domingo, 2 de agosto de 2026

Extrema direita usa medo como arma

Foi um surto humano que durou 24 horas. Na sexta-feira, quando o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, desembarcou em Ceuta, epicentro do rompante migratório vindo do Marrocos, o número de cadáveres recolhidos chegara a 57 — ontem já eram 67. Eles vêm somar-se aos milhares de corpos que não aguentam travessias muitas vezes mais longas pelo mesmo Mediterrâneo: 31.800 só na última década, segundo o Missing Migrants Project.

Ceuta é um exclave, designação para a parte de um país que fica separada de seu território principal. No caso de Ceuta, trata-se de um exclave espanhol fincado na costa mediterrânea do Marrocos, a pouco mais de 60 quilômetros de Gibraltar — ou da Europa continental. Com Melilla, outra cidade autônoma espanhola encravada na costa norte do Marrocos, forma as únicas fronteiras terrestres legitimadas da União Europeia com a África.


Tudo começou às primeiras horas de quinta-feira, quando uma massa humana de migrantes marroquinos se pôs em movimento. Pela fartura de imagens disponíveis, a massa era eufórica, celebrante de uma espécie de segunda Copa do Mundo. Avançou pelo mar, escalou pedras, atropelou barreiras e obstáculos até se aplastar, exausta, pelas ruas de Ceuta. Estima-se que mais de 60 mil tenham desembocado no exclave de meros 84 mil habitantes, quando a média costuma ser de mil entradas irregulares por ano.

Foram recebidos com pavor, os postos de acolhimento transbordaram, e Ceuta se fechou. Nenhum pedaço de pão, nenhuma farmácia, nada ficou aberto. A primeira noite de liberdade foi um pesadelo — sem comida, sem teto, sem água, sem chão. Logo nas primeiras horas da madrugada seguinte, o fluxo inverteu-se. Cabisbaixos, em silêncio e em formação quase ordeira, um total de 48.200 errantes haviam abandonado o cobiçado solo europeu já no final da sexta-feira.

Deixaram para trás uma nova onda de xenofobia europeia, um cipoal de encrencas para o socialista Sánchez e uma oportunidade não desperdiçada pelo presidente americano, Donald Trump, de se fazer ouvir. No fundo, a massa humana que pensou ser agente de seu destino não passou de figurante da geopolítica em curso.

Dez dias atrás, Sánchez havia feito uma visita oficial à Argélia, vizinha e nem sempre alinhada ao Marrocos. Regressara da viagem com um cobiçado acordo bilateral na mala: um aumento substancial nas importações de gás argelino. A notícia deve ter desagradado ao rei marroquino, Mohammed VI. Compreende-se: até 2021, o gás extraído da Argélia atravessava 540 quilômetros de território de seu país até chegar à Espanha. Durante todo esse tempo, a monarquia marroquina cobrava pedágio e ficava com parte do fornecimento para si — de graça. Desde a existência do gasoduto Medgaz, que liga a Argélia diretamente à cidade espanhola de Almeria, isso acabou, e Sánchez ganhou em tempo e dinheiro. Não é de todo fantasioso citar esse fato para explicar a súbita facilidade com que a massa de emigrados conseguiu forçar a fronteira com Ceuta.

Há quem atribua a culpa pela invasão à própria Suprema Corte espanhola, que havia proibido, a partir deste mês, a deportação de migrantes irregulares antes de exauridos todos os recursos judiciais a que têm direito na Espanha, criando assim um incentivo indireto à pressão na fronteira.

Seja como for, a reação das lideranças mundiais espelha o que está em curso. Trump saiu à frente com postagens alarmadas afirmando que os Estados Unidos serão uma Ceuta se os democratas vencerem as eleições em 2028. Vice-presidente, Departamento de Segurança Interna e integrantes do gabinete fizeram coro: “Se a Espanha tivesse um presidente como Donald Trump, isso não ocorreria”, “Se os espanhóis não encontrarem logo um novo Franco, se extinguirão”, “Lembrem-se dessas imagens — podemos ser nós em dois anos”.

As lideranças europeias de extrema direita estudam medidas para conter a “ameaça real à segurança das fronteiras continentais”. A França reforçou em cinco vezes a estrutura de suas fronteiras, e a Itália de Giorgia Meloni já deu entrada no pedido de suspensão da Espanha do espaço Schengen de livre circulação. É como se os hunos estivessem às portas da Europa.

Um mundo turbinado pelo medo é fácil de domar. É a arma mais barata e poderosa à disposição de líderes medíocres. E a mais fácil de desarmar: pelo voto.

Em tempo: Por falar em voto, na semana passada o influenciador Paulo Figueiredo, bolsonarista raivoso de terceira geração, achou interessante divulgar uma de suas taras contra jornalistas profissionais do Brasil. Denunciado na Justiça por vários crimes contra o Estado Democrático de Direito, Paulo toca sua vida cívica rastejante nos Estados Unidos. Considera-se jornalista. Do jornalismo profissional, merece repulsa. Dos alvos de sua covardia verbal, nem sequer desdém merece — um polpudo corretivo processual basta.
 Dorrit Harazim

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