns dos maiores génios da Humanidade eram até, na verdade, uns tipos pessoal e socialmente detestáveis, capazes das maiores atrocidades na intimidade. E sabemos também que todos eles, em algum momento, só alcançaram esse estatuto porque puderam beneficiar de um ecossistema social, científico, técnico ou artístico que potenciou as suas qualidades. Mas também de mecanismos de autopromoção desenhados para os glorificar, apagando quase sempre todo o trabalho coletivo que os rodeou.
Há um exemplo bem ilustrativo dessa situação: embora tenha inventado a World Wide Web, com um extraordinário impacto para a Humanidade, Tim Berners-Lee continua a ser um nome completamente eclipsado face a figuras como Mark Zuckerberg ou Elon Musk, personalidades hiperbólicas e egocêntricas da tecnologia, com uma capacidade brutal de autopromoção. E, noutros campos, poderíamos juntar centenas de exemplos semelhantes.
Apesar de precisarmos de líderes e de heróis, já devíamos ter consciência de que ninguém faz nada sozinho. E isso é tanto verdade na política como no desporto, embora tantos procurem vender o contrário.
Vivemos, aliás, tempos em que, um pouco por todo o mundo, se procura glorificar o mito de heróis isolados, como se fossem detentores de uma clarividência infinita e de uma infalibilidade a roçar o divino. Tudo isto em conjunto com uma postura implacável, agressiva e intolerante à crítica. Não é por acaso que vivemos numa era que volta a ser dominada por “homens-fortes”, que procuram captar o fascínio dos heróis do passado – com os resultados trágicos que estão à vista.
A História já nos ensinou vezes suficientes que a idolatria cega corrói as bases da democracia. Devemos valorizar a excelência individual. Contudo, quando transformamos o indivíduo num messias solitário, caímos na caricatura e no culto de personalidade.
O desporto é atualmente o espaço onde melhor se pode aferir a importância do coletivo para o resultado final. Atualmente, mesmo o melhor atleta de uma disciplina individual não terá hipóteses de vencer se ficar a treinar sozinho, isolado do resto do mundo – como poderia acontecer há um século. E, em todos os desportos, é visível o batalhão de técnicos, fisioterapeutas, nutricionistas e os mais diversos especialistas que rodeiam cada equipa – a somar a tantos mais que estão longe dos holofotes. Num tempo em que a saída intempestiva de um herói da Seleção nacional de futebol cria e alimenta novos focos de polarização, convém saber realçar a força superior do coletivo – aquele que garante vitórias, sem ficarem completamente dependentes de golpes de génio de atletas superlativos. Há um facto eloquente: as duas formações dominantes do futebol atual – a seleção de Espanha e o Paris Saint-Germain – são também as duas equipas mais coletivas a pisar os relvados. Nelas, todos tentam, em simultâneo, ser heróis – e essa devia ser uma lição para o futebol e para a organização da sociedade.

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