sexta-feira, 24 de julho de 2026

Um olhar sobre a política e o poder no Brasil

O aviso foi dado por Daniel Ortega, presidente da Nicarágua: “Não haverá mais eleições aqui”. O líder da Revolução Sandinista discursava em Manágua, no último domingo. Depois do anúncio, explicou: vai proibir o voto porque a oposição não pode chegar ao poder.

Ortega participou da guerrilha que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza. O levante de 1979 empolgou a esquerda latino-americana, sufocada por regimes militares no Brasil, na Argentina e no Chile.

Os vitoriosos se inspiraram no marxismo e na Teologia da Libertação. Fizeram a reforma agrária, alfabetizaram o povo, reduziram a pobreza. Depois da euforia inicial, o país enfrentou um embargo econômico e mergulhou numa guerra civil financiada pelos Estados Unidos. A revolução começou a fazer água, e os sandinistas foram derrotados nas urnas em 1990.


Ortega perdeu três eleições até vencer de novo, em 2006. De volta ao palácio, resolveu reescrever a Constituição para se eternizar no poder. Em 2018, virou alvo de protestos e ordenou uma repressão violenta, que deixou mais de 300 mortos. Depois passou a censurar a imprensa, prender opositores e perseguir religiosos que contestavam seu autoritarismo.

A fala de domingo só escancarou o que já não era segredo: a Nicarágua voltou a viver sob uma ditadura familiar. No ano passado, o cargo de “copresidente” foi criado sob medida para a primeira-dama, Rosario Murillo.

“É inacreditável”, desabafa o escritor Frei Betto, que vibrou com o levante de 1979 e frequentou o país por uma década, envolvido em programas de educação popular. “O projeto revolucionário acabou. Por apego ao poder, Ortega está fazendo o mesmo que o Somoza. É triste, porque depõe contra as utopias que alimentamos por muito tempo na América Latina”, lamenta.

Lula ainda era dirigente sindical quando desembarcou na Nicarágua para o primeiro aniversário da revolução, em 1980. Vinte e sete anos depois, voltou ao país como presidente.

No mandato atual, prometeu ao Papa Francisco que tentaria interceder pela libertação do bispo Rolando José Álvarez, preso sob acusação de “traição à pátria”. Ortega ignorou o pedido e expulsou o embaixador brasileiro em 2024, selando um distanciamento definitivo. O petista tem sorte.
Bernardo Mello Franco

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