quinta-feira, 26 de março de 2026

Donald Trump faltou às aulas de História

A partida, para um leigo, enviar uma força militar com a missão de capturar ou liquidar o líder de um país parece uma tarefa que obedece a um mesmo plano de ação: aniquilar a voz de comando e, dessa forma, fazer cair o regime e, ato contínuo, impor um novo poder ou uma nova forma de coerção.

No entanto, se as operações militares podem ser semelhantes ou até procurar objetivos aparentemente iguais, há muito mais que precisa de ser levado em linha de conta, antes de dar ordem para avançar.

É preciso ter respostas prontas para uma mão-cheia de perguntas: Como é a estrutura desse regime? Qual a sua antiguidade? De que forma se preparou para um eventual ataque? Qual é o histórico do país face a invasores externos? De que forma a geografia do seu território pode albergar e ampliar um foco de resistência?


Naturalmente, como já se percebeu, é totalmente diferente uma ação militar de decapitação do líder do regime num país fundado há apenas dois séculos, como a Venezuela, de outra numa nação, como o Irão, que, apesar das suas transformações, é a herdeira de uma civilização com três mil anos de História. É como querer comparar a personalidade de uma criança de 2 anos com a do seu avô, octogenário.

No entanto, cada vez parece mais evidente que esse foi o erro infantil cometido por Donald Trump, ao aceder aos apelos do seu parceiro Benjamin Netanyahu para intervir militarmente no Irão – onde o único beneficiado, no final do dia, seria o primeiro-ministro israelita, que precisa de estar permanentemente em batalha atrás de batalha para continuar no poder.

Pensar que, por exemplo, o regime tenebroso dos aiatolas seria derrubado apenas com o corte da sua “cabeça” principal é, no mínimo, não ter memória histórica. E é não perceber que o sentimento antiamericano no Irão não nasceu em 1979, com a fundação da República Islâmica, por Khomeini. As sementes do antiamericanismo foram plantadas pelos próprios líderes de Washington, em 1953, quando promoveram o golpe que derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, para manterem o acesso ao petróleo iraniano, cuja exploração aquele governante democraticamente eleito queria nacionalizar.

Como a História indica, as mudanças de regime impostas de fora raramente resultam em democracias estáveis. E pior: costumam até radicalizar a população contra o invasor. Foi isso que sucedeu, no início dos anos 1980, quando o Iraque invadiu o Irão, dando início a uma das mais sangrentas guerras da segunda metade do século XX. Esse conflito, iniciado com um ataque externo, acabou por ser fundamental para unir as fações internas, fortalecendo as jovens instituições criadas com a revolução islâmica, em vez de as enfraquecer.

Depois, temos a geografia. Não só as montanhas que dificultam o acesso ao território, mas também a localização estratégica e fundamental para a economia mundial, que permite ao Irão controlar o estreito de Ormuz – aquele acidente geográfico que já há cinco séculos o português Afonso de Albuquerque percebeu ser fundamental para controlar o comércio no Índico (quando ainda nem se sabia para que serviria aquele líquido viscoso e negro a que chamamos petróleo…).

Como bem observou, recentemente, o historiador britânico Niall Ferguson (conhecido, aliás, pelas suas posições profundamente conservadoras), os EUA podem estar prestes a repetir o erro cometido pelos britânicos, na I Guerra Mundial, quando o jovem Winston Churchill, então primeiro lorde do almirantado e confiante na imensa capacidade militar do Império Britânico, ordenou a invasão de Galípoli, com o objetivo de abrir o estreito de Dardanelos, que permite a ligação entre o Mediterrâneo e o mar Negro, e que os otomanos tinham bloqueado. A operação revelou-se um desastre total e ficou como uma das maiores derrotas de sempre das forças britânicas.

Ninguém, com seriedade, pode esperar que Donald Trump se debruce sobre a História e a geografia dos países em que deseja intervir. Ele só se preocupa com a defesa dos seus interesses – especialmente, aqueles que podem ter mais impacto nos seus negócios e nos da sua família. Por isso, o problema não é Trump decidir por instinto, com base na ignorância e sem uma avaliação correta dos riscos. O que preocupa mesmo é o muro de silêncio que ele conseguiu erguer à sua volta, sem que ninguém tenha autoridade para o chamar à razão ou ao confronto com as lições do passado. Trump pode ter faltado às aulas de História, mas se insistir neste caminho, a História não vai perdoar-lhe. E, se calhar, bem mais depressa do que ele pensa.
Rui Tavares Guedes

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