Ainda mal entrámos na A5 e já ele me conta que está de saída. Um amigo que se vai casar e quer voltar ao Brasil arranjou-lhe casa e trabalho como motorista de pesados em Espanha. Já tem a carta de condução especial, já fez as contas todas e o desvio na rota de imigração vai fazê-lo chegar mais rapidamente ao sonho de voltar ao Brasil. “Antes do final do ano, a casa no Pantanal fica paga.” O plano está feito: pôr a casa de Lisboa a arrendar, acabar de pagar a que tem no Brasil, pôr tudo a render. Talvez comprar mais uma ou duas por Terras de Vera Cruz. “Tem muitos leilões por lá. Casas baratas. Bastam umas obras, que eu mesmo faço.” Em Espanha, com salários mais altos e preços mais baixos, conta poupar uns milhares por ano. Ouço-o a falar com desenvoltura em números e contas e vou-me enterrando no banco de trás do carro, prostrada com a minha falta de jeito para os negócios.
“É preciso pôr o dinheiro a trabalhar por nós”, afirma, taxativo, no para-arranca do trânsito. As tatuagens no pescoço, os óculos escuros, o boné enfiado até aos olhos, a t-shirt preta apertada, o jeito gingão, não são bem o que se espera de um guru de finanças. Mas só para quem não tem paciência para fazer conversa com motoristas de TVDE. Esta frase sobre o dinheiro como nosso empregado é o novo “isto só lá vai com um Salazar”, que antigamente ouvíamos nas corridas de táxi e agora aparece no prime time das televisões.
Ao volante de cada Uber há um empreendedor. Uma vez, houve um que me explicou mesmo como usava a Inteligência Artificial para jogar em vários mercados financeiros e ia gerindo as suas horas de acordo com os horários de abertura das bolsas. Ele explicou, mas eu não percebi nem metade. A minha incompetência financeira é demasiado grande e a minha fé nos mercados, nenhuma.
Apesar da minha inaptidão e da minha descrença, estas conversas fascinam-me. Em parte, precisamente, devido à minha inaptidão e à minha descrença, claro. Mas sobretudo porque elas me ajudam a perceber o que noutras alturas me é incompreensível: como é que uma parte tão grande da população está disponível para perder direitos e, sobretudo, se sente mais próxima de um multimilionário com tendências autoritárias do que das pessoas com quem convive quase todos os dias e por quem quase sempre tem tão pouca empatia. A chave está neste sistema de fé aspiracional, já completamente desligado da ideia de trabalho. Sim, porque toda a gente já percebeu que não se enriquece a trabalhar, mas sim a ser rentista. No fundo, é isso. É isso que quer dizer “pôr o dinheiro a trabalhar”.
O mais extraordinário deste pensamento é que ele deixa gente da classe trabalhadora a salivar com aumentos de rendas e baixas de impostos sobre propriedade e capital. Mesmo que os juros pagos ao banco esmaguem as ambições de muitos, que problemas com inquilinos furem planos ou que os negócios simplesmente não sejam tão rentáveis como parecia quando se estavam a fazer as contas na toalha de papel do restaurante. Se alguma coisa falhar, a culpa é do Estado, que só atrapalha, que é um peso. Até porque muitas destas pessoas vivem precárias, são demasiado abonadas para ter apoios e demasiado pobres para ser ricas, e sabem que têm de gastar parte dos seus rendimentos em seguros, se quiserem ter acesso à saúde, e em escolas, para garantir um futuro melhor aos filhos ou, pelo menos, para lhes dar acesso aos conhecimentos sociais certos para esse futuro.
E é este mecanismo que é fascinante. O desmantelar do Estado social que a Europa construiu no pós-Guerra, que só chegou a Portugal em 1974, e com que parte dos Estados Unidos sonhava, é a melhor forma de garantir que ele continua a ser desmantelado. As classes mais ricas conseguem com este sistema que os mais pobres façam tudo para lhes manter os privilégios. Eles já se veem a si próprios como proprietários rentistas, mesmo que continuem a conduzir um Uber 12 horas por dia, que se especializem em engenharias financeiras de tostões e que tenham de aguentar dores de dentes ou óculos sem as dioptrias suficientes até conseguirem juntar dinheiro para isso.
Esta dismorfia social faz com que o pobre se veja como rico e o precário como empreendedor. Já tive mesmo uma conversa com um desempregado, que andou anos a trabalhar precário na indústria dos moldes, que falava como um capitalista desiludido com os preguiçosos que não querem trabalhar e lamentava como era difícil despedir. Quando ousei falar-lhe de exploração e de distribuição de riqueza, a resposta foi desarmante. “Se eu fosse patrão, também queria ter o máximo de lucros.” Conversa arrumada, pus a viola no saco. Não há cantiga de intervenção que embale as formigas que gostam de andar pelo carreiro, mesmo debaixo de uma rajada de inseticida.
Será esta uma vitória final dos mais ricos e poderosos, cada vez mais a salvo de qualquer política redistributiva que possa beliscar-lhes os privilégios? Não creio. O esmagamento contínuo de quem está na base vai acabar por quebrar este encantamento aspiracional. A dúvida é: que narrativa enformará esses estilhaços? Estarão os desiludidos convencidos de que o seu falhanço é da sua exclusiva responsabilidade? Continuarão a alimentar a ideia de que os que são ainda mais pobres são os seus inimigos? Ou perceberão, afinal, que foram enganados? A história escreve-se todos os dias. Não há finais fechados, vitórias absolutas nem derrotas eternas. Nunca devemos esquecer-nos disso.
Margarida Davim

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