Pude confirmar tudo isso na minha primeira visita a Israel, em 1989. Confesso que olhei para o nosso guia como um herói enquanto ele contava, com alguns pormenores, a sua participação na “reconquista” (palavra dele) de Jerusalém durante a Guerra dos Seis Dias.
Era, e é, uma obra notável a que se fez naquele pedaço de terra tão pequeno. Mais do que tudo, impressionava-me ver como um povo sistematicamente discriminado, humilhado e assassinado ao longo da História tinha conseguido unir-se, construir e defender a casa de onde saíra há tantos séculos. E logo a seguir a ter sofrido o maior genocídio a que uma gente foi sujeita: seis milhões de judeus exterminados por um país que era uma das luzes da civilização ocidental.
Pouco importava a ajuda que tivesse recebido. Nenhuma ajuda bastaria para reparar o que se fez aos judeus ao longo da História.
E tinham conseguido tudo isto sendo uma democracia. A única verdadeira democracia do Médio Oriente derrotava as mais vis ditaduras, que queriam destruí-la. Até nisso eu via a superioridade moral de Israel.
Já nessa altura não ignorava por completo o que estava a ser feito ao povo palestiniano. Mas a minha vontade de apoiar o povo judeu, tantas vezes massacrado, era tão grande que assobiava para o lado sempre que a realidade me entrava pelos olhos adentro.
Vi claramente visto que as cidades com mais árabes tinham piores condições do que as outras. Vi o desprezo com que os palestinianos eram tratados, mas para mim isso eram pormenores. Vítimas colaterais, talvez até gente que precisava de ser posta na ordem.
Não queria pensar na chave que um palestiniano trazia ao pescoço e que, dizia ele, era a da casa de onde a família fora expulsa entre 1947 e 1949, durante a Nakba. Foram mais de 700 mil os que viram as suas casas ocupadas ou destruídas e a quem a resolução da ONU de 1948 prometeu o regresso. Danos colaterais, pensaria eu, fazendo o que tantas vezes fazemos: não ver o que não queremos ver.
Ligo a televisão e vejo o embaixador de Israel a insultar os autores de NAZA. Abro o jornal e fico a saber que os Estados Unidos decidiram imitar o ISIS e as suas execuções públicas. Desliguei tudo logo a seguir
Voltei a ver aquelas chaves sempre que regressei. A última vez foi um mês antes do massacre de 7 de outubro, num campo de refugiados na Cisjordânia. Gente sem passaporte, que recebe água duas vezes por semana e vive em prédios onde se vão acrescentando andares que milagrosamente se aguentam de pé, porque os palestinianos não podem construir casas novas nestes enclaves. Prédios rodeados de muros com ameias de onde os soldados israelitas, de vez em quando, treinam tiro ao alvo nas rótulas de crianças.
Era a minha quinta estada em Israel. A admiração já se tinha transformado em revolta, e a tolerância numa raiva mal disfarçada. Fiz as peregrinações obrigatórias, porque ia com pessoas que nunca lá tinham estado, mas já me sentia um colaboracionista, figurante de uma farsa em que já não conseguia participar.
O mais importante, claro, é a forma como há décadas se desumanizam os palestinianos. São tratados como animais: tiram-lhes as casas, afastam-nos das suas terras, matam-lhes os filhos, tenta-se de facto aniquilar-lhes a vontade. E já não apenas a vontade. Agora há mesmo uma solução, digamos, total.
Não quero, porém, esquecer algo que continuamos a ouvir constantemente e que, como disse, também me embalava: Israel é uma democracia. E isso é assustador.
Se assim é, é todo um povo que decide democraticamente aniquilar outro. É todo um povo que vota para que isso aconteça, ou que acha que nos princípios da sua democracia cabe um projeto de assassínio em massa. Ou, no mínimo, um projeto de discriminação e violência dirigido a uma categoria de pessoas.
Uma coisa é um bando de ditadores que espezinha o próprio povo cometer barbaridades contra outros. Outra é haver pessoas a cumprir ordens democraticamente emanadas que decretam martírios.
Nós, que também vivemos em países muito democráticos, somos cúmplices. Assistimos aos nossos governantes a financiar aquela carnificina e a apoiar um genocídio. Recebemos os genocidas nos nossos países e nas nossas casas. Deixamos que os seus representantes vivam entre nós e frequentem as nossas televisões. Sentamo-nos com os seus apoiantes. Como escreve Omar El Akkad, “um dia sempre teremos sido contra isto”. Mas será tarde, demasiado tarde.
Há muito tempo que me custa escrever sobre Israel, a Palestina e tudo o que os envolve. Não é pela complexidade, nem por desconhecer as várias culpas. As razões, as causas e as consequências estão mais ou menos distantes no tempo, mas são identificáveis. As forças políticas e sociais, internas e externas, que alimentam os vários conflitos são quase transparentes. É outra coisa.
O documentário NAZA deu-me uma estranha força para falar disto, porque fez o que as obras de arte às vezes fazem: revelou-me o mundo. Muitas vezes, um mundo que não queremos mesmo ver.
Aquelas pessoas são iguais a todas as que fizeram o mesmo ao longo da História. Dizem friamente que ouvem o riso das crianças antes de as matar. Contam as centenas de inocentes que vão morrer e carregam no botão sem remorsos. Admitem que já mataram milhares. Vão beber um copo depois de mais uma matança. Comparam o que fazem a um jogo de computador. O mal não morre, apenas muda de lugar.
2. Abro uma rede social e aparece o Presidente dos Estados Unidos a insultar a Noruega porque o Nobel da Paz foi atribuído a uma antiga juíza do Tribunal Penal Internacional que se destacou na defesa dos direitos humanos, nomeadamente dos palestinianos. Ligo a televisão e vejo o embaixador de Israel a insultar os autores de NAZA. Abro o jornal e fico a saber que os Estados Unidos decidiram imitar o ISIS e as suas execuções públicas. Desliguei tudo logo a seguir, mas ainda a tempo de ver Putin a rir, feliz com o acordo com Trump. O mal mudou mesmo de lugar e está a ganhar. Dentro das nossas casas.
Nós, que também vivemos em países muito democráticos, somos cúmplices. Assistimos aos nossos governantes a financiar aquela carnificina e a apoiar um genocídio. Recebemos os genocidas nos nossos países e nas nossas casas.
Pedro Marques Lopes

Nenhum comentário:
Postar um comentário