Foram muitas e graves as consequências da memorável rejeição do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF — a maior e mais eloquente, o risco de o presidente Lula se tornar um pato manco. A derrota, inédita na ocorrência e na magnitude, escancarou a fragilidade do governo diante do Congresso, feriu em grau hemorrágico a autoridade do presidente e, a cinco meses da eleição, dificultou a aprovação de projetos cruciais para a recuperação de sua popularidade, como o da escala 6x1. Na mesma proporção do revés do governo, deu-se o ganho da oposição: Flávio Bolsonaro — que, com seu coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), foi responsável por arregimentar ao menos 28 dos 42 votos contrários a Messias — transformou o episódio em vitória da sua candidatura à Presidência e numa “resposta” do Senado aos “excessos do Supremo”, bandeira de que o concorrente Romeu Zema, do Novo, ameaçava se apropriar.
Se, no rol das consequências do episódio Messias, a derrota de Lula é clara — e, em muitos aspectos, devida, porque nasceu de um flagrante erro de cálculo do próprio presidente —, a vitória da oposição é mais matizada. Flávio sabe que boa parte dos votos que amealhou no Senado não se explica apenas pela tese pública de que a rejeição de Messias serviria como recado de autocontenção ao STF, ou como prenúncio da abertura das comportas para um futuro impeachment de ministros. Fosse essa primeira questão a razão principal, Messias deveria ter sido apoiado, e não rejeitado, pelo grupo de Flávio. Na sabatina da CCJ, defendeu o fim do inquérito das fake news, a criação de um código de ética para o STF e, em mais de uma ocasião, fez críticas indiretas à conduta de Alexandre de Moraes. O motivo maior, como admitem diversos senadores, foi o receio de que Messias se alinhasse a André Mendonça, principal avalista de seu nome na Corte, e ajudasse a formar no Supremo uma maioria capaz de ameaçar aqueles que têm perdido o sono diante de pendências, presentes e futuras, nos inquéritos do Banco Master e das fraudes do INSS — ambos sob relatoria de Mendonça. O último e mais vulgar dos motivos da vitória oposicionista atende pela velha alcunha de “toma lá dá cá”, aqui escorada no empenho de R$ 12 bilhões em emendas pelo governo, em meio a tentativas de recompor pontes com o Senado comandado por Davi Alcolumbre — o marco zero dessa história.
Como até as pedras sabem, Alcolumbre queria que Lula indicasse não Messias, mas o também senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga no STF. Contrariado em seu desejo e ferido em sua vaidade, Alcolumbre urdiu a revanche, no que teria sido apoiado pelos ministros Moraes e Flávio Dino. Tais apoios não se deram de forma explícita, nem por motivos que se possam chamar elevados — a animosidade de Dino em relação a Messias vem da indicação anterior de Lula ao STF: o advogado-geral da União já estava no páreo e Dino, o vitorioso na ocasião, nunca esqueceu as farpas que considera ter recebido dele. Moraes e Dino negam publicamente ter atuado pela derrota do indicado de Lula.
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