terça-feira, 28 de abril de 2026

Elementos da escalada fascista nos EUA

Infelizmente, os termos fascismo e fascista caíram na banalidade do debate público há muito tempo. Esquerda e direita, no Brasil e no mundo, abusaram de seu uso para rotular seus rivais políticos em uma tentativa torpe de descredibilizar argumentos. Desta forma, tal como na fábula do Menino e do Lobo, quando a ameaça realmente está surgindo, parece exagero identificar Trump com a ascensão do fascismo nos Estados Unidos. O problema é que não é.

Apesar de não muito celebrada por sua base de fãs, a trilogia prequel de Star Wars (Guerra nas Estrelas), dos anos 2000, serviu para contar como uma república democrática degringolou para um regime totalitário. Ademais, em série mais recente do universo expandido, Andor, mostra-se como o regime consolidou o fascismo na galáxia. De maneira semelhante, a situação política atual dos EUA imita a arte em cinco elementos centrais.


O primeiro deles é o elemento mais marcante do fascismo dos anos 1920 e 1930: a enorme capacidade de mobilização popular, muitas vezes, de maneira truculenta. Esta mobilização popular era dirigida por grupos e milícias armadas que buscavam subverter as instituições do Estado de baixo para cima e de dentro para fora. Os exemplos claros são os camisas negras na Itália dos anos 1920 e os camisas pardas na Alemanha dos anos 1920 e 1930. Nos EUA, este elemento está representado no ICE (Serviços de Imigração e Aduana), uma agência de aplicação da lei de imigração que, com Trump, flexibilizou a admissão e quantidade de novos agentes. Segundo propaganda do próprio presidente, em 47 dias é possível se inscrever, ser treinado e partir para ações policiais. De janeiro de 2025 a janeiro de 2026, 12 mil novos agentes foram admitidos, um recorde para uma agência de segurança interna dos EUA.

O ICE, neste último ano, não responde à administração pública, mas diretamente ao presidente Trump. Esta é a característica central do fascismo: cidadãos comuns agem de maneira inconsequente em nome do Estado se estiverem vestindo as insígnias do partido e aplicando a ideologia do líder. Se no passado os camisas negras eram liberados da lei quando perseguiam e espancavam comunistas, atualmente, agentes do ICE deportam imigrantes sem o devido processo legal e espancam quem estiver no caminho. De maneira semelhante, na série Andor, o Império se utilizou de milícias locais para perseguir cidadãos e exterminar populações.

Ademais a esta característica central, outras quatro se somam para caracterizar a singularidade do fascismo: o primado do partido, o primado da nação, o primado do Estado e o primado do chefe. Estes quatro elementos, cada vez mais, se consolidam na política e em camadas da sociedade americana dos últimos meses. Pelo aspecto do partido, não é possível argumentar que os EUA estejam vivendo um sistema unipartidário sob a égide dos Republicanos, mas, ao que parece, os EUA caminham para viver uma nova “Era dos Bons Sentimentos” ou um novo sistema partidário no qual o oponente esteja muito enfraquecido. Trump venceu as eleições de 2024 praticamente por WO, e o partido Democrata vive uma profunda crise de identidade. É difícil de dizer se os Democratas terão o mesmo destino que os Federalistas em 1815, mas seu apagamento na esfera nacional é sensível, fato que abre espaço para uma hegemonia dos Republicanos.

Este é um aspecto interessante do fascismo, porque, embora não seja democrático, não elimina a participação política. Aqueles que desejam participar do debate público devem se inscrever nas fileiras do partido e debater a política dentro do partido. De maneira semelhante, o Império de Star Wars transparecia ares de democracia ao permitir o funcionamento do Senado, mas, mantinha a alta política concentrada entre militares e o Imperador.

Pelo aspecto da nação, Trump instrumentaliza uma nova onda de supremacismo WASP (branco, anglo-saxão e protestante, na sigla em inglês), recuperando a imagem de uma América pré-Guerra Civil, emulando uma época, supostamente, sem divisões entre Norte e Sul, sem traumas e máculas. Neste nacionalismo, antigos símbolos desta era são resgatados: a Era dos Bons Sentimentos, a Doutrina Monroe e a Democracia Jacksoniana se destacam. Novamente, pegando de empréstimo a alegoria de Star Wars, na série Andor, o nacionalismo exacerbado do Império aparece na forma de culto à ordem e à estabilidade, misticismo e unidade orgânica, elementos igualmente presentes no nacionalismo americano.

Pelo aspecto do Estado, é inegável que o individualismo e a livre-iniciativa ainda estão arraigados no DNA americano, mas já há episódios que mostraram a força de Trump em aumentar a presença da União tanto na economia quanto na federação. Pelo lado da economia, em agosto de 2025, Trump firmou um acordo para adquirir uma participação de cerca de 10% na Intel, uma das gigantes de microchips, para impedir que empresas chinesas aumentassem sua participação na empresa. Pelo lado da política, a autonomia de estados (democratas) está sendo cerceada para garantir o trabalho inconsequente de agentes do ICE. Novamente, observando a realidade administrativa do Império, em Andor, há elementos de hipertrofia burocrática e eficiência desumana que levam a uma banalidade do mal típica do fascismo, elementos que, também, vicejam na burocracia atual dos EUA.

Finalmente, o primado do chefe é o aspecto mais gritante na escalada fascista dos EUA: o culto à personalidade de Trump. Mudança de nomes de prédios públicos, criptomoedas, propagandas feitas por Inteligência Artificial, desfiles militares, fantasias, NFTs etc., tudo que Trump pode incluir seu nome e imagem ele o faz prontamente. Ironicamente, em 04 de maio de 2025, dia de Star Wars, Trump postou imagem de IA mostrando uma versão sua musculosa, com vestes escuras, empunhando um sabre de luz vermelho, justamente, a imagem dos Siths, vilões do universo de Star Wars. A metáfora de Star Wars, mais do que um recurso útil à análise, faz parte do imaginário cultural e político dos EUA mesmo em tempos de fascismo ascendente.

Contudo, o fenômeno do fascismo não é apenas a existência de um partido antissistema e de elementos disruptivos, mas, sobretudo, trata-se de um fenômeno político e social que, quando irrompe, normalmente se apresenta em três cenários de resolução: (i) a vitória fascista e a morte da democracia por dentro, (ii) a guerra civil ou (iii) o autogolpe preventivo e autoritário. Estes cenários não passam de possibilidades, uma vez que Trump ainda não cruzou esse horizonte de eventos: o mês de novembro é o rio Rubicão de Donald Trump, quando ocorrerão as eleições de meio de mandato para o legislativo dos EUA, as midterms. A previsão é de que Trump perca espaço nas câmaras legislativas, e seu abuso de poder seja freado.

Entretanto, agora que Trump tem à sua disposição um contingente policial que obedece a seu comando (o ICE), não se sabe como isso pode ser usado para intimidar a política eleitoral americana. Não obstante, Trump pode usar a justificativa da guerra no Oriente Médio para ampliar poderes do executivo e limitar o legislativo, à semelhança de Palpatine nas guerras clônicas. Se algum dos dois cenários se concretizar, estaremos diante de um cenário de vitória fascista. Resta saber se, após isso, reescreverão as histórias de Star Wars mostrando o Império como moralmente justo e de caráter ilibado.

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