sábado, 2 de maio de 2026

Perfilados de medo

A ânsia de patologizar Donald Trump não toma ninguém de surpresa. Vladimir Putin é lunático, Kim Jong-Un é um egomaníaco com delírio de grandeza, Nicolás Maduro é paranóico e, claro, não falta o clássico “psicopata” para descrever gente como Benjamin Netanyahu.

Recorremos a esta linguagem para descrever comportamentos bizarros que não encaixam nas nossas categorias habituais. Não é fácil usar a nossa linguagem quotidiana para descrever massacres como o de Gaza, invasões como a da Ucrânia ou a ininterrupta torrente de declarações absolutamente delirantes com que Trump aborda crises que podem mergulhar o mundo no caos.


Estes homens são normalmente retratados como casos atípicos, bizarrias num mundo maioritariamente avesso a este tipo de comportamentos. A minha tese é que entre Trump e o tipo que hoje de manhã passou à sua frente numa manobra perigosa, pondo toda a gente em perigo, ou o último tipo que entrou armado numa escola e desatou a atirar não há diferenças substantivas no que diz respeito aos processos mentais.

Atrás do volante, no controlo de uma tonelada e meia, as pessoas — os homens — sentem o poder que lhes escapa noutras circunstâncias. É aquela arma em forma de automóvel que lhe confere a possibilidade de circular pelo mundo como se fosse a personagem principal de um filme em que todos os outros são figurantes.

Tirando aquele condutor daquele contexto, essa fonte de poder desvanece. Ele torna-se mais um, sem nada que lhe confira particular autoridade. Numa resposta reacionária ao processo de nivelamento de oportunidades e direitos entre homens e mulheres, homens que mediam o seu valor pela autoridade que exerciam sobre mulheres não conseguem perceber que essa autoridade não emanava diretamente deles, mas de um contexto social caracterizado por desnivelar o campo de jogo.

As relações de poder nunca são unidirecionais, dependem necessariamente de uma parte o exercer e de outra parte o acatar. Isso quer dizer que a mesma pessoa se vê, em contexto diferentes, ora numa situação em que detém poder, ora na situação em que tem de se submeter.

No entanto, para o exercer, é necessário, repito, que alguém o acate, que alguém reconheça a sua legitimidade ou, pelo menos, tenha medo das consequências da insolência. Em sociedades tradicionais, os mais velhos exercem poder sobre os mais novos porque os mais novos aceitam a idade como fonte de poder. Mas, nos tempos que correm, de deslaçamento social, de erosão de referências e de perda generalizada de controlo sobre as nossas próprias vidas, tudo é potencialmente entendido como um sinal de fragilidade.

É entre os homens que este fenómeno é mais visível. Ansiosos por uma posição de dominação, recorrem ao que tiverem à mão para a exercer: não porque os outros aceitam a legitimidade do seu poder, mas porque o temem.

O homem que conduz agressivamente reclama para ele a autoridade que advém do medo que as pessoas têm do carro que conduz, o jovem que entra armado numa escola e dispara reclama para si a autoridade que advém do medo que as pessoas têm das balas e o líder político que semeia o caos pelo mundo reclama para si a autoridade que advém do medo que as pessoas têm do aparelho militar que ele controla.

Da estrada à geopolítica, vivemos sob ameaça de homens com egos frágeis. O tipo de raciocínio que leva um homem a desrespeitar a fila porque pode meter-se mais à frente e ainda vociferar se não o deixarem é o mesmo que leva um homem a pensar que pode ameaçar líderes mundiais e promover a chacina de milhares para enriquecer e sentir o gosto do poder. Enfim, salvas as devidas distâncias.

Não ignoro que, ao nível dos impactos, a diferença não poderia ser maior, mas perdoe-se-me a provocação que serve para chamar a atenção para um fio condutor que percorre a nossa vida. É verdade que o século XX se caracterizou por um movimento de libertação de velhas amarras que subjugavam as pessoas em sistemas de dominação injustos. Mas esses sistemas foram substituídos por uma ideologia individualista do salve-se quem puder, uma lei da selva promovida, por exemplo, pela manosfera.

Quando mandámos abaixo as velhas relações de poder, esquecemo-nos de construir um novo modelo assente na igualdade, na dignidade e na bondade. Pelo contrário, deixámos um vazio que está a ser ocupado por rapazes que, à falta de outro caminho, se agarram à sua capacidade de provocar medo nos outros para viverem a sua vida.

A ânsia pela ordem que serve de pulsão ao avanço neo-fascista é também uma ânsia pelo regresso do medo. Cá estaremos para resistir, com medo e com coragem.

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