segunda-feira, 16 de março de 2026

Insensibilidade e falta de senso

Mesmo quando os factos são os mesmos ou, no mínimo, semelhantes, as nossas reações perante eles estão sempre dependentes de diversos fatores: o nosso ponto de vista, o grau de proximidade, o nível de confiança na informação que recebemos e, naturalmente, os vieses ideológicos, sociais ou até religiosos que temos, mesmo sem nos darmos conta deles. É por tudo isto que, quando somos confrontados com o relato de atrocidades, nem sempre reagimos da mesma forma − até quando elas são tão brutais e violentas que nem sequer deveriam suscitar qualquer tipo de compreensão ou desculpa sobre quem as perpetrou.

Se quisermos ser rigorosos e independentes, não existe qualquer circunstância em que o bombardeamento de uma escola, provocando a morte de mais de uma centena de crianças e dos seus professores, possa deixar de ser considerado um escândalo mundial, merecendo a imediata condenação unânime e conduzindo a um rápido e conclusivo apuramento de responsabilidades. Numa guerra geograficamente próxima de nós ou em que as vítimas fossem parecidas connosco, com os mesmos traços físicos e culturais, seria isso que logo aconteceria. E, se calhar, se fosse na Ucrânia, já haveria um novo pacote de sanções económicas a caminho, contra o invasor russo − e muito bem.

O massacre ocorreu, no entanto, na escola feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no Irão, logo nas primeiras horas da ofensiva dos EUA e de Israel. Embora ainda não se saiba o número exato de vítimas, ninguém duvida de que foi mais de uma centena, quase todas meninas entre os 7 e os 12 anos. Também sabemos que a escola ficava situada junto a uma base da Guarda Revolucionária Islâmica, o tenebroso braço armado do regime dos aiatolas. Segundo o New York Times, há imagens de satélite que indicam que o prédio da escola esteve anteriormente conectado com as instalações militares, mas foi posteriormente isolado com muros.


O secretário de Guerra dos EUA, e antigo apresentador da Fox News, Pete Hegseth, tem-se esforçado por desmentir que o ataque tenha sido perpetrado por americanos, mesmo quando se acumulam evidências a esse respeito, nomeadamente entre peritos das Nações Unidas, e se sabe que alguns dos alvos da Operação Fúria Épica foram definidos através de Inteligência Artificial − porventura incapaz, sem intervenção humana, de deslindar se o edifício da escola continuava ou não integrado nas instalações militares.

O problema, no entanto, nem sequer é a insensibilidade de Hegseth e da restante Administração em Washington − Donald Trump, claro, já assegurou que os EUA não têm qualquer responsabilidade e fê-lo com a veemência habitual: a mesma que lhe permitiu, no espaço de uma semana, enunciar sete objetivos diferentes para esta guerra, quase todos antagónicos uns dos outros. Na verdade, de Trump e dos seus súbditos MAGA não se esperaria outra coisa.

O problema é mesmo a falta de senso que se generalizou e que leva a que uma situação destas já não suscite a indignação e a repulsa que merecia. Até porque isso tem consequências profundas: banaliza-nos a violência e o horror da guerra, levando-nos a olhar para as atrocidades como se fossem naturais. E, como ocorrem em locais distantes, criando até a sensação de que pouco ou nada têm a ver connosco.

A realidade nua e crua sobre o estado atual do mundo é esta: milhões de pessoas ficam mais alarmadas com o aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que com a morte de mais de uma centena de crianças no bombardeamento de uma escola.

Este é um sintoma do que acontece quando os líderes começam a desprezar os valores mais básicos em que deviam assentar o relacionamento humano e o respeito pelo próximo e pelo semelhante. O direito internacional, nomeadamente com a definição de regras para as guerras, é um dos pilares do progresso da Humanidade. Desrespeitá-lo é fazer regressar o mundo à lei da selva, em que o mais forte manda e os outros obedecem ou são eliminados. É plausível que o ataque à escola de Minab não tenha sido uma ação intencional dos EUA − ao contrário dos muitos assassínios de mulheres e crianças perpetrados pelo regime de Teerão, ao longo dos últimos anos. Mas quando falha a sensibilidade para perceber que este é um caso que devia ser esclarecido o mais depressa possível é porque, de facto, já se desceu demasiado fundo em termos de valores e de respeito pelos direitos humanos. O erro, nesse caso, não foi do bombardeiro, mas de quem, no comando, não teve coragem para assumir a sua culpa. E os culpados, no fundo, somos também todos nós, que vemos este caso apenas como mais uma ocorrência “normal” de guerra e não como uma consequência do estado a que chegámos, enquanto sociedade. 

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