sábado, 2 de maio de 2026

O DDT e as redes sociais

O DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano) ficou para a história como o pesticida, que, de droga milagrosa capaz de evitar epidemias de malária e febre tifoide e exponenciar a produção agrícola ao eliminar pragas, se tornou símbolo dos efeitos letais da química moderna.

Até ser banido em 1972, mais de 660 milhões de toneladas de DTT (mais de três quilos por habitante) foram aplicados em campos, relvados e florestas só nos Estados Unidos da América. Dada a sua estabilidade química (o DDT e congéneres não se decompõem com facilidade em compostos não letais), persiste no meio ambiente, e estudos científicos demonstram que a exposição a este químico continua a provocar cancro e doenças do sistema nervoso e reprodutivo.

O DDT presta-se a múltiplas comparações com o fenómeno das redes sociais.


Também as redes sociais nasceram com uma aura de promessa de um futuro melhor. A democratização da informação e do saber. A conexão planetária.

Tal como no DDT, as preocupações com os efeitos nocivos foram abafadas por uma indústria que gerava milhões, com o mantra de que os dados científicos eram insuficientes para se chegar a uma conclusão. Só perante efeitos nefastos e uma população crescentemente consciente das consequências, o legislador agiu e proibiu a comercialização.

Mas ao contrário dos insetos, que em virtude de ciclos de vida muito curtos, em algumas décadas conseguiram tornar-se resistentes ao DDT, nós, dada a nossa biologia, continuamos extremamente vulneráveis às redes sociais.

No seu muito recente e pertinente livro Des Regulados, Beatriz Subtil (doutorada em Ciências Biomédicas) explica como a nossa biologia não se alterou desde o período paleolítico, em que os humanos eram caçadores-coletores. O nosso sucesso como espécie resulta da nossa adaptabilidade ao meio ambiente, e somos os descendentes dos indivíduos mais bem adaptados. Tal significa que somos muito atentos aos sinais de alarme e que o nosso organismo reage em bloco perante um perigo. Igualmente, procuramos o prazer (que então era raro) e facilmente ganhamos tolerância.

Como ficou demonstrado em dois processos judiciais recentes nos Estados Unidos, um contra a Meta (na Califórnia) e outro contra a Google (no Novo México), estas empresas contrataram cientistas e psicólogos para compreenderem a nossa biologia, e em especial o nosso sistema nervoso, e usaram deliberadamente esse conhecimento para criar funcionalidades que nos tornassem presas fáceis. O scrolling personalizado e infinito das redes sociais alimenta a nossa busca de prazer, provocando a libertação de dopamina sempre que vemos um vídeo ou uma imagem que nos surpreende e agrada. E a disponibilização de conteúdos que nos atormentam serve a nossa ânsia de garantir que conhecemos os perigos que nos rodeiam e nos preparamos para reagir.

Mas como Beatriz Subtil nos explica, no passado, o perigo era momentâneo, permitindo (se sobrevivêssemos) voltar a um estado de repouso. O prazer era também escasso, pelo que dificilmente a nossa tolerância ao prazer comprometia o nosso bem-estar. Hoje, o perigo e o prazer estão no nosso bolso, permanentemente à nossa disposição. Não somos moscas da fruta e não vamos adaptar-nos rapidamente.

A condenação da Meta e da Google por design aditivo é um primeiro sinal de que estamos dispostos a reagir e a exigir uma ação coletiva que coloque no centro da regulação o bem-estar do indivíduo (a cotação das ações da Meta caiu 7%, revelando que o mercado antecipa futuras condenações nos vários processos judiciais em curso).

A ciência já demonstrou como são danosas as redes sociais, como as big tech agiram deliberadamente em prol do lucro fácil, com desprezo pelo bem comum. Devemos assumir, que não se trata de uma franja de pessoas frágeis, facilmente manipuláveis, que se deixam dominar pelas redes sociais. Se reconhecermos, como a ciência o impõe, que individualmente, dada a nossa biologia, somos alvos fáceis do design aditivo das redes sociais, então, legislar para proibir tais funcionalidades deveria ser simples e consensual.

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