Cinco dias antes do discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) exumando notícias falsas sobre as urnas eletrônicas, o presidente americano, Donald Trump, acusou a China de intervenção nas eleições de 2020, quando perdeu para Joe Biden, e apontou “chocantes vulnerabilidades” no sistema de votação dos EUA.
A “denúncia” a diplomatas estrangeiros valendo-se da Smartmatic, que denunciou a fraude cometida por um de seus clientes, o governo venezuelano, e foi derrotada numa licitação de urnas do TSE, só perde, em grau de insanidade, para a acusação de Trump de que a China acessou 220 milhões de arquivos de eleitores americanos para fraudar aquela disputa.
Tanto no Brasil quanto nos EUA, a história não começou pelas urnas. Na semana passada, a campanha do PL informou não ter interesse em ser incluída no esquema montado pela Polícia Federal para proteger os candidatos, com 450 servidores, veículos blindados e equipamentos antidrone e de vistoria antibomba. Preferiu permanecer com a polícia do Senado. Em seguida, sua campanha acrescentou que o senador passaria a usar colete à prova de balas em função de ameaças crescentes.
Enquanto isso, nos EUA, o secretário de Estado, Marco Rubio, reuniu representantes de mais de 60 países para anunciar a reconstrução da arquitetura internacional de contraterrorismo montada no 11/9. Desta vez, esta estrutura estaria voltada contra o “ressurgimento do terrorismo político de extrema esquerda”. Ainda participaram desta apresentação Stephen Miller, do gabinete de Trump, e Scott Bessent, secretário do Tesouro.
Grande parte da falação tem como fonte oculta Hugo Carvajal, o ex-chefe da inteligência militar venezuelana, preso nos EUA por narcoterrorismo, que se ofereceu a depor contra supostas redes de corrupção e financiamento político ilícito contra Nicolás Maduro. O Brasil não é mencionado. Quem enfiou o país nessa história foi Flávio Bolsonaro, na esteira de Rubio.
Um mês antes, os EUA haviam oficializado a classificação do PCC e do CV como terroristas. Tudo soa muito conspiracionista e é, mas quem dá o tom é o secretário do Departamento de Estado que já antecipa o que pode vir a ser seu discurso de campanha à sucessão de Trump.
As universidades, centros de pesquisa e imprensa seriam legitimadores da violência de esquerda. No mesmo pacote, Rubio colocou a “hostilidade” da extrema esquerda à religião como uma ameaça à civilização ocidental, sob a liderança de Cuba e Irã. Num triplo salto carpado juntou tudo isso com os atentados contra Trump e com o assassinato de Charlie Kirk.
Coube a Bessent fazer a ponte entre as fantasias Rubio e Miller e o sistema financeiro. Detalhou o arcabouço para detectar a operação da extrema esquerda latino-americana e os fluxos financeiros em território americano formado, por exemplo, pela Ofac, agência de controle de ativos estrangeiros. Dias antes os EUA haviam aplicado as primeiras sanções contra brasileiros supostamente ligados ao PCC. A ação acabaria por atrapalhar uma operação da PF para prender o empresário acusado de lavagem de dinheiro.
Sem cobrar tarifa, o bolsonarismo importa todas essas teorias conspiracionistas. Na “live” do jornalista Claudio Dantas na tarde de quarta-feira, a coordenadora-jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro, Maria Claudia Buchianeri, que foi ministra do TSE, chegou a mencionar que a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem impulsionamentos feitos por uma “organização criminosa digital”. Também informou que é a segurança paralela de Flávio que está a mapear as ameaças digitais contra o senador.
E, depois da onda de associação de Lula ao crime organizado colombiano, pela resistência conjunta com Gustavo Petro à designação de narcoterrorismo, chegou a vez de estender esta associação ao ditador nicaraguense Daniel Ortega, como fez esta semana o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), um dos principais aliados de Flávio Bolsonaro.
A campanha de Lula e os órgãos de investigação do governo vêm sendo municiados de informações sobre esta teia crescente entre a campanha de Flávio e o Departamento de Estado americano que aponta para os riscos de uma vitória eleitoral apertada. Estaria em curso a descredibilização do processo eleitoral com o pano de fundo do “terrorismo político da esquerda latino-americana”. O bolsonarismo se valeria dos dois anos restantes de Trump para minar o quarto mandato lulista. Da Abin à PF, monitora-se o tema, mas, como Lula não aposta que a Casa Branca se insurja contra sua eleição, não há reação em curso.
A escalada de Flávio rumo à radicalização mudou a face de uma campanha que se iniciou sob a promessa de que traria um “Bolsonaro que toma vacina”. Seu isolamento político, provocado pela reação de aliados ao envolvimento com o Master e com o tarifaço, contribuiu para que o senador venha a ser obrigado a buscar uma vice no seu próprio partido enquanto o governador Tarcísio Freitas, de São Paulo, deve ter 12 partidos em sua chapa. É o governador paulista, aliás, que capitaneia a resistência do apoio do Republicanos a Flávio.
O sonho do Centrão em torno de nomes como o de Teresa Cristina, até para cabeça de chapa, esbarra na percepção clara de que pretende usar a senadora do PP apenas para sair do beco em que se encontra. A recusa da federação PP-União ao apoio a Flávio fechou o cerco. Por fim, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, achou por bem confessar que o senador não estava preparado para a campanha. Isolado até no seu partido, o senador pendurou-se na Casa Branca.
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