terça-feira, 17 de março de 2026

Já não conseguimos ver este filme

O meu pai começou a gravar os ataques a Bagdade. Ver a guerra na televisão era uma novidade. E ele entusiasmava-se a registar nas cassetes VHS as imagens esverdeadas em que as bombas noturnas a silvar pelos ares do Iraque pareciam foguetes, talvez convencido de que aquelas fitas iam durar no tempo, em vez de se perderem no fundo de uma arrecadação, depois de uma mudança de casa, ou de serem simplesmente apagadas porque precisávamos de gravar por cima uns episódios dos Simpsons. As cassetes ficavam na estante da sala, ao lado das VHS com a Guerra das Estrelas, o ET e mais uns títulos de ficção científica. A guerra era uma coisa de filme, por muito que nos garantissem que estava tudo a acontecer em direto.

O José Rodrigues dos Santos não saía dos estúdios da RTP. Nós começámos a saber nomes de mísseis. A Operação Instant Thunder parecia o título de qualquer coisa com o Darth Vader, a Operação Tempestade no Deserto tinha nome de aventura do Indiana Jones. O vilão era o Saddam, com um bigode cinematográfico, bunkers e palácios. E nem nos passava pela cabeça questionar que os bons eram os americanos. No fim, o Kuwait (que até aí não sabíamos que existia) seria libertado, a democracia chegaria ao Iraque e em breve as crianças do Médio Oriente iriam ter vidas mais parecidas com as nossas, talvez comendo Bollycaos no recreio da tarde e rindo das piadas dos Simpsons ou do Alf, um extraterrestre peludo e simpático, que gostava de comer gatos e do qual eu tinha feito a caderneta toda, conseguindo até aqueles cromos difíceis e prateados.

Não se pode dizer que a primeira guerra da qual tive consciência tenha sido muito traumática. Porque ela foi devidamente embrulhada num invólucro de irrealidade. Naquela época, eu não sabia que a isso se chamava propaganda e nem sequer percebi bem quando um miúdo da escola questionou o facto de eu ter uns jeans com uma bandeira americana no bolso. Para mim, eram só as calças de ganga que melhor me assentavam na altura em que comecei a preocupar-me com isso.


No fim dos filmes, os maus são castigados, os bons dão um beijo na boca e vivem felizes para sempre, o ecrã enche-se de uma lista de nomes e nós somos embalados por uma música alegre e vitoriosa, escolhida para nos fazer acreditar que no fim fica sempre tudo bem. E esse foi o problema da Primeira Guerra do Golfo. E de todas as guerras em que os americanos se meteram depois disso. Não houve um final feliz e os argumentos foram ficando cada vez piores. Quando tentaram convencer-nos de que o Iraque tinha armas de destruição massiva, em 2003, já se conseguia ver o papelão do cenário numa produção de quinta categoria. A Cimeira das Lajes foi só um momento patético, em que alguns escolheram fingir acreditar, porque às vezes é preciso acreditar em mentiras, mesmo sabendo que são mentiras.

Claro que os EUA foram sempre tentando ficar com o papel do herói, capaz de salvar o mundo, mas a cada bomba lançada, a cada país reduzido a pó, era cada vez mais difícil acreditar que o nosso herói tinha qualquer motivo nobre nas lutas que começava ou que ajudava a que nunca acabassem.

Os soldados americanos começaram a matar à distância, como num videojogo. Muitos deles comandando drones com controlos remotos, num escritório qualquer, enquanto decidiam se premiam o gatilho e matavam uns homens a carregar umas sacas, que podiam ser de algodão ou explosivos, antes de irem para casa jantar com os filhos. A guerra era uma coisa que acontecia aos outros. E só suscitou comoção a sério quando os alvos passaram a ser as crianças loiras de olhos azuis da Ucrânia. Mas só até a repetição dos bombardeamos russos nos anestesiar e nos fazer substituir a raiva pela impaciência com que se pega num comando para mudar de canal se a programação não interessa.

Assim que o genocídio se tornou evidente em Gaza, começaram a aparecer os que queriam convencer-nos de que o que estávamos a ver não era o que estávamos a ver. E que era muito diferente ter uma criança palestiniana morta a tiro na fila do pão de ter uma criança judia eliminada por nazis. Não se preocuparam muito em usar argumentos sofisticados, porque entretanto tudo se tornou uma questão de fé. Quem adere à seita acredita que o povo que está a ser dizimado só tem o que merece. Alguns sonham mesmo em construir resorts e restaurantes de luxo sobre os seus ossos desfeitos em pó.

Quando as coisas chegam a este ponto, Donald Trump já não tem de disfarçar, já não tem de fingir objetivos nobres, já não tem de construir uma narrativa moral. Ele faz o que lhe apetece. Se é preciso tirar um escândalo das notícias, começa-se uma guerra. Se o dólar está em risco, sequestra-se um Presidente e verga-se um país produtor de petróleo, transformando-o num protetorado. Se as eleições estão tremidas, porque há cada vez mais americanos a viver mal e a economia se afunda, aperta-se o garrote da energia para tentar voltar a colonizar Cuba, matando à fome quem for preciso para que isso aconteça. Tudo óbvio, tudo simples, tudo claro.

Há quem se dobre em explicações e alinhave argumentos arrevesados para tentar fingir que tudo isto tem um outro propósito, uma outra racionalidade, uma certa moralidade até. É só triste vê-los a contorcerem-se. O mundo está a ser tomado de assalto por um pequeno grupo de oligarcas, comandado por um pirata. Aprendemos nas séries passadas em liceus americanos que só há duas maneiras de lidar com um bully: ou se lhe dá o dinheiro do almoço e se foge de cabeça baixa ou se abre o peito e se levanta a voz. Em toda a Europa, só Pedro Sánchez conseguiu olhá-lo de frente e mandá-lo passear. Todos os outros foram pondo-se de gatas, mais ou menos contrariados.

A partir daqui, até podemos olhar para os livros de História para tentar adivinhar o futuro. Mas não me parece que encontremos lá as respostas. No passado, houve líderes com coragem, capazes de pensar para lá da sua sobrevivência estratégica, sim. Mas sobretudo a tecnologia de destruição, morte e controlo ainda não tinha atingido o grau de sofisticação totalitária que existe hoje.

A cada minuto, estamos mais perto da III Guerra Mundial. Mas estamos também mais conscientes das histórias de fadas que andaram a vender-nos. As mentiras que nos contam, mesmo com toda a Inteligência Artificial do mundo, são cada vez mais frágeis e evidentes. E talvez esse seja o ponto de esperança que ilumina estes dias sombrios. Começar a ver as coisas tal como elas são é sempre melhor do que viver iludido.

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